A egreja está já á sua espera aberta,
juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada
atiçada.
A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas
cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a
todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do
sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso
sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo
do templo não é interrompido com
pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa,
brados de mendigos, assobios
de rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins.
Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai
profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e
afugentar as evocadas memorias de
Lia,
de Rachel, e de Rebecca.
O que unicamente chega lá de fóra, é o
chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso
carpir de alguma rôla na matta de S. Sebastião, ou
a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no
trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da
Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da
progénie de Adão.
Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com
mais clara e muito mais formosa benção.
*
É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a
Deus não ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de
dois nomes um só nome, como de duas metades distinctas se
forma um todo inseparavel.
É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra,
solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos
pintar com indeléveis e suaves tintas na memoria, para que a
sua imagem no meio das tentações podesse acudir
como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.
Quem se recordar de que proferiu o seu
voto, e escutou com jubilo outro egual,
onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de
obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde
com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e
fragrancias naturaes com as virações, quem,
repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu
melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o
não diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem
ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a
prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a
mulher...
*
Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos
alvoroçados, e por entre os parabens e vivas dos
assistentes, encontram, começando logo no adro, de praso a
praso, por toda a extensão do caminho até
á casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro,
ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e
plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte.
Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua
toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa,
estão, postos de antemão pelos muchachinhos que
formam a primeira frente do préstito triumphal, um prato de
bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os quizer tomar;
outro vazio, para a gratificação voluntaria, que
ninguem deixa de lhe lançar.
Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa,
e industria mais esmerada; foram esses
prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus
afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes
naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos
padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem
concertadas que podem, um á moça, outro ao
mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e
junto á salva dos ramalhetes se vê um abundante
refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe
obrigado ás filhós de mel.
Em cada uma d'estas
estações chove
de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se á
saúde dos «bem
empregados» e «de quem d'ahi a nove mezes ha-de
vir.»
*
O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos
convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as
boas vontades prestes para quem se quizer apresentar.
Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e
o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse
«o desposado» (contra a regra do nosso falar
galanteador), porque o logar da direita se lhe dá a elle. A
dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes
primitivas.
N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e
com um
só talher, e
bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer durar a
refeição
dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu
bonissimo sentido, que não podia ser outro senão
representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e
professavam de viver.
*
Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas,
rabecas, e ferrinhos, dando se a rôdo comer e beber aos
tangedores.
Em quanto dançam, algumas moças donzellas se
furtam subtilmente á companhia, para irem enfeitar de flores
o leito nupcial, desfolhar entre os lençoes rosas de cheiro
(se a estação as dá), e guarnecer a
roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos.
Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita
da quinta que é meia-noite, ha já muito que os
obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas
de calmaria de certo suavissimas, apóz um dia todo por fora
e por dentro tão festejado e tão
revôlto.....
XV
O nascer de cada filho é uma festa.
Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e
mostra a experiencia que se não enganam), crêem e
repetem, que filhos ainda em casa pobre são riqueza; que por
taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a lhes
acudir com mais larga mão;
e que a meza, por ter mais Anjinhos ao
pé de si, se não ha-de fazer mais
escaça, se não medrar á
proporção de
tão bons hóspedes.
E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes
um onus, um sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se
ouvem mães e paes deploral-a como castigo e praga;
lá na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade,
lá na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os
consumidores são productores; lá, onde
só
são necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes
são os mestres, o exemplo
lição, a laboriosidade e sobriedade
herança; ninguem se atormenta sorteando na phantasia
empregos ou futuros novos para a sua progénie. Lá
os filhos são
rebentões, que alegram, remoçam, e
espécarão a seu tempo a velhice decadente de
quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.
*
Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres
experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e
doutores, tem-se já prompta a canastra que lhe ha-de servir
de berço.
Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é
escrupulosamente velada, para que não venham bruxas
malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol
candeia bem experta; e ao clarão d'ella, com os olhos fitos
no innocente, e quasi sempre em pé para que as
não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as
amigas da casa.
Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão
entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do
pé embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de
oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos,
queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam muito
bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas.
*
Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de
romanas crenças a graça, a fragrancia poetica, o
saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu sinto.
¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e
tão christan como ella é, praticam o mesmo que os
legionários romanos provavelmente ensinaram a nossas
avós ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas
aldeias da sua terra a suas mães e mulheres!
