XII


Dos antecedentes do operoso impressor nada se conhece. Que terra de França lhe fôsse a terra natal; quando tenha vindo para Lisbôa, e se para esta cidade veiu, acaso, contratado como «obreiro de imprimidor» de algum de seus tres antecessores, Valentim de Moravia, João Pedro de Cremona ou Hermann de Kempis, que entre nós ficou «Armão de Campos», hypotheses que nos não parecem descabidas, outras tantas interrogações são que teem de ficar sem resposta.

Por igual, destinadas estão ao mesmo resultado as que se referem ao modo como o activo «imprimidor» constituiu familia. Germão Galharde casou aqui, e tarde, ou veiu já casado para Lisbôa, o que não parece? Sua mulher era estrangeira, ou nascera em Portugal? Que o velho typographo deixou um filho, por ventura continuador da sua prole, eis o de que não resta dúvida. E que falleceu deixando-o ainda menor, tambem não é menos certo. O livro que estamos examinando no-lo confirmará.

Suppondo que nascera em 1490, por exemplo, Germão Galharde poderia contar vinte e tres annos, quando, ao que Tito de Noronha conjectura, veiu a fallecer Valentim Fernandes[39]. E se tal data estivesse certa pouco teriam sobrevivido ao Patriarcha da Imprensa em Portugal os seus consocios João Pedro de Cremona e «Armão de Campos, bombardeiro de el-rei», successivamente desapparecidos, em 1514, o primeiro, em 1518 o segundo.

Valentim Fernandes, porém, segundo adiante vai ver-se, ainda n'este último anno trabalhava, e se este, afinal, tem de ser considerado o último da sua vida, bem poderá ter-se dado que Germão Galharde, obreiro—quem sabe?—de qualquer d'estes seus tres antecessores, se habilitasse com o material do celebre impressor da viuva de D. João II, para começar a sua laboração de conta propria, logo no anno seguinte ao do desapparecimento d'este. Em 1519, com effeito, parece ter-se Germão Galharde estreiado com a primeira edição da Arismetyca, de Gaspar Nicolas,[40] levando desde então a vida cheia de laboriosa occupação até os provaveis setenta annos, se exceptuarmos os dois que passou em Coimbra, em Lisboa, e, porventura, na mesma casa.

Aonde era ella situada?

Vêr-se-ha n'este estudo se é possivel responder, por presumpções, a tal pergunta.


XIII


Chamou-se Anna Picaya a mulher do operoso impressor, e se não foi portuguesa, que a não deixa parecer compatriota nossa o appelido, arriscado será attribuir-se-lhe esta ou aquella nacionalidade. Confessemos, emtanto, que se um desengano d'esta ordem pudesse admittir-se por palpite, inclinados temos sempre estado a que Anna Picaya haja sido biscainha.

Casou Germão Galharde moço ainda? Esperou, pelo contrario, a idade da experiencia, para dar-se ao matrimonio? Não temos, como já ficou observado, modo de responder desenganadamente a taes perguntas. Tudo que pudémos conjecturar, é que o filho que deixou menor terá vindo ao mundo, adiantado já seu pae em annos, se muito não erra a conta que lhe démos, ao vir busca-lo a Morte.

Esta circumstancia, comtudo, não se oppõe a que já houvesse outros filhos, e até poderia parecer que os houve, com effeito, se fôsse possivel interpretar um tanto latitudinariamente certas expressões de um documento que não tarda a vir transcripto a este estudo.

No emtanto, e posto que a typographia da Viuva de Germão Galharde se sustentasse ainda durante alguns annos, depois do fallecimento do seu celebre fundador, o seu material veiu a passar a novo proprietario, e nada nos indica terem-se filhos maiores, se os havia, ou ter-se o menor que ficou ao tempo do obito paterno, occupado, homem feito, na arte, que o progenitor tanto illustrou.

Este appelido, a partir d'então, mergulha no esquecimento, pelo menos aqui, em Lisbôa; e apenas a meio do seculo XVII o nosso illustre polygrapho D. Francisco Manoel se lembrára, escrevendo ao seu amigo Azevedo, da lenda dos Galhardos da Serra da Estrella, que aliás nenhuma relação tem com os de que aqui tratamos, para comparação da brevidade com que fizera um seu livrinho. Esta carta, porém, inédita ficára, com a collecção a que pertence, até que um distincto cultor da memoria de tão infeliz quão abalisado epistolographo a trouxe a lume em nossos dias[41].

Assim continúa o esquecimento, sem interrupção, por esses tempos fóra. A meiados porém do XVII.º seculo apparece-nos, de repente, um typographo «Galhardo». Diplomava-se com o titulo de «Impressor do sr. Cardeal Patriarcha»; chamou-se Antonio Rodrigues Galhardo, e teve a sua casa, com capella, horta e mais officinas, no Pateo a que a sua familia dava o nome;—o Pateo dos Galhardos, a Santa Izabel[42]. Muito depois, (1837) filhos seus, ligados sob a firma «Galhardo & Irmãos», imprimem na rua da Procissão, n.º 45, entre outros livros, a «Chronica de El-Rei D. Sebastião, por Fr. Bernardo da Cruz, publicada por A. Herculano e o Dr. A. C. Payva.»

Antonio Rodrigues Galhardo é descendente do «imprimidor» francês Germão Galharde? Quem, já agora, poderá affirma-lo, ou quem estará habilitado para nega-lo?

