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Rita
Farinha (Ago. 2009)
VESPERAS DO CENTENARIO DA INDIA
I
O THESOURO DO REI FERNANDO
HISTORIA ANECDOTICA DE UM TRATADO INEDITO
1369-1378
POR
LUCIANO CORDEIRO
COMMUNICAÇÃO Á SOCIEDADE DE
GEOGRAPHIA,
DE UM DOCUMENTO DESCOBERTO EM ANGERS
POR
M. CHARLES URSEAU
...esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.
Cam.,
Lus., c. III.
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1895
O THESOURO DO REI FERNANDO
VESPERAS DO CENTENARIO DA INDIA
I
O THESOURO DO REI FERNANDO
HISTORIA ANECDOTICA DE UM TRATADO INEDITO
1369-1378
POR
LUCIANO CORDEIRO
COMMUNICAÇÃO Á SOCIEDADE DE
GEOGRAPHIA,
DE UM DOCUMENTO DESCOBERTO EM ANGERS
POR
M. CHARLES URSEAU
...esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.
Cam.,
Lus., c. III.
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1895
A
Ernesto de Vasconcellos
e
Jeronymo da Camara Manuel
Preparando um trabalho de investigação e de
historia local, o
sr. Carlos Urseau, secretario do Bispo de Angers, monsenhor Freppel,
e escriptor excellentemente conhecido por notaveis estudos sobre o
Anjou, descobriu um documento que, de accordo com alguns dos mais
doutos membros da Academia de Inscripções de
París, considerou como
de particular importancia para a historia da marinha portugueza.
N'esta idéa, e porque não podia, desde logo,
utilisar esse documento
para a sua obra, o intelligente investigador lembrou-se de
pôr
directamente á disposição do nosso
paiz uma copia do interessante
diploma.
Em regra, os governos não se importam com estas cousas, e os
nossos estão muito longe de fazer
excepção á regra.
Tendo conhecimento da descoberta do sr. Urseau e prevendo o
valor que ella poderia ter em relação a um
episodio apenas vagamente
alludido pelos historiadores nacionaes, e do qual já o velho
Fernão Lopes notára a escassa
tradição escripta
[1],
escrevi ao douto
abbade francez, que immediata e graciosamente me enviou uma bella
copia do documento, auctorisando-me a estudal-o e reproduzil-o.
Poucas palavras bastam para o explicar e esclarecer, mas são
indispensaveis essas palavras.
Digâmos, desde já, que documento é este.
É uma escriptura de ratificação e
confirmação plena, feita na cidade
da Guarda, em 14 de agosto de 1377
(
Era 1415), de um tratado
pactuado e jurado em Bicêtre,--
vulgariter
dicto Vicestre,--no
paço do Duque de Anjou, a 29 de junho d'aquelle anno, entre
o Rei
de Portugal, Dom Fernando I e o Duque, Luiz,--irmão do Rei
de
França, Carlos V e segundo filho do Rei João o
Bom,--para juntos
moverem uma guerra de exterminío, por mar e por terra, ao
Rei de
Aragão, Dom Pedro
o do
Punhal,--
En Pere del
Punyalet--, ou,
como é mais conhecido, Dom Pedro IV
o
Ceremonioso.
Do lado da França ou da casa de Anjou:--a velha e sangrenta
questão da expansão e da influencia Mediterranea,
que hoje, ainda,
sentimos palpitar sob a interessante comedia da politica
europêa.
Á força de perfidia e de intrepidez, Pedro IV
apoderára-se do
reino de Maiorca e dos dominios do Rossilhão, da Ceritania,
da Sardanha,
etc.
É uma longa e tragica historia.
O Duque reivindicava,--e logo diremos porque,--a herança do
reino Balear.
Da parte de Portugal:--e esta parte é a que mais nos
interessa,--um
gracioso episodio, apenas, uma simples anecdota do brio despeitado
e impetuoso do Rei Dom Fernando, mas episodio e anecdota que
irrecusavelmente pertence á intriga, sempre viva, tambem,
das preoccupações
e dos interesses da politica Peninsular.
Seguramente, a Escriptura foi enviada ao Duque de Anjou, attestando
a ratificação e confirmação
pessoal e directa do Rei portuguez,
e assim se explica logo o encontro do documento, em Angers.
Lavrou-o o tabellião publico Alvaro Estevão,
clerigo da Sé da
Guarda, no paço episcopal d'aquella cidade, estando
presentes o Rei
Dom Fernando; o irmão, Infante Dom João,
certamente o que mezes
depois havia de matar a mulher, a pobre Dona Maria Telles de
Menezes;--o Conde de Arrayolos, Dom Alvaro Pedro; o Conde de
Neiva, Dom Gonçalo Tello; Fernão Affonso de
Albuquerque, e outros
fidalgos e cavalleiros; em summa, a
Curia, o Conselho, a Côrte
que a Rainha Dona Leonor Telles formára, com a sua numerosa
parentella
e com os seus interesseiros partidarios, em volta do enamorado
monarcha.
Serviam nomeadamente de testemunhas: Gonçalo Vaz de Azevedo;
Martim Affonso de Mello; Affonso Gomes da Silva, Senhor de
Celorico; Vasco Martins de Mello, Guarda Mór do Reino e
Fronteiro
do Algarve; Vasco Fernandes Coutinho, Fronteiro da Beira; Doutor
Gonçalo Gomes da Silva, Vedor, e Affonso Pedro,
Tabellião Real,
nomes que vieram fazendo maior ou menor ruido até
nós, pela Geneologia,
uns, pela Historia, quasi todos.
Por signal que da Geneologia quiz expulsar alguns a austeridade
patriotica de Damião de Goes:--«porque se deitaram
em Castella em
tempo de El-Rei Dom João o Primeiro
[2]».
Assim: Martim Affonso de Mello, se é «o
filho», o poderoso Rico-Homem,
Senhor de Cea, Gouveia e Linhares,--«foi o primeiro que foi
para El-Rei de Castella quando entrou em Portugal pela cidade
da Guarda».
Resgata-lhe a traição e a dos filhos, o
irmão, um dos signatarios
tambem: Vasco Martins de Mello, o que fez depois--«o bom
feito»--de
não assassinar o futuro Dom João
I,--«por indusimento»--da
Rainha e do amante d'ella, Dom João Fernandes Andeiro.
Apresentou o Conselheiro privado, João Gonçalves,
os
Capitulos
que constituiam a Convenção negociada e jurada em
França pelos
diplomatas portuguezes que lá tinham ido:
Lourenço
João
Fogaça,
Vice-Chanceller; o proprio apresentante, e o Archidiacono da
Sé de
Lisboa, Pedro
Cavalerio, que faz
naturalmente lembrar o patronyimico
beirão, aliás moderno, de
Cavalheiro, hoje bem conhecido, mas
que
devia ser, antes, um d'aquelles
cavalarios,--
cabalarii:
milites vilani,--ou
cavalleiros vilões que conseguiam, ás vezes,
medir-se e concorrer
com os mais aristocraticos e authenticos
milites.
De
Cavalleiros, se formou
até um titulo ou appellido nobiliarchico,
para os lados de Montemór o Velho
[3].
Quer dizer: o cavalleiro villão fez-se cavalleiro fidalgo.
Cabe aqui uma observação.
Fernão Lopes, fallando d'esta embaixada, fal-a composta,
apenas,
de Lourenço
Annes
Fogaça,--«Chanceller Mór»,--e
do Secretario
Real, João Gonçalves. O
Annes comprehende-se que se
transformasse
em
João
(
Johannes) no texto, ou que
parecesse tal na leitura e na
copia. É, porém, mais reparavel a
differença do cargo, e em todo o
caso o Chronista esqueceu Pedro Cavalleiro.
