AO REDACTOR DA NAÇÃO
(Julho, 1850)
A necessidade de reprimir o abuso do ministerio
do pulpito que contra mim se estava practicando
obrigou-me a dirigir a sua eminencia o
Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem
faltar á consideração devida ao
prelado da diocese,
nem aos outros bispos do reino, entendi
que cumpria usar de uma linguagem severa, mas
justa, para com a maioria do clero. Habituado a
patentear livre e singelamente as minha opiniões
ácerca dos homens e das cousas, não soube nem
quiz buscar rodeios, ou adoçar as phrases para
me exprimir de modo menos aspero n'uma questão
que me respeitava pessoalmente, e em que
até certo ponto estava compromettido, não
só o
meu caracter litterario, mas tambem, o que mais
importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa
periodica, politica e não politica, sem
distincção
de partidos, foi unanime em condemnar actos
que me obrigavam a dar um passo a que bem
desejaria me houvessem poupado. Como os outros
jornaes, a
Nação reprovou
as
aggressões
inauditas perpetradas por uma parte do clero, e
toleradas por outra. O procedimento de v.. para
comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre,
quanto é certo que a indole do seu jornal
deveria talvez levá-lo a rebater a opinião de
diversas
publicações periodicas, se o sentimento
da justiça não fosse mais forte no animo de v..
do que outras quaesquer considerações.
É assim
que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave
missão, e remedeia do modo possivel a decadencia
do sacerdocio religioso. Continuando, porém,
a tractar de uma questão, que, embora
interessasse um simples e quasi obscuro individuo,
era demasiado importante pelo alcance e
significação dos factos que a haviam suscitado,
v.. teve a bondade de dirigir-me algumas
observações,
que me pareceu exigirem de mim
explicações como christão e como homem
de letras.
Não as dei logo, porque não tardou a annunciar-se
publicamente uma refutação da minha carta,
em desaggravo do clero. Falava-se n'um milagre
de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu
teria de fugir desalentado como os sarracenos de
Ourique diante do da apparição. Citavam-se,
até,
nomes: falava-se em summidades da igreja e da
eschola. Como entendo que não é bom fugir sem
ver de que, esperei que rebentasse o temporal. Se
fosse por elle submergido, de que aproveitariam
as explicações dadas a v..? Se, porém,
podesse
salvar o meu fragil baixel, pediria misericordia
aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v..
razão de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado
no oratorio, com o ouvido attento ao som
que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora,
todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade,
eu alimentava esperanças de salvação
com
um argumento que fazia a mim mesmo. Não é
provavel, dizia comigo, que um membro do clero
illustrado e honesto queira vir combater-me
no terreno desigual e escorregadio em que a imprudencia
collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical
tem impedimento dirimente para entrar neste
empenho. Para escrever é preciso saber ler e ter
lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por
este lado podia eu estar tranquillo.
É certo que o annuncio feito nos jornaes não
foi materialmente vão. Appareceu um folheto, que
parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me que
é de um mancebo principiante. Revela, sem dúvida,
algum talento no auctor. Com o tempo, e estudando,
este póde vir a ser um escriptor soffrivel,
e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou
d'outras questões com honra sua e proveito do
paiz.
Non ragioniam di lui, ma
guarda, e passa.
É pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei
do modo mais breve que me for possivel.
Se alguma phrase menos comedida me fugir da
penna, declaro desde já que a retiro. Dirigindo-me
a um escriptor como v.., tão urbano nas
proprias censuras que me faz, embora sobre tão
melindrosa materia como o são as cousas da fé,
espero que v.. não veja por caso algum nas
minhas palavras a menor intenção offensiva.
Tres censuras irroga v.. ao conteúdo da minha
carta; a primeira contra a antithese contida
no titulo do opusculo
Eu e o clero:
a segunda
contra as expressões de
intelligencias
vastas e
energicas, mas corruptas, violentas e
cubiçosas,
de que me servi para qualificar alguns papas: a
terceira contra a phrase,
Roma que parece
ter
jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio
do catholicismo, e contra os terrores que attribuo
á igreja ácerca do futuro. Considerarei em
especial
cada uma dessas tres censuras.
Diz v.. que me era licito collocar-me em
antagonismo com um ou outro clerigo, porém
não com o clero em geral, por honra e credito
meu, que nada podia ganhar em lucta tão desigual,
e que, a existir, seria a minha condemnação.
Antes de tudo é necessario observar duas
cousas: 1.ª, que o antagonismo não o creei eu:
resultou de factos practicados pelo clero, que
tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria
talvez sempre em silencio, se não receiasse
que no progresso da aggressão chegassem
a levantar-me um pulpito diante da porta,
para d'ahi me fazerem um sermão sobre a sanctidade
dos papas da idade média, ou sobre os
milagres referidos por S. Bernardo: 2.ª, que é
pelo opusculo e não pelo seu titulo, que se há
de avaliar até onde esse antagonismo vai, e se
elle é legitimo. Não apparece uma unica passagem
da minha carta em que eu me refira com
phrases hostis a
todo o clero
português. Os homens
que ha no meio delle illustrados e virtuosos,
respeito-os; respeito-os duplicadamente pela
sua illustração e pelas suas virtudes; pelo seu
caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal.
Esses não sobem aos pulpitos a dizer despropositos;
não me querem mal, nem a mim nem aos
meus pobres escriptos. Ao que eu me contrapús
foi ás turbas tonsuradas; foi á maioria material
e numerica; minoria nos dominios da intellectualidade,
das idéas, e dos puros e nobres affectos.
Faria uma offensa gratuita; practicaria
uma brutalidade indesculpavel, estaria em
contradicção
comigo mesmo, com as minhas opiniões,
se assim, sem motivo, sem provocação,
tivesse o proposito de maltractar aquell'outra
parte do clero.
É esta a idéa que ha de resultar da leitura da
minha carta para todos os animos desprevenidos;
para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia
para a reler. Quanto a esses de quem me queixo,
não sou eu homem que esconda as proprias
convicções.
Na minha vida litteraria tenho dado mais
de um documento de que costumo ser sincero.
Estou persuadido de que a maioria do nosso clero
é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a
natural repugnancia a despedaçar um cadaver,
daria aqui as razões da minha persuasão. Em
todo o caso, acceito inteira a responsabilidade
della: não tergiverso, não me arrependo. Tenho
dicto e escripto muitas verdades, senão mais deploraveis,
por certo mais perigosas para mim,
sem que o meu somno deixasse de ser profundo,
como o é habitualmente.
Postas as cousas nestes termos, que são os
exactos, não me é possivel comprehender a
affirmativa
de v.. de que o meu credito e honra
padeceriam pelo antagonismo com a maioria do
clero,
nessa lucta desigual, que envolveria a minha
condemnação. Se v.. viu
naquella fatal antithese
um peccado de orgulho, talvez o seja; mas
eu vi nella apenas um acto de humildade. Pois,
em consciencia, eu não valerei mais, litteraria e
moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente?
Mas cem, mas mil, mas dez mil clerigos máus
ou insipientes, ainda que os fundam e os acrisolem,
chegarão, acaso, a produzir o equivalente
de um homem de alguma intelligencia e de alguma
honestidade? Não. O resultado de todas
essas operações será sempre, a meu
ver, um
substratum de parvoice ou de
corrupção. Peccado
de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido.
Por este lado mal posso ser condemnado.
Referir-se-hia, porém, v.. ao perigo litterario?
Tambem não póde ser. É v.. assaz
instruido para sentir que por esse lado a lucta
me dá tanto cuidado como daria a v.. se estivesse
no meu logar. É o perigo religioso? A
idéa da condemnação antes de
contestada a lide,
e envolvida na proposição da causa, torna
talvez plausivel esta interpretação. Nessa
hypothese,
v.. não teria advertido n'um facto indubitavel.
A maioria do clero português não é
a maioria do clero catholico: a maioria do clero
catholico não constitue por si a igreja de Deus.
Bem infeliz seria eu se me visse em opposição
com esta; mas confio em que a Providencia me
livrará de cair nesse abysmo, não só
agora, mas
sempre.