Emtanto, a coincidencia é para notar, e para notar fica sendo, tambem, que esta familia Galhardo veiu a apparentar-se com Alexandre Herculano, pelo casamento de um amigo de juventude do Grande Escriptor, e depois seu camarada na emigração, o fallecido general da arma de artilharia, que foi, quando coronel, director da Escola do Exercito, Joaquim Antonio Rodrigues Galhardo, com a irmã do Auctor da Historia de Portugal.


XIV


Quando Germão Galharde falleceu, andava-se imprimindo na sua officina a quarta edição do «Reportorio dos Tempos em linguajem portugues».

Este Repertorio, composto pelo saragoçano André de Ly, fôra vertido em linguagem, com addições, por Valentim Fernandes, que dedicou a traducção a Antonio Carneiro, secretario do rei D. Manoel.

Ora acontece—e n'este passo se patenteia quão arriscadas são affirmativas peremptorias em especies tão dubitativas—; acontece, íamos dizendo, que em Documentos para a Historia da Typographia Portugueza, impressos em 1888, affirmou o tão sabedor Deslandes «não ser conhecido exemplar algum da impressão d'este Repertorio feita por Valentim Fernandes, comquanto se deva ter por certo que a houvesse dado á estampa em sua vida.»

—Que veiu a dar-se então?—Veiu a dar-se facto igual ao succedido com o exemplar do Testamento da Infanta D. Maria, impresso em 1610, e que o catalogo da Livraria Fernando Palha, ao descrever o exemplar que aquelle bibliophilo possuía declara «seul exemplaire connu d'une pièce non citée par les bibliographes».

Succede, porém, que em 1907, percorrendo nós um Inventario de Codices adquiridos pela Bibliotheca Nacional, publicado no Boletim das Bibliothecas e Archivos, N.º 1—3.º anno, 1904, depara-se-nos a menção de certo Codice da Coll. Vimieiro, em cujo miôlo viémos a encontrar um exemplar do predito Testamento, da mesma edição de 1610!

Tal achado annulou, por conseguinte, o privilegio de «seul exemplaire connu...», attribuido pelo catalogo sobredito ao exemplar que descreveu!

Ao diligente bio-bibliophilo Deslandes outro tanto acontecera. Não lhe fôra dado conhecer a bibliotheca do curioso architecto José Maria Nepomuceno, e eis que, fallecido este, divulga-se em 1897 o catalogo da famosa livraria de que era possuidor intelligente. Ora, sob o N.º 683, ahi appareceu minuciosamente descripto um exemplar do Reportorio dos tempos, que «posto não traga indicado o logar da impressão, nem o anno, se póde quasi affirmar ter sido composto em Lisbôa, e no anno de 1518, por isso que as taboas (astronomicas) indicam começarem «no presente anno»,—o predito.

E já agora, observaremos que, sendo este Reportorio, como no rosto indica, «trelladado e empremido por Val[~e]tym fernãdes alemam», está n'estes termos implicito o testemunho formal de que o celebre impressor, contra o que julga Tito de Noronha, in Ordenações do Reino, ainda cinco annos após o de 1513 era vivo, e exercia a arte.


Por voltar a Germão Galharde, sabe-se que por A. de 17 de março de 1539, lhe foi outorgado privilegio de déz annos, para imprimir de novo o Reportorio de que se trata. Deslandes, porém, affirma, e d'esta vez ainda não se apresentou facto que o contradiga, não conhecer, nem lhe constar que outrem conhecesse, exemplar algum da impressão d'este livro, tirada durante os déz annos do mencionado privilegio.

Declara, comtudo, em contraposição, ter visto exemplares sahidos da officina de Galharde em 1521 e 1528; edições estas que não andam notadas por nossos bibliographos.

Por fórma que, havendo já tres edições conhecidas do Reportorio dos tempos, bem parece que sêja, por ora, capitulada quarta, como o fizémos, a de que se está tratando. Isto, em obsequio ás que se dizem datadas de 1519, bem como á de 1557, citada por Barbosa, das quaes, até agora, não se achou porque se confirme a existencia.


XV


Foi Anna Picaya que terminou a impressão do Reportorio, objecto do anterior capitulo.

Na Nota[43] infra trasladâmos a competente subscripção.

A seguir a este livro, vem em 1561, editado pelo opulento João de Borgonha, o tão fallado elogio da Sigéa, de Mestre André de Resende; em 1563, nova edição do precioso Reportorio, especie de Diario Ecclesiastico, dos Oratorianos, sem o qual nossos avós do XVIII.º seculo não podiam passar. Finalmente, em 1564, dá ainda a Viuva de Germão Galharde o Exemplo pera bien bivir, de Fernão Peres de Gusmão, obra acabada a 21 de março do predito anno[44].

D'esta data em diante, até 5 de setembro de 1898, nada mais se soube que se relacionasse com a officina typographica da viuva Galharde. Naquelle dia, porém, publica o dr. Sousa Viterbo, como notámos no fêcho do Cap. V. e correspondente nota, destes Estudos, resumido e commentado, o depoimento, por denúncia feita na Inquisição em 5 de novembro de 1571, do flamengo Pero Alberto, obreiro de Marcos Borges.[45] Resulta de tal depoimento o ficarem desde então confirmados dois factos; mais proximo um, mais remoto o outro. Pelo primeiro, corrobora-se a existencia da typographia da viuva Galharde em 1563. Este não é essencial. Que a celebre typographia funccionava ainda 1564 já nós sabiamos, e o leitor comnosco. O que tem valôr é o outro facto; o que revela a transferencia da imprensa de Marcos Borges de «detrás de nossa Senhora da Palma» para o Arco do Carangueijo. A indicação considerámo-la preciosa, porque nos indicava quem fôra o successor da viuva Galharde; isto é, porque vinha concorrer, ainda que de modo indirecto, para nos fortalecer na presumpção de que era no Arco do Carangueijo, com effeito, onde vamos dentro em pouco encontrar Anna Picaya, com seu filho menor, que Germão Galharde fundára a officina por elle mantida durante 41 annos.


