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Rita
Farinha (Jun. 2009)
BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
XXIII
ROMANCE
III
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
Vol. I
CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337
JULIO
DINIZ
A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES
(CHRONICA DA ALDEIA)
DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920
OBRAS DE JULIO DINIZ
A Morgadinha dos Cannaviaes
Os Fidalgos da Casa Mourisca
As Pupillas do Senhor Reitor
Uma Familia Ingleza
Ineditos e Esparsos
Poesias
Serões da Provincia
Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças)
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estão reservados em conformidade com a lei
em Portugal e Brasil
J.
Rodrigues &
C.a
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
I
Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e
genuino dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e
sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam
dois viandantes a encosta de um monte por a estreita
e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava
das honras de estrada, á falta de competidora,
em que melhor coubessem.
Era nos extremos do Minho e onde esta risonha
e feracissima provincia começa já a resentir-se,
senão ainda nos valles e planuras, nos visos dos
outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a
alpestre e severa Traz-os-Montes.
O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario,
melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a
qualquer povoação importante, e com nome em
carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana
raro se encontravam. Só de longe em longe,
a choça do pegureiro ou a cabana do rachador,
mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam
do que a absoluta solidão.
Não se moviam em perfeita igualdade de
condições
os dois viandantes, que dissemos.
Um, o mais moço e pela apparencia o de mais
grada posição social, era transportado n'um pouco
esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas,
musculos de marmore e articulações fieis; o
outro seguia a pé, ao lado d'elle, competindo, nas
grandes passadas que devoravam o caminho, com
a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso,
excitava por estimulos menos brandos do que os
da simples e nobre emulação.
Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual
processo de transporte, dos dois o menos extenuado
e impaciente com as longuras e fadigas da
jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.
A postura de abatimento que lhe tomára o corpo,
o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a
indifferença, a taciturnidade ou o manifesto mau
humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
natural conseguiam já desvanecer, o obstinado
silencio que apenas de quando em quando interrompia
com uma phrase curta mas energica, com
uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada,
contrastavam com a viveza de gestos e desempenado
jôgo de membros do pedestre, com a
sua torrencial verbosidade, a que não oppunha diques,
e com as joviaes cantigas e minuciosas
informações
a respeito de tudo, por meio das quaes se
encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir
o seu sorumbatico companheiro.
Explica-se bem esta differença, dizendo que o
cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que
fazia então a sua primeira jornada, e o outro um
almocreve de profissão.
O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma
vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso
alvoroço, com que se concebe e planisa
qualquer projecto de viagem, assim como a suave
recordação que d'ella guardamos depois,
são coisas
de incomparavelmente muito maiores delicias, do
que as impressões experimentadas no proprio momento
de nos vermos errantes em plena estrada
ou pernoitando nas estalagens, e mórmente nas
classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
impertinencias, em que se não pensa antes,
que se esquecem depois, ou que a saudade consegue
até dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos
martyrios, que de longe não avultam,
actuam-nos, na occasião, a ponto de nos inhabilitar
para o gôso do que é realmente bello. A dureza do
colchão, em que se dorme, do albardão ou selim
sobre que se monta, o tempêro ou destempêro do
heteróclito cozinhado com que se enche o estomago,
a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó
que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos
inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o
cerebro, tudo então nos desafina o espirito, que
traziamos na tensão necessaria para vibrar perante
as maravilhas da natureza ou da arte.
Só pelo preço de muitas jornadas se compra o
habito de ficar impassivel no meio dos episodios
d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e exhaurem
o animo dos Ulysses novatos; mas ai,
quando se adquire esse habito, tambem nos achamos
já com a sensibilidade mais embotada para as
commoções do bello.
Examina-se com mais minuciosidade, mas com
menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; porém
a propria analyse é a prova de que se sente
menos. Onde domina o sentimento e a imaginação,
mal teem cabida a paciencia e phleúgma, necessarias
aos processos analyticos. O homem positivo e
frio recolhe de qualquer excursão á patria com a
carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e
poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu
mais.
Mas Henrique de Souzellas—que era este o
nome do cavalleiro—fôra educado e passado da
infancia á plena juventude, em Lisboa, levantando-se
por avançada manhã, frequentando o theatro, o
Gremio,
as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio,
e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer
praia de banhos, desenfadar-se da monotonia
da capital.
Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão,
fôra esta jornada, em que o encontramos, a
primeira levada a effeito, e logo sob tão maus auspicios,
que era para suffocar-lhe á nascença os
instinctos
de
touriste, se porventura quizessem
despertar
n'elle.
Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante,
unico vehiculo accommodado aos caminhos por
que passára. E então que dois dias! D'aquelles,
durante
os quaes o céo, uniformemente pardo, parece
desfazer-se em agua, e a chuva cae sem
interrupção
e com uma teimosia e constancia impacientadoras;
d'aquelles em que a terra saciada rejeita já a agua
que recebe, a qual escorre nos declives, transborda
dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos,
transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas
do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam
aos pinheiraes a voz dos mares; em que
os campos se mostram desertos, a noite se anticipa,
e tão densas nuvens cobrem o firmamento,
que parece tomar-nos a persuasão de que nunca
mais o veremos com as suas formosas vestes de
azul.
Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz
podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao
diabo a viagem que commettera.
E para quê e por quê a commettera elle assim?
Em poucas palavras procuraremos satisfazer a
natural interrogação, que é de
suppôr nos dirigissem
os leitores, se podessem fazel-o.
Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella
enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
attenções
do espiri
Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella
enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
attenções
do espirito pela politica, pela litteratura e pelos
destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava
habilitado a fazer circumstanciada chronica, que
abrangesse os ultimos dez annos.
Não concebia vida fóra d'aquillo.
O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos,
nem imaginava possibilidade de visitar a Europa,
quanto mais a provincia; o que seria maior
façanha.
Não que lhe faltassem recursos para realisar
qualquer projecto d'esta natureza.
Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes,
dos quaes vivia folgadamente e sem precisar
de sacrificar nos altares da economia.
Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A
poucos ia tão direita a apostrophe de Garrett aos
seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler no
livro setimo das
Viagens.
De certo tempo em deante começou, porém, a
incommodal-o uma especie de vácuo interior, um
mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem familia,
quando chegam á idade a que chegou Henrique,
e passam a vida como elle.
Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos,
bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava
no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus
amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o
insupportavel de insipidez; porque poucas coisas
ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo
d'um homem que boceja ou dorme, onde e
quando os outros forcejam por divertir-se.
O demonio da hypocondria, esse demonio negro
e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas,
o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle
em corpo e alma.
Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito
preoccupado com a sua pessoa, imaginando-se victima
de mil e uma molestias, as mais disparatadas
e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente
predestinado para a apoplexia e para a phtisica, para
o cancro e para a alienação, para a cegueira e
para
as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da
semana, folheando livros de medicina, construindo
theorias physiologicas, consultando todos os medicos
da capital, experimentando todo o arsenal pharmaceutico
e todos os annuncios, em parangona, da
quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças
do seu espirito amedrontado até ás mysteriosas
e nevoentas alturas do credo homoepathico! Ao
mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
degeneração de gôsto; não
podia ler uma pagina
dos livros que lhe eram predilectos; desfazia-se
sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e
objectos
curiosos que colleccionára com paixão; detestava
a musica, o theatro, n'uma palavra, tornára-se
um dos maiores flagellos, que podem pesar sobre
a humanidade e que muito em especial causam o
supplicio dos medicos que os aturam.
Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte
com o desculpavel intuito de sacudirem de si tal
pesadelo, lhe deram um dia de conselho, que fôsse
viajar.
Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia
n'esta palavra: viajar.
Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias
apopleticas? E as suas disposições para
tantas outras enfermidades? Pois um homem pode
lá viajar com esta bagagem pathologica?
E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou
com mau humor a receita, e ficou na capital.
Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as
consultas, e os medicos, como se para isso apostados,
a insistirem em que saisse de Lisboa.
—O senhor não tem nada—diziam alguns.
Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.
Prolongou-se este estado de coisas, até que um
dia o hypocondriaco rapaz persuadiu-se muito sériamente
de que estava chegada a sua hora extrema.
Um medico velho e grave, que por essa occasião
o escutou, em vez de se rir d'elle, disse-lhe, muito
sisudo:
—Homem! O senhor está realmente mal. Esse
estado de imaginação não pode
prolongar-se mais
tempo, sem romper por ahi em alguma doença que
o sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto
é tempo. Quebre por todos os habitos, e escolha
entre as fortes impressões de uma grande
capital, como Paris ou Londres, ou as mornas
sensações
de um completo viver de aldeia. Os revulsivos
e os emollientes curam por meios oppostos
ás vezes as mesmas molestias.
Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse
Henrique um presente de fructa de uma sua tia,
santa creatura que elle, desde creança, não
tornára
a vêr.
Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho
onde na idade de cinco annos Henrique passára
alguns mezes na companhia de sua mãe.
Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo,
já meio apagado na memoria, e conseguira fazer-lhe
saudades. D'ahi uns vagos desejos de voltar
a vêr aquelles sitios.
Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique
nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parenta vivia.
O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para
que fôsse abraçada.
O sobrinho escreveu então á tia, e, passados
dias,
punha-se a caminho.
Mil vezes se arrependeu, depois da resolução
tomada;
mil vezes mandou ao diabo o conselho do
medico e phantasiou horriveis exacerbações em
todos
os seus males. Os inconvenientes de uma jornada,
feita ainda segundo os velhos processos, com
malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve,
ampliava-lh'os a proporções estupendas, o
prisma da hypocondria.
No momento em que nos associámos ao cavalleiro,
caira elle n'um desalento profundo, n'um quasi
convencimento de proxima anniquilação, do qual
nem a loquacidade do almocreve, condimentada,
como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco
edificantes, o conseguia arrancar.
Havia mais de uma hora que estavam luctando
com as difficuldades da ascensão do ingreme e escabroso
caminho, que torneava o monte como as
voltas de uma helice.
Era este monte uma como irregular pyramide,
levantada no meio da amplissima bacia, onde tinha
assento a aldeia que Henrique demandava; por isso
o estafado rapaz não podia atinar a razão de
conveniencia
pela qual, tendo de procurar o valle, assim
porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da
quasi interminavel espiral, que os approximava do
vertice.
Não se concebe uma estrada menos logica do
que aquella.
No nosso paiz são porém frequentes estas faltas
de logica nas estradas.
O almocreve havia-se separado por momentos de
Henrique com o fim de encurtar distancias, seguindo
por um atalho só franqueavel a gente
de pé.
Henrique nem desviára os olhos para o fundo
valle, que se abria á esquerda, velado pela densa
nevoa d'aquella atmosphera saturada de humidade,
nem prestava attenção á agreste e
selvatica paizagem,
do lado direito, toda encrespada de pinheiraes
nascentes e de espinhosas tojeiras.
Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o
mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sitio em
que ella, formando um cotovello, furtava á vista o
seguimento ulterior.
N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe
ao viajante, cançado e aborrecido, que pela primeira
vez as trilha, uma promettedora esperança.
—D'alli verei talvez o termo do caminho—pensa
elle.
Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança
lhe foge!
Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á
almejada inflexão e quando esperava principiar emfim
a descer para o valle e approximar-se da aldeia,
viu que o macho, pratico no caminho, e á
disposição
de cujo instincto elle collocára a razão, dobrava
ainda para a direita e continuava a contornar
e a subir o monte. A espiral não terminára ainda.
Henrique olhou em torno de si, profundou a vista
nas sombras do valle, nada pôde descobrir, que lhe
promettesse a aldeia procurada. Muita arvore,
povoação
nenhuma!
Teve um paroxismo de impaciencia!
—Isto não é estrada!—exclamou elle,
exasperado.—São
os nove circulos do Inferno de Dante
virados para fóra.
E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva
a augmentar, a calar através do grosso gabão de
jornada que Henrique vestia! O desgraçado vergava
sob o pêso da sua consternação.
Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando
com fleugma desesperadora.
—Com um milhão de demonios!—bradou-lhe
Henrique, não podendo conter-se.—Essa maldicta
terra foge deante de nós, homem!
—Estamos quasi lá, meu patrão. É alli
logo
adeante—respondeu o almocreve, sem se alterar.
Vê aquella capellinha branca em cima d'aquelle
monte? pois fica já para além da
povoação. É a
ermida da Senhora da Saude. É um instante.
—Desde as duas horas da tarde que me dizes
que é um instante, e eu estou acreditando que cada
vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica alli
em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas
que temos dado, estou persuadido de que vamos
tão adeantados como quando principiámos a subir.
—Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito
lá
por baixo, era mais perto, mas...
—Mas foi então pelo prazer de trepar, que me
trouxeste por aqui?
—Não é isso, patrão; mas bem
vê v. s.
a que o caminho
lá por baixo é todo cortado por quintas e campos,
e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais
longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá
ideia de que o caminho
lá por baixo é todo cortado por quintas e campos,
e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais
longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá
ideia de como estão os riachos por lá!