Todavia a minha linguagem severa, embora
justa e legitima, será condemnavel, senão pela
substancia, ao menos pelos accidentes? Será condemnavel
porque vai ferir duramente um grande
numero de sacerdotes, de homens, infelizmente,
ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar
em meu auxilio um exemplo acima de toda
a excepção. É de um padre da igreja, a
cujas obras
o nosso clero foi tão affeiçoado, que
até lh'as quiz
augmentar, com grande gloria do sancto e proveito
destes reinos. Alludo a S. Bernardo. As
phrases da minha carta são de suprema doçura
comparadas com as que o celebre cluniacence
empregava para qualificar a corrupção,
não do
clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas
em geral do sacerdocio do seu tempo. «
Manou
a
iniquidade—dizia S. Bernardo—
dos
anciãos,
dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus; daquelles
que parecem governar o teu povo! Já não
é licito
dizer—
tal o povo, tal o sacerdocio;
porque
este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os teus
maiores perseguidores são os que mais ambicionam
a primazia, e exercem na igreja o mando
supremo[1]».
E, como se estas acres
expressões
não bastassem, o terrivel benedictino desfecha,
n'uma carta dirigida, não a algum prelado metropolitano,
mas ao proprio Innocencio II, na
seguinte diatribe:
A insolencia do
clero, a qual
nasce da indulgencia dos bispos,
turba o mundo
e afflige a igreja. Entregam os bispos as cousas
sanctas a cães,
e as
pedras preciosas a porcos,
e elles em paga mettem-nas debaixo dos pés.
Assim
o quizeram, assim o tenham[2]».
Se eu me
servisse de semelhante linguagem, imagine v..
que matinada se alevantaria contra mim!
Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto
padre da igreja, e eu não passo de um peccador
e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de
longe,
non passibus æquis.
Comtudo, v.. não
deixará de advertir em que, quando elle escrevia
essas phrases violentas, era um pobre monge,
humilde, simples, sem pretensões orgulhosas,
sem presciencia de que tinha de ser um sancto e
um luminar da igreja. E que lhe importava? O
espectaculo do procedimento do clero arrancou
da sua bôca esses brados d'indignação,
como
loucas provocações arrancaram da minha penna
palavras muito menos violentas.
Já agora consinta-me v.. que cite ainda um
veneravel prelado português quasi do nosso tempo,
a quem tambem tive occasião de alludir na
minha carta; que recorde as palavras geraes de
D. Fr. Caetano Brandão ácerca do clero
português
no principio deste seculo. O metropolita explicava
n'uma carta a certo ministro d'estado
quem era que fazia recair a desconsideração sobre
o poder pontificio: «
São
aquelles—dizia o
arcebispo de Braga—
que á força
de supplicas
importunas, de respeitos humanos, e outros motivos
ainda mais vergonhosos,
costumam extorquir
da curia romana provisões beneficiaes, que
mais parecem titulos de contractos de predios
rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos;
provisões a favor das quaes tem infestado
as parochias
e córos (collegiadas e cabidos) de todo o
reino
uma tropa confusa de sujeitos
indignos,
etc.
[3]».
Que se leia inteira a passagem impressa
daquella carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se
eu, quem usou de mais desabrida linguagem.
Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me
a crença de que não estão no inferno
nem a
alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S. Bernardo.
Ainda algumas palavras sobre o antagonismo,
em que de nenhum modo v.. me quer ver collocado,
em relação á maioria do clero. Foram
apenas alguns que me provocaram do pulpito, e
eu chamo á autoria o grande numero. É verdade.
Não sei com certeza senão de alguns factos
de aggressão, mas a noticia de parte d'esses factos
obtive-a casualmente: alguns constaram-me apenas,
porque um jornal a elles alludiu de passagem,
dizendo que se practicavam por diversos
logares de Entre-Douro e Minho. É acaso provavel
que se não repetissem por outras dioceses?
Em Lisboa, onde eu resido, onde os sacerdotes
podem ter mais illustração, onde, até,
o fanatismo
deve ser mais raro, porque a propria fé é mais
tibia, onde, emfim, os prégadores mais devem
receiar que o seu auditorio se ria delles, houve
dous exemplos. Não me será licito inferir que,
não tendo eu uma policia ás minhas ordens, ignoro
muitos successos analogos? Depois, houve, á
vista desses factos repetidos, não digo
punição
de semelhante abuso do ministerio sagrado, o
que não peço, o que até me
contristaria, porque
me lembro das palavras de Christo
«
Perdoa-lhes
Pae, que não sabem o que fazem, mas a
minima
providencia para impedir a renovação de taes
escandalos?
Para que servem os vigarios da vara,
os arcediagos, os representantes ou delegados do
poder episcopal? Como informam os respectivos
prelados do que se passa entre o clero diocesano?
Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem
entendem que a sanctidade dos papas da idade
média ou o apparecimento de Ourique são partes
integrantes da crença catholica, e que se trepassem
ao pulpito, e lhes viesse a talho, me chamariam
do mesmo modo impio ou herege? Se não
estão de accordo com os prégadores, como se
esquecem
de que os padres de Trento prohibiram
aos bispos que consentissem aos oradores sagrados
divulgar ou tractar factos incertos, ou que
tenham caracteres de falsidades[4],
e de que os do
concilio 1.º de Colonia ordenam aos mesmos oradores
que
não falem imprudentemente de milagres,
limitando-se aos que refere a Biblia, ou
aos que forem narrados por escriptores de peso,
estribados em solidos fundamentos historicos[5]?
Como quer pois v.. que eu não increpe o maior
numero e que não o supponha alistado contra
mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?
Passando ao segundo capitulo de accusação,
sinto verdadeira magoa em ser constrangido a
dizer que v.. leu menos attentamente o que
escrevi ácerca dos papas na minha carta ao eminentissimo
senhor Cardeal Patriarcha. Qualifiquei
ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas,
violentas e cubiçosas, alguns delles que se
chamaram Gregorio, Innocencio ou Honorio, e
v.. reprehende-me por classificar como taes
Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro
eu a estes dous papas no meu opusculo? Na epocha
abrangida pelo que se acha publicado da Historia
Portugal houve diversos pontifices desses
nomes. A cada um delles fiz, creio eu, justiça, e
Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque
viveu antes de nascer a monarchia. É singular
como v.. pôde perceber que, entre tantos,
alludi a esses dous em particular! Não teria eu
direito de dizer, que uma voz da propria consciencia
trahiu e tornou van a benevolencia para
com elles manifestada nas palavras de v..? O
que me parece indubitavel é que alguma
convicção
historica preoccupava o espirito de v..
quando nas minhas expressões vagas e geraes
viu um ataque directo e especial á memoria daquelles
homens extraordinarios, cujos meritos
não neguei, nem tenho empenho em negar.
Entretanto não pense v.. que com isto pretendo
lançar fóra de mim a responsabilidade de
julgar severamente Hildebrando ou Innocencio
III. Não tenho a minima dúvida em lhes applicar
as designações de intelligencias violentas e
cubiçosas,
como não a tenho em chamar corruptos a
outros papas, como, por exemplo, a Innocencio
IV. É verdade que v.. cobre Hildebrando com
a egide da canonisação, e Innocencio III com a
da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a
sciencia e litteratura sejam synonimos de virtude,
nem creio que uma canonisação constitua dogma
de fé, e obste á liberdade do historiador para
avaliar como entender os caracteres historicos.
V.. sabe perfeitamente que, fundando-se as
canonisações
em provas humanas, e não em factos
revelados, as decisões pontificias a tal respeito
são sempre falliveis, o que bem se manifesta
da oração que ainda no seculo XIV os papas
faziam na solemnidade das canonisações, pedindo
a Deus permittisse que não se houvessem enganado.
Esta doutrina é corrente, e v.. não a
ignora, nem poderia ignorá-la
[6].
Recorda-me v.. que os escriptores protestantes
fazem a estes dous pontifices a justiça
que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como
a entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo
ao papado, em mais de um logar do meu
livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos
que a civilisação lhes deve. Dos historiadores
protestantes modernos não conheço nenhum
mais celebre, dos que exaltam Gregorio
VII, do que o professor Leo. Mas, para isso, elle
proprio sentiu a necessidade de se valer exclusivamente
da idéa em que se resume a historia
do progresso humano. Esta idéa é a
lucta do
espirito com a sua manifestação, com a
fórma,
com a materia; o desenvolvimento do raciocinio
predominando no meio da força do acaso[7]».
Elle vê-a representada,
incarnada,
digamos assim,
em Gregorio VII e nos seus immediatos
successores, na indole e tendencias desses individuos;
eu vejo-a no papado, na indole da instituição.