Que terá, porém, succedido entre 21 de março de 1564, data do ultimo livro, conhecido, impresso pela «Viuva Galharde», e 1571, anno em que Marcos Borges nos apparece estabelecido, segundo todas as probabilidades, na casa que ella occupara?

Tudo que é possivel responder, resume-se no seguinte:

Qualquer que haja sido o motivo, o velho estabelecimento typographico pouco mais terá produzido, depois de 1564, sob a gerencia da viuva de Germão Galharde, e se mais alguma obra veiu a lume, após a de Fernão Peres de Gusmão, perdeu-se, como quasi de certeza outras se perderam, impressas pelo fundador da casa.[46]

Certo é que a meiados de 1566, e contra o que estabeleceu Tito de Noronha, já Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.ª ed. dos Lusiadas, trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do Carangueijo, com material que pertencêra á officina de Galharde.

Com effeito, do exame comparativo de algumas das obras impressas em uma e outra das duas officinas resulta absoluta certeza que Antonio Gonçalves utilisou frontispicios e letras iniciaes de phantasia que pertenceram áquelle. Já Tito de Noronha deixára notado o facto, em uma de suas tão copiosas quanto instructivas monographias.

Por nossa parte, temos por bem possivel que o 4.º de dez folhas n. n., onde se acha impresso o Auto das Regateiras, de Antonio Ribeiro, o Chiado, e que não tendo segundo Innocencio narra, logar, data, nem nome de impressor, apresenta, comtudo, na portada letras que parece quererem designar Germão Galharde, haja saído da officina de Antonio Gonçalves, applicando-lhe este alguma gravura de frontispicio que haja feito parte do material daquelle impressor.

Não temos, nesta occasião, o vagar preciso para examinar este folheto, que se acha na Bibliotheca Nacional, e pertenceu á livraria de D. Francisco de Mello Manoel da Camara. Acaso do exame resultaria alguma cousa de mais positivo. Seja, porém, como fôr, uma prova de decidir é a propria composição do frontispicio dos Lusiadas, impressos por Antonio Gonçalves em 1572. As peças que o compõem pertenceram ao material de Germão Galharde. Esta asserção comprova-se, pondo em conspecto o frontispicio da edição princeps dos Lusiadas (a do pelicano com o collo para a esquerda do leitor, bem entendido), e a do Summario, de Christovão Rodrigues de Oliveira, sahido a lume procedente da officina de Galharde, depois de 1551, com toda a certeza, e talvez em 1554.

Já em 1570 Antonio Gonçalves aproveitára este mesmo frontispicio no Reportorio dos tempos, que lhe coube imprimir tambem, edição que a Innocencio parece ter escapado, mas de que ha um exemplar nos Reservados da Bibliotheca Nacional. Este sempre lembrado impressor terá começado por ser «imprimidor-obreiro» do velho typographo francês, sendo bem possivel que se haja conservado na casa, após a morte de seu mestre. Resolvida Anna Picaya a fechar a officina, ou, porventura, fallecida, terá o seu official, disposto a estabelecer-se, uma vez que a casa acabava, comprado os aprestos desta. Tudo parece conciliar-se para acreditar tal supposição.

Mais difficil é o precisar desde quando Marcos Borges terá passado a occupar as casas da viuva, e o motivo que lhe facilitaria o estabelecer-se nellas. Não parece, com effeito, que as duas operações—venda do material a um, e cedencia da casa a outro, se cedencia foi, hajam resúltado da mesma causa;—o desfazer da velha officina. Lembremo-nos que em 1567, isto é, um anno após o estabelecer-se Antonio Gonçalves, como provaremos, ainda Marcos Borges imprimia a Chronica de Jorge Castrioto no mesmo sitio onde começára a sua laboração; «atrás de nossa senhora da Palma». Presumivel será, pois, que Anna Picaya se haja conservado, com seu filho, nas suas casas, após ter acabado com a officina, vindo, porventura, a fallecer depois de 1568, adquirindo—quem sabe?—Marcos Borges a propriedade, e estabelecendo-se nella.

Como quere que sêja, vamos ver agora como se chegou a presumir que a typographia de que temos tratado haja sido no Arco do Caranguejo.