Incluem-se, integralmente, na Escriptura esses
Capitulos que haviam
já sido reduzidos a outra, em França, pelos
Tabelliães e Clerigos
Estevão Borneti e João Orrio de Angers, na
presença, igualmente,
do Duque Luiz de Anjou; dos Bispos e Conselheiros do Rei
de França, Armerico, Milone e Lourenço; de Hugo,
Abbade de São
Guilherme do Deserto; do Archidiacono Regnault de Dorman; de
Pedro Statisse, Cavalleiro, e do Doutor Raymundo Bernardo Flamech,
Conselheiro Ducal.
Na mesma Escriptura se transcreve ainda a
Procuração ou Carta
de Crença do Rei Portuguez e a
ratificação pessoal do Duque.
Em seguida ao curioso
signal publico
do Tabellião apparece tambem
a ratificação, de proprio punho, do Rei Dom
Fernando.
D'esta summaria indicação se deduz já,
irresistivelmente, o valor
notavel do desconhecido documento.
É como que a reconstrucção de um
Capitulo da bella Chronica de
Dom Fernando, por Fernão Lopes, confirmando, mais uma vez, a
veracidade do historiador, mas ampliando as suas
investigações e noticias;
supprindo e preenchendo as deficiencias, as
hesitações, as lacunas
da breve narrativa d'elle.
Um facto explica a participação portugueza n'este
extraordinario
Tratado, mas esse facto é que não é
explicado n'elle.
É, pois, indispensavel fazel-o.
I
Offerece o desorientado e desastroso reinado de Dom Fernando
uma lição critica de primeira importancia:--a de
mostrar, irrecusavelmente,
como na segunda metade do seculo XIV se achava já fortemente
constituida a Monarchia Portugueza n'esta sua perfeita e singular
identificação com a Independencia Nacional, que
tem sido a
força e tem de ser hoje ou no futuro, ainda, a
rasão melhor, a salvação
unica d'essa Monarchia.
N'uma ridicula obsessão de propaganda politica costumam
alguns
escriptores hespanhoes insinuar, com a maior seriedade do mundo,
que a formação e a
separação de Portugal, como individualidade
historica
independente, da moderna Hespanha, não foi e não
tem sido
mais do que o resultado artificioso da politica e dos interesses
realengos
e dynasticos.
Como certo sectarismo superficial e nescio que suppõe a
Religião
uma invenção de padres, os propagandistas
ibericos, na mais petulante
ignorancia da Historia ou na mais atrevida
viciação d'ella, simulam
crer que os systemas politicos são simples
creações arbitrarias e que
os interesses dos Reis ou das Facções
é que têem realmente presidido,
até hoje, á formação e aos
destinos dos Estados e das Nações.
Invertidos, porém, os termos, aquelle colossal disparate
poderia
obter certos fóros de acceitavel
lição, pois que ao contrario, exactamente,
têem sido quasi sempre os interesses e as
preoccupações dos
Politicos, das Facções e das Familias que
têem ensaiado, e que ainda
diligenceiam e doutrinam, o artificio de uma fusão ou de uma
unidade
Peninsular.
Se essa tem sido e é, fatalmente, a illusão e a
ambição da Politica
Hespanhola, mais de um cerebro de Rei Portuguez, tambem, parece
ter sido atravessado pelo mesmo inconsistente sonho, sempre, e
mais ou menos desastrosamente mallogrado e desfeito de encontro
ás
leis implacaveis da Natureza e da Historia que formam, constituem e
garantem as individualidades nacionaes.
Fechando tristemente a primeira Dynastia com a pretensão
á Corôa
de Castella e com o compromisso de uma Successão
estrangeira,--compromisso
que era uma verdadeira traição á obra
persistente
e gloriosa d'essa Dynastia,--Dom Fernando I, com todas as loucuras
e desastres da sua politica, não pôde
já dissolver e afundar a Nacionalidade
Portugueza no vortice de intrigas, de perfidias e de violencias
em que tinham de ir desapparecendo, successivamente, as outras
nações da Peninsula.
Ha em Fernão Lopes um capitulo extremamente instructivo e
luminoso.
É aquelle em que o grande Chronista, que viu alvorecer o
seculo
XV, narra as complicadas negociações e os
significativos commentarios
do casamento da filha de Dom Fernando e de Dona Leonor
Telles, a Infanta Dona Beatriz,--herdeira da Corôa
Portugueza,--com
o Rei de Castella, Dom João, no mesmo anno em que Dom
Fernando
morreu.
Mal o Rei de Castella enviuvára pela morte da Princeza
Aragoneza.
com quem, exactamente, chegára a desposar-se Dom Fernando,
Leonor Telles e a sua camarilha levaram o Rei Portuguez a mandar
propor ao Castelhano que lhe recebesse a filha por mulher, e um dos
mais seductores argumentos empregados pelo embaixador:--João
Fernandes Andeiro, Conde de Ourem, o amante da propria Rainha,--foi
o de que por tal casamento o Rei de Castella sel-o-ía tambem
de
Portugal e facilmente se apoderaria d'este.
A sinistra adultera atraiçoava a Patria, como
traíra os dois maridos.
É claro que o Hespanhol não se fez rogar
[4].
Mas porque a traição era arriscada, e convinha
guardar um pouco
as conveniencias; porventura, tambem, por illudir quaesquer escrupulos
de consciencia do pobre Dom Fernando, estabeleceram-se certas
reservas e precauções, uma das quaes seria a de
que havendo
filho ou filha d'aquelle consorcio, a elle ou a ella fosse devolvida
a Corôa de Portugal para que a continuasse independente e
soberana.
Por isso--«diziam alguns fidalgos de Castella, joguetando,
que
antes saberiam capar El-Rei seu Senhor por nunca haver filho nem
filha, e ajuntar o Reino de Portugal ao de Castella, e ser Rei d'elle,
que haver filho ou filha que d'elle fosse Senhor e ficar Reino sobre
si
[5]».
«Joguetariam»,--assim tambem, alguns Politicos e
Estadistas do
nosso tempo!...
Tudo isto, porém, se passou muito depois da epocha a que o
nosso documento pertence, e não é, certamente,
esta eloquente lição,--por
demais repetida,--que agora nos importa commentar.
É apenas um obscuro episodio da leviana politica de Dom
Fernando
que desejâmos esclarecer e definir rapidamente como
necessaria
introducção ao interessante diploma encontrado
pelo sr. Carlos
Urseau.
Nos primeiros mezes de 1367, Dom Fernando, o novo Rei Portuguez,
recebia, quasi simultaneamente, em Alcanhões, proximo de
Santarem,
duas embaixadas estrangeiras, e com ellas firmava dois tratados
de paz e alliança, inspirados em interesses e em politicas
já
soffrivelmente contrarias:--um com o Rei de Aragão, Dom
Pedro IV,
o
Ceremonioso, o outro com o
pretendente triumphante da Corôa de
Castella, Dom Henrique de Trastamara ou Dom Henrique II, o
Bastardo.
Como, porém, n'esse anno ainda, o irmão do
Bastardo, o foragido
Rei Castelhano, Dom Pedro o
Cruel,
reentrasse em Castella, e de
Sevilha enviasse uma embaixada a Portugal, com elle firmava Dom
Fernando, em Coimbra, uma alliança contraria á
que acabava de jurar
com Dom Henrique.
Havia, porventura, uma certa habilidade, um certo fundo de boa
e tradicional politica, n'esta volubilidade escandalosa, posto que
muito
vulgar no tempo.