É inquestionavel que nenhuns pontifices
levaram mais longe a manifestação da
idéa, e em
philosophia historica os defeitos desses papas
desapparecem, quando se considera a maneira
vasta e energica por que elles
desempenharam
a missão providencial do papado n'aquella epocha.
Todavia, na apreciação
moral dos seus
actos como individuos, é por outros principios
que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo
conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado
a essa luz, que a excluiu da historia «
No
mundo
dos phenomenos—diz elle—
a luz da
verdade
não se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se
por todas. Não são os phenomenos individualmente
que constituem a verdade, mas sim
o complexo delles.» Para avaliar o
pontifice como
representante e typo da instituição, a regra
é
exacta; para o avaliar como homem, não; porque
a
intenção, a
causa moral dos actos, é necessaria
para a apreciação abstracta de um caracter.
A suberba, a ambição e até a
cubiça de
Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente
me referi n'um logar do meu livro
[8].
Destruam, se é possivel, documentos irrefragaveis.
Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito,
qual era essa intenção moral, qual o
caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu contemporaneo,
um sancto padre. Tenho gosto especial
em citar nestas cousas os sanctos padres.
São respeitaveis auctoridades!
«
De resto—diz
um delles—
rogo humildemente ao meu S. Satanaz
que não se enfureça tanto comigo, e que a
sua veneranda suberba não me fustigue com tão
longa
flagellação[9]».
De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando.
Quem o escrevia? Um pobre velho: S.
Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre
II e ao proprio cardeal. Verdade é que não
sabía quão grande sancto havia de vir a ser o
seu
S. Satanaz. Nessas palavras
amargas do veneravel
monge está explicada a actividade irresistivel
com que Gregorio VII proseguiu na
lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior
intellectualmente aos outros homens, a
ambição de os dominar a todos fê-lo
até negar
a realeza, não só como facto, mas tambem como
principio. Houve, ha hoje um democrata mais
virulento do que Hildebrando? Não o creio. V..
conhece por certo uma passagem singular das
suas cartas. «Que!—diz elle—uma dignidade
inventada pelos homens do seculo (a dos principes)
não estará sujeita á que Deus
estabeleceu
para gloria propria? Quem não sabe que os reis,
que os chefes procedem dos principes pagãos,
os quaes por instigações do diabo,
que é o verdadeiro
principe do mundo, movidos por cega
paixão e levados por intoleravel
presumpção,
usurparam o poder supremo sobre os seus
iguaes,
pondo por obra, com esse intuito, a rapina, a
perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os
crimes?
[10]»
Não lhe parece a v.. que se hoje
Hildebrando resuscitasse, o tinhamos presidente
da republica democratica e social? Veja v..
o caso que o sancto varão fazia do famoso texto
biblico:
Per me reges regnant.
Dir-se-hia que
tinha lido:
Per diabolum reges
regnant. Podemos
nós os monarchistas (embora o sejamos
por differente feitio) acceitar as idéas do celebre
S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho,
uma intolerancia para com os poderes da terra,
que não comprehenderiamos, talvez, hoje, se
não tivesse vivido no nosso seculo uma intelligencia
igualmente
vasta e energica, chamada
Napoleão Bonaparte?
Vamos ás ultimas censuras de v.. em que
me parece não ter mais razão do que nas
primeiras.
Diz v.. que Roma,
significando o poder
pontificio, não póde jurar o
exterminio do
catholicismo. Que!?—Pela palavra Roma não se
póde entender senão o poder pontificio,
não se
póde significar senão o papa? V.. ha de
permittir-me
que eu recorra ainda uma vez a S. Bernardo
para me salvar da condemnação eminente.
Nesta contenda, não sei porque, o meu espirito
recorda-se a cada momento daquelle illustre padre
da igreja. Falando das horriveis desordens
que produziam as appellações para o papa, e
alludindo a dous bispos allemães carregados de
crimes, que, tendo appellado para Roma e levando
comsigo bastante dinheiro, haviam sido repellidos
nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo
exclama: «
Grande novidade! Quando
até o dia
de hoje rejeitou Roma dinheiro?[11]»
Note-se que o
sancto vivia no seculo immediato ao governo de
Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso
ao papa Eugenio III, que frequentemente louva,
e a quem, por certo, não pretendia affrontar. Que
significa pois a palavra
Roma na
bôca do grande
abbade de Claraval? A curia romana; essa curia,
onde, segundo a opinião do severo cluniacense,
«
era mais facil entrar honesto, do que
tornar-se
lá homem de bem[12]»;
essa curia
que me obrigaria
a encher paginas e paginas de citações se
quizesse
colligir as passagens relativas ao seu desprezo por
todas as leis divinas e humanas, quando se tractava
de receber ouro, passagens que se encontram
ás dezenas nos escriptores mais respeitaveis, e
onde se memoram, até, versos das cantigas populares
contra a cubiça da curia, o que prova ter-se
tornado proverbial a corrupção de Roma
[13].
Mas concedamos que, ultrapassando além da
curia romana, eu tivesse em mente o pontifice.
Como homem, como principe temporal, os seus
actos publicos são do dominio da imprensa; se
esses actos pelos seus effeitos moraes e politicos
poderem trazer graves turbações, dias de amargura
á igreja, não é licito a todo e
qualquer christão
deplorar essas consequencias, reprehender
esses actos? Quando eu digo que Roma
parece
ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso
o papa, a curia, alguem de ter a intenção directa
de o destruir? Ou eu não sei português, ou
empreguei
uma phrase trivial, cujo alcance todos
comprehendem. Que se diz do valetudinario que
despreza os conselhos dos medicos?
Parece que
se quer matar! E quando dizemos isto passa-nos
acaso pelo espirito a idéa de attribuir a esse individuo
a intenção directa do suicidio? Ou
será
que as expressões simples, as phrases innocentes
dos outros homens se convertem em peste e veneno,
quando saem da bôca do feroz herege que
ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem
posthumo, de S. Bernardo ácerca do milagre de
Ourique?
Em que tempos estamos nós? Para onde caminha
a reacção religiosa? Que!? Eu não
poderia
apreciar como entendesse o procedimento politico
de um papa, em relação aos futuros destinos
da igreja, e S. Thomás de Cantuaria poderia sem
ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III
as gravissimas accusações de o trahir, e de
querer
conduzi-lo á morte
[14]?
Poderia S. Thomás de
Aquino, o mais profundo philosopho do seculo
XIII, ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado
o tempo em que S. Pedro dizia
«
não possuo
nem ouro nem prata»—responder-lhe
«
que tambem
era passado o tempo em que S. Pedro dizia
ao paralitico—levanta-te e anda[15]»
epigramma
pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça
não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás
ser um doutor da igreja, depois deste attentado?
Podia sequer ser papa o successor do mesmo
Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o
vendilhão de igrejas[16]?
Riscae do catalogo dos
bemaventurados S. Antonino de Florença, que não
duvidou de pintar com as mais negras côres os
vicios hediondos de Clemente V
[17].
Não chameis
o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque taxou
de velhaco o papa Eugenio IV
[18].
Rejeitae
do gremio catholico o erudito e pio Fleury, porque
escreveu o 4.º discurso sobre a historia Ecclesiastica.
Para serdes logicos despovoae a igreja
de sanctos, de doutores, de homens illustres, se
credes que, dentro della, eu, que não sou nenhuma
dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos
principios eternos da moral, da justiça e da caridade
evangelica as acções dos papas sem renegar
da igreja.
Não disputarei com v.. sobre os successos
de Roma nos ultimos tempos. Cada qual póde
vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que,
porém,
eu tenho jus é a averiguar se é exacta a
proposição absoluta de v.., de que o futuro da
igreja é muito sabido, claro e indisputavel
para
os catholicos. Por este modo v.. parece excluir-me
do gremio do catholicismo, porque hesito sobre
o seu futuro. Advertiu acaso v.. em que a
proposição assim absolutamente enunciada,
conduziria
ao impossivel? O que é certo, sabido e claro
para a igreja, e para cada um dos seus membros,
é que ella será perpetua, indestructivel. Mas
por quaes phases tem de passar; se a esperam
dias serenos, se dias de tribulação; se acres
resentimentos,
imprudentemente preparados, virão
ou não como a procella despir a folhagem, lascar
os troncos da arvore eterna do christianismo, eis
o que nem a igreja, nem eu, nem v.. sabemos.
Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico,
habilitado para me dizer de um modo
certo
e claro, se a idea revolucionaria da Italia apodreceu
para sempre encharcada no sangue que as balas
e bayonetas francesas e austriacas derramaram
á voz da curia romana? Se a politica das masmorras,
dos desterros, da compressão inexoravel,
preferida á politica evangelica da tolerancia, do
perdão das injurias, da caridade sem limites,
poderá
varrer para sempre dos animos italianos o
odio do dominio estrangeiro (quer directo quer
indirecto) e o amor da liberdade politica? Esse
odio e esse amor póde v.. julgá-los legitimos
ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que
elles não existam; que elles não possam triumphar
algum dia, eis o que v.., por certo, não
affirmará com a mão na consciencia. E nessa
hypothese,
quem saberá dizer até onde chegarão
os excessos da colera e da vingança, azedadas
pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por
elle, se legitimidade se póde dar em taes sentimentos?
Parece-me que ao homem catholico é
licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé
ácerca da perpetuidade do catholicismo, que a
igreja se entristece, ou deve entristecer, aterrada
pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos
seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe
ardentes sobre o seio materno. Se attribuir ao gremio
dos fiéis, composto de homens, os affectos
de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não
é, de certo, das tradições
evangelicas, nem das
tradições dos antigos padres. Já no
seculo IV S. Hilario
de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos
o evangelho como triste e afflicto o Filho
de Deus
[19];
e S. Gregorio Magno não duvidava de
dizer: «
A sancta igreja, emquanto vive esta
vida
de corrupção, não cessa de chorar os
damnos
das vicissitudes por que passa»: e n'outra
parte:
«
A dor esmaga a igreja quando vê
os perversos
prosperarem na propria maldade»
[20].
É dessas
vicissitudes a que allude o sancto pontifice que eu
falo; é a essas vicissitudes, demasiado provaveis,
que os erros dos homens, as paixões anti-christans
do sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas
previsões, um caracter de terribilidade.
Tenho dado razão de mim. Diz v.. que poderia
accrescentar mais. Sinto que o limitado espaço
de uma folha periodica, ou outro qualquer
motivo, o inhibisse de assim o practicar. Gósto
de ser advertido dos erros em que caio, quando
é a sciencia e o talento quem se incumbe deste
mister, e certifico a v.. de que facilmente me
retractaria, se nas suas ulteriores observações
v.. me convencesse de que eu errava. Á ignorancia
presumida, ou á insolencia estupida, é
que não costumo fazer a honra de responder.
Quanto a esta questão, que não suscitei, e que
até deploro, ella terminou para mim. Que os
hypocritas façam visagens beatas contra a minha
impiedade; que me proclamem herege ou o que
elles quizerem, cousas são essas com que nenhum
homem de juizo se afflige, porque as assaduras
inquisitoriaes, mercê de Deus, acabaram
para sempre. A raça dos escribas e phariseus, o
peior flagello que Christo encontrou na terra, e
que elle mais cordealmente amaldiçoou, é immortal
e immutavel; mas deixá-la viver. Quem
diz ao sapo:—«não sejas
asqueroso?»—Quem
diz á vibora:—«não sejas
peçonhenta?»—Babem
e mordam; é o seu destino, coitados!
O que não tolerarei é que me chamem de
novo, a mim ou aos meus escriptos, a figurarmos
no meio das parvoices sacrilegas com que se
deshonram os pulpitos. Que os prelados façam
ou não o seu dever a este respeito, pouco me
importa. Estejam certos de que não será a suas
excellencias que pedirei desaggravo.
III
SOLEMNIA VERBA
AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES
(Outubro, 1850)
Porque virá tempo em que
muitos
homens não soffrerão a san doutrina;
mas..... accumularão para si mestres
conforme aos seus desejos:
E assim apartarão os ouvidos da
verdade e os applicarão ás fabulas.
S. Paulo,
Epistola II a
Thimoteo
c. 4. v. 3, 4.
Permitta-me v.. que, sem existirem entre nós
outras relações que não sejam aquellas
que fortuitamente
nascem entre os homens de letras quando
se encontram no campo da imprensa, eu dirija,
por essa mesma imprensa, uma carta a v..
Esta carta será um pouco extensa. Será talvez
seguida de outras. Não o sei ainda. N'uma questão
litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que
o procedimento de alguns individuos da ordem
sacerdotal converteu n'uma contenda que não sei
até onde chegará, v.. fez-me a honra de ser
meu adversario, escrevendo dous opusculos em
que combate as minhas opiniões n'um, ou para
melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria.
Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas
epochas, v.. se houve sempre para comigo
com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia
de um espirito cultivado. Póde haver ahi uma
ou outra expressão mais viva, que feriria certas
vaidades demasiado mimosas; se, porém, as ha,
não me feriram a mim, endurecido já nestes
recontros,
e que tambem não sou dos menos sujeitos
a ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade.
No meio dos que me tem combatido, v.. representa
a meus olhos a parte san, os homens
sinceros do gremio, da eschola, do partido (como
quizerem chamar-lhe, porque os nomes importam
pouco) a que v.. pertence. Representa, digo,
essa parte, postoque, e ainda bem que assim é,
não a resuma. Igual testemunho devo deixar aqui,
se os meus escriptos tem de viver mais algum dia
que eu, ácerca dos Redactores do jornal
A
Nação.
Meus adversarios tambem, não recebi delles na
impugnação das minhas doutrinas, senão
provas
de consideração e de urbanidade.
Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita
em que quiz encerrar-se no seu ultimo e recente
opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses
homens probos e leaes que estimo e respeito,
embora julgue erroneas, deploraveis até, as suas
opiniões n'uma contenda, que, não por minha
culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma
direcção fatal. Deus queira que os imprudentes
que lhe deram origem não tenham de chorar a
sua loucura com lagrymas amargas!
Sería bem triste que essa porção de
compatricios
meus em cujos corações o amor do passado
é um sentimento puro, postoque, a meu ver, ás
vezes se manifeste de modo pouco reflectido, me
cressem traidor á sancta causa da patria. Se os
erros de nossos paes e os erros de todos nós os
que vivemos, erros que nos trouxeram a uma
situação que não posso, que
não quero definir
aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal,
ameaçado na sua independencia e nacionalidade,
brade por todos os seus filhos para um
esforço supremo, para o salvarem ou para morrerem,
espero em Deus, e depois de Deus na
minha consciencia, que, sem crer no milagre de
Ourique, não serei o ultimo a acceitar esse terrivel
convite. O passado! Quem mais o amou do
que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos
com mais saudade para as suas tradições? Mas as
tradições de que tenho saudade; mas o passado
que eu amo, não o são essas lendas absurdas
(desculpe
v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas
por interesses mundanos, dos quaes,
por mais graves que sejam, nem a philosophia nem
o christianismo consentem se faça o céu
instrumento.
Nos tempos que foram o que me sorri, não
só como saudade, mas (porque não direi agora o
que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem
como esperança, são as
tradições dessa
liberdade primitiva, postoque incompleta, filha
primogenita do evangelho, que elle gerara para
mãe, para abrigo das sociedades da Peninsula;
dessa liberdade, rude e turbulenta como uma
creança educada á lei da natureza, mas como ella
robusta e viçosa; dessa liberdade que se estribava
nos habitos, que resultava de instituições
positivas e exequiveis, e não de
instituições copiadas
quasi ao acaso da primeira theoria que
tivesse transposto os Pyreneus; dessa liberdade
que tornava a monarchia uma cousa sancta, necessaria,
indestructivel, e que a monarchia, por
desgraça sua e nossa, foi lentamente esmagando
debaixo do seu throno, formado dos infolio, politicamente
fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas
e Commentarios das escholas d'Italia; dessa
liberdade, que, desenvolvida e organisada logicamente
com a sua origem, nos teria poupado talvez
á gloria immensa, mas para nós mais que esteril,
de nos convertermos em victimas da civilisação
da Europa, de revelar o Oriente á sua cubiça,
para logo virmos assentar-nos extenuados n'um
occaso de tres seculos; dessa liberdade que nos
teria salvado por certo de um longo estrebuxar
em esforços impotentes de emancipação,
que tomámos
como licções d'extranhos, e que era mais
velha para nós do que o era para elles. Eis-aqui a
maravilha, melhor que milagres imaginarios, na
qual não só creio, mas tambem espero.