Só o esteiro
do almargeal é para uma pessoa se afogar. Mas tenha
o patrão paciencia, que pouco falta agora. Vê
v. s.
a aquelle tronco de sobreiro que parece,
visto
d'aqui, um frade de capuz?
—É alli?
—Não, senhor—disse o homem, rindo;—mas
vêem-se d'aquelle sitio as primeiras casas da aldeia.
—As primeiras!—murmurou Henrique em tom
lastimoso; e penderam-lhe os braços com mais
desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna
vertebral.
O almocreve proseguiu, para o distrair:
—Tenho passado por estes sitios muita vez com
neve de se cortar á faca e de noite. E olhe que
nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim!
E vamos lá! o sitio não é dos mais
seguros. Vê o
senhor essa cruz preta, ahi á sua mão direita,
pregada
no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
mataram um homem, que vinha com uns centos de
mil réis da feira franca de Vizeu, fez pelo S. Miguel
um anno. E ainda hoje se está para saber quem foi.
N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma
creatura.
Henrique sentiu-se pouco á vontade com as
elucidações
do cicerone; olhou para elle com desconfiança
e quasi julgou vêr moverem-se sombras suspeitas
por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou
nos coldres os cabos das pistolas, e approximou as
esporas dos ilhaes da cavalgadura.
Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de
sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia.
Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas
arvores, mas continuou a não enxergar vestigios
de casas.
—Onde está a aldeia que dizias, homem?
—D'ahi já se vê—disse o almocreve, correndo
para alcançar o cavalleiro.—Não vê v.
s.
a, além,
além, aquelles pinheiraes mansos?
—Vejo, sim.
—Pois já são da freguezia. Se fôsse
mais claro
havia de avistar a casa do guarda. É a tapada dos
Bajuncos, que pertence á morgadinha dos Cannaviaes.
Henrique não respondeu. A distancia a que ficava
ainda a tal tapada fel-o suspirar.
Emfim, passados minutos, principiaram a descer
para o valle, costeando sempre obliquamente o
monte.
Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar
um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe
por entre a rama do arvoredo, mas já indistinctamente,
em virtude do adeantado da hora e da intensidade
da neblina.
—Lá está a capella da freguezia—dizia o homem.
—Alli? É um seculo para lá chegar!
—Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!
E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas
do macho, que accelerou o passo.
O homem continuou:
—Até se fôsse mais dia podia-se vêr
d'aqui a
pedra, que está no cemiterio novo, e que é da
familia
da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a mãe
d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e
até
hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz,
tem sua aquella em se enterrar fóra da egreja. Elle,
a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
costume... mas emfim a gente foi creada n'isto...
Mas a pedra é coisa asseada. É como as que
estão
na cidade.
Henrique, transido de frio, quebrado de desalento,
já nem attendia ao que o homem ia dizendo.
Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim
o valle. O terreno mudava agora de aspecto.
Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de cultura,
annunciando a proximidade de um povoado. Os
caminhos estreitavam, internando-se no valle, e seguiam
tortuosamente por entre muros tôscos de
pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva,
que não cessára de cair, transformára
estes caminhos,
onde o declive não dava escoamento ás aguas,
em charcos e tremedaes.
Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente
apparecendo.
Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção
do curral, guiados por uma creança de palhoça e
pernas nuas, os quaes paravam a olhar com aquella
expressão de composta curiosidade, que lhes é
peculiar,
para o recem-chegado visitante da aldeia.
Não faltou receio a Henrique, que suppôz a estes
bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e
bravia
dos touros, a cuja chegada tantas vezes fôra
assistir em Lisboa.
Mais adeante passava por elles uma fileira de
carros a vergarem sob o pêso do matto e atroando
os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o
eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de
Henrique,
cujos nervos se irritavam com elle, mas apparentemente
agradabilissimo para os conductores
aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
acompanhamento.
N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas
casas de tectos de colmo, de cujas innumeras
fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera
humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado
de Henrique de Souzellas o cheiro resinoso
e activo das pinhas e das agulhas sêccas dos
pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações
muito longe de serem agradaveis.
Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia
que já lhe tomára o animo.
—Tantas fadigas para este resultado!—pensava
elle.—Sair de Lisboa para me enterrar n'esta aldeia
escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor.
Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro
por certo aqui. Deus lhe perdôe o homicidio.
Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual
mais tortuoso e incómmodo de trilhar; as curvas
complicavam-se como as ruas de um labyrintho.
Aqui subiam; desciam mais além, para subir outra
vez. Umas vezes caminhavam em terreno descoberto,
outras penetravam em tão estreitas quelhas,
apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas
de ramos entrelaçados, que só o instincto do
animal podia evitar-lhes os perigos. Ora soavam as
patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes
o som um terreno, que a chuva encharcava,
e a agua lamacenta vinha salpicar o rosto do
cavalleiro.
As casas eram já frequentes, e algumas de menos
humilde apparencia.
Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser
gigantes, ladravam raivosos por dentro dos portões
ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os
passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que
falava ou cantava sempre.
Outras vezes era um inharmonico grunhir suino
que accusava a vizinhança das córtes ou, partindo
de um casebre rustico, o chorar de creanças, entremeado
com os ralhos das mães e com as pragas
dos chefes de familia.
O almocreve não desistira das suas
funcções
de cicerone, que sómente interrompia para saudar
alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.
—Estes campos e lameiros—ia dizendo—são
da morgadinha dos Cannaviaes; andam arrendados
a um compadre meu.
E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente
allumiada por uma candeia:
—Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?
—Ai, é vossemecê, sr. José?
Então não entra?—respondia-lhe
uma voz feminina.
—Agora, não, ámanhã.
E proseguiu para Henrique:
—É uma santa creatura. A morgadinha...
Henrique interrompeu-o:
—Onde fica a final, a quinta de Alvapenha?
onde mora minha tia? Não me dirás?
—É logo ahi adeante, meu patrão. Em
nós passando
umas casas amarellas que ha ahi... é logo
ao pé. Essas casas que digo são tambem da
morgadinha,
mas ha uma demanda pelos modos.
O almocreve falava pela decima ou undecima vez
na morgadinha. Até esta periodica
referencia a uma
personagem que elle não conhecia, impacientava
Henrique de Souzellas.
E continuavam a succeder-se em enredado dedalo
as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder
toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido
das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado;
adeante, transpunham uma ponte rustica, escutando
das profundezas do despenhadeiro, que ella
atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o
ranger das rodas dos moinhos.