XVI


Fallecido Germão Galharde, procedeu-se a inventario, sendo Anna Picaya nomeada «titor» de seu filho Antonio. Concorriam mais filhos, já maiores, á herança? Eis o de que não ha certeza. Das quatro obras unicas de que nos restam exemplares, sahidas da officina do extincto, após a morte deste, tres dizem-se impressas «em casa da viuva molher que foi de Germão Galharde.» No titulo e subscripção da quarta, porém, segunda na ordem chronologica da impressão, lê-se:

«Lvdovicae Sigaeae | Tvmvlvs | ¶ L. Andrea Resendio | Auctore | ¶ Apvd haeredes Germani | Galiardi. An. | MDLXI | ¶ Olyssippone | ¶ Venalis apud Iohannem de Borgo | Regium Bibliopolam, in vico nouo[47]

Ora, esta excepção, «haeredes», que aliás não resolve a dúvida, por isso que realisado o casamento de Galharde «á moda do reino», co-herdeira com o filho menor era a viuva, meieira na casa, parece-nos ter sido muito de proposito empregada naquelle impresso por motivo que a occasião tornava perfeitamente plausivel. Corria por esse tempo o inventario seus termos, e habilitavam se á herança do chefe da familia a sua viuva e o filho menor. A expressão haeredes, posta na subscripção do Elogio, de Mestre André de Resende, em 1561, era, portanto, de todo o ponto bem cabida; exprimia a situação de ambos, como inventariantes e como industriaes. Por isso se empregou.

Quando os saccadores, em desempenho do seu cargo, convidaram a viuva impressora a entregar-lhes a importancia do escote que lhe coubera na voluntaria imposição, (entre 15 de fevereiro e 31 de outubro de 1566) pagou ella, sem repugnar, os 455 rs. em que foi fintada. Especie de contribuição extraordinaria de maneio, a que só escapavam os privilegiados;—familiares do Santo Officio, servidores de S. A. e quem quer que tivesse armas e cavallo, e «jogasse lança de dezoito palmos para cima»[48],—era para todos os mais a commum sorte; não havia fugir-lhe.

Mas, fechara-se, emfim, o inventario, julgara-se a partilha, e liquidou-se o que vinha a tocar ao menor; a sua legitima. Importava em «cincoenta e nove mil, quinhentos e vinte e dois réis». Havia mais orphãos em semelhantes circumstancias. A provisão de S. A. beneficiava-os, para os effeitos da voluntaria derrama, com o desconto do «terço» do valor total apurado, para que sobre o remanescente recahisse o talho. Anna Picaya, tutora de seu filho, teria de pagar por elle «duzentos e oitenta réis». Reclamou. Agora, não era a obrigação do estabelecimento; era a legitima do orphão, despiedada,—provaria até—illegalmente desfalcada. O menor Antonio Galharde era filho de um homem que durante mais de quarenta annos tinha prestado assignalados serviços ás letras do país que adoptara por patria. Os seus prélos não tinham gemido só em serviço de quantos praticavam a nobre arte de escrever, senão que tinham tambem trabalhado para a corôa. Antonio Galharde era filho de um «official impressor da casa real»[49]; a isenção de que seu pae, se vivo fôra, gosaria, porque não mandava S. A. que aproveitasse ao filho menor?

Que S. A., pois, «inclinasse por um pouco a magestade.» Á triste viuva, sobrecarregada com os encargos da tutella e ao filho orphão devia-se-lhes contemplação. Ambos receberiam mercê no favoravel despacho com que S. A. se servisse attende-los.

E se isto assim se passou, pode affirmar-se que a «titor» do menor Antonio Galharde venceu! No traslado da certidão do orphanologico que baixara aos encarregados da cobrança, e foi lançado a fl.s 685 e segg., do Livro do Lançamento, riscou-se a designação do escote, escripta na margem esquerda, averbando-se na direita a significativa cota, constante do proprio documento remissor que segue:


«ORFFAÃOS»

«To Dos orfãos que Johão Do sal escrivão Delles Mandou a esta cassa do lançam.to per sua sua certidão»



«It Ant.o filho de Jermão Galharde Imprimidor tem de ligitima cinquoèta e noue mill e quinhètos e vinte e dous rs abatido o terco paguara dozètos e oytenta rs e sua titor[50] Ana Picaya sua may mor ao arquo do cangreijo»

A margem direita do livro está escripto: «abatido p.la provisão de S. A. não vay a Rol»


Parece, pois, poder concluir-se do teor desta certidão que a casa que Germão Galharde possuia, e onde residia e tinha a sua officina typographica, era ao Arco do Carangueijo, isto é, no extremo N. da rua deste nome, para além da actual rua das Pedras Negras, partindo em linha obliqua do começo da travessa do Almada. O chanfro existente no cunhal posterior do predio que faz face ao Largo da Magdalena, do lado de L., e que todos podem notar, é quanto resta do Arco de Dona Thereza, de onde ascendia para o N. a «Rua do Arco do Carangueijo.»

Passaremos agora a tratar de Antonio Gonçalves, e findaremos.


XVII


Affirmámos no cap. XV.º d'estes Estudos que a meiados de 1566 já Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.ª ed. dos Lusiadas, trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do Caranguejo.

Vamos procurar dizer onde era.