Apesar de toda a sua feliz intrepidez e do auxilio precario dos
inglezes, aquelle doido sanguinario que o pae de Dom Fernando, o
nosso Dom Pedro I, não quizera acolher e auxiliar contra o
Trastamara,
não podia já inspirar-nos grandes receios.
Estaria perdido se,
tendo de combater desesperadamente o Pretendente e o Aragão,
de
um lado, sentindo em volta crescer, ameaçadoras, as ondas de
sangue
que derramava, não podesse contar com a neutralidade
portugueza,
do outro lado.
O que nos convinha, porém, era evidentemente que os lobos
que
disputavam a Corôa da Monarchia Central a enfraquecessem e
esphacelassem
n'essa feroz contenda, indo-nos, nós, consolidando e
fortalecendo,
tranquillamente.
Mas dois annos depois, assassinado Dom Pedro o
Cruel pelo bastardo
irmão, em Montiel, Dom Fernando lembra-se do seu velho
parentesco
com a Casa de Castella; acceita bruscamente a candidatura
d'essa Corôa; faz um tratado com o Rei mouro de Granada
contra
Dom Henrique; invade a Galliza, e negoceia com o Rei de
Aragão
uma alliança offensiva, mandando pedir-lhe em casamento uma
filha,
a Infanta Dona Leonor.
Posto que distanciados ainda, chronologicamente, do nosso documento,
ver-se-ha que entrâmos já na sua historia.
Ao mesmo tempo que em pessoa invadia e insurreccionava, ao
norte, as terras castelhanas
[6],
Dom Fernando expedia de Lisboa uma
esquadra de trinta naus e vinte e oito galés, para o sul,
ameaçando
pela Andaluzia, o
Bastardo.
Muito ao contrario do que ainda hoje geralmente se pensa e se
escreve,--entre nós até!--a expansão
maritima de Portugal, começando
com elle, desde os primeiros reinados ensaiava os vôos que
haviam
de leval-a aos confins do Mundo e ás
culminações da Historia.
Alguns escriptores hespanhoes dão como inteiramente
destroçada
a expedição naval de Dom Fernando, pelas
forças maritimas do Trastamara.
Não é verdade. É talvez uma
confusão com outra.
O Trastamara desenvolveu realmente uma prodigiosa actividade,
logrando pôr no mar e reunir forças importantes.
A nossa esquadra, tendo destruido Cadiz e ameaçado Sevilha,
enfraquecêra-se
na precipitada campanha e á
approximação das forças
navaes do
Bastardo
lançou-se ao mar alto, evitando a collisão.
Pouco depois, porém, subia, de novo, o Guadalquibir.
Os Castelhanos bloquearam, então, a foz do rio, tendo
primeiro
surprehendido na altura do Cabo de Santa Maria uma nau que se dirigia
a Barrameda, levando provisões e 100:000 libras para
pagamento
do soldo ao cruzeiro portuguez.
A Historia conservou o nome do Mestre d'essa nau, que, com outros,
foi morto na desigual refrega.
Chamava-se Nicolau Antonio Estominho.
Contavam, pois, os Castelhanos apoderar-se dos mais navios portuguezes,
mas estes romperam o bloqueio e salvaram-se por um curioso
processo.
Descendo para o mar e avistando a numerosa armada Castelhana,
em ordem de batalha, a tolher-lhes vantajosamente a saída,
as galés
portuguezas incendiaram dois navios carregados de azeite e
lançaram-nos
adiante, á feição da corrente e do
vento.
Evitando esta vanguarda de fogo, os navios castelhanos desordenaram-se,
e os Portuguezes ganharam o mar.
Comtudo, a campanha naval foi pouco menos que infructifera e a
terrestre tornou-se rapidamente desastrosa.
Tendo entrado na Corunha, Dom Fernando soube que o
Bastardo
vinha cortar-lhe a retirada e invadir-lhe o Reino. Voltou, pois,
precipitadamente,
por mar, n'uma galé commandada por Nuno Martins,
vindo desembarcar no Porto e dirigindo-se para o sul do Reino,
naturalmente
no pensamento de organisar a defeza.
Sabendo-o, Dom Henrique invade impetuosamente o paiz, conseguindo
apoderar-se de Braga, depois de alguns dias de vigorosa resistencia,
e abandonando-a e incendiando-a em seguida, vae pôr apertado
cerco a Guimarães.
Procurando, talvez, ganhar tempo e obter uma tregoa que o
désse
á conclusão da alliança com o
Aragão, Dom Fernando expede de
Evora um dos seus fidalgos e um mercador bretão de Lisboa a
ensaiar
negociações de paz com o
Bastardo.
Mas essas negociações mallogram-se a breve
trecho, por divergencia
entre os intermediarios, e Dom Henrique levantava apressadamente
o cerco de Guimarães á noticia de que o Rei
Portuguez vinha dar-lhe
batalha.
II
Como dissemos, Dom Fernando mandára pedir em casamento a
filha do Rei de Aragão, a Infanta Dona Leonor.
Era o vinculo e penhor da projectada campanha contra Castella.
Antigas e estreitas eram as relações de sangue e
de amisade entre
as duas Corôas.
Assentavam até n'uma especie de politica tradicional de
ponderação
e de commum segurança contra as tendencias de hegemonia e de
expansão assimiladora da monarchia central.
O proprio Dom Pedro, o
Ceremonioso,
fôra casado, pela segunda
vez, bem contra a vontade de Castella, com uma Princeza Portugueza,
outra Infanta Dona Leonor, filha do nosso Affonso IV, tia por
conseguinte de Dom Fernando.
Uma Princeza nossa vivia tambem ali: uma irmã do proprio Rei
de Portugal: a Infanta Dona Maria, casada em 1354 com o
irmão do
Ceremonioso, o celebre Infante Dom
Fernando que estivera para ser-lhe
anteposto na herança da Corôa aragoneza; que
generosamente
lh'a conservára quando á frente da formidavel
Union, e que acabára
por lh'a defender com as armas na mão.
É certo que não eram passados muitos annos que o
Rei de Aragão
convidára este irmão para banquetear-se com elle
no castello de
Boriana e o fizera aleivosamente prender e matar no fim do banquete.
Mas este incidente tragico, realmente banal na politica do tempo,
esquecêra-o já o Rei Portuguez, revalidando e
confirmando, no começo
seu reinado, as antigas relações domesticas e
realengas com o
Aragão.
Até porque nos referimos a esta Dona Maria, ha de ver-se que
não é inutil dizer que a embaixada portugueza
enviada ao
Ceremonioso
se compunha de um forasteiro, de origem genoveza, a quem Dom
Fernando I se affeiçoára: Balthasar de Espinola,
de Affonso Fernandes
de Burgos, naturalmente um dos castelhanos insurrectos contra o
Bastardo, e de Martim Garcia, que
tambem podemos suspeitar que o
fosse.
Para definitivamente ultimar, pois, a proposta e acceita
convenção,
enviou o Rei Aragonez a Lisboa um seu plenipotenciario com o qual
firmou Dom Fernando essa convenção, desposando em
seguida, por
palavras de futuro, a Infanta Dona Leonor, na Igreja de São
Martinho,--«porquanto
El-Rei pousava então,--diz Fernão Lopes,--nos
Paços que chamam dos Infantes, que são cerca
d'esta Igreja.»
Pelo que importava á alliança offensiva contra
Castella, o Rei
Portuguez
obrigava-se a pagar 1:500 lanças
aragonezas ou aventureiras
que durante um certo praso fizessem a guerra d'aquelle lado. Para
este pagamento enviaria o oiro e a prata em que havia de amoedar-se
a especie corrente no Aragão e Castella
[7].