Henrique a cada momento imaginava cair n'um
abysmo.
—São os açudes do Casal—dizia o
almocreve
berrando para se fazer ouvir através do estrondo
da torrente.—Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes.
Henrique nem alento já tinha para falar.
Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia
tão cerrada lhe envolveu o coração a
nuvem de melancolia,
que cedeu sem resistencia ao crescente
torpor que o invadia, como o que desespera da vida
e da salvação.
Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma
toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou
estes effeitos.
—É uma fiada em casa do Tapadas—disse o
almocreve.—É um dos maiores amigos do pae da
morgadinha. Vê aquelle muro acolá?
—Eu não vejo nada. Deixa-me!
—Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que
a morgadinha...
—Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha—exclamou
Henrique.
Era evidente emfim que estavam em pleno coração
do povoado. As casas appareciam mais juntas.
De algumas saía um surdo rumor de vozes que tinha
o que quer que era de lugubre. Era a corôa
rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave
do lavrador casava-se com a voz quebrada e trémula
do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e
a juvenil das raparigas e creanças n'aquelle piedoso
côro, produzindo um effeito que acabou por levar
ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.
—Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha,
que não a acabamos de attingir?
O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu
uma chicotada sibilante junto ás orelhas do muar,
o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do
almocreve,
estacou em frente de um portão de quinta
resguardado por um telheiro rustico.
—É aqui—disse o guia.
—Até que emfim!—exclamou Henrique, suspirando.
Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo
tempo, como o do homem cançado da vida, quando
antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima
a convicção de que a quinta de Alvapenha lhe
havia de servir de cemiterio.
II
O almocreve assentou duas vigorosas pancadas
no solido portão de castanho, deante do qual tinham
parado.
As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as
de dois cães, que acudiram de longe ao signal e
vieram ladrar á porta com furia, que fez agourar
mal a Henrique da cordialidade da recepção que o
esperava. De facto as intenções dos quadrupedes
não pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve
divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de
vime, apesar de quantas recommendações de
prudencia
lhe fazia Henrique, não em demasia socegado.
A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando
os cães á ordem, se é licito, sem
irreverencia,
empregar n'este caso a phrase consagrada para
outro genero de algazarra.
Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos,
levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e emfim
um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes
á porta e saudou-os com a fórmula do estylo:
—Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites.
E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique,
poz-se a miral-o com a menos ceremoniosa curiosidade.
—É o sobrinho cá da senhora, não
é verdade?
—Sou eu mesmo.
—Está um tempo muito azêdo. Eu já
julgava que
não vinham. Entre.
Henrique não se resolvia a acceitar o convite,
porque lhe continuavam a impôr respeito os olhares
ferinos e os rugidos surdos dos dois façanhosos
quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada.
—Entre, entre—insistia o homem.
—Mas esses animalejos?...
—Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo:
passa, Tyranno!
Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem
que não faziam mal!
—C'os diabos! ti'Manuel—disse o almocreve—em
occasião de se esperarem hospedes, não se soltam
assim os cães. Os diabos não são
nenhuns
cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das
Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes
as barrigas das pernas.
—Forte perca!—resmoneou o outro.—Não trouxesse
cá os d'elle. Não tem dúvida; entre o
senhor,
que elles não lhe fazem mal.
—Não entro; assim é que não
entro—teimou
Henrique, a quem as palavras do almocreve acabaram
de fortificar na sua resolução.
O homem em vista d'isto encolheu os hombros e
bradou:
—Ó Luiz!
Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu
ao chamamento.
—Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor
tem mêdo.
A creança, á palavra mêdo, fitou
Henrique com
uns olhos espantados, e tomando do chão um tronco
de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas feras,
que, com todos os signaes de respeito, de orelha
baixa e cauda abatida, fugiram deante d'ella.
O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um
tanto maltratado com o desfecho da scena; mas a
prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára ajuizadamente.
—Agora vossemecê—disse o camponez para o
almocreve—arranje-se
como puder e mais a bêsta ahi
pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao senhor.
—Vão, vão com Nossa Senhora, que eu
cá me
arranjarei. Muito boas noites, sr. Henriquinho.
—Adeus, José—disse Henrique, passando para
a mão do guia a esportula da gorgeta, e após
seguiu,
com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem
do lampeão.
Não era para dissipar a impressão penosa, que
subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe
offerecia, áquella hora da noite, a parte da quinta,
por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.
Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro
ou eido, estradado de altas camadas de matto
e embebido de chuva, d'onde se exhalava um cheiro
de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado
a estes aromas campezinos. A luz do lampeão
a custo conseguiu evitar a Henrique o tropeçar
n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia
para gallinhas, e em outros objectos que atrancavam
o quinteiro. Transpondo a cancella que terminava
este, seguiram por uma rua de folhas; atravessaram
diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados
mais alguns rodeios, acharam-se finalmente junto
da escadaria de pedra, por onde se subia para uma
especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia
de um modesto portico á casa de Alvapenha.
A propriedade da tia de Henrique era um genuino
typo de casa rustica, á moda do Minho.
Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar
os objectos á escassa luz que os allumiava, recebeu
Henrique a primeira impressão agradavel de
toda aquella mal estreada excursão.
Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre
avivaram n'elle memorias, quasi apagadas.
Lembrava-se agora vagamente de ter brincado alli,
a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora,
enfeitado de uma formidavel cohorte de aboboras meninas,
victimas votadas ás festas do proximo Natal.
A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um
grande vaso de louça, que elle, havia vinte e tantos
annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia vaga de
haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de
se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a
aza, sendo este o unico estrago que após tanto
tempo o velho utensilio soffrêra.
—É admiravel!—não pôde deixar de
exclamar
Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito
dias operava maior reforma nos seus aposentos em
Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava
em Alvapenha.
O hortelão bateu á porta e disse para dentro que
era o sobrinho da senhora que chegava.
Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de
vozes, um arrastar de passos; moveu-se a chave na
fechadura; abriram-se as portas e no limiar appareceu
de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz
d'ella, elevando a luz acima do hombro da ama, a
criada Maria de Jesus, a que, havia trinta annos,
lhe era companheira e interessada em lagrimas e
pesares. Já Henrique lhe andára ao collo no tempo
em que estivera creança na quinta.
Deante da figura esbelta, do typo varonil e do
comprido bigode de Henrique, a sr.
a
Dorothéa reprimiu
as suas expansões e quasi recuou.
Nunca mais vira Henrique desde que este, aos
cinco annos, deixára Alvapenha, e dir-se-hia que
esperava ainda encontrar os mesmos cabellos louros
e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa
creança de outros tempos, em vez do homem
feito, em que os vinte e tantos annos volvidos o
tinham transformado.