Preliminarmente, porém, preciso se torna lembrar que na segunda metade do seculo XVI, correspondente ao anno supra mencionado, Lisbôa, sob o ponto de vista da sua divisão ecclesiastica, a unica por então estabelecida, achava-se, de um modo geral, dividida em tres grandes zonas; a oriental, a central e a septentrional. Confrangidas em torno dos pendores da primitiva cidade, e descendo para a vertente sul que lhes corresponde, todas as parochias de limitado territorio, successivamente fundadas durante os quatro seculos anteriores. Na extrema esquerda, imminente ao Tejo, a de Santo Estevão, excepcionando-se do acanhado territorio de todas as mais, pela tira enorme que a alongava até Enxobregas[51]. Ao centro, S. Nicolau e Santas Justa e Rufina, soffregas de territorio, dominando tudo, abrangendo tudo, reservando apenas cada uma d'ellas para si as eminencias correspondentes á orientação das respectivas sédes. A primeira, alastrando-se por boa parte do valle central da cidade, e trepando para o «Bairro do Almirante», o Carmo e circumvisinhanças, bracejava, a oeste, para os ferragiaes atinentes ás muralhas, dando a mão ás suas duas convisinhas dos Martyres e do Loreto. A freguezia de Santa Justa, mais extensa ainda do que a de S. Nicolau, dominando, ao septemtrião, o resto da chãa que aquella lhe deixava, investia pelo povoado em fóra até á Areia Gorda, por um lado, até Arroios, pelo outro, galgava o monte de Sant'Anna, laborava as cumiadas que a aproximavam da Alcaçova, mal permittindo, suzerana desdenhosa, como a sua possante companheira, que algumas pequenas parochias circumstantes affirmassem a desvaliosa existencia.

Eis porque se lê no «Livro do Lançamento» que temos manuseado, a fls. 539, v.o, o seguinte titulo:

«Começa o quatorzeno Rol Da freguezia De Santa Justa: Na Rua das Casas de Manoel a.o (Affonso) até ao postiguo De Santo André».

Estamos, pois, junto ao, de nossos dias, chamado Arco de Santo André, que acaba de ser derribado, e que a Divisão Parochial do Patriarcha D. Fernando de Sousa e Silva, de 1780, mandou considerar, por dentro e por fóra, no territorio da freguezia daquella invocação constituindo em 1566 extremas de N. E. da parochia de Santa Justa.

Por escusado temos affirmar que nas listas da viação parochial, estampadas no Summario de Christovão Rodrigues d'Oliveira, organisadas em 1551, ou pouco depois,[52] não se encontra semelhante denominação de rua, se tal modo de indicar uma via pública pode ser classificado «denominação». É, com effeito, evidente que o redactor d'esta especie de matriz, conteúda no «Livro do Lançamento» em exame, sabia bem quem era o individuo a quem chamou «Manoel Affonso», seu contemporaneo ou não. Por nossa parte estamos persuadidos que Bastião de Lucena grandemente se equivocou, atribuindo o baptismal «Manoel» a um individuo que se chamou Estevão, pois que esse é que teve casas na rua de que se trata, tendo ambos o mesmo sobrenome. Manoel Affonso, que foi um dos sacadores deste «Quatorzeno Rol», era proprietario, sim, mas no Beco do Poço do Ceitil. Tinha ahi uma atafana[53] e n'ella residia. Da coincidencia de sobrenomes terá, porventura, nascido o equivoco.

Como quer que seja, o designar semelhante indicação a rua onde deviam começar as operações da cobrança, apresenta-se, tanto para o lançador das fintas como para os sacadores d'ellas, facto natural, correntio. A via pública de que se tracta poderia ter outra qualquer denominação, que para uns e outros esta que lhe foi attribuida bastou.

E bastou tambem para nós.

De facto, se esta cobrança devia começar n'uma rua que ia até o postigo de Santo André, que importa que lançador e sacadores lhe chamassem, ou verdadeira ou equivocadamente, «Rua das casas de Manoel Affonso», se dúvida não pode haver que tal via pública outra não é, senão o troço mais ou menos modificado, no material e no aspecto topographico, da actual Costa do Castello que vae do baluarte de S. Lourenço ao agora já derribado Arco de Santo André?

Aquelle baluarte, entreposto nos lanços do norte da cêrca velha da primitiva Lisboa, foi aproveitado pelos constructores da cêrca de D. Fernando, para lhe apoiarem no paramento o arco do postigo que tomou aquella denominação, tambem conhecido por «Postigo da Rosa», depois da fundação do mosteiro da rua das Farinhas.[54] Qualquer de nossos benevolos leitores pode ver ainda agora os vestigios das nervuras do arco embebidas no vetusto panno do baluarte, assim como, do lado opposto, os restos desfigurados do cubello onde o mesmo arco ia assentar. Tudo isto foi arrasado no ultimo anno do seculo XVIII.

Do postigo de S. Lourenço, a cêrca nova descia a escarpa que vinha confundir-se no labiryntho de vielas que demoravam, como ainda agora, entre o vetusto edificio do chamado Colleginho e a Mouraria. Era-lhes canal de communicação com a «rua de Manoel Affonso» a «Rua do Poço do Ceitil», entalada entre a muralha nova e os muros da cêrca da Casa de «Santo Antão», a que depois se chamou «o Velho» para o distinguir da nova casa dos jesuitas, actual Hospital de S. José. Esta «Rua do Poço do Ceitil», desde muito desapparecida, mas de que a carta topographica da Commissão Geodesica, dada a lume em 1875, ainda nos quere parecer que marca os vestigios, constituiu a cabeceira do «Trezeno rol» da freguezia de Santa Justa.

Conclue-se daqui pois que os arroladores continuavam a adoptar a marcha ascencional, como em nosso anterior estudo vimos, por isso que, explorada a zona de que aquella rua era o começo, passaram a encabeçar o 14.º Rol pela via publica immediata.


XVIII


Além destas razões de congruencia, confirmando ser, com effeito, a «Rua das casas de Manoel Affonso» o troço da atual Costa do Castello que ficou indicado, outros testemunhos positivos existem que nos asseguram a identidade da rua do seculo XVI com a via publica do seculo XX.