Um grande fidalgo portuguez, João Affonso Tello, e os
primeiros
negociadores, o Balthasar de Espinola, o Martim Garcia e o Affonso
de Burgos deviam ir receber ao Aragão a Infanta e ficar
garantes da
Convenção, encaminhando o primeiro as cousas da
guerra. Como
caução da nossa parte offerecia o Rei Aragonez o
castello de Alicante.
Tudo isto succedia vertiginosamente ao terminar o anno de 1369.
No começo de março do anno seguinte eram
entregues a Affonso
Domingues Barateiro, thesoureiro regio escolhido para o caso, o oiro
que devia levar para o Aragão, sendo conduzido, com uma
escolta de
trinta besteiros, ao Algarve, onde havia de embarcar a embaixada.
Fernão Lopes averiguou os valores remettidos, e indica-os
com notavel
precisão, corrigindo as diversas versões.
Para a amoedação estipulada enviou-se
sómente oiro, e não «em
pasta» ou em barra, mas em moeda, na maioria da que Dom
Fernando
mandára cunhar recentemente:
dobras
pé de terra, de peso igual á
dobra cruzada ou de 50 por marco, e
gentis de tres variedades:
primeiros
(66 por marco),
segundos (75 por
marco) e
terceiros (86 por
marco).
De moeda estrangeira: dobras Castelhanas, Mourisca e
miuçalha
Franceza,--«não seriam mais de 100
marcos».
A Casa ou Paço da Moeda, que, muito provavelmente, era no
proprio
Paço Real ou
Paços dos
Infantes, ao Limoeiro, concorreu com
100:000 peças monetarias, e a
Torre do
Haver, o Erario, ao Castello,
onde se arrecadava a riqueza regia, escancarara as velhas arcas para
contribuir com outras 100:000 peças, e numerosas
preciosidades destinadas
a decorar a futura Rainha de Portugal.
--«Assim que seria todo o haver quanto então foi
junto até 4:000
marcos de oiro que eram pouco menos que 18 quintaes.»
Uma bonita somma de que nos podem dar approximada idéa uns
600 contos de réis de hoje, considerado, apenas, o
preço actual do
marco de oiro no quilate da dobra Fernandina.
Quanto ás preciosidades destinadas ao consorcio, a generosa
Torre forneceu ainda:--«uma corôa de oiro feita de
machafemeas,
obrada com pedras de grande valor e grossos grãos de aljofar
a redor,
e relicarios e anneis de oiro e camapheus, e outras joias de
grande preço, afóra saias e cotas e cipres de
dona, e outras cousas
que pertenciam a guarnimento de mulher».
Este soberbo enxoval levava á sua guarda o chefe da
missão.
Tal era o--«thesouro»--como geralmente lhe chamam
os Chronistas.
Em 15 de março, Dom João Affonso Tello, conde de
Barcellos, e
os seus companheiros embarcaram no Algarve, naturalmente em
Faro.
Caetano de Sousa
[8]
diz que os acompanhavam Dom João, Bispo
de Evora, que era quem devia receber a Infanta; o Bispo de Silves,
tambem Dom João, e Frei Martinho, Abbade de
Alcobaça.
Sete galés compunham a expedição, que
mais parecia de gala e
de festa, embora o tempo fosse de guerra e de rapina.
Dom Fernando sabia fazer estas cousas.
O navio destinado a trazer-lhe a noiva era a galé
Donzella:--«uma
grande e formosa galé em que havia largas e
espaçosas camaras, a
qual El-Rei mandou mui nobremente guarnecer de estandartes e muitos
pendões e tenda e apparelhos de corda de seda».
--«E mandou pôr, por nobreza, muitos e grandes
dentes de porcos
montezes encastoados, ao longo da coxia, por ambas as partes da
galé, e todos os remos pintados e outros logares, por
formosura.»
--«Os galeotes eram vestidos todos de uma maneira, e iam com
ella quarenta besteiros, assás de mancebos e homens de prol,
todos
vestidos de outra libré, e cintos cobertos de veludo preto
com as armas
de El-Rei bordadas.»
Não é sómente pelo encanto da
descripção do grande Chronista,
que nos demorâmos n'estas minudencias.
É que ellas dão uma nota critica importante para
a apreciação
dos acontecimentos, até do proprio documento que estamos
explicando.
Uma observação de passagem: outra idéa
falsa muito vulgarisada,
muito romanceada até pelos nossos philosophos e
historiadores modernos,
é a da nossa pobreza publica, como diriamos hoje,
anteriormente
á grande florescencia ultramarina que se diz ter-nos
deploravelmente
desviado das ideaes vantagens de uma austeridade pelintra.
É certo que Dom Fernando, em vez de seguir os exemplos dos
seus predecessores, accumulando thesouros, parecia apostado a
exhauril-os
rapidamente.
Mas pela sua situação geographica, pelas suas
aptidões, pela sua
administração intelligente e pratica,--pois que a
tivemos já, e d'ella
principalmente deriva a força economica das
Nações,--Portugal foi
por largo tempo um dos Estados mais ricos da Peninsula, chegando
até a ser considerado dos mais ricos da Europa.
Sem ter soffrido a semsaboria de encontrar-se com as forças
navaes
do
Bastardo, muito occupado na
invasão de Portugal e na pacificação
do seu proprio Reino, a nossa pequena armada chegou a salvamento
a Barcelona, e o--«thesouro»--,isto é,
os 18 quintaes de
oiro amoedado foram depostos n'uma camara bem cerrada e guardada,
que o Rei Aragonez teve a amabilidade de ceder no seu proprio
palacio.
Começou-se a fazer a moeda nova para o soldo da campanha,
cunhando-se
logo 200:000 reaes de prata, de 4
maravidis cada
real, com
os signaes e cunhos do assassinado Dom Pedro de Castella, naturalmente
para mais facil circulação nas terras Castelhanas
que haviam
de ser invadidas.
Affonso Domingues exercia, zelosa e livremente, o seu officio de
Thesoureiro; Dom João Affonso diligenciava contratar e
assoldadar os
fidalgos empreiteiros que haviam de fornecer os homens de armas, e
o genovez Balthasar de Espinola temperava a faina diplomatica
galanteando,
com excellente exito, a desolada viuva do Infante Dom Fernando,
a Infanta Dona Maria, irmã do Rei Portuguez e cunhada do
de Aragão.
Caetano de Sousa mostra-se muito indignado por Fernão Lopes
tratar--«sem necessidade... tão
incivilmente»,--a Infanta, com a
revelação d'este galanteio e das consequencias
d'elle.
Mas não prova, nem lhe seria facil, que o facto se
não désse.
Teremos talvez de voltar ao incidente, mas diga-se desde já
que
bem mais confiança merece a ingenua e
honrada--«incivilidade»--
do Chronista do seculo XV do que a postiça e hypocrita
gravidade
cortezã do Genealogista do seculo XVIII, que ha pouco ainda
tivemos
occasião de surprehender a subtrahir e truncar de um
testamento a
justificação de uma consciencia briosa que ia
desapparecer no tumulo,
ficando na Historia com o labeu de uma morte aleivosa e injusta
[9].
Tudo parecia, pois, correr excelentemente e julgou-se até
conveniente
melhorar, por conta e á custa do
famoso--«thesouro»,--a
convenção de Lisboa, elevando a 3:000
lanças o subsidio das 1:500
que elle era destinado a mover contra Castella. Tres mil
lanças correspondiam
bem a uns 12:000 homens e mais.