¡Cuidar que estamos vendo, com pequena
degeneração, o que o mais rico poeta da
Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente!
E se não,
oiçâmol-o, e julgareis:
Negreja ao réz do Tibre
annoso Helerno,
santo bosque, onde levam sacrificios
inda agora os Pontífices romanos.
Ali nasceu outr'ora, ali vivia
a que nossos avós chamavam
Grane,
casta Nympha, de excelsos pretensores
pedida vezes mil e em vão
pedida.
Era seu exercicio errar nos campos,
as feras perseguir com dardo agudo,
e as redes emboscar nos fundos valles.
Inda que aljava ao lado
não trouxesse,
criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.
Quando algum namorado a requestava,
tinha prompta a
resposta.—«Aqui,—dizia—
ha nímia luz, e a luz
dobra a vergonha...
Se preferes entrar n'aquella gruta,
sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;
ella torcia o passo, ia á carreira
das moitas na espessura
homisiar-se;
d'ali desencantal-a era impossivel.
Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
combateu lhe o rigor
com brandos rogos,
e a sólita resposta obteve em
prémio:
que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;
segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.
O que
lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,
no
usado esconderijo em vão confias;
olha como t'o observa, e
t'o devassa.
Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus
braços;
eil-o comtigo a sós na cava penha,
onde havias buscado o teu
refugio.
Saciados os sôffregos
desejos,
—«Em
paga d'este goso—exclama o Nume—
dos quícios a tutella eu
te confio;
pela honra perdida esta conserva.»
Assim falando,
candida varinha
lhe entrega, com que os tétricos asares
das
protegidas portas afugente.
Existem de brutal voracidade
umas infames aves;
não já essas
que de Phineu a meza espoliavam,
mas
da mesma relé: cabeça grande,
fito olhar, bico
audaz, grizalhas plumas,
garra adunca; esvoaçam pela noite;
onde encontram creança ao desamparo,
que a ama deixou
só, prestes a empólgam,
arrancam-n-a do
berço, e a dilaceram.
Diz que as lactentes
vísceras co'os róstros
lhes picam, lhes devoram;
teem as fauces
sempre repletas de sorvido sangue.
Do estridor
com que as trevas
alvorótam,
lhes vem o nome: estriges
se
nomeiam.
Estas pois, quer de si nascessem aves,
quer em aves, de
velhas que antes foram,
fatal conjuro marso as encantasse,
penetraram
de Proca no aposento.
Com cinco soes de edade, o innocentinho
era ao bando ferino
egregio pasto.
Já co'as gulosas linguas ferem, sugam
o tenro
peito nu; sôam do infante
os consternados trémulos
vagidos,
com que, á falta de voz, auxilio pede.
Corre a ama assustada; acha nas faces
do caro alumno seu
lavado em sangue
das brutas garras os crueis vestigios.
¿Que
fará? vê-lhe o rosto exangue,
murcho,
que na côr arremeda as tardas folhas
já do
rígido inverno bafejadas.
Corre a Grane; o successo lhe relata.
—«Cobra
valor—a Nympha lhe responde;—
viverá teu
alumno.»
Entrada ao berço,
acha a mãe, acha o pae,
sôltos em pranto.
—«Eis-me; enxugae as
lágrimas—exclama;—
vou tornar-vol-o
são.» Diz, e tres vezes
de medronheiro com
frondosa vara
fere da estancia as portas; outras tantas
co'a mesma vara
o limiar sinála;
rega o ádito; as aguas com que o
rega
encerram salutifera mistura.
Entranhas cruas de
bimestre porca
toma nas mãos, e diz:
—«Aves da noite,
í-vos, deixae as
puerís entranhas.
N'esta pequena victima tenrinha
o tenro
pequenino aqui resgato;
é coração por
coração; tomae-o;
por visceras são
visceras; redima
esta existencia immunda outra mais nobre.»
Finda a sacra
oblação, corta o
deventre,
e esmiunçado o vai
pôr aos ares livres,
prohibindo do rito ás testemunhas
olhal-a então
ninguem; por fim colloca
a vara de oxiacanta, o don de Jano,
na
janellinha que dá luz ao quarto.
Consta que desde então
não mais
volveram
ao berço aves ruins;
saude, cores,
tudo refloresceu
no innocentinho.
[3]
*
O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois
côvados de baêta encarnada ou verde, vinho,
assucar, arroz, um cabrito, ou peixe, conforme o dia em que acerta. A
madrinha dá um vestido, duas camisas, e uma touca. Cada um
dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu brio.