Não podemos dispensar-nos de os apresentar, por muito que tal resolução possa parecer extranha ao nosso objecto. Ver-se-ha que o não é.

Por Alv. datado de Evora, a 8 de junho de 1573, foi commettida ao Licenceado Luiz Lourenço a organisação do tombo das propriedades foreiras á Camara desta cidade. De tal diligencia se conservam os respectivos Livros no Archivo Municipal. Examinando o segundo destes Livros, que tem seu começo na «Rua do Arco do Rosio, da banda da praça da palha», na freguezia de Santa Justa, averigua-se que de 1547 a 1565 havia a Cidade effectuado dez aforamentos na «rua que vai da porta de Santo André para o postigo de Sam Lourenço, que por outro nome se chama Villa Quente»[55].

Confrontado este titulo com o que Bastião de Lucena escreveu no Livro que estamos estudando, acha-se que a situação da via pública do Tombo da Cidade é de todo o ponto a mesma que se lê naquelle Livro, salvo a orientação, que diametralmente diverge, visto que o juiz do Tombo partiu do postigo de Santo André para o de S. Lourenço, e Bastião de Lucena fez o contrario, para o que, segundo acabamos de ver, teve uma excellente razão de ordem.

Ora, que tanto uma como outra das duas descripções se accomodam sem obice algum á topographia actual, não resta dúvida, pois que o caminho de nossos dias municipalmente chamado Costa do Castello, começando na sua extrema oriental no fim da rua do Milagre de Santo Antonio, passa, ao inflectir para o N., rente ao panno de muralha do baluarte de S. Lourenço, e continúa até terminar junto do agora derruido Arco de Santo André.

Se o leitor paciente o seguir comnosco, encontrará, á sua direita, antes da rampa que termina a Costa e atinente a um lanço de muralha que sustenta um pequeno quintal, uma porta, tendo o n.º de policia 92 A, dando accésso a extenso escadorio, que torneja, lá no alto, á direita, e segue em varios e apertados lanços até encontrar, á esquerda, a famigerada Porta do Moniz, aquella porta do Castello, origem da lenda que Herculano pulverisou.[56] No Tombo do Licenceado Luiz Lourenço, as escadas alludidas são a «Rua que vai da rua direyta para o Postigo do Moniz». As casas que ladeavam a entrada de tal «Rua» foram levantadas em chãos pertencentes á Cidade.

As da banda do Postigo de S. Lourenço, na frente do muro do quintal acima alludido, e vinham a ser as «derradeiras casinhas quando querem voltar da dita rua pelo caminho que vai ao Postigo do Moniz», possuia-as um casal, Antonio Fernandes e sua mulher Barbara Gonçalves, «parda». As da banda do Postigo de Santo André pertenciam a Estevão Affonso, porteiro. E eis porque desta circumstancia nos veiu a tentação de achar que Bastião de Lucena se equivocou, atribuindo a Manoel Affonso as casas deste Estevão. Se o porteiro foi dos primeiros edificadores que teve este troço da Costa do Castello (1547), é bem provavel que o seu nome servisse de conhecença para a sua rua, então quando era este individuo o segundo de quantos foreiros a Cidade teve n'aquelle sitio, e aquelle o modo de distinguir as vias publicas lisbonenses umas das outras.

Alem dos emphiteutas da Camara acima mencionados, outros havia que figuram em ambos os documentos que temos citado. Assim, a Cidade tinha aforado ao dr. Affonso Figueira, desembargador da Casa do Civel e Ouvidor do crime, em dois annos diversos, 1555 e 1557, tres chãos, sobre os quaes este magistrado levantara casas, e um quarto que elle reservara para seu quintal, e que o era ao tempo do Tombo que vamos seguindo. A loja de uma das casas estava em 1566 ocupada pelo tecelão «João Francisquo», conservando-se senhorio, o magistrado sobredito. Este ahi mesmo residiria, mas a toga excepcionou-o da obrigação do escote, e por isso só naquella qualidade apparece no rol da derrama. Do mesmo modo aforara a Cidade, em 1542 e 1547, dois outros chãos perto dos antecedentes, a uma Guiomar Dias. Esta, precedendo a competente licença, fez venda, em 1561, de uma das casas que n'elles edificara a Ambrosio Luis, feitor da imposição dos vinhos.

Ora, tanto o magistrado Affonso Figueira como o funccionario fiscal apparecem em sua devida altura no Rol de Bastião de Lucena, isto é, são mencionados como proprietarios das respectivas casas, indo do Postigo de Santo André para o baluarte de S. Lourenço, sendo a concordancia perfeita entre os dois documentos, por isso que umas das casas do dr. Affonso Figueira são no Tombo da Cidade, as primeiras, indo do Arco de Santo André, partindo pelo N. E. com as de Ambrosio Luis e com outras de outro aforamento, realisado por aquelle magistrado dois annos depois.[57]

Absolutamente certos, pois, de que dizer «Rua das Casas de Manoel Affonso até o Postigo de Santo André», e «Rua que vai da Porta de Santo André para o Postigo de Sam Lourenço» é referir-se a uma mesma via pública, e que tal referencia corresponde ao troço actual da Costa do Castello, que vai do Baluarte de S. Lourenço até o desembocar da mesma Costa no alto da calçada de Santo André, pedimos ao leitor benigno nos perdoe a longa e porventura enfadonha digressão topographica, na consideração de ser necessaria a nosso empenho:—o precisar, sem especie nenhuma de dúvida, onde foi que teve a sua officina typographica o já agora tão nomeado Antonio Gonçalves, «imprimidor» da notavel edição princeps do poema Os Lusiadas, do Grande Epico Luis de Camões, das duas que trazem a data de 1572, a que apresenta o Pelicano frontispicial com o collo voltado para a esquerda do leitor.