Sobre isto se entabolaram novas negociações entre
os dois Reis,
não sendo muito temeraria a suspeita de que por este meio
procurasse
o do Aragão protrahir os seus compromissos.
Apenas duas pequenas nuvens,--que não poderia suppor-se que
dessem uma grande procella,--pairavam realmente no horisonte illuminado
por tão risonhos auspicios.
Era uma, a da necessidade da dispensa Pontificia para o consorcio
da Infanta Aragoneza com o primo.
Tinha este escrupulo de consciencia o homem que expoliára a
irmã, que esmagára o cunhado, que perseguira a
madrasta e que assassinára
o irmão.
Dom Pedro, o
Ceremonioso, casara
pela segunda vez, dissemol-o
já, com uma tia do Rei Dom Fernando, a Infanta Dona Leonor,
que
morrêra em 1348. Logo no anno seguinte desposára
outra Leonor,
uma irmã do Rei Luiz da Sicilia, de quem tivera a que estava
agora
para ser Rainha de Portugal.
Succedia ainda,--e era esta a segunda nuvem,--que a futurada
Rainha, tendo sido creada com o filho e herdeiro do
Bastardo,--depois
João I de Castella,--só pela tenaz
opposição da mãe não casava
com
elle, o que não impedia que fosse esse o seu desejo, o do
seu companheiro
de infancia e o do pae d'este, o proprio e habil Dom Henrique.
A politica matrimonial do tempo enredava-se ás vezes na
politica
amorosa dos corações juvenis.
A Infanta aragoneza não seria positivamente uma formosura e
os
velhos Portuguezes eram um pouco exigentes no assumpto.
Gostavam de Reis fortes, desempenados, viris, e de Rainhas formosas,
esbeltas, graciosas, que, alem de tudo, fossem capazes de os
conceber taes.
Por muito tempo corrêra mundo a fama de belleza das Princezas
Portuguezas.
Ora Dom Fernando era, na phrase singela e expressiva do seu
Chronista, um--«mancebo valente, ledo e namorado, amador de
mulheres
e achegador a ellas».
Estava na conta dos bons Reis Portuguezes: e nada mais natural
do que não terem ficado muito tranquillos e satisfeitos os
amigos e
enviados de Dom Fernando, ao aspecto da sua nova Rainha, não
sendo ella realmente formosa.
Ha até uma versão antiga de que lhes
desagradára muito por feia
e mal feita, tirando d'ahi motivo para não apressarem o
consorcio ou
para o mallograr.
Mas Fernão Lopes contradiz energicamente esta
versão, como
desmente outras, observando que a rasão do que
succedêra não fôra--«por
ella ser tal como alguns, historiando, feiamente a pintaram,
porque de corpo e gesto a natureza lhe dera tão boa parte
que a nenhum
Senhor descontentaria de a haver por mulher».
E deve ser assim. Não seria uma formosura, mas pouco ou nada
importou isso para os successos futuros, até porque o Rei
Portuguez
não procurava tanto a mulher, como o auxilio do Rei de
Aragão.
Da parte d'este ultimo é que naturalmente se
disfarçaria na desculpa
da dispensa Pontificia a pouca vontade de se aventurar á
guerra
contra o novo Rei de Castella, que elle proprio auxiliára,
um pouco,
e conquistar o Throno, e quem sabe se tambem qualquer rebate de
desconfiança ácerca do espirito versatil de Dom
Fernando, o não movia
a demorar o negocio?
O que é certo é que demorando-se a Dispensa,--se
é que chegára
a ser pedida pelo Rei de Aragão, o que é
duvidoso,--e como ao
mesmo tempo se protrahia o começo da estipulada campanha,
Dom
João Affonso voltou a Portugal sem a Infanta, mas com a
coroa «marchetada
de aljofares», o que evidentemente não parecia
indicar uma
perfeita confiança de que ella tivesse de servir muito breve.
Ficaram, porém, em Barcelona--«o
thesouro»,--e os outros negociadores,
que em 24 de julho de 1370 revalidavam ainda com o Rei
do Aragão as estipulações anteriores.
Dom Pedro, o
Ceremonioso, enviava a
Dom Fernando um novo
embaixador explicando a involuntaria tardança, offerecendo
até que
se tornasse effectiva a caução inicialmente
prestada da occupação pelos
Portuguezes do Castello de Alicante.
Bisarramente, Dom Fernando não quiz usar d'esta faculdade.
Confiava no futurado sogro e tanto persistia no ajuste, que
recommendando
aos insurrectos castelhanos de Carmona que se defendessem
como podessem do apertado cerco que lhes pozera Dom Henrique,
porque sentia muito não poder, de momento, soccorrel-os, em
21
de outubro (1370) ratificava e jurava, novamente, nos
«Paços de Vallada»,
com o embaixador aragonez, as combinações e
accordo de Barcelona.
Estava, pois, assente, confirmado e umas poucas de vezes jurado,
que dentro em pouco, o tempo necessario apenas para chegar de Roma
a Dispensa Pontificia, se ultimaria o casamento de Dom Fernando com
a filha do Rei de Aragão, a Infanta Dona Leonor, iniciado
já na
Igreja de São Martinho de Lisboa, e que o
Bastardo de Castella se
acharia mettido entre dois fogos, tendo necessariamente de acudir
á
sua fronteira de leste, invadida pelos aventureiros aragonezes ao soldo
de Portugal.
III
Mal teria tempo o Embaixador aragonez de apresentar ao seu Rei
a franca e leal revalidação do ajuste, pelo de
Portugal, quando no começo
de 1371 se abriam aqui, por mediação ostensiva do
Legado
Pontificio, as negociações de paz com Castella.
Terminavam em 31 de março, em Alcoutim, estas
negociações, por
um definitivo tratado entre Dom Fernando e o
Bastardo, em que este
fazia comprehender o Rei de França, seu alliado, e aquelle
tão perfeitamente
desinteressado se mostrava dos compromissos com o Rei
do Aragão, que contratava novo casamento com uma das filhas
do de
Castella, outra Infanta Dona Leonor.
Os amadores de coincidencias fatidicas podem bem appellidar Dom
Fernando o Rei das Leonores.
O vortice recrudesce de actividade, quasi não dando logar ao
assombro,
como tambem não deu tempo ao Castelhano para gosar a sua
plena e singular desforra.
Muito--«amador de mulheres e achegador a
ellas»,--como Fernão
Lopes o caracterisa, Dom Fernando, no meio d'estes extraordinarios
e incommodos acontecimentos, achegára-se por tal
fórma a
uma irmã natural, a Infanta Dona Beatriz, que as
murmurações eram
grandes e dava-se já como certo que pretendia casar com
ella--«cousa
nunca vista»,--observa severamente o grande Chronista.
Frequentava-lhe muito a casa em que ella, na falta de Rainha,
sustentava uma verdadeira côrte, e--«eram os jogos
e falas entre
elles tão a miudo, misturados com beijos e
abraços e outros desenfadamentos
de similhante preço que fazia a alguns ter deshonesta
suspeita
de sua virgindade ser por elle minguada».
Dona Beatriz fôra a ultima filha dos tragicos amores de Dom
Pedro I
e Dona Ignez de Castro, e casou tres annos depois, em 1374,
com um grande Senhor Castelhano, Dom Sancho, Conde de Albuquerque,
producto tambem de um amoroso enlevo: o de Affonso XI
de Castella por Dona Leonor Nunes de Gusmão, Senhora de
Medina Sidonia.
Enviuvou no anno seguinte, tendo no ventre a celebre Dona Leonor
Urraca de Albuquerque--
la rica
hembra,--a que havia de ser
Rainha do Aragão, como mulher de Dom Fernando o de
Antequera,
e mãe de duas Rainhas tambem: Dona Leonor de Portugal,
mulher
de Dom Duarte, e Dona Maria, mulher de Dom João II de
Castella.