Ha d'estas illusões na gente.
A mais segura razão não está precavida
contra
ellas; a infundada surpreza invade-nos de subito, e
os labios não podem prender a
exclamação que a
denuncia.
—Pois na verdade tu és o Henriquinho?!—disse
espantada a boa senhora.
—Eu julgo que sim, tia Dorothéa.
—Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de
Jesus, você não quer vêr isto!?
—Parece mesmo um soldado!—disse a criada,
igualmente estupefacta.
—Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que
está a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal!—exclamou
a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia
a transição do homem para o diabo.
No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a
tia, que havia tanto tempo que não vira, e ella
correspondia-lhe,
beijando-o com todo o carinho e chorando.
Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade
que tinha n'aquella alma. A bondade é um rico manancial,
que brota lagrimas ao toque da menor
commoção.
Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se
dos roxeados amplexos e mais provas de
affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em novos
laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem
e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados,
como aquelles que veem a ferver do coração, e
isto
acompanhado de um—Ai o meu rico filho!—tão
eloquente como os beijos.
Henrique, habituado ás etiquetas da
civilisação
urbana, que estabelece entre amos e criados distancias
desconhecidas na aldeia, extranhou um pouco
a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões.
Maria de Jesus dizia, ainda admirada:
—Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois
é
este o menino que vinha á cozinha limpar o tacho,
em que se fazia a marmelada!
—É verdade! E que boa marmelada cá se fazia!
—Lambareiro!—disse a tia, sorrindo.—Se eu
soubesse que eras assim, não tinha mandado lavar
o tacho do dôce, que ainda hoje serviu.
—Sim? Então ainda se faz dôce cá em
casa, como
d'antes?—perguntou Henrique.
—Pois então? todos os annos. Mas valha-me
Deus! E não querem vêr nós aqui postas
á palestra!
Entra, menino, entra cá para dentro, que está
frio
e tu deves vir cançado.
—Um pouco, um pouco, tia Dorothéa.
E Henrique entrou para a sala.
Demoremo-nos no limiar para informar o leitor
sobre as pessoas, em cuja casa se vae alojar com
Henrique de Souzellas.
Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez
de paraiso, que estas duas mulheres—D. Dorothéa
e Maria de Jesus, ama e criada—gosavam na quinta
de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar
allivio aos seus muitos e variados males.
Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas
aos seus habitos, ambas muito tementes a Deus e
amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
alli uma vida, rescendente a um suave perfume de
santidade, como o da alfazema e do rosmaninho,
que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava
toda a roupa branca, objecto muito dos seus
cuidados.
A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos
entre as duas, poderia ser exemplo á maior
parte das familias d'este mundo. Entre velhas, que
nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral
faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais
para admirar o caso.
Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem
mutuas concessões; cada uma fechava os
olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu
uma só palavra, que, por mais alto pronunciada
ou por menos expressiva de paciencia, destoasse
da invariavel monotonia dos seus habituaes
dialogos.
Eram um exemplo edificante para os vizinhos,
que, pela maior parte, devorados por demandas entre
primos e irmãos, paes e filhos, marido e mulher,
mostravam infelizmente ser esta abençoada semente
caída em improductivo terreno.
As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento
affligiam as duas sexagenarias e augmentavam
o numero de Padre-Nossos com que todas
as noites se faziam lembrar dos santos, de quem
eram validas, pedindo-lhes a felicidade dos outros
tanto ou mais do que a sua propria.
Ouvir rezar as duas santas velhas—e era essa a
occupação dos seus curtos
serões—equivalia a escutar
uma resenha das differentes calamidades, que
perseguem e apoquentam o genero humano, e que
ellas, d'esta maneira, pretendiam evitar.
—Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal,
para que nos livre do fogo—dizia D. Dorothéa,
e seguia-se o Padre-Nosso.—Outro a Santa Luzia
milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma
e no corpo; outro a S. Braz, para que nos proteja
da garganta; outro a S. Vicente, por causa das bexigas,
etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os
que andam sobre as aguas do mar; outro por os
pobres sem abrigo nem alimento; outro por os orphãos;
outro pelos doentes; um pelos vivos; outro
pelos mortos; um pelos justos; outro pelas almas
do purgatorio, não hesitando até a sua caridade
em
transpôr as portas do inferno e pedir tambem a
remissão dos condemnados. E ainda depois d'esta
minuciosa e longa enumeração, um ultimo
Padre-Nosso
fechava a primeira serie, comprehendendo
todos os não contemplados por esquecidos, ou por
não terem logar na classificação.
Compunha a segunda serie a menção especial de
cada uma das pessoas fallecidas das suas
relações:
parentes, amigos e conhecidos, por cujo «eterno
descanço entre os resplendores da luz perpetua»
oravam com verdadeira compunção. N'esta phalange
ia tambem D. João VI, por quem, havia quarenta
annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e
não era
ella mulher que rompesse com habitos semi-seculares.
Era esse talvez o unico Padre-Nosso que a alma
do monarcha recebia no Céo, com procedencia do
seu antigo reino.
Quanto ás qualidades physicas, a
imaginação dos
leitores pintar-lh'as-ha melhor do que a minha
descripção.
Forçosamente conheceram uma d'estas boas
velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem
se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo;
que nos podem inspirar sacrificios e simultaneamente
nos tentam a travessura; a quem mystificamos
agora e logo beijamos respeitosamente a mão;
contra quem não reprimimos impaciencias, escutando
depois submissos os seus nunca terminados
sermões.
Ora estas velhas assim teem quasi sempre um
typo uniforme, que é o reflexo exterior da bondade
do coração; esse era o typo da tia
Dorothéa com o
seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado
no peito, a sua touca de folhos alvissimos e de fitas
escuras, o mólho de chaves á cinta, o livro de
orações
na algibeira e os oculos a marcarem no livro
a reza habitual.
Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma
edição popular da mesma alma. Succedêra
de mais
com ellas o que é sempre de esperar de uma longa
e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado
maneiras e modos de pensar e de vêr e de
dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo
de conclusão, se deduzia a outra facilmente.
Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao
primeiro exame que fez das duas santas mulheres.
Entremos agora com elle para dentro da sala.
Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa
de Alvapenha e ahi voltasse de novo com Henrique
julgaria, á vista da uniforme
disposição de coisas
mantida alli dentro em tão distantes épocas, que
todo esse tempo não fôra mais do que um sonho
de momentos.