Peço a v.. e aos animos honestos que pensam
como v.. se persuadam de que o homem que
não admitte certas narrativas infundadas, nem
por isso deixa de ser bom português, e que, se
não está excessivamente inclinado a adorar o
Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em
Deus.
Com elles, com v.. a discussão grave, pausada,
modesta, é possivel; é mais, é uma
necessidade
do espirito, em que este se sente viver da
vida, a elle tão congenita, do raciocinio. Mas como
replicar seriamente a homens, não só ignorantes
e ineptos, do que elles não tem culpa, mas
que falsificam, truncam, omittem as palavras do
adversario, que lhe alteram as ideas, que, mettidos
no charco mais fetido dos becos da Alfama ou
do Bairro Alto, atíram ás faces do
impio que passa
quanto lodo lhes cabe nas mãos, contrahidas
e convulsas pela colera? A taes desgraçados que
se póde fazer, senão dar-lhes a triste
celebridade
dos Cotins ou dos freis Gerundios, e enviá-los á
geração futura, envolvidos no sudario do
escarneo,
para lhe distrahir os tedios?
Se as expressões, talvez severas e acres em
demasia, que me escaparam n'um impeto de
indignação
contra a maioria do nosso clero, e não
contra os homens honestos e instruidos que pertencem
a essa classe, como sem pudor se inculca,
não estivessem justificadas pelos actos que as suscitaram,
as consequencias do meu escripto tê-las-hiam
remido. Dos que me impugnaram, foi aos
seculares que coube a moderação, a lealdade, e
a elevação dos pensamentos; foi a sacerdotes que
couberam as manifestações de odio incrivel
[21], a
transfiguração das minhas ideas, e a linguagem
sem nome das prostitutas. Isto é significativo. É
que esses seculares nunca tinham trajado a roupeta,
usada a cubrir mais hypocritas e devassos
ignorantes do que varões religiosos e sabios: tinham,
sim, vestido a farda de soldado, costumada
a despertar tantas vezes nobres e grandes instinctos.
E que me importam a mim esse odio impotente,
essa linguagem vergonhosa? O que o futuro
ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o v.. As
ameaças, que ahi se murmuram pelos cantos, essas
causam-me dó. Se ao poder publico faltasse
a força para manter illesa a segurança dos
cidadãos,
devolvia-se a estes o direito da propria defesa.
Mas os Jacques-Clementes não apparecem
senão onde a sinceridade das
convicções degenerou
em delirio, e não onde as crenças são
especulação.
Para ser Jacques-Clemente requer-se
mais alguma cousa do que saber assassinar; é
necessario saber morrer.
Entrarei na materia.
Na questão suscitada pelo modo como tractei
na Historia de Portugal a lenda de Ourique, e
ainda outras lendas analogas, é necessario confessar
que se tem partido sempre de um ponto
nebuloso e fluctuante. Para se chegar a um resultado
preciso era necessario ter convindo em
certo numero de principios, acceitar certas formulas
de raciocinio. Não se fez isso. E todavia, a
crítica historica tem regras para a credibilidade,
regras a que todo aquelle que tracta de taes materias
deve sujeitar-se, porque se estribam, não
só na acceitação dos homens de
sciencia, mas
tambem na razão commum. Estes preceitos são
no nosso seculo, em que os estudos historicos
têm feito na Europa tantos ou mais progressos
que as outras sciencias, assaz severos; mas essa
severidade começou a desenvolver-se desde os
fins do seculo XVII, em que a congregação de S.
Mauro, aquelle brilhante seminario de homens
illustres, creou a diplomatica. O estudo dos archivos,
estudo alumiado pela philosophia crítica,
mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas
compilações de trabalhos historicos dos seculos
anteriores. É de S. Germão dos Prados, de S.
Brás da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos
da França e da Allemanha, que partiu
o movimento intellectual da Europa nesta parte
do saber humano. O que o seculo presente, amestrado
por maior experiencia, tem feito é apertar
mais as condições da credibilidade, evitando ao
mesmo tempo todo o genero de preoccupação
que possa proceder dos interesses de partido politico
ou da incredulidade em materias de religião;
é tambem o ter dirigido as indagações
historicas
mais para o estudo da indole das sociedades,
do que para os actos dos individuos. Não
nega as tradições da antiga sciencia;
completa-as,
aperfeiçoa-as. No exame dos monumentos, na sua
confrontação, tem dado exemplos de imparcialidade
e de paciencia, que mereceriam os applausos
dos grandes reformadores benedictinos, se podessem
contemplar os resultados da eschola que
elles crearam, embora a sciencia moderna, como
era natural, os tenha deixado bem longe de si.
Os doutos que têm comparado os
Monumenta
Germaniæ Historica de Pertz, os
Monumenta
Historiæ Patriæ, publicados em
Turin, a Collecção
dos Archivos d'Inglaterra, a continuação dos
Scriptores Rerum Francicarum, e
emfim as demais
publicações desta ordem com o que os maurienses
nos deixaram nesse genero, sabem que
passos gigantes tem dado a crítica das fontes historicas.
O uso dessas fontes, a applicação dos
preceitos a ellas, tem produzido historiadores
como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amári,
Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira
conhece e admira. É a estes typos que hoje
forçosamente
ha-de tentar aproximar-se quem escrever
historia, se não quizer deshonrar-se e deshonrar
a litteratura do seu paiz. Foi essa aproximação
que eu tentei, persuadido de que bem
merecia por isso da terra em que nasci. Se é assim
ou não, pertence decidi-lo áquelles que vierem
após nós. No meio de uma
revolução litteraria
não ha desafogo de animo bastante para se fazer
inteira justiça, nem aos meus esforços, nem
á candura das minhas intenções.
Conheço a difficuldade
de se abandonarem antigas preoccupações,
e seria louco se me irritasse com isso.
Mas para refutar as impugnações que
até aqui
têm apparecido não me parece necessario invocar
a sciencia no seu estado actual, e nem sequer a
sciencia anterior na sua applicação á
historia profana.
Bastam-me as regras acceitas pelos historiadores
ecclesiasticos mais respeitaveis, inculcadas
por theologos, estabelecidas por membros illustres
do clero, a quem nem uma unica voz ousará
accusar de menos crentes, ou sequer de menos
piedosos. É, creio eu, e v.. o julgará, acceitar
a situação mais desvantajosa possivel:
é
tambem o que eu já tinha feito invocando a regra
de Vicente de Lerins. Se a religião (cuja base
é a crença em cousas que excedem a
comprehensão
humana, e que nos impõe a synthese, o
dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente
á analyse) exige dos factos tradicionaes,
antes de os acceitarmos, as condições de terem
sido acreditados
sempre, em toda a parte, e por
todos, quem pede para crer ou deixar de crer factos
puramente humanos (sujeitos pela sua natureza
a toda a discussão possivel) apenas as garantias
de liberdade intellectual que a igreja, tão
parca em concedê-las, concede aos fiéis para
acceitarem
uma parte das suas crenças, não abdica
evidentemente de uma liberdade, de uma vantagem
que é sua, que ninguem lhe disputaria? Mais
de uma vez terei talvez de appellar para a probidade
litteraria e para a intelligencia de v.. e
dos homens sinceros e honestos que pensam como
v..; mas aqui, parece-me tão evidente a materia,
que a deixo á discrição do espirito
mais vulgar,
da consciencia mais prevenida. Se Galileu,
quando descobriu que era a terra e não o sol que
andava, tivesse presentes as condições do
Comonitorio,
não o teria affirmado, e evitaria as
perseguições
da inquisição, postoque deixaria para
outro a gloria de ter descuberto um facto importante.
Aquelle canon, applicado á sciencia, é mais
perigoso para a verdade nova do que para o erro
antigo.
Eu disse que as auctoridades que estabeleceram
as regras historicas acceitas por mim serão
ineluctaveis para aquelles mesmos que mais ferrenhos
se mostram em conservar quanto os tempos
passados nos transmittiram. Essas regras,
pois, ao menos as principaes, permitta-me v..
que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver
uma parte do clero insultar-me nos pulpitos e na
imprensa, calumniar-me nas praças e corrilhos,
porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas
para se estudar e escrever a historia da
igreja por homens que são a gloria e honra
da
classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos,
na consciencia de todos não estivesse quanto escrevi
ácerca da decadencia intellectual da maioria
do nosso clero, parece-me que o que vou transcrever
sería medida sobeja para por ella se aferir
essa verdade. Já que falei dos religiosos da
congregação de S. Mauro, começarei
pelo mais
celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon.
