.....vivo
sedilia saxo.
O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os
comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria
folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de
leite recem-mugido.
Terminaram com uma dança no areal, por não haver
melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando já
lá por cima branquejavam estrellas. A fogueira
serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na
corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as
levaria.
Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos,
parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas,
travada com ellas, uma usança ha ali, que só ali
ha, e que eu aponto, não só
porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não
porque dará luz para se entender o poema que a diante vai,
com o titulo de
Domingo gordo dos montanhezes.
N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S.
Sebastião, que já sabeis
orla o passal pela banda do poente, todos os
moços solteiros da freguesia, a
plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o quê,
e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para
isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para
suas terras a folgar.
Nem o introductor, nem o tempo da introducção
d'esta pratica, são já hoje conhecidos.
É uma tradição piedosa, uma lei moral,
sem nenhum genero de comminação, mas
tão á risca obedecida, como se as tivera.
É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um
bello exemplo de desinteresse; pois na plantação
quem só ganha
é a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os
rendimentos.
Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a
capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de
boa-mão para casamentos, ainda se aventaria um motivo
pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que
só da peste é advogado!...
Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra,
¡e oxalá dure sempre! ¡e
oxalá por muitas partes o imitassem!
*
Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de
nós outros, bastam duas considerações:
a d'elles é festa
do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem
do espirito.
Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva
lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie
humana;
e do corpo tambem, porque
o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas
succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e
bem jejuada quarentena.
Move suavemente os corações acompanhar a
procissão, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os
seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro
alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras
já revestidas, atravessa o passal por entre as alas das
pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se
espairece ao longe, como uma piedosa exultação,
por entre os mattos rejuvenescentes.
O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As
arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado
de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora
todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a
Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe
entôam canticos, como os homens, as mulheres, e as
creanças. A aleluia ressôa em toda a parte;
lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os
corações ferve o amor de Deus, o amor da
Natureza, e o amor mutuo.
¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os
arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh!
¡que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as
cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um cartão
alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.
Recolhida a procissão, tornam-se todos
correndo a suas casas, a acabar de as
pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se
de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores
baixellas; crepíta o lume na cosinha revôlta;
idéia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de
lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a
sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais
não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da
familia falta á porta para receber a aspersão de
agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras
rituaes da benção: «Paz
a esta casa, e a todos que n'ella moram.»
Tal visitação, que (já se
vê) se não conclue no primeiro, nem muitas vezes,
no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda
de prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada
fogo; não pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo
muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do
rebanho.
*
No 1.º de Maio põem, á entrada das
habitações,
maias, que
são ramos de
sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com
seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo
se fadam a terra e a casa: a terra, para que dê linho
comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha
próspera.
¿Quem não vê n'estas maias outra
degenerada herança dos nossos antigos senhoreadores?
No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seus
Lares,
deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo
da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os
de pelle canina; e em monumentos antigos se vê ao
pé d'estes deuses representado o animal symbolo da
fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio
nos seus
Fastos nol-o
descreve. Brindavam-n-os com libações de bom
comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de
flores, e já de lan.
Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois
acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se
compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde
vivia gente do seu sangue.
Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do
mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas.
Vieram Lares
viaes (dos caminhos),
compitaes
(das
encruzilhadas),
urbanos (os padroeiros de cada
cidade),
publicos (os mantenedores dos
publicos edificios),
rusticos (os custodios do
campo),
hostis (os amparadores contra inimigos),
marinhos (os guardiães dos navios).
É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem
Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de
suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre
estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle
cahos de poeticissimos desatinos e devassidões.
Fazia venerar e amar a
casa; com a casa, a familia; com a familia, os sãos costumes
da creação. Ainda por cima, fazia resplandecer
luzeiros de esperança na
cerração das adversidades; o que dá
coração e brios para as resistir.
Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana
provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que,
aliás, podem ser documentos, além de outros, o
nome de
lareira, geralmente
conservado ao lastro da chaminé, e o proprio de
lar, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente
de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a
fogueira.
Já cada um inferirá que as
maias dos meus serranos, festejo que só
á casa se refere,
coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja,
o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de
ter, aquella origem.
Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito
christão, ainda mais poetico, chamado das
Rogações ou
Ladainhas de Maio.
Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e
acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a
procissão, que lá se vai, humilde, atravez dos
campos desatados em flor. Imploram as bençãos do
Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos
não devorem a vinha ou seára; que
intempéries do ar e trovejados granizos não
derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.
*
O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado
de dia pelos oiteiros, de noite pelos serões.
Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que
se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora,
não sem graça), que por ali em louvor do Baptista
se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos.
A medo me rendo á tentação urgente de
as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes
tão frescas e juvenís das suas cantoras, e nuas
dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras
em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão
parecer-se comsigo mesmas.
Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja
differença na substancia, vai tanto, como de uma formosa
donzella podéra differir o seu cadaver.
Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que
no fundo da alma se me estão ainda cantando, por entre
simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde á
fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, não as
contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil
maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com
que umas rusticasinhas de roca á cinta tratam o Santo
Precursor. São amores velhos; não ha que lhes
dizer.
—¿San-João das
barbas doiradas,
onde foste
ter as orvalhadas?
—Fui as ter áquellas hortas,
recordar
aquellas cachopas.
Recordae, recordae, perguiçosas,
que da fonte
já veem as formosas,
com as talhas cheias de cravos,
que
lh'os deram os seus namorados,
com as talhas cheias de flores,
que
lh'as deram os seus amores.
San-João, rico cavalleiro,
companheiro de Nosso Senhor,
acompanhae a minha alma
quando d'este mundo fôr.
—¿Por que tendes, San-João,
esses sapatinhos
brancos?
—Para passear ás moças
domingos e dias
santos.
—¿D'onde vindes, San-João,
que assim cheirais
á macella?
—Venho da serra da Estrella,
de fazer uma
capella.
—¿D'onde vindes, San-João,
pela calma sem
chapeo?
—Venho beber agua fresca,
que faz calor lá no ceo.
Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os
aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas
mãos, dão comigo do avêsso.
Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes.
Á noite accendem fogueiras, dançam, cantam,
namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas.
Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao
sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu
futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e
inconstancias.
Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes
virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. João do
Monte, á conta do seu nome bento.
Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta
colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram
de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os
partos, apertando-se nas mãos.
A agua da fonte da manhan de S. João é como a
primeira que chove em Maio: torna o carão formoso.
*
Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo
descoberto, não correndo o tempo de invernia. São
rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a
acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechína e
fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira.
É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos
rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos então
se convidam.
Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já
então arripiada. Mas... quanto
mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para
a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os
animos dos convivas.
Á fé que lhes não falta por
quê. O dia que apóz vem, é o dos
finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos,
para todos quantos, com Fé ou sem ella, possuem um
entendimento, e meditam.
¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem
mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a
solidão, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do
cortesão bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade!
*
Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a
noite não quieta.
Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe,
até se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de
tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar
algum suffragio. ¡Oh! ¡se
não se elevarão elles, e bem ferventes, exhalados
pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade!
Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz
bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura
se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis
côro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta,
pelo meio da povoação, a supplicar em nome dos
penados de alem mundo, que para si não podem requerer,
esmola de orações, refrigerio para os ardores que
lá padecem.
Não ha seio tão escudado, que um santo horror o
não estremeça; egoismo tão
empedrenido, que sustenha as lagrimas.
...Até que o solemne pregão transpõe e
se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja.
Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o
interior.
Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que
vão de aldeia em aldeia
amentando as almas, arrastavam d'antes
grilhões aos pés, o que ainda augmentava o pavor
do seu pregão.
Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes
quem entre nós os soffreria? Por
lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como
exactores que são de um
tributo da outra vida.
Desde o romper d'alva não descança a egreja de
absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques,
todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e
expedem á porfia.
Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o
moço em flor de annos; a donzella; os irmãos,
pequeninos e já orphãos,
pela mão de sua mãe; todos graves, cuidosos,
taciturnos; todos lá por dentro orando; todos anhelando
irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali
assistirem ao incruento Sacrificio.
Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o
semi-festim da vespera é quasi geralmente descontado pelo
jejum mais rigoroso.
*
Emfim vem o Natal.
Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas
christianissima
(quizera eu dizer)
do Christianismo, nenhures cabe tão em cheio, nem tanto com
os animos e corações se coaduna, de veras crida e
com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.
Víreis o Presépio de Belem, não
já por caprichosas artes remedado, mas em tão
cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral
o.
Disséreis que ao soar da ave da meia-noite,
desferiu vôo d'entre as estrellas, de que se
corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos
pegureiros com o pregão de «Gloria e
Paz», com a nova de ser nascido o Desejado das gentes.
¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de
toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino!
Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso
dentro n'alma.
O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par
aberto, é a santa Gruta.
Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o
Divino Infante.
O adro vê dançar as rondas de camponezes
á roda de um monte de arvores accezas, ao som da
gaita e do tamboril.
Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.
Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as
cantigas da benta noite. Cada um d'estes córos é
exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte
a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que já
descobrimos entre
os homens,
quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um
estrepitoso arremêdo de combate.
É a qual dos bandos trará mais formosas quadras
para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores
requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins;
exulta o coração; e, sem vergonha, se
estão sentindo as faces humedecer-se.
Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que
se estão vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em
braços do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e
louvores, de supplicas e offertas. Então é que
surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e
á porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de
ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhões
e frutos sêccos.
¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que
ali pendem ao collo de suas mães! vão-se-lhes os
olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz
lindezas tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se
destinam, com os seus olhos tão azues, a bocca
tão amorosa, as faces tão coradas como as
maçans que se lhe offerecem, é já a
Elle que só
cubiçam; e só choram, porque o não
deixam
acompanhal-o.
*
Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.
¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem
a destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?
É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na
resposta.
*
Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza,
nobres de humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores
de S. Mamede da Castanheira do Vouga.
XX
Que eu por lá versejasse, já a ninguem
ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser,
que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas as
rasões d'isso de si mesmas se confessam.
Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me
foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri
possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de
reparecer no mundo.
Assim, só por desabhorrimento é que poetava de
longe em longe; isto é: poetava por fóra, e no
papel, que no coração e no
animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de
leve me acreditarão os que d'isto sabem) não foi
a que se escreveu, se não a que deslizou suave, entre
sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e
medita.
Escrever só para si, não sei que ninguem escreva;
é trabalho supérfluo, e que, se
dá fruto, o dá ruim, que de pêco e
descorado nos desconsola.
¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou
affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr
por mãos e olhos, não perde muito do seu
primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou do seu
calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que
era seu, e que era elle mesmo em grande parte?
Isto dos livros não são senão uns
retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se
fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes
abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos,
só podem perceber a totalidade, e conjecturar as
circumstancias.
O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros
de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda
para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder,
ás concepções e aos affectos.
*
Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que
peor é) do livrinho, está em que a maior e melhor
parte dos condões e feitiços da montanha, que ora
cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis,
então que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me
não faziam os effeitos, que atravéz dos vidros da
saudade me produzem.
Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o
perdido; que já por isso dizia Rousseau, que nunca
tão bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha.
¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a
abrolhar? é no meio do outono a desvestir-se. ¿A
do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que
tirita e se encanece de geada.
¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros,
não é paraiso, para onde todos, todos, nos
quizéramos tornar?
¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo
extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que
logram!»
Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar,
é este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a
instante m'o explica.
Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e
collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando
importunas obrigações me veem ripar e consumir as
semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.
Pela conversação pacifica das moitas e torrentes
me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens
me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rasões
para os desprezar, ou para fugil-os.
Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor.
Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.
Lá, a benevolencia é semente de benevolencia,
para dar cento por um. Aqui, é grão que sempre
degenéra, ou não germina, ou brota villans
ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.
Lá, o folgar é franco, e as festas são
festas. Aqui, o folgar é escaço e fingido; as
festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores,
que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e
aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.
O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo
mais cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão
roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como
o Iscariotes por sua mão, para escarmento a sevandijas e
lição a paes que estão creando feras
bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de
applaudil-o por medo, apertar lhe a
mão
dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o
expulso de muitas portas.
Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para
o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia,
para macío agazalho nas horas do somno ou da
doença, para gala candida dos altares, e a final para
curativo de feridas.
Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao
alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do
seu linho, a cabo de tão bons serviços, poderia
vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto
é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a
ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de
descredito e odios, em disseminador de todos os principios de
dissolução,
já moral, e já politica?!
¡Pôr-lhe ella a
sua roca para benção! ella, a boa filha das
serras,
fêmea sincera e verdadeira, coração
lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe
ella encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre
companheira, a que tão santas maximas e tão
formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar á sementeira
o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que
vale o mesmo.
XXI
¡Que de vantagens para o ermo não são
todas estas!
E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem
nascido!
Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de
espaço e tempo, e pela
contraposição, que se conhecem. ¡E eu
malbaratei quasi tudo isso!...
........ munera nondum
Intellecta deum!....
Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão
quebrantador martyrio da experiencia,
¡Como me não agarrára, com raizes mais
fundas e tenazes que o meu cedro, ao chão da vida facil,
innocente, e obscura! ¡Como não
borbotára em hymnos o meu jubilo! ¡Como
não saudára com lagrimas de
gratidão a aurora, tornando a encontral-a! ¡Que
não palrára com as torrentes! ¡Que
noites
desveladas sob o
pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!
Em vez de
rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar
este painel noticias de logares, e até de usos, tudo eu
mesmo visitára com devoção de
peregrino; tudo
revolvêra; com tudo me identificára.
As saudades, que de lá para aqui me estão
salteando, d'aqui para lá já não
atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira
sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me
perdessem logo.
*
—O abdicar—dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro
e hortelão de Salona—o abdicar é o
começo do viver.
¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso
da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na
primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabiça
ou um foicinho!
¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e
até imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o
quasi nada, que se tem de cidade.... só de o cuidar, tanto
namora a phantasia!