Este dia é quasi tão festivo como o do casamento,
pois n'elle se cumpre a benção que no primeiro
dia se recebêra, e está salvo o interessante
pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que
as bruxas nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo
do peccado.
XVI
Além d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e
baptisado, cada povoação celébra a
sua, pública, no dia do Orago da sua capella. Tem fogo do ar
e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns aos
outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o
consentem, andam já desde a vespera á tarde pelo
adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o tambor, e despovôa-se
a visinhança com o chamariz do fogo de vistas nomeado de
armação, ou
parreira.
Por esta occasião, nas casas principaes, isto é,
nas menos apertadas, saltam-se até a meia-noite as
danças, pela mór parte cantadas, do bom Portugal
velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle
vivente archivo
de antiguidades, nem
já, quasi, os nomes se conservam. São o
caracol,
o
Senhor da serra, o
lundú,
ou
landum, o
escalhabardo, a
ribaldeira,
o
Francisco bandalho, etc.
A excitação do saltar, a virtude inspiradora do
vinho verde, e um poucochinho o natural desejo de brilhar diante das
raparigas e dos rapazes, fazem ás vezes com que ahi
appareçam, como nas romarias, como nos serões dos
lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de gosto, poetas e
poetisas que trovam de repente, e á porfia, por
espaço de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.
*
Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.
Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem,
estão em pé, um diante do outro, no meio da roda
dos ouvintes. A toada de que se ambos servem, é sempre das
mais populares, e vai toda remançada, para que as ideias e
rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou
desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de
declamação accentuada.
O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro
versos, correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou
consoantes; isto é: usam das quadras correntes em todo o
Reino.
Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme
lhes convém.
Principiam (é obrigado) por uma especie
de elogio, ou vénia, ao dono da casa,
se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se
é em terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou
dos seus proprios amores; e d'ahi, muitas vezes sem
transição, saltam para um genero entre elles
muito saboroso, que se poderá chamar o «rustico
fescenino»,
se, de envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como
entre os Antigos, os dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se
empulham e desempulham, como os dois pastores virgilianos, com
surriadas de impropérios sempre ao galarim, sem que o fogo
das palavras prenda nunca nos corações. Com a
mesma
feição com que dizem, com a mesma ouvem; e
tão avindos saem da contenda, como n'ella entraram.
Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da
sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por
mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e
que tudo quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.
*
Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes
porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é:
que a primeira metade de cada quadra tem frequentemente um sentido
diverso, e desconnexo do sentido da segunda metade.
Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma
verdade vulgar, uma
imagem campestre,
a exposição succinta de qualquer facto, mas sem
relação alguma com o assumpto que se versa, o
qual só nos dois versos ultimos apparece.
Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em
pratica de amigos com meus leitores:
O loireiro bate bate,
que eu bem o sinto bater.
Para comigo cantares
has-de tornar a nascer.
Á couve se come a folha;
come-se a raiz ao nabo.
Só te espero ver casado
sendo mulher o diabo.
Navio d'el-Rei é grande,
é grande e chega ao
Brazil.
Se namorares alguma,
não seja á luz do
candil.
Sequidão cria o centeio,
frescura cria os repolhos.
¡Quem me estreára comtigo,
menina, os
lençoes de folhos!
Já se vê, por estas amostras, que a
improvisação não é
tão difficil coisa, nem para tantos encarecimentos, como a
teem feito alguns viajantes, d'estes que só viajam no seu
quarto, embarcados na sua poltrona.
É por cá o mesmo, que provavelmente
será por toda a parte, sem exceptuar a
Italia, com que tanta bulha se nos faz.
Al porto di Livorno
è giunto un bastimento.
Cara, morir mi sento!
mi sento, o Dio, mancar!
XVII
Muito, porém, se enganára, quem inferisse que
toda a poesia dos meus serranos é de egual teor; porque,
sobre conservarem muita xácara de bons tempos, com as suas
lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices
e aprasiveis como ellas (o que já não seria
pequeno cabedal), cantam, e ás vezes engenham com singular
felicidade, quadras repassadas de amoroso affecto e graça
natural, que um poeta de nome não enjeitaria.
E ¿que muito? ¿Por que não haviam de
nascer estros por ali, onde ha tanta Natureza, tantos sitios
inspirativos, tão bons ocios na solidão, tantos
amores (¡e amores
tão bem empregados!), e tão largos horizontes
para a saudade!