Parece que a gentil Infanta não se illudiu com a gravidade
da situação
e com os perigos de levar aquelles desenfadamentos demasiadamente
fraternos ate á resolução escandalosa
que o doido do irmão
fantasiava.
Como boa amiga lembrou-lhe o compromisso do consorcio Castelhano
que acabava de sellar a paz entre as duas Corôas, e
prestou-se
até a entrar n'outra intriga amorosa que repentinamente
surgiu entre
uma sua hospeda e o voluvel coração do Rei
Portuguez.
É ainda o que diz Fernão Lopes, que evidentemente
profundava
com vontade e consciencia a Historia e estava muito longe de
sacrifical-a,
como os chronistas de mais adiantadas epochas, a hypocritas
e inuteis cortezanias. Quem denunciava os desenfadamentos
não hesitaria
em contar as naturaes consequencias d'elles.
Entre as damas da Infanta havia uma, Dona Maria Telles de Menezes,
com a qual viera passar algum tempo uma irmã, Dona Leonor
Telles, casada com um fidalgo beirão, Martim
Lourenço da Cunha,
Senhor de Pombeiro.
--«D'esta se começou de namorar
maravilhosamente»--Dom
Fernando--«e ferido assim do amor d'ella, em que seu
coração de
todo era posto, de dia em dia se acrescentava mais sua chaga».
Eram as duas, sobrinhas de Dom João Affonso, o que
fôra receber
ao Aragão a primeira noiva Regia e voltára sem
ella.
D'aqui se originou naturalmente a versão de que o Embaixador
maliciosamente concorrêra para o mallogro da
missão por interessado
em favorecer o impetuoso galanteio do Rei.
Mas a breve chronologia do caso poupou realmente a esta
premeditação
perversa o velho fidalgo, posto não o exhima á
cumplicidade
das ambições que sustentavam a manhosa
resistencia da sobrinha.
Cautelosa e astuta, como naturalmente seria um seu ascendente
proximo, que merecêra dos contemporaneos o appellido
de---
Raposo,--Leonor
Telles, sentindo agitar-se-lhe no ventre o primeiro producto
do legitimo consorcio, deixou-se ficar na Côrte, de accordo
com a
parentella, e poz, intransigente, por preço á sua
honestidade de esposa
e á sua prosapia de fidalga, a Corôa de Portugal.
A descendente do Rei Dom Ordonho II de Leão, a mulher do
Senhor
de Pombeiro, que vinha do Rei Ramiro e era ainda bastardo
bisneto de Affonso III de Portugal
[10],
não se entregaria
nos braços de
Dom Fernando, como simples barregam Real, embora para isso lhe
prestasse auctorisados exemplos a sua gloriosa prosapia de Telles,
Menezes e Cunhas.
Assim o declarou peremptoriamente ao Rei, por ella e pelo Conselho
da briosa familia, a irmã, a Dona Maria Telles, que annos
depois
havia de repetir por sua propria conta a comedia com o irmão
de Dom Fernando, o Infante Dom João.
Importando-se tanto com o tratado que acabava de jurar a Castela,
como jurando este se importára com o que acabára
de revalidar
perante o Embaixador do Aragão, Dom Fernando,
açulado pela sensual
obsessão e pela manhosa resistencia d'esta terceira Leonor,
desposou
a mulher de João Lourenço da Cunha.
Dom Henrique, o
Bastardo, teve a
longanimidade, ou melhor, de
certo, a esperteza de se conformar com este brusco repudio da filha.
Nunca a politica hespanhola se doeu muito pelos acontecimentos
que podessem perturbar e arriscar a paz, a segurança ou o
prestigio
da Corôa Portugueza.
Comprehende-se.
Mas o Rei do Aragão, a quem não parece que Dom
Fernando ensaiasse
explicar, sequer, a dupla e flagrante deslealdade, é que
entendeu
que devia pagar-se d'ella com outra, apoderando-se do que
restava do famoso--«thesouro»--enviado a Barcelona
para a negociada
campanha, que aliás não se mostrára
muito empenhado em
apressar.
Dos delegados portuguezes um houve que prudentemente se absteve
de voltar: foi o Balthasar de Espinola, que
pela--«affeição
longa»--que tinha com a Infanta Dona Maria, fugiu com ella
para
Genova, onde a viuva irmã do Rei Portuguez--«viveu
minguadamente,
morrendo muito afastada do que á sua honra
devia»,--segundo
attesta a--«incivilidade»--de Fernão
Lopes contra o improductivo
e dedicado esforço dos geneologistas cortezãos em
fazel-a
morrer e jazer em Aveiro com fóros de Santidade.
Já agora, acrescentemos de passagem, a
tradição que da boa fortuna
obtida com portuguezes parece ter ficado n'esta fidalguia dos
Espinolas, um seculo depois mais decentemente enxertada na nossa
nobiliarchia, pela nacionalisação de Antonio de
Espinola, genovez estabelecido
na Madeira
[11].
Aqui temos, pois, no expedito e desceremonioso sequestro
do--«thesouro»--uma
das principaes origens do interessante documento
encontrado pelo sr. Carlos Urseau.
Não poderá, pois, dizer-se que fosse inteiramente
inutil a nossa
summaria retrospecção.
O--«thesouro»--estava já um pouco
diminuido.
Grossas sommas tinham sido distribuidas aos que se obrigavam a
fornecer combatentes; saíra d'elle a paga dos delegados
portuguezes,
e, por exemplo, só á sua parte, o Conde Dom
João Affonso recebêra
11 florins por dia; logo á chegada a Barcelona havia-se
distrahido a
somma necessaria para pagar á matatolagem em atrazo, de 20
galés
que andavam no cruzeiro da Andaluzia; finalmente comprára-se
por
260 gentis um abastecimento importante para o Arsenal de Lisboa.
Em summa: o Rei Aragonez sómente podéra
lançar a mão a
2:024 marcos de oiro, alem de 107 que lhe haviam sido directamente
emprestados, e este sequestro não parece ter desde logo
preoccupado
muito a politica versatil e prodiga de Dom Fernando, que até
naturalmente
contava continuar a entender-se com o Aragão, provando-lhe
que só forçada e ostensivamente fizera a paz e
alliança com Castella.
De feito, no mesmo anno (abril 1372), em que facilmente obtinha
em Tuy, do Rei Castelhano, a alteração do tratado
de Alcoutim, na
parte relativa ao casamento com a filha d'elle, tão
escandalosamente
preterida por Leonor Telles, Dom Fernando tratava de romper e
violar esse tratado mandando um agente, o Chantre da Sé de
Braga,
Vasco Domingues, ao Duque de Lencastre, filho de Duarte III de
Inglaterra, para que viesse reivindicar contra o
Bastardo o seu pretendido
direito á Corôa de Castella como marido de uma das
filhas
de Dom Pedro, o
Cruel.
Alliado com o Aragão, gostosamente receberia o Inglez o
auxilio
que lhe era offerecido do outro lado da Peninsula, e logo em julho
firmavam em Braga os seus enviados, um emigrado castelhano
João
Fernandes Andeiro e Roger Hoor, uma liga com o Rei Portuguez
contra Dom Henrique.
IV
Tendo rebate das negociações com os Inglezes e
desilludido pela
embaixada que mandou a Portugal, de que Dom Fernando lhe não
guardaria a paz e a lealdade recentemente jurada, o
Bastardo, com a
sua habitual intrepidez, antecipou-se, invadindo de surpreza o paiz e
vindo cercar Lisboa, no meio da leviana imprevidencia do Rei e do
escandalo do seu casamento com Leonor Telles.