Eis o que elle nos ensina:
1.º «Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos
no estudo da historia é em evitar todos
esses vicios em que é facil cair; quero dizer,
evitar admittir por verdadeiro o que é falso, ou
deixar-nos dominar pelas affeições particulares
dos historiadores. É necessario, primeiro que
tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se
é idoneo e sincero; o que o moveu a escrever;
se pertence a algum bando ou seita...»
2.º «Devemos averiguar
se o auctor que
lemos
é synchrono (contemporaneo); se escreveu
elle
proprio, ou se copiou outro; se é prudente nas
suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas;
porquanto, dada a paridade no demais,
deve preferir-se a opinião do auctor coevo á do
mais moderno. Digo—dada a paridade no demais—porque
póde acontecer, e acontece ás vezes,
escrever a historia com inteira madureza o
auctor não synchrono, estribado
em
monumentos
serios e boas razões, e o contemporaneo
muito
ao contrario, ou seja por negligencia, ou seja por
ignorancia dos factos, ou seja por alguma
prevenção,
ou finalmente porque o
subjuga a força
do proprio interesse.»
3.º «Segue-se d'aqui
não se
dever confiar demasiado
naquelles factos sobre que os escriptores
rigorosamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos,
guardaram silencio; postoque possa
acontecer que um auctor mais moderno consultasse
alguns monumentos importantes, guardados
em logar occulto quando os factos aconteceram,
ou visse escriptores synchronos, ou quasi
synchronos, cujas obras depois se perdessem.
«
Se, porém, esses escriptores, ou
os que lhes succederam,
no intervallo de um até dous seculos,
nada dizem a tal respeito, e não obstante isso,
um historiador mais moderno, sem se estribar
em testemunho ou auctoridade alguma, se atreve
a asseverar temerariamente esses factos, bem pequena
conta se deve fazer delle, aliás
abririamos
ampla estrada para errarmos, e para enganarmos
os outros.»
4.º «Com todo o cuidado nos devemos premunir
para não sermos illaqueados por alguns auctores
suppositicios, inventados nestes nossos tempos...»
5.º «Não se deve proscrever qualquer
auctor
por um ou outro defeito de paixão ou
allucinação,
pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeição
propria da natureza humana, comtanto que seja
sincero e pontual no resto...»
6.º «Não se devem desprezar os
antiquarios,
auctores de resumos historicos, e compiladores...»
7.º «Quando as narrativas variam, não nos
devemos
deixar attrahir pela consideração do numero,
mas sim pelo merito e gravidade
[22]
dos auctores;
visto que muitas vezes acontece que a auctoridade
de um auctor grave e sincero merece
preferir-se ao testemunho de cem de menos fé,
porque estes se foram repetindo uns aos outros
sem madura discussão e diligente exame das
cousas...»
8.º «Por este mesmo motivo não deve
fazer-se
grande fundamento na quasi innumeravel
multidão de casos que muitos modernos costumam
amontoar nas vidas de certos sanctos... Dizendo
isto, sinto apertar-se-me o coração, e com
magua devo accrescentar, que são muitissimo
mais exactos os auctores profanos escrevendo vidas
de ethnicos, do que muitos christãos relatando
vidas de sanctos, o que já não receou affirmar
Melchior Cano, referindo-se a Diogenes Laercio
e a Suetonio.»
Ouçamos ainda n'outra parte o fundador da
diplomatica francesa:
«É necessaria a crítica para
distinguirmos as
historias verdadeiras das falsas; para não darmos
temerariamente credito a narrações
supersticiosas,
a vans opiniões, a delirios aereos, a
milagres
fingidos ou duvidosos, a
escriptos
suppostos dos
sanctos padres. O veneravel Guigo, quinto geral
dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma
de crítica: ...
Buscae a prova de tudo; o
bom
respeitae-o. Quem crê de prompto é leve de
coração.»
Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador
da igreja catholica. Depois de varias
considerações
sobre os documentos falsos com que o
clero innundou a Europa nos seculos de trevas,
e da falta de instrucção que entre elle reinava,
o
historiador observa:
«Outro resultado da ignorancia é tornarem-se
os homens credulos e supersticiosos, por falta de
principios seguros de crença e de exacto conhecimento
dos deveres religiosos. Deus é poderosissimo,
e os sanctos têm alto valimento para com
elle: verdades são estas que nenhum catholico
rejeita: logo devo acreditar todos os milagres
attribuidos á intercessão dos sanctos.
Má conclusão.
Cumpre examinar as provas delles, e com
tanta mais exacção, quanto esses factos mais
incriveis
e importantes forem. Porque, dar por
certo um milagre falso nada menos é, segundo
S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus,
como mui judiciosamente observa S. Pedro Damião.
Assim, longe de ser acto de piedade crê-los
de leve, é a propria piedade que nos obriga
a averiguarmos com rigor as provas em que se
fundam.
O mesmo se deve dizer das
revelações,
das apparições de espiritos, das
operações do demonio...
Em summa, toda a pessoa dotada de
bom juizo e religiosidade deve ser cautelosissima
em acreditar factos sobrenaturaes.»
Mas observemos as precauções de que Fleury
se rodeava, as balisas que para si proprio punha,
ao começar o immenso lavor da sua
Historia
Ecclesiastica,
ainda hoje não substituida, apesar de
tantas monographias excellentes com que depois
tem sido illuminada, por um ou por outro aspecto,
n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis
os limites que elle estabeleceu á credibilidade
n'um genero de escriptos onde esta poderia ser
mais ampla, limites que á
fortiori não
será nunca
licito ultrapassar em matéria de
tradições humanas.
Mas antes permitta-me v.. que cite algumas
passagens, as quaes me parecem grandemente applicaveis
a essa parte do clero, que, em vomitando,
no pulpito ou na imprensa, contra quem diz a
verdade, quantos adjectivos injuriosos contém o
diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra
dessas fabulas e crendices que estão costumados
a propalar entre o povo, provavelmente pela mesma
razão por que prégam mal, isto é
porque os
festeiros gostam d'isso, embora os concilios lh'o
prohibam, os apostolos os condemnem, os membros
mais doutos e pios da igreja catholica lhes
mostrem o abysmo em que se precipitam! Para
onde has tu fugido, oh religião de Christo?!
«Vejo bem—diz Fleury—que a minha historia
não ha-de agradar aos espiritos acanhados,
atidos ás suas preoccupações, e sempre
promptos
em condemnar os que pretendem desenganá-los;
aos que tapam os ouvidos quando a verdade soa,
para se abraçarem com as fabulas, buscando doutores
que vão com elles. Não lhes faltarão
livros
acommodados ao paladar. Escrevo em vulgar
para ser util aos homens de juizo...»
«Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um
de credulidade, outro de critica. Nem só a simpleza
faz credulos. Pessoas ha que o são por politica
e por deploravel sobranceria.
Julgam que
o povo é incapaz ou indigno de saber a verdade;
e tem por necessario alimentar-lhe todas as opiniões
que lhe foram inculcadas como religião,
receiosos
de abalar o que é solido, atacando o que
é frivolo. Na essencia, estes suberbos politicos
são ignorantissimos. Desconhecendo a religião,
não a tomam a serio, e nada os liga a ella senão
as preoccupações da infancia e os interesses
temporaes.
Nunca examinaram as seguras provas do
evangelho, nem sentiram a excellencia da sua moral
e a esperança dos bens eternos.
É por isso que
não ousam profundar as cousas antigas e temem
conhecê-las: sabem que lhes não
são favoraveis.
Querem crer que sempre se viveu como hoje,
porque não querem mudar de vida, como se nos
fosse proveitoso enganar-nos a nós mesmos, ou
se a verdade podesse trocar-se em mentira á força
de averiguações. Graças a Deus, a
fé christan
passou pelo chrysol; o que ella
teme[23]
é que
não
a conheçam.
«A outra especie de pessoas credulas em demasia
são christãos sinceros, mas fracos e
escrupulisadores,
que á propria sombra da religião
respeitam, e sempre receiam crer de menos.
Falta a uns a instrucção; cerram os outros os
olhos, e não querem fazer uso do entendimento.