¿Por que não haviam elles de nascer, quando
até pelas nossas encruzilhadas mal cheirosas e escuras,
pelos nossos botequins fumosos e azoinados, pelas casas d'essas ruas
feias, onde olhos e ouvidos se perdem e afogam em prosidade vil,
rebentam, viçam, e não raro florejam, talentos de
estimação e de valia?
Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades,
muitas coisas lhes empecem (não falando no desamor que os
esfria, e nas parvoas invejas que os matam); aos montanhezes,
afóra a Natureza, que lhes abunda, tudo mais lhe
mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha
poesia, como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde
pastor, appareceram as Musas, não invocadas, para o
bemfadarem.
*
¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não
esperdiçam, e, por falta de um prodigio que os desencante,
fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!
De uma pobre mocinha ovelheira
posso eu dizer; que por tardes de
verão muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado
nos degraus da capella de S. Sebastião; ella ali perto,
cantando e fiando em pé á sombra de um sobreiro,
no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como bem se pode crer,
¡enfeitiçados com a placidez de tão
livres horas em logares tão fugidos, tão
sobranceiros ao mundo todo!
De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos
corados, não da memoria se não do espirito; e o
espirito d'ella, estava-se conhecendo que lhe residia no
coração, tão bem,
tão bem, tanto a seu grado, como em estufa bem quente uma
planta mimosa, que um ameaço de frio mataria.
Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca
ouvira de obras de poesia senão as cantigas da sua terra, o
murmurinho dos seus rios; de madrugada a cotovia perdida pelos altos do
ceo; ao meio-dia as porfias das cigarras; ao descahir da tarde o
badalar longinquo das Ave-Marias; ao cerrar da noite o
regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus moradores, os seus
rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus
rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a
alma; de noite os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do
seu namorado.
Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha
encarecer o que ella improvisava para as suas ovelhas, que a
não entendiam; para mim, que me occultava com mil cuidados
para não afugentar tão melodiosa ave; e para o
ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se
ao-pé da sua.
Era a inspiração lyrica mais formosa, se
não a mais remontada. Eram os objectos do seu limitado
universo a mirarem-se na limpidez dos seus affectos, virginaes e
namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras destillando-se cada uma da
sua ideia com a propria côr, com a propria fragrancia que lhe
competia. Era o metro a correr, sem quebra nem extravasamento, a flux,
sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as rimas a vir poisar
espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da outra, como em dois
arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois passaros gorgeando.
Era tudo, emfim, quanto
a Arte requer, e só a Natureza pode dar aos seus mimosos
¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!...
Até já as suas ovelhas se esqueceriam d'ella.
Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais
vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus
poemas. Se ainda canta... já não é a
terra
quem a ouve. Remontou o vôo muito mais alto que o da cotovia
sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas
coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre
seus irmãos, entretece a sua voz immortal no cantico sem
limite
XVIII
Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem
menção da sua Musica.
É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos
dizer de muita; e conserva puro e extréme o primitivo sabor.
Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente
oráculo para consultarem os modernos compositores de operas
nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto
que affeitos de annos para cá a peregrinas melodias de muito
mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as
toadas sentidas e singelas da nossa creação.
Nas boas horas fique a musica italiana,
pois que entrou, e nos cahiu, e o merece;
mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda,
não se diga que aposentámos
nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por
trazer vasquinha e falar chão.
Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o
até (se já
não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a
granel por essas comedias e farças, em que fala gente do
nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra (
al
de
menos por
cortezia, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em
boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas,
cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, lá se
ficam algures no
coração, com quanto basta de vida para
ressurgirem ao primeiro aceno.
Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e
arbustos exóticos da mais admiravel louçania;
mostre-nos lá, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa
primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde
da seára, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais
nos hão-de conversar com o
coração um só minuto, que todas
ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera.
Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que
muita vez n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com
saudades os descantes da serra.
Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de
difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe
revolve aos pés, a sumir os seus píncaros
florídos
e trémulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e
esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o
coração.
Porém certas cantigas que eu sei... não as
applaudi, não as admirei quando as ouvi, mas senti-as
repassar-me até ás fibras intimas;
assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em
substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do
silencio.
Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares,
da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter
encontrado.
E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas
não são algumas, até para orelhas
forasteiras, quanto mais para as do seu molde!