A resistencia popular, e, ainda, a intervenção
Pontificia, abreviaram
o termo d'esta brusca campanha, e em 19 de março de 1373,
Dom
Fernando assignava em Santarem novo tratado com Castella, que fazia
n'elle, mais uma vez, comprehender a França, e pelo qual
não sómente
revalidava com estas duas Corôas a paz anterior, mas se
obrigava
a ser sempre alliado d'ellas contra a Inglaterra e a prestar as
suas forças navaes contra o Duque de Lencastre.
Pouco confiado, porém, naturalmente, na firmeza dos
juramentos
da vontade de Dom Fernando, procuraria, então, a politica
castelhana
outra alliança mais pratica,--d'estas que se não
pactuam em
verbosos diplomas,--assegurando-se da cumplicidade e da influencia
dominadora da extraordinaria mulher que encontrava junto do Rei
Portuguez, presidindo a todo o governo do Estado com a sua numerosa
camarilha de parentes e cortezãos.
Certos factos e circumstancias fazem-n'o rasoavelmente suppor, e
em todo o caso, Dom Fernando pareceu, d'esta vez, positivamente
deliberado não só a manter a paz com o
Bastardo, mas a estreital-a
por vinculos de sangue e de interesse dynastico, rompendo,
definitivamente
com o Aragão e procurando, até, pagar-se,
exactamente com
o auxilio de Castella! do
malfadado--«thesouro»--contra ella enviado
ao Rei Aragonez.
Assim, no anno seguinte, em 1374, Dom Fernando convencionava
com o
Bastardo uma séria
campanha contra o Aragão, offerecendo
contribuir com dez galés perfeitamente armadas.
Mas o habil Trastamara que procurava fechar a Peninsula ás
atrevidas
pretensões do Lencastre e consolidar fortemente n'ella a sua
disputada
Realeza, avisava, pouco depois, Dom Fernando de que talvez
tivesse de fazer a paz com o Rei Aragonez, insinuando vagamente que
promoveria junto d'este a reparação de quaesquer
aggravos que tivesse
feito a Portugal, e pedindo que as forças navaes portuguezas
fossem
empregadas em auxilial-o contra o Inglez, segundo o anterior
ajuste.
Por seu lado, escusando-se á obrigação
d'este auxilio, Dom Fernando,
percebendo a approximação de Castella e do
Aragão, procurava
fazel-a mallograr; enviava nova embaixada a Dom Henrique insistindo
na guerra contra o
Ceremonioso, e
successivamente promovia os casamentos
de duas filhas com dois filhos naturaes do
Bastardo.
O segundo d'estes casamentos, que não havia de realisar-se,
mas
que chegou a ser definitivamente pactuado e jurado pelo Rei Castelhano,
a 19 de janeiro de 1377, era o de Dom Fradique, filho natural
d'este ultimo, com a filha de Dom Fernando e de Dona Leonor Telles,
a Infanta Dona Beatriz, que mais tarde havia de ser entregue ao proprio
primogenito e successor do Rei de Castella, com o direito da
Successão
Portugueza.
Rompendo a alliança aragoneza e associando-se a Castella,
Dom Fernando
quebrára uma tradição de boa e
intelligente politica nacional,
commettendo o erro, depois infelizmente repetido, de
desembaraçar e
facilitar as tendencias hegemonicas da Monarchia Central.
Perdido o equilibrio Peninsular, Portugal ficava sendo cumplice e
satellite d'essa monarchia, e o facto não podia deixar de
ter, tambem,
uma singular importancia para a politica aragoneza, quando exactamente
graves acontecimentos a ameaçavam do outro lado.
A questão do Reino da Maiorca, afogada em sangue, parecia
resurgir
de novo, sob temeroso aspecto.
O filho do infeliz Dom Jayme II conseguia fugir do seu longo captiveiro
de Jetiva, e desposado pela celebre Joanna de Napoles, reivindicava
o titulo de Rei de Maiorca, com o auxilio da França e de
Castella, ensaiando atrevidamente uma invasão na Catalunha
pelo valle
do Segre.
Mallograda a tentativa, o desgraçado rapaz
abrigára-se em Castella,
morrendo pouco depois, em 1375, na cidade de Soria, mas outro
competidor surgira, mais para receiar, de certo, ao Rei Aragonez.
Era o Duque Luiz I, de Anjou, chefe da segunda casa de Anjou,
filho de João II o
Bom,
que lhe fizera o Ducado, e irmão immediato
do Rei de França Carlos V; homem moço, intrepido
e habil, cheio de
uma grande ambição e de uma grande manha.
Luiz auxiliára o Trastamara a conquistar o throno de
Castella, e
recebêra de uma filha de Jayme II, a Infanta Isabel, Marqueza
de
Montferrat, os direitos da extincta Realeza e Senhorio de Maiorca,
do Rossilhão, da Sardanha, como annos depois havia de ser
instituido
herdeiro de outra Corôa pela Rainha Joanna de Napoles.
Desde que o Aragão e a Catalunha se haviam constituido n'uma
só Soberania sob o impulso vigoroso e habil dos Belengueres,
e que um
filho de Luiz VIII de França fizera a conquista do Reino das
Duas
Sicilias, as Casas de Anjou e do Aragão, ou as influencias
franceza e
aragoneza, tinham de encher o Mediterraneo occidental com o antagonismo
fatidico das suas pretensões e das suas aventuras de
expansão
e de predominio.
Desembaraçada Castella do lado de Portugal, a
alliança de Dom Henrique
com a França, collocaria entre dois fogos o Rei Aragonez.
Naturalmente desilludido das promessas e
estimulações inglezas,
Dom Pedro o
Ceremonioso acabou por
ceder ás disposições conciliadoras
do Rei Castelhano, fazendo com elle definitivamente a paz em
1375.
Morria-lhe n'esse anno a terceira mulher, Dona Leonor da Sicilia,
que vivamente contrariára os amores da filha, a Infanta Dona
Leonor,
com o primogenito do
Bastardo, e por
isso o penhor da paz entre as
duas Corôas foi exactamente o consorcio da mallograda noiva
do Rei
de Portugal com o futuro Dom João I de Castella.
Estes acontecimentos naturalmente approximaram, pela identidade
das situações e das vontades, Dom Fernando e o
Duque de Anjou,
associando-os no interessante documento que estamos explicando.
Sentindo-se isolado, e comprehendendo que não conseguiria
obter
da sua nova alliança com Castella que esta o ajudasse a
desaggravar-se
de Dom Pedro de Aragão, o Rei Portuguez deveria sentir um
singular
prazer vendo chegar á sua Côrte dois enviados do
poderoso Duque a
propor-lhe que fizessem causa commum contra o
Ceremonioso.
No proprio documento encontrado pelo sr. Urseau se confirma
positivamente
a existencia d'esta primeira negociação iniciada
pelos mensageiros
do Anjou:--«
dominos Robertum de Nogeriis,
archidiaconum
Rothomagensem et Yvonem, procuratores domini
Ducis,»--ou, como diz
Fernão Lopes:--«Roberto de Noyers, bacharel em
Leis e Yvo de
Gernal, do seu Conselho».
Em abril de 1377 chegaram elles a Tentugal, onde Dom Fernando
estava.
A alliança portugueza não podia deixar de ser
desejada pelo ambicioso
pretendente francez, quando menos seguro poderia considerar-se
de uma cooperação efficaz e franca no seu proprio
paiz e na
Peninsula. Excellentemente serviria tambem os interesses inglezes e
os do Duque de Lencastre.