Encontraria os mesmos móveis, na mesma
collocação;
as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais
desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas janellas;
o mesmo cheiro de feno e alfazema na
atmosphera dos quartos, os mesmos quadros na
parede, as mesmas jarras nas cómmodas.
A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana
memoria de rapaz estouvado, sentia-se acordar,
á vista d'aquillo tudo.
A sala tinha uma physionomia caracteristica.
Supponha-se uma não muito ampla quadra de
pouca altura, toda pintada a óca, e alumiada por
duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
competentes assentos de pedra, um defronte do outro,
com meias cortinas de cambraia sempre corridas—pleonasmo
de discrição que se não justificava,
visto que as janelas, abrindo para a quinta,
não tinham vizinhança de cujos olhares
precisassem
de recatar-se. O tecto era de almofadas de castanho,
em tempos pintado de azul, agora de uma côr duvidosa.
Havia quinze annos que D. Dorothéa falava
em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso
como era, ia sendo adiado de primavera para primavera.
Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija
saliente, onde coroadas maçãs de inverno
aguardavam,
em vistosa fileira, a completa maturação, e
derramavam no aposento o mais agradavel aroma.
O pavimento, apesar de muito picado de caruncho,
andava limpo e
escafunado—termo do
vocabulario
de casa—que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era
um museu de estampas de devoção. Poucos santos
e santas da côrte celestial não estavam alli
representados
e com um colorido, que era o maior peccado,
a que estes bemaventurados haviam dado logar
cá no mundo.
Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras;
Santa Anna ensinando Nossa Senhora a
ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João Novo,
no Porto; o Bom Jesus de Bouças,
representação
da imagem, que, segundo reza a respectiva
chronica, é obra das mãos de José de
Nicodemus;
os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de
S. Francisco, etc., etc. Sobre a cómmoda de pau
preto era devotamente venerado o mais rubicundo,
menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda
modelaram as mãos de santeiro afamado. E seja
dito de passagem que não sei por que a
tradição
popular dá a este austero franciscano o aspecto
chorudo de um moderno reitor de farta abbadia de
aldeia.
No interior da redoma onde se abrigava o santo
estava estabelecido o museu de raridades da tia Dorothéa.
Eram flores artificiaes, concharinhas e caramujos,
um rosario de caroços de azeitonas, uns
poucos de vintens de prata, enfiados e pendentes
do braço do menino Jesus, que o santo sustentava
ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos,
um pão do sacco de Santa Isabel, que vae
na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos
curiosos.
A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha,
que gemiam quando entravam em serviço,
como militar, cujas articulações o rheumatismo
invadiu;
mesas cobertas com colchas de chita; bahús
cravados de pregaria amarella, disposta em lettras
e arabescos; uma papeleira de pau santo, e uma
gaiola com um canario decrepito, objecto, havia
muitos annos, das tentações de um gato, mais
decrepito
do que elle e pertencente ás classes inactivas.
Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de
beatitude e de antiguidade que alli se respirava, os
habitos da casa, sentia já certo desconfôrto, como
de quem é arrancado de subito ao ambiente, em
que se educou e vive, e engolfado n'um ambiente
extranho; especie de asphyxia moral, não menos
angustiosa do que a do peixe fóra da agua.
A saudade que ao principio sentira, dissipára-se
já. O perfume da saudade é como o de certas
flores,
que só se percebe quando de longe o recebemos.
Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto,
dissipa-se.
Acontecera isto com Henrique.
Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a
crença de que não seria por muito tempo que se
demoraria alli.
—Os emollientes do doutor—pensava elle, emquanto
sua tia falava—serão efficazes para quem
os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim...
No entretanto sentou-se.
—Ora o Henriquinho!—dizia ainda D. Dorothéa,
pondo-se de braços cruzados em
contemplação defronte
d'elle.—Ó menino, onde foste tu arranjar
esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se?
Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.
—Quem quer usar, usa, tia. Não é
obrigação—respondeu
elle, com leve mau humor.
—Em nome do Padre e do Filho!—dizia Maria
de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da
ama.—Até nem sei que parece, lembrar-se a gente
que trouxe este marmanjão ao collo!
O termo «marmanjão» não soou
bem a Henrique.
Principiava tambem a impaciental-o o vêr as duas
embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito a
uma exposição d'estas, por mais que
faça, não atina
com o modo de arrostar com ella, que não seja ridiculo.
Ora Henrique, como todo o homem da sociedade,
o que mais que tudo temia n'este mundo
era o ridiculo.
Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da
tia Dorothéa, que fez perceber á criada a
conveniencia
de ir preparando a ceia de Henrique, que
havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não
costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas
e a má alimentação dos ultimos dias,
haviam-lhe
desafiado o appetite. Demais, o espanto de
D. Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias
não entravam nos seus habitos, foi tal que lhe tirou
o animo de rejeitar.
—Não ceias! Ó menino, que me dizes?
então
vaes-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso vocês
são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar
toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento
ao estomago, que aconchegue. Nada, nada; a
ceinha em todo o caso. E tu has de tambem querer
mudar de fato?
—Eu venho bastante molhado.
—Ai, então depressa, menino, que não ha nada
peor do que a roupa molhada no corpo. Ó Maria...
ou deixe estar, eu vou... Anda, Henriquinho,
anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te
arranjares.
Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado
e commodamente vestido, saboreava uma gorda gallinha
de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
lavada, e na melhor louça da copeira.
Elle que tinha sempre severidades de critica contra
os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava
achando deliciosa aquella comida primitiva, com
que o regalava a tia.
Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma
familiaridade, que Henrique já anteriormente
extranhára,
Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.
Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao
cerrar da noite.
Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem
de o observar com a natural curiosidade de quem
havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe
perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme
lhe era possivel.
—Tu dizias-me na tua carta que estavas doente;
pois olha que na cara não o parece.
—Não—concordou a criada—tem boas côres,
e, vamos, a magreza inda não é lá
essas coisas.
Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu
logo ao reclamo.
—Não me digam isso! Então não
vêem como
estou? Pois isto é lá côr de saude? de
febre, será.
Gordo? pois acham-me gordo?!
—Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois
como vieste de jornada... Mas a final que molestia
é a tua, menino?
—Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a
conhecem
bem. É, entre outras coisas, uma tristeza,
uma melancolia, que me não deixa, que me persegue
por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto
apertar-se-me dolorosamente o coração; outras,
são
palpitações, ancias... Tenho quasi vontade de
chorar,
irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem,
nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio,
não durmo, não como. Finalmente todo eu sou
doença e tristeza.