XIX


A 17 de setembro de 1566, Manoel Affonso, atafaneiro, morador ao Poço do Ceitil e Jeronymo Gonçalves, serralheiro, morador na rua dos Cavalleiros, escolhidos para sacadores do «quatorzeno» rol da freguezia de Santa Justa, receberam nos Paços do concelho desta «mui nobre, sempre leal cidade de Lisboa», onde se tratava de dar execução ao Regimento da cobrança do voluntario imposto a que nos temos referido, as competentes copias do predito Rol, e trataram de avial-as.

Deviam começar, como vimos, da extrema superior da «Rua do Poço do Ceitil,» que desembocava, segundo dissemos, proximo do Baluarte de S. Lourenço, pela parte posterior do Postigo da Cerca nova, sendo a primeira do «trezeno» Rol.

Percorrendo toda a rua até o Postigo de Santo André, voltavam os dois sacadores para a calçada desta denominação, internavam-se na Rua da Amendoeira, davam volta á travessa desta rua, que lá vimos ainda hoje, e sahindo pela rua das Tendas, que parece não lográra ainda um qualquer nome, vinham á dos Cavalleiros, findando-lhes a tarefa no «Beco de Thomé Correa»; um beco sem sahida, de nossos dias chamado Beco do Forno, primeiro á esquerda naquella rua, indo da Mouraria, e que tem lá, não sabemos porque bullas, advertencia de ser «logradouro particular»(!).

Acompanhemos os honrados exactores na sua perigrinação pela rua que ía do «Baluarte de Sam Lourenço ao Postigo de Santo André». Despedir-mo-nos-hemos ahi d'elles. O que deste Postigo por diante haveriam de fazer não nos interessa. Depois veremos, por simples curiosidade, qual foi o importe da sua cobrança na area que lhes fôra designada.

Por agora, attentemos um momento na feição da discutida via publica lisbonense, como ella parece ter sido no 2.º semestre do anno de 1566.

Devia apresentar, ao menos por partes, mais largura do que hoje vemos ter, posto que não se avantajasse grandemente, neste particular, ás convisinhas. Muito mais desafogada era ella, por certo, do que é hoje.

Ao longo da sua margem direita, indo para Santo André, e até alcançar-lhe o Postigo, 21 propriedades, se a tal classificação poderiam aspirar as modestas casinhas que se iam encostando á barbacã do Castello, tendo na sua frente uma larga perspectiva panoramica, de surprehendente effeito. Da esquerda, a ondulada ribanceira, por onde, ainda 35 annos antes, se espreguiçava a miseranda Villa Quente, até ir topar com a cêrca do Colleginho. Lá quasi ao começar o forte declive que, tal qual hoje, terminava a rua, o postigo aberto na muralha por onde se começava a subir para o do Moniz. Diante d'elle, atravessada no caminho, a cruz de pao, demarcatoria nos titulos do Tombo municipal. Por ahi perto, talvez, sempre da esquerda, algum pequeno grupo de casinhas, restos da subvertida povoação. Após, os declives sobre os quaes se levantou, no seculo seguinte, o palacete que assenta no espigão da calçada de Santo André.

Isto, quanto á topographia local.

Vejamos agora quanto respeita ás construcções, e, porfim, aos que as habitavam.

As 21 casas da margem direita, que a rua contava pertenciam a outros tantos proprietarios. Destes, 12 habitavam nas proprias casas, ou sós, ou tendo inquilinos. De todos os 21, o senhorio mais importante, era o clerigo Francisco Dias. O seu predio—algumas barraquitas, provavelmente—alojava 9 inquilinos, entre os quaes, 2 cegos. De consideração, na ordem social, Joanne Fernandes, moço da camara da Infanta D. Isabel, tendo na loja por inquilino um «sapateiro remendão». Joanne Fernandes morava nas proprias casas de que era dono, e foram-lhe avaliadas em 30$000 réis. Pegado ao postigo de Santo André, não esqueça o nosso conhecido magistrado Affonso Figueira, e confrontando com elle, o Ambrosio Luiz, que superintendia na imposição dos vinhos. Algures, ali perto, um Joanes, cantor de el-rei, que nem por ser tal, se esquivou ao escote. Fecham a lista três senhoras do appelido Viegas; Filippa, Antonia e Anna.—Tres irmãas?—Que sabemos nós? Os predios das duas primeiras, avaliados em 50$000 réis cada um, obrigaram-nas a 350 réis de contribuição. As casas de Anna Viegas,—coisa parecida, é mais que certo—com as barracas do Padre Dias, foram computadas no dobro; em 100$000 réis, e por isso teve de pagar 700 réis.

O predio devia valer a somma em que foi avaliado. Alem da senhoria, habitavam n'elle mais 6 inquilinos; 3 varões e 3 femeas, como se diz em estatistica de população. Entre as femeas, duas eram viuvas; dos varões, um fallecera ao tempo de chegarem lá os sacadores, outro abalara para parte incerta. O terceiro era typographo;—chamava-se Antonio Gonçalves, e tinha aqui a sua officina. Elle e Maria Luiz, sua mulher, moravam mais abaixo, para o lado de Santo André, no predio do pintor Garcia Fernandes.