Alem de que a attitude de Portugal poderia mover as
ambições da
Côrte Castelhana a uma acção commum
contra o Aragão, e em todo
o caso lhe impediria que soccorresse este, era evidentemente de um
alto valor estrategico a concorrencia das forças navaes
portuguezas
operando sobre as costas catalãs; fazendo
diversão aos afamados recursos
maritimos de Dom Pedro, e obrigando este a dividir as suas
forças terrestres, atacado, simultaneamente, ao norte e ao
sul, no
Rossilhão, na Ceritania, nas Baleares e na Catalunha.
Foi, pois, acceita a idéa da Liga com o Duque.
--«Concordadas suas avenças em muitas cousas,
ficando, porém,
certos pontos por determinar, os quaes cumpria de o Duque primeiramente
saber,»--Dom Fernando commissionava, logo em 12 d'aquelle
mez, Lourenço Annes Fogaça, João
Gonçalves e Pedro Cavalleiro para
que fossem ultimar e jurar o definitivo Tratado:--«desejando
seguir
os exemplos dos nossos predecessores que, com o auxilio de Deus, foram
sempre amigos dos Reis e da Casa Real da França
et vice-versa»,--como
dizia a Procuração.
Seria uma campanha implacavel de conquista e de exterminio, a
que haviam de fazer os dois distanciados Principes contra o Rei do
Aragão--«seus filhos, herdeiros, successores,
vassallos, subditos, adherentes
e alliados»,--e Dom Fernando invocando a vaga
lembrança das
ligações politicas entre as Corôas de
França e de Portugal, não se esquecia
tambem da diluida consanguinidade das duas Casas Reaes, tratando
por carissimo parente,--
consanguineum nostrum
carissimum,»
a--«Luiz, filho do Rei dos Francezes, Duque de Anjou e
Touraine,
Conde de Maine,»--quando combinava com elle a
destruição do que
fôra marido de sua tia e estivera para ser seu sogro
egualmente
carissimum.
Não se demoraram muito a jornada e os ajustes finaes, pois
que
dez semanas depois, em 29 de junho, como dissemos já, estava
o Tratado
concluido, em Bicetre,--«em uns paços d'el-rei de
França ácerca
de París,»--como diz, sempre exacto,
Fernão Lopes, sendo reduzido
a diploma authentico com todas as imponentes ceremonias e redundancias
que costumavam revestir estes actos geralmente destinados...
a ser violados e trahidos no dia seguinte.
Uma d'essas ceremonias era a ratificação e
juramento directo e de
proprio punho das Altas Partes contratantes, como se diria hoje, e
satisfeito, acto continuo, esse requisito, pelo Duque Francez, antes de
passarem outras seis semanas, em 14 de agosto, o cumpria o Rei de
Portugal, no Paço Episcopal da Guarda, com a mesma verbosa
solemnidade
que Mestre Alvaro Estevão foi encarregado de pôr
em escriptura.
D'esta vez os diplomatas portuguezes foram mais cautelosos e parcos,
como era natural, do que o haviam sido por occasião dos
ultimos
tratados com Aragão e Castella.
Contentando-se ostensivamente com a bella
indemnisação liquida
de 200:000 dobras de oiro pelo
sequestrado--«thesouro,»--e comprehendendo
evidentemente que o principal interessado n'aquella liga
e campanha era o Duque, parece, até, que abusaram um pouco
da situação.
Rigorosamente, Portugal contribuiria apenas com um terço do
numero
de galés que fosse necessario para fazer a guerra por mar,
durante
os mezes de abril a setembro, mas esse terço não
poderia exceder
de quinze galés, e o Duque, devendo requisital-as
até o dia 15
de janeiro de cada anno, havia de mandal-as receber por todas as suas,
convenientemente armadas, ao Estreito de Gibraltar.
Parecia, pois, reduzir-se a obrigação portugueza
ao emprestimo
d'essas galés simplesmente apparelhadas para navegar.
A campanha por terra correria inteiramente por conta do Duque.
A este ficariam pertencendo, desde logo, todas as cidades, fortalezas
e terras conquistadas nas Baleares, no Rossilhão, na
Ceritania, em
summa, no antigo Reino Maiorquino, mas as primeiras conquistas
feitas nos Reinos de Aragão e Valencia e no Condado de
Barcelona
seriam immediatamente entregues a Portugal que as reteria
até se
achar integralmente pago das 200:000 dobras de oiro.
Cobrada que fosse esta indemnisação, todas as
conquistas obtidas
n'aquelles ultimos territorios, por qualquer dos alliados, seriam
divididas
entre elles na proporção das despezas e
forças contribuintes de
cada um, por meio de uma arbitragem confiada a dois cavalleiros
nomeados por cada parte. O Duque, porém, ficaria de posse
d'essas conquistas
até que se tivesse apoderado do Reino de Maiorca, do
Rossilhão
e da Ceritania, obrigando-se a cumprir, religiosa e opportunamente,
a partilha arbitrada, entendendo-se, comtudo, que Portugal
não
ficava obrigado a entregar ao Duque as cidades ou terras que lhe
servissem
de garantia á indemnisação.
Podia cedel-as, e as mais que lhe pertencessem, segundo a
divisão
arbitral, pelo seu justo preço, se o Duque as quizesse,
mediante nova
arbitragem em que, se não concordassem os arbitros, seria
por elles
nomeado um terceiro.
Nihil sub sole novi.
Parecendo contentar-se modestamente com as bellas 200:000 dobras
de oiro,--o «thesouro» integral dos 500 ou 600
contos,--Dom
Fernando ou a politica portugueza não desdenharia,
naturalmente, a
posse de alguns postos, e sobretudo de alguns portos do outro lado
da Peninsula, que lhe fariam,-- porque não dizermos: que nos
fariam?--um
excellente arranjo.
Similhante resultado resgataria sobejamente os erros e aventuras
anteriores, e o leviano Rei,--até a sinistra adultera que o
dominava,--poderiam
perfeitamente ter passado á Posteridade nacional como
personagens
gloriosamente benemeritos.
Perdoem-nos os nossos pequenos e pacatos estadistas de hoje esta
visão impertinente e estroina!...
É que a gente lidando com estas idéas e com estes
atrevimentos
antigos, esquece, ás vezes... a
medida contemporanea.
Que extraordinaria historia--«do que não
aconteceu»--como a
que phantasiou Mery, podéra fazer-se sobre este precioso
documento
encontrado pelo douto abbade e nosso amigo de Angers!...
Como no convenio se estabelecia o principio de que ambas as Partes
promoveriam novas allianças em reforço e para o
fim da que entre
si formavam, e como a de Castella era seguramente a que mais convinha
obter, procurava-se attrahir e estimular o Trastamara
offerecendo-se-lhe
os territorios que do lado de Murcia se conquistassem, ou
aquelles a que mostrasse ter direito a Corôa Castelhana, do
lado de
Molina.
Era avivar uma velha ferida, não cicatrizada inteiramente,
ainda,
pela approximação recente dos dois paizes.
De uma e da outra parte se formulavam as mais solemnes e positivas
promessas de rigoroso cumprimento da convenção,
fixando-se
mesmo uma grossa multa de 100:000 marcos de oiro á
infracção parcial
ou total dos capitulos estipulados que teriam de ser ratificados e
jurados pessoalmente pelo Rei Portuguez, como desde logo o foram
pelo Duque, até ao dia de São Martinho do inverno
proximo (novembro,
1377).
Sabemos já que solemnemente os ratificou e jurou Dom
Fernando,
na Guarda, em 13 de agosto.