A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e
attenção
para o sobrinho, emquanto elle falava, e na
physionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvil-o, os
mais expressivos signaes de espanto e
consternação.
Assim que Henrique terminou a exposição, ella
disse-lhe com uma adoravel candura:
—Então é assim uma especie de mania!
Á palavra «mania» Henrique
sobresaltou-se. Seria
a consciencia que se sentiu ferida?
—Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem,
olhe que o termo é forte? Mania!
—Sim, menino—insistiu ingenuamente a boa senhora—pois
olha que não é outra coisa. Pois isto
de estar triste sem ter de quê... sim... porque
não te morrendo ninguem, nem te doendo nada...
Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas,
que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das
folhas, no murmurar dos arroios, queixas occultas
de dryades e de nayades, sentidas vibrações das
harpas de fadas aereas, que vivem em palacios de
nuvens; ó corações inoculados de
poesia, que vos
confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar
do dia, ao desfolhar das arvores no outomno;
poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes
interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras,
perdoae a involuntaria blasphemia da tia Dorothéa,
que não contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe
a dura expressão de que ella se serviu para
caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas
tristezas vagas, os vossos devaneios, e crêde que,
apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada
para sympathisar comvosco, do que tantas
que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor.
Henrique não podia porém digerir a
expressão,
de que se servira a tia, para diagnosticar o seu
mal.
—Mania!—repetia elle—essa agora! Sempre é
forte de mais. Mania, não, tia Dorothéa,
lá isso não.
Mania!
—Eu lhe digo—acudiu a criada.—Não vá sem
resposta; que está quasi como o cunhado da Rosa
do Bacello. A senhora não se lembra? Andou aquella
alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só,
até que a final lá foi parar...
—Aonde?—perguntou Henrique, erguendo os
olhos interrogadoramente para a criada.
—Lá foi parar a Rilhafolles—concluiu esta, espevitando
a véla o mais naturalmente d'este mundo.
Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.
Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo
de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar
lhe soubera.
—Então não comes mais?—perguntou a tia.
—Muito agradecido; eu o mais que tenho é
somno.
—Pois sim, mas é preciso fazer por comer—insistiu
ella.
—Ora vá mais este côxão—disse a
criada.
—Não é possivel—teimou Henrique, e insistiu
para se recolher ao quarto.
—Tens razão, tens—concordou a tia
Dorothéa—deves
estar fatigado. Vae com Nossa Senhora,
menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que
isso não é bom. É fazer por
espairecer. Come, bebe,
passeia, que é o que dá saude. Nada de malucar.
—Sim—accrescentou a criada—e não queira
estar doente, que não tem graça nenhuma.
—E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem
te podes distrahir. O brazileiro Seabra, que tem uma
casa como um palacio; o Augustito do doutor, que é
um bom mocinho. E depois vae dar um passeio
por ahi, um dia até os moinhos outro dia até
á ermida
da Senhora da Saude. Agora me lembra: a
Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado
o hospede—disse D. Dorothéa.
—Não foi só a morgadinha...
—Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha.
—Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas
as outras senhoras mandaram tambem o Torquato
saber do sr. Henrique. A sr.
a D. Victoria e a
Christininha.
—Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender
com aquella gente. É uma gente muito dada
e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha,
ámanhã podes
ir visital-as. É um passeio bonito.
Henrique, que tinha estado distrahido durante a
conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir
no dialogo em que ellas dispunham já do seu
tempo e traçavam-lhe planos de vida.
—Mas vae descançar, menino, vae e faze por
dormir. Olha lá, tu costumas dormir com luz?
—Não, tia, não costumo.
—É porque n'esse caso... Ó Maria, onde
está
aquella lamparina, que me serviu quando eu estive
doente, ha seis annos?
—Está lá dentro, senhora; se a senhora quer
eu...
—Vê lá, menino...
—Não tia, não quero.
—Ha pessoas que não podem dormir ás
escuras—dizia
a criada.—Eu, graças a Deus, durmo bem
de qualquer fórma.
—Pois sim, mas nem todos são como você. Olha,
ó Henriquinho, has de vêr se queres o travesseiro
mais alto ou...
—Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar
bom—disse Henrique, procurando fugir ás
muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que
as duas o iam perseguindo até o quarto.
—Olha, ó menino, tu bebes agua de noite?
—Ás vezes.
—Você poz-lhe agua no quarto, Maria?
—Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha
mãezinha dizia, que antes sem luz do que sem
agua.
—Bem, então está bom. Então muito boa
noite,
menino.
—Boa noite, tia.
—Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa
na cama.
—Não hei de querer, não, tia.
—Olha que está muito frio. Você quantos
cobertores
lhe deitou, ó Maria?
—Cinco, senhora.
—Cinco!—exclamou Henrique, quasi horrorisado.—Cinco
cobertores!
—É pouco?
—Pouco?—É de morrer esmagado debaixo
d'elles.
—Ai, quer não! Olha que está muito frio.
—Bem, bem; eu cá me arranjarei.
—Então, muito boa noite.
—Muito boa noite, tia.
E Henrique ia a fechar a porta.
—Olha...—disse ainda a tia.
Henrique parou.
—Não sei o que é que me esquece...
—Não ha de ser nada, tia; boa noite.
—Não esquecerá?... Eu sei?... Emfim... boa
noite. Ai, é verdade... Sempre é bom ficar com
lumes promptos.
—Ai, sim; lá isso sempre é bom.
—Vês? não que bem me parecia.
—Já lá estão, senhora—disse a criada
de longe.
—Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso
Senhor, menino.
—Muito boa noite, tia.
E Henrique conseguiu fechar a porta.
Estava finalmente só.
—Que desastrada lembrança a minha!—disse o
pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si.—Como
posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que
chama manias aos meus padecimentos? Que futuro
de impertinencias me espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e
pensar eu que só posso voltar para ti á custa de
outra jornada!
O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade.
Um alto leito de almofadas na cabeceira e
rodapé de chita, tão alto que se não
dispensava o
auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma
commoda com um pequeno espelho, um bahú, um
lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam a mobilia
toda.
Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos
objectos de toucador, a que estava habituado.
Aquelle estrictamente necessario não lhe promettia
grandes confortos.
Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo
e respirava um asseio e frescura convidativos:
os travesseiros, de largos folhos engommados, possuiam
uma molleza agradavel ás faces; o colchão
de pennas abatia-se suavemente sob o peso do corpo
fatigado.
Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador,
pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo
um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a ler, para
obedecer a um habito adquirido.
Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando
ouviu a voz da tia Dorothéa, que lhe dizia de
fóra
da porta:
—Ó menino, tu já te deitaste?