*
¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de
condão! ¡Se, em vez de vos falar do que por
vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos
lá de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos
aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de
natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e
contentamento!
Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas
por mãos perítas, nos podiam abastar de muito
oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil
giro com geral proveito.
O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas
solidões, edificaria como Amphião novas Thebas,
attrahindo e
congregando com a
sua lyra penedias e florestas.
¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final.
Mas por ora, o thermómetro do patriotismo assignala graus
para baixo de zero.
Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se
teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo,
querendo Deus; ¿mas quando? sabe-o Elle.
Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer
levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que
se admiram em alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem
pequeno custo, bem farta corôa grangeára.
¿Que digo «custo»? ¿Onde ha
ahi delicia como é o viajar caçador de Artes, por
toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com
agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto
dos thesoiros que se tomam?
*
Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus
espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular
feição de melancolia mui suave, era a
extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a
perder de fôlego. É donosa coisa;
mórmente pela noite, e ao longe...
A explicação d'esta singular maneira deve ser,
segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a sós
por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr,
e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospéde.
Outras vezes
é
ao-pé de estrépito de aguas,
que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em
paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si
mesma namorando.
*
De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro
por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras
conversando por cantoria; e, graças a este methodo de irem
fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo
apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mão por
mão, e muito manas, á
soalheira no seu aido.
Sustentam-se estas entoadas conversações, em
prosa inteiramente desatada de rithmo, e não obstante
rimada, rimada por um modo tão insólito como
facil.
Exemplo:
¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:
—Ó ia, eu te digo
ó Maria,
Ó iga, que se tu
és minha amiga,
Ó á, botes as cabras para
cá,
Ó enda para me ajudares a comer a merenda,
Ó eijo, que
tenho aqui brôa e queijo,
Ó ôas, e umas
maçans muito bôas.
E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a
outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão
no colloquio por ter chegado a sua vez.
XIX
Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica.
Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.
*
As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos
as de cada familia e as de cada aldeia) são: o Anno-bom, o
Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e o Natal.
*
O Anno-bom não é ao presente senão um
rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora.
As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado,
já lá vão.
Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras
ao cabo se desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao
romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada
povoação, todos em bando, o mais bem arreados que
podiam, com suas sacólas, ou alcôfas,
ás costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o
logar, de aldeia em aldeia, até se lhes acabar o dia, umas
trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores
á bizarria do pae ou mãe de familias, e
desfechando sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou
pão branco, para a ajuda do
refestêllo;
contribuição com força de Lei, mas de
que todos se desempenhavam á boa-mente.
*
O Carnaval, é como ainda nós por aqui o
conhecemos nos seus dias aureos, tríduo de folia desatada,
guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra
todos.
São as pulhas, as peças, os esguichos, os
pós, a laranja
.....que
derruba o chapeo,
de que o bom
Filinto com tanta
saudade se lembrava lá em
París, o rabo-leva de tripas entufadas, a mão de
ferrugem da chaminé com azeite pelos fucinhos, as
estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho
com sal, as filhós com trapos, e todos os mais
adminiculos, que no
ritual classico se conteem.
Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se
não veja povoa nem viva alma, duas coisas se
hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e apupar;
toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra
são descargas de espingardaria. Ninguem tem
caçadeira velha em termos de dar fogo, que não
saia com ella a salvar.
N'esta occasião (não sei por quê) o rio
de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas
nações inimigas; a metade
cíterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois
exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes
e convisinhos aos seus adversarios, para lá lhe atira por
cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhões de
chascos, de apupos, de rugidos
de buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob
os pés; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e
sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes trovões
centuplicados...
O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado
asninho, visitando as povoações, com barbas
brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil,
prasenteiro, com séquito de rapazía a abuzinar, e
de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem
poderá ser o próprio Sileno das bacchanaes,
metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras,
pois não é necessaria grande
perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se
conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as
saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e
quejandas (o numero era folgado).
As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos
redís e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da
familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nómada e
silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam
«o seu gôrdo».
O
gôrdo, para o qual de
tempos se andam aparelhando, é feito por varias d'ellas em
commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem
alguns moços seus parentes.
Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um
gôrdo; e ainda agora me está sabendo.
Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso
de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um
vestíbulo de areia parda e fina, á borda da agua.
não lhes faltando os competentes