É para os taes objecto de devoção crer
quanto
escreveram os auctores catholicos e quanto crê
o ignorante vulgo. A meu vêr, a
legitima
devoção
consiste em prezar a verdade e a pureza da religião,
e em observar, primeiro que tudo, os preceitos
expressamente estabelecidos na sagrada
escriptura. Ora, vemos que S. Paulo recommenda
repetidas vezes a Tito e a Timotheo que evitem
as fabulas, predizendo tambem que uma das
desordens do fim do mundo será o affastarem-se
os homens da verdade para se aterem a crendices;
vemos que as fabulas eruditas não merecem
menos desprezo a S. Pedro que os contos de velhas
de S. Paulo; e do mesmo modo que elle condemna
as fabulas judaicas, teria condemnado as
christans, se já então as houvesse. Que
dirão a
isto aquelles que a timidez torna tão credulos?
Não terão escrupulo em menosprezar semelhante
auctoridade? Dirão que nunca houve fabulas
entre os christãos? Seria desmentir a antiguidade
em peso...»
«A critica é portanto, necessaria. Sem deixar
de respeitar as tradições, deve averiguar-se
quaes
são dignas de credito; devemos fazê-lo,
até, se
não queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as
com as falsas. Sem que duvidemos da
omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar
se os milagres estão bem provados, para
lhe não levantarmos falso testemunho, attribuindo-lhe
os que elle não fez.»
Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico
ácerca dos milagres, estribado nos livros
que Deus inspirou. Quem será, pois, o impio, o
incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos
e as doutrinas dos homens mais piedosos e
sabios do gremio catholico, ou aquelles que esquecidos
dos deveres, não digo do sacerdocio
(porque neste caracter, o seu procedimento não
tem nome), mas do simples christão, ousam perguntar
ao historiador sincero: «
Se é
necessario,
se é util que o historiador se constitua campeão
acerrimo contra essas tradições que deturpam a
historia? e que
respondem:—
É um arrojo mui
imprudente e reprehensivel no historiador semelhante
intento. Que precisão, que vantagem ha
em destruir as crenças theocraticas[24], que uma
tradição de seculos fora radicando no
coração
do povo? Nenhuma ha:» e depois accrescentam
esta maxima impia de Laharpe—«
a politica
sabia
e devia tirar partido do poderoso movel da
geral crença, cujos effeitos são geralmente bons
em todo o governo, mesmo quando a crença é
erronea!» Não peço a
v.. tão cavalheiro e tão
indulgente para comigo; peço ao homem que mais
me odiar, mas que conserve um resto de pudor,
que seja juiz entre mim e os desgraçados que não
se envergonham, christãos e sacerdotes, de invocar
contra a Historia de Portugal taes principios
e taes maximas, e que insultam, não a mim,
nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia,
mas os escriptores mais sabios, mais respeitados
do catholicismo.
Mancebos, cujos corações generosos a
indignação
póde desvairar! No meio destas saturnaes hediondas
que vedes passar; no meio dos gritos descompostos
da hypocrisia, que, embriagada de colera,
deixa tombar dos hombros seu velho e já tão
roto manto, e nua e vinolenta pragueja a verdade,
atira com a fé aos pés da politica, rasga as
sacras
paginas, maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres,
e dos sabios, não volteis, cheios de horror e
de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia,
a honesta liberdade do pensamento, bem
vedes que estão sanctificadas no livro dos livros,
O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes
no templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta,
que o povo só póde ser virtuoso se crer em falsos
milagres, saí, porque o templo está polluido
pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis
da cruz. A cruz está pura; a cruz será eterna.
Se esta gangrena que corroe o sacerdocio chegasse,
o que não creio, a corrompê-lo inteiramente;
se não achassemos uma ara, juncto da qual
orassemos
em espirito e verdade, a
cruz lá está
hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos
paes, para nos irmos abraçar com ella: os
mortos não tem ouro, os mortos não são
festeiros,
que paguem para se lhes falar a sabor: ahi
não se tem blasphemado.
Mas, reprimindo a amargura que deve causar
a todo o christão sincero o ver sacerdotes sacrificarem
assim a conveniencias mundanas o verbo
de Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem
e recontarem o preço por que o venderam,
acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia,
e vejamos, como já disse, as mais importantes
dessas regras que o pio e douto Fleury punha a
si proprio para evitar os erros da nimia credulidade.
«Não tenho em conta de provas, senão o
testemunho
dos auctores originaes, isto é, daquelles
que escreveram
contemporaneamente, ou pouco
depois. Porque a memoria dos successos não
póde subsistir por muito tempo sem ser escripta.
Bastante será se durar um
seculo. O filho póde
lembrar-se passados cincoenta annos do que o
pae ou avô lhe referiram cincoenta annos depois
de o haverem presenciado. Os successos que tem
passado por varias gerações não obtem
a mesma
certeza: cada qual lhes vai accrescentando alguma
cousa de sua lavra, talvez sem o pensar.
É
por
isso que as tradições vagas de factos muito
antigos,
que tarde ou nunca se escreveram, nenhum
credito merecem, principalmente repugnando a
factos provados.
Nem se diga que as historias
pódem
ter-se perdido; porque, dizendo-se isso sem
provas, posso tambem eu affirmar que ellas nunca
existiram. O mesmo direi dos escriptores que
escreveram successos anteriores a elles muitos seculos;
se não citam os auctores d'onde os tiraram,
temos o direito de desconfiar de que acreditaram
de leve os rumores vulgares.....»
«Os proprios auctores contemporaneos não devem
adoptar-se sem exame... deve averiguar-se
bem se o escriptor é digno de fé, quasi como
quem inquire testemunhas n'um processo...
O
que se encontra em cartas, ou em outros diplomas
da epocha, deve ser preferido ás narrativas
dos historiadores.»
Até aqui Fleury. Para estas largas
citações preferi
dous homens de indubitavel sciencia e de catholicismo
insuspeito. V.. sabe que eu poderia
tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos
ou protestantes, mas cuja auctoridade nem
por isso seria menor n'uma questão que evidentemente
não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia
invocar a bella sentença de Cicero:
«Quem
ignora que a primeira lei da historia é não ousar
dizer a menor falsidade, e a segunda não nos
faltar jámais valor para dizermos a
verdade?»
É certo que uma parte do clero português do seculo
XIX se ergueria para lhe
responder:—«
Ignoramo-lo
nós.»—Eu poderia tambem repetir
as
palavras do luminar da critica no seculo XVII, as
palavras de João Leclerc:—«Quando se escreve
a historia,
sobretudo de tempos
antigos, não é licito
dissimular a minima cousa; porque a verdade,
sem ser nociva aos mortos, aproveita muito
aos vivos; e pelo contrario a dissimulação,
inutil
para aquelles, é profundamente damnosa a
estes.»—Não
me quiz aproveitar dessas auctoridades
summas, porque um não era christão, outro
não era catholico. Parece-me que é levar longe o
escrupulo. E todavia, o protestante Leclerc estribava-se
na opinião de S. Isidoro Pelusiota—«Aquelles—diz
o sancto—que com artificiosas
palavras encobrem a verdade, muito mais desgraçados
me parecem de que os que não a comprehenderam.
Porquanto, os que por curteza de
engenho não a alcançaram, estes não
são talvez
indignos de desculpa; mas os que, sendo dotados
de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente
a occultam, commettem mais grave e
imperdoavel peccado.»
Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e
Fleury eram sobretudo eruditos. Haveria nelles
menos luzes theologicas? Serão os theologos de
profissão mais indulgentes para com as lendas e
tradições não provadas?
Exigirão, ao menos em
referencia á historia da igreja, maior credulidade
nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre
Melchior Cano, o qual ninguem accusará
de excessivo amor pelos fóros e liberdades do
raciocinio: eis algumas das suas observações
ácerca
do credito que deve dar-se ás
tradições infundadas.
«A principal regra (para distinguir as narrativas
falsas das verdadeiras) deduz-se da probidade
e inteireza humanas; regra perfeitamente applicavel
quando os historiadores
testificam terem
presenciado os successos que narram, ou terem-nos
sabido daquelles que os presenciaram...»
«É cousa averiguada que esses que escrevem
fingida e enganosamente a historia ecclesiastica
não podem ser gente boa e sincera, e que toda a
sua narrativa é tecida
para d'ahi tirarem
lucro,
ou para persuadirem o erro;
torpes no primeiro
caso, perniciosos no segundo. Justissimas
são as
queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas
no seio da igreja;
prudentes e graves as
arguições que dirige áquelles que
julgam obra
pia fazerem de mentiras religião, cousa
altamente
perigosa e profundamente inutil. Do mentiroso
nem a propria verdade ousamos acreditar.