—Já, sim, tia Dorothéa.
—Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um
mêdo de fogos!
—Esteja descançada, tia. Eu apago já.
—Então será melhor. S. Marçal nos
acuda.
E afastou-se, rezando ao santo.
Henrique continuou a ler.
D'ahi a pouco a mesma voz:
—Tu já dormes, Henriquinho?
—Não, tia, ainda não durmo.
—Olha que não vás adormecer sem apagar a
luz. Eu tenho um mêdo de fogos! Não
descanço,
emquanto não vejo tudo apagado em casa.
Henrique perdeu a paciencia.
—Pois pode socegar, olhe.
E apagou a véla, meio zangado.
—Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e
é
melhor fazer por dormir. Então, muito boas noites.
—Muito boas noites—respondeu Henrique quasi
amuado; e ageitando-se na cama, dizia comsigo:—E
esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui.
Olhem que vida me espera! É isto o que me devia
curar? Que fatalidade!
Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de
papa, unicos que conservava dos cinco primitivos,
começaram a fazer o seu effeito, insinuando nos
membros cançados da jornada um agradavel calor.
Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque
que ficava por debaixo das janellas do quarto e as
gottas da chuva, que dos beiraes do telhado caíam
compassadas na taboa do peitoril.
A noite socegára. De quando em quando apenas
algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam
bater as vidraças.
Eram como estes estados, que succedem a um
choro aberto. Correm ainda algumas lagrimas nas
faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem
ainda do peito os soluços, porém mais
espaçados;
dentro em pouco será completa a serenidade.
Henrique começou a experimentar uma languidez,
um delicioso bem-estar n'aquelle confortavel
leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente,
no mais profundo, tranquillo e restaurador
somno, que, havia muito tempo, tinha dormido.
III
Ao romper da manhã, quando a consciencia
principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos,
até então tomados pelo torpôr de um
somno profundo,
Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente
sentado em uma cadeira de S. Carlos,
disposto a assistir ao desempenho de uma opera
favorita.
Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos
e contrabassos; sopravam, a plena bôca,
os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros;
dedos amestrados faziam vibrar as cordas da
harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os
ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique,
de toda esta riqueza de instrumentação, mais
do que uma nota unica, arrastada, continua, plangente,
baixando e subindo na escala dos tons, e sem
formar uma só phrase musical.
Era de desesperar um
dilettante como
elle; torcia-se
na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça,
fazia das mãos cornetas acusticas, e sempre
o mesmo resultado!
Este violento estado de attenção, este
esforço do
sensorio, principiou n'elle a obra de despertar; principiou
pois pelos ouvidos, mas cêdo se transmittiu
a todos os outros orgãos.
Antes de dar a si proprio conta do que era
aquelle som, e quasi esquecido ainda do logar em
que estava, Henrique abriu os olhos.
A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas
das janellas e espalhava no aposento uma tenue
claridade.
Veio então a Henrique a consciencia do logar
em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou
o coração.
O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de
pesadêlos, ou de somnos febris, não avalia por
certo
o contentamento intimo, que se apossa das desgraçadas
victimas d'esses demonios nocturnos, quando
por excepção elles as deixam em paz, e lhes
respeitam
o somno de uma noite completa. Acordar
só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis
prazeres, a que elles aspiram na vida.
Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor;
a arca do peito expande-se-lhes mais livre e
as sombras do espirito dissipam-se-lhes com aquelle
clarão matinal.
Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira
vez depois de muitos mezes, dormira de um somno
a noite inteira.
Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso,
tão
contente que teve vontade de cantar.
Mas o som, que o acordára, aquella nota unica,
em que se confundiam todas as notas da sonhada
orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.
Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu
que era o chiar dos carros—o mesmo som, que
na vespera o irritára, agora assim a distancia, estava-lhe
agradando, como nota extrahida por mão
habil das cordas de um violino.
Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella
manhã o incitava ao exercicio, rara
disposição no
indolente filho da capital, que tinha por habito ouvir
o meio dia na cama.
Ergueu-se e abriu as janellas.
Não é licita a comparação
entre a mais surprehendente
transmutação de uma d'essas apparatosas
magicas, que tanto extasiam as multidões embasbacadas
nas plateias e camarotes de um theatro, e
as que de instante para instante, realisa a natureza.
Descerrando o véo de nuvens que encobre o fulgor
do sol, elevando, acima do horizonte, esse magestoso
lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor
que illumina as noites desanuviadas, a natureza
opéra, a cada momento, as mais admiraveis e completas
metamorphoses.
Durante o somno de Henrique realisára-se um
d'esses effeitos magicos.
Abrandára gradualmente a violencia do sul; o
vento, mudando, voltou em sentido opposto a
grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram
perante o alvor do dia, e quando o sol
assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe
deante um vasto manto azul, tapetando a estrada,
que tinha a percorrer. Só, muito para o occidente,
ainda algumas nuvens amontoadas formavam
uma como franja, que o astro nascente em breve
tingiu de carmim e de ouro.
Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa,
cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas
serenas que penetraram no quarto de Henrique,
quando elle abriu as janellas.
A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito
uma exclamação de prazer!
A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste
que, com o coração apertado,
atravessára na vespera,
parecia outra.
O sol da manhã baixára sobre ella,
dissipára-lhe
as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe
nas presas, dispersára-se em iris cambiantes na
espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a
de aromas, animára-a de cantos, transformára-a
emfim na mais risonha paizagem, em que
os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas
galas do Minho, tinham nunca repousado.
O inverno despojára parte d'essas galas; embora!
Até da propria nudez de algumas arvores resultavam
encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos,
as moitas sem flores infundem tristeza; mas
não tem a tristeza poesia tambem? Pode haver
completa paizagem onde não haja uns tons escuros
de melancolia?
Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de
pedra do quarto, não se cançava de admirar
aquella
scena.
Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas,
que, n'um momento, elevam, nos ermos, jardins
e paços, como os de Armida e Alcina.
Pois era esta a mesma aldeia, através da qual
elle cavalgára de noite?
Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que
tão do fundo da alma amaldiçoára na
vespera, produziam,
vistos então d'alli, os mais pittorescos effeitos.
Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo
valle, opulento em vegetação, e que a certa
distancia
se continuava insensivel e gradualmente com
uma amenissima collina.
Além, um bello bosque de carvalhos seculares,
que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi
da côr da violeta, contrastava com a fronde sempre
verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde
por entre a qual se divisavam abundantes os dourados
fructos, poupados pela mão do lavrador. As
copas, como umbelladas dos pinheiros mansos,