¡Se jamais virá tempo de eu poisar em
torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça
encanecida e regalada!
Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e
limas, como o presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda,
quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um
fôlego. Mas isto em solidão bem
solidão,
onde só os
astros me enxergassem,
só as estações me visitassem, e da
banda do mundo nada me chegasse, senão o vento,
já expurgado e esquecido de humanas vozes.
Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio
e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.
Ahi me reverdecêram o coração e mais o
espirito, que me elles por cá trazem tão
lastimosamente desfloridos e murchos.
Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol
remoçador de quanto existe.
A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa
eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta
ás virações da primavera.
Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em
tarefas ephémeras e sem gloria, posto que não sem
consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da
Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa
doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo;
doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.
Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me
enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia
para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente
redigido, se podia escrever este epitaphio:
Aqui jaz um anno
de fadiga e dois de vida de.... Orae por elle.
[4]
Vendem-se ainda primogenituras
por menos que prato de lentilhas.
Vingára-me (¡oh! ¡se me
vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda
por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,
appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os
seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.
Parve,
nec invideo, sine
me, liber, ibis in Urbem.
*
—¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus
gostos e desejos?—dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que
sabemos, que nunca faltam, escoimadores
ex-officio do alheio.
—Senhor meu,—lhe respondo eu já:—pois é por
isso mesmo, de não passarem de fabula os meus gostos e
desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel.
Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal,
coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar
do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o
tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o
meu refugio, beijal-o, replantal-o,
aformosental-o. E em lá
vindo o florído Maio, ride-vos de pagão que
brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.
*
¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem
por longe se pareça com a de um
viver remançado, em casa sem
numero, nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria
inclinação; sem ouvir horas que nos chamem, sem
encontrar com glosadores que nos aboquem no ar
acções e palavras, para nol-as tingirem de branco
em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos
emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite
de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que
são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de
abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de
quem vos não vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido,
refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite,
interrompido na meditação, ou cortado no melhor
do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo
levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus,
histriões, da farça séria d'este
mundo?
Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura,
ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis
mais depressa
coisa a ella parecida, do que não por estas
almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella
tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre são festas
acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao
mesmo tempo: este, o
Te Deum; aquelle, o
De
profundis; um, o
Quomodo cecidit civitas plena populo; outro, o
Cantemus Domino; qual, o
Miseremini
mei; qual, o
Ecce sacerdos magnus.
Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade,
derrubaram-n-a do seu
pedestal
as aguas do diluvio de Noé, quando arrojavam cada coisa para
seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o
formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo
pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui,
pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.
*
E quando não, mettei bem por dentro a mão na
consciencia; e, deixado o palavrório que não
sôa muito senão por ser vazio
(como tambor de foliões), dizei-me, ou dizei-o a
vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que
desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e
não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem
alvoroto de praças, e reboliço de vizinhos, pois
diante de suas janellas o que só se meneia e conversa
são arvores, e por cima do seu tecto não moram
senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de
visitas passarinhos ou borboletas?
¿Quem mais livre?
Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu,
sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o
cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos
convites. ¿Quem mais livre?
Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as
occupações de todo o dia. ¿Quem mais
livre?
Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons
somnos, pão, e para conduto um
apetite desenganado, entre o trabalhar,
repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas
chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e
é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal,
sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não
captivar senão os braços; cavando,
podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando
doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros,
ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se
esconde.
Este
deus in nobis, unica das
divindades campestres em que se pode crer, perguntae se não
será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam
escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi
todos os que remam á consciencia o seu remo na
galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais
livre?
Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o
meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço,
para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de
coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a
ninguem; respira a peito cheio; não ha que ciar se de mulher
e filhas, que
não dá a terra operas nem bailes; filhas e mulher
á roda lhe serôam, tão satisfeitas como
elle. Não se levanta ali jogo, que, por
tentação ou falso pondonor, o obrigue a
pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida.
Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas
regedores do mundo em sêcco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma
coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellos
da Imprensa, em que entre os
não maléficos tantos ha de sapo), o artigo
famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam
falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem
não tem com que incite invejas, seguro está de
vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas
destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não
creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.
Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os
pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os
frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de
barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na
velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde
crêem de fé que os estão seus parentes
esperando.
¿Então, será, ou não
será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o
nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o
direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo,
que não deixei na matéria udo nem
miudo; ¡como se miudos houvera no que são
condições de boa
ventura!
Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu
proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao
coração de alguns d'estes, que vivem na
Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre
mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma
hora olhassem
por si, adquirir, sem
nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão
baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre,
uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a
pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza
privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada
descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar
corpo, animo, e coração, para se n'ella
saborearem,
até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,
quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.