XX


Estava, pois, Antonio Gonçalves estabelecido já em setembro de 1566, isto é, dois annos mais cedo, do que o que lhe suppôs Tito de Noronha, na tabella com que enriqueceu a sua tão valiosa monographia A Imprensa Portugueza durante o seculo XVI.

É evidente que o auctor se governou, para a inscripção da data «1568», pela data do primeiro livro que se conhece, sahido dos prélos deste impressor;—as obras poeticas de Cadaval Gravio. (Pag. 82). O facto, porém, corrobora o asserto já por nós enunciado nestas Notas; convem a saber: que hemos de convencer-nos, todos os que perlustramos estas materias, que, assim como a nenhum habitante da Terra será jámais permittido ver a outra face do globo lunar, assim nos está vedado, e aos que depois de nós vierem, o descortinar quantas obras, e quaes assumptos vieram a lume, só no seculo XVI que seja, em Lisboa, que para sempre de nós e dos porvindouros ficarão ignorados.

É provavel que Antonio Gonçalves continuasse a residir na Costa do Castello, e ahi mantivesse egualmente a sua officina, até passar a melhor vida. Nestas afastadas eras, o inquilinato ainda tinha mui fracas as azas. Voejava pouco, e com pouco se contentava. Ahi onde se constituia familia, ahi onde se ganhava a vida, ahi se criavam affectos; ahi se lançavam raizes. Na mesma parochia, onde marido e mulher uma vez se desobrigavam, até o ultimo dia da vida se ficavam desobrigando. N'ella recebiam a agua lustral do baptismo, n'ella se casavam, n'ella continuavam a prole. Depois, no chão sagrado que todos os fieis pisavam, vindo adorar a Deus, tinham todos, quantas vezes de geração em geração!—o proprio e final encerro.

Pela nota com que fechamos, emfim, estes singellos apontamentos, que um acaso nos permittiu redigir, se verá desde quando e até quando se conhecem impressões sahidas da officina de Antonio Gonçalves, e quaes as obras que se sabe terem sido objecto d'ellas.

Não esqueça referir que a officina de Antonio Gonçalves foi avaliada em 5$000 réis, pagando o futuro impressor dos Lusiadas o escote de 35 réis para as necessidades da corôa.

A 26 de abril de 1567 deram os honrados sacadores do «Quatorzeno Rol da Freguezia de Santa Justa» por finda a sua tarefa, entregando, com a nota de 239 addições cobradas, ao Thesoureiro da Cidade, André Luiz, recebedor do dinheiro deste Lançamento, a quantia de 26$476 réis, em que ellas importaram, jurando aos Santos Evangelhos terem procedido como homens de bem.

Eis a Nota das impressões conhecidas, sahidas dos prélos de Antonio Gonçalves, redigida por simples apontamentos, por se não ter prestado a occasião a uma minuciosa e integra descripção bibliographica das que será ainda possivel ver.

1568 Pythographia e Brachyologia—Poemas publicados por Cadaval Gravio, segundo Tito de Noronha, in A Primeira Edição dos Lusiadas, pag. 82.
1569 Constituições Extravagantes do Arcebispado de Lisboa (3.ª ed.)—aos 7 dias do mes de Fevereiro. Mencionadas por Innocencio, Diccion, Tom. II, 105.
» Leis extravagantes collegidas e relatadas por mandado do muito alto e muito poderoso rey D. Sebastiam, nosso senhor, por Duarte Nunes do Liam.—Innoc. II, 210.
1570 Repertorio dos Tempos. Visto por nós na Sala dos Reservados da Bibliotheca Nacional—B—11. Tem o frontispicio dois annos após empregado pelo mesmo impressor in Lusiadas, de Luiz de Camões. Material que pertenceu a Germão Galharde.
1571 De Rebus Emmanuelis, do Bispo D. Jeronymo Osorio. Cit. por Innocencio—Letra J. pag. 272.
1572 Os Lusiadas—por Luiz de Camões. Frontispicio que pertenceu a Germão Galharde—(Pelicano tendo o pescoço voltado para a esquerda do leitor).
1572 Primeira Parte do Compendio da Chronica da Ordem... do Monte do Carmo, por Fr. Simão Coelho. Deve cotejar-se a noticia de Innocencio com a descripção impressa no Catalogo n.º 7 da Livraria de José dos Santos & Irmão.
1573 Commentario do cêrco de Goa e Chaul, &—Ha um exemplar na Livraria da Torre do Tombo.
1574 Successo do Segundo Cêrco de Diu, de Jeronymo Côrte-Real.—Ha um exemplar entre os Reservados da Bibliotheca Nacional, mas não chegámos a vê-lo, por falta de occasião.
» Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia portuguesa, por Pedro de Magalhães de Gandavo. Informações de Innocencio, pois se não conhece exemplar algum.
1576 1576—Historia da provincia de Sancta Cruz, &, pelo mesmo auctor supra-citado. É util ler a informação de Innocencio, ácerca deste rarissimo livro.

Por muito satisfeito nos daremos, que esta Noticia logre alcançar o agrado de nossos consocios, mais certos leitores que ella poderá ter. Por sua especial bondade nos relevarão elles, de certo, as deficiencias que se nella notarem, antes filhas da mingua de recursos, do que da falta de boa vontade em alcançar o impossivel;—dá-las completas.