Por isso
os que pretendem concitar os animos ao
culto dos bemaventurados com falsos e mentirosos
escriptos, nenhum outro resultado tirarão,
talvez, se não negar-se fé ás cousas
verdadeiras
por causa das falsas, e tornar-se duvidoso aquillo
mesmo que referem com severa consciencia auctores
de inteira veracidade.»
Preciso de implorar toda a indulgencia de
v.. para transcrever em seguimento a esta passagem,
admiravel de cordura e de legitima piedade,
outro bem diverso extracto. Juro que não
o faço com o intento de humilhar os homens sinceros
e honestos, a quem, a meu vêr, cega um
erro deploravel. É para vingar a religião
injuriada;
é para dar ao paiz um desses espectaculos
repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios
recorriam para evitar um vicio hediondo,
mandando assistir um escravo em completa embriaguez
ao jantar commum da mocidade d'Esparta.
Só advirto que a passagem é
concepção
de um sacerdote, que celebra por certo tranquillamente
o tremendo sacrificio do altar, sem que
em todas as paginas do missal
[25]
leia, escriptas em
letras de fogo, estas palavras que Jesus, o inimigo
da mentira, dizia aos escribas e phariseus de
outro tempo:
«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de
vós
Isaias, quando disse:
«Esta gente honra-me com os labios; mas o
seu coração está affastado de
mim.»
Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma
vez, peço venia de lançar, depois das doutrinas
de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um
homem tão delicado como v..
«Os historiadores têm advertido que os factos
maravilhosos, os prodigios singulares, que registavam
em seus escriptos
não eram fundados
senão
em rumores populares; outras muitas vezes tem-nos
tambem referido sem esta precaução, já
porque
elles mesmos fossem povo a tal
respeito... já
porque elles não julgassem dever abalar a crença
vulgar; bem convencidos que á sombra de um
prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a
que talvez tivessem vergonha de prejudicar.»
«Eis aqui os
dictames
prudenciaes, adoptados
pelos mais distinctos historiadores, ácerca dos
successos de caracter maravilhoso, que devem
dirigir todo o escriptor sensato.
O contrario
é
querer campar por uma anomalia extravagante
e ridicula...»
«Se, porém, gravemente offende o melindre
patriotico de uma nação aquelle que simplesmente
contradiz os pontos
theocraticos das
suas tradições
historicas constantemente recebidos e venerados;
quanto não se torna mais altamente
réu
d'este attentado aquelle escriptor, que
não só os
nega, mas tem a
asquerosa villania
de á cara
descuberta os vir insultar? Se alguem ha no orbe
litterario que mais demonstrativamente tenha
commettido
tão reprehensivel e extranho
excesso,
é por certo o auctor da carta aviltante, a respeito
da Apparição de Christo a D. Affonso Henriques.
É uma das ulceras mais pustulentas que
conspurcam
e aviltam esse escripto sandeu, que rancorosamente
a impropéra...»
«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada
como facto verdadeiro por seculos...?
Quando, porventura, o tivesse sido, teria,
não
receio dizê-lo, por effeito dessa universal
crença
dos sabios,
perdido a sua natureza e deixado de
o ser!!!...»
Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo,
para continuarmos a averiguar tranquillamente
se os theologos de profissão concordam com os
eruditos de reconhecida piedade nas bases da
critica historica. Ainda algumas palavras de Melchior
Cano.
«Achareis outros, não tão ineptos, mas
quasi
tão imprudentes, que não buscam a verdade das
cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar
onde é raro encontrá-la,
em
aereos e vagos rumores.
Acontece isto frequentemente aos inconstantes
e leves de cabeça;
porque os homens graves
e
severos não costumam andar á caça dos
dictos
vãos do vulgo.»
Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando
a incredulidade corria como lava ardente pela face
da Europa, e devorava as crenças mais sanctas
e legitimas em milhares de corações. Vacillou,
acaso, por isso a critica dos homens probos e
pios nos seus principios de severidade? No meio
de tantas ruinas, quizeram elles salvar com os
restos do edificio a sua falsa miragem? V.. o
julgará pelas doutrinas de muitos varões
religiosos
dos ultimos tempos, inteiramente accordes
com as dos que os haviam precedido. Por exemplo,
o theologo piemontês Denina, diz-nos:
«Acontecem algumas cousas fóra da ordem
natural, que, de per si só, são incriveis... a
esta
categoria pertencem, na igreja de Deus, os
milagres, os quaes,
nem é licito rejeitar
na
sua totalidade, nem se devem acceitar todos sem
selecção...»
«Pertence á prudencia do historiador
nada
escrever, que não saiba por si proprio, ou não
se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas,
cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo.
Mas
ninguem póde ter conhecimento do que
narra,
se não viveu no tempo em que os factos aconteceram;
nem sabê-los de pessoas fidedignas, se
estas não os presenciaram; nem escapa de
credulo,
se não explicar e expender as razões, causas
e circumstancias do que relata. Auctores que
assim o fazem
nenhum credito
merecem...»
«Nem tudo quanto o historiador relata do seu
tempo se ha-de acreditar; salvo constando que
fôra curioso em indagar e explorar...»
«Se o historiador referir cousas, não do seu
tempo, mas succedidas muitissimo antes, dar-se-lhe-ha
credito,
se individuar os auctores d'onde
as tirou, sendo
aliàs
daquelles que as podiam
saber...»
«Não duvido de chamar
máu historiador a
todo aquelle que devendo ter por norma o não
ousar dizer a menor falsidade,
nem faltar-lhe
animo para dizer qualquer verdade, encubrir
esta aos leitores,
seja por que motivo
for...»
Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins
do seculo passado: assim pensavam tambem os
theologos catholicos da Allemanha, ou antes do
paiz mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous,
um dos quaes, ou ambos, a nossa universidade
honrou, escolhendo as suas instituições de
historia
ecclesiastica para compendios nas faculdades
de theologia e de direito canonico. Falo de
Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses
compendios
relativas ao
criterium da verdade
historica
nada mais são do que o desenvolvimento
das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury,
de Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de
Muratori, de Baumeister; em summa de todos
os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram
ex-professo ou accidentalmente da crítica
historica. Andam esses livros nas mãos de todos,
menos nas do clero ignorante e corrupto, porque
este, coitado, não sabe ler. Não serei, por isso,
demasiado extenso em citá-los, escolhendo apenas
as passagens mais frisantes, e que fazem sobretudo
ao intento.
«Como os narradores—diz Gmeiner—por
falta de
habilidade sufficiente, ou
de sciencia, nos
possam enganar, ou por falta de
sinceridade, ou
por vontade nos
queiram illudir,
só podêmos
acquiescer ao seu testemunho, se não houver
razões sufficientes para duvidar da sua habilidade
ou sinceridade.»
«A auctoridade das testemunhas não é
uma e
a mesma, e portanto deve attender-se a esta diversidade.
Observa-se ella 1.º em relação aos
sentidos,
2.º em relação ao entendimento,
3.º em
relação á vontade. Em
relação aos sentidos, essas
testemunhas ou são de vista ou de ouvida.
As de
ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que
ouviram
aos coevos o que narram...»
«D'aqui se segue,
que pouca fé
deve dar-se
áquillo que os escriptores ou absolutamente contemporaneos,
ou quasi contemporaneos deixaram
de mencionar...»
«A verdade dos conhecimentos historicos não
depende de modo nenhum da abundancia dos
historiadores, visto que
não
provém maior certeza
a um facto historico de ser relatado em livros
de muitos auctores mais modernos, cada
um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto.
Todos elles junctos não valem mais do que
o primeiro que o referiu...»
«A consideração do paiz em que o
escriptor
viveu, e do tempo em que escreveu importa
muito em relação ao seu intuito de falar verdade.
N'alguns paizes a liberdade de escrever é
franca; n'outros opprimida; n'outros, emfim,
ha premios para a lisonja, odio e castigo para
a verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores
lisonjeiros da curia romana receberam
ás vezes em premio
de suas
fadigas o barrete
cardinalicio ou a dignidade do episcopado.
Naquellas provincias onde vigorou o terrivel tribunal
da inquisição, a fogueira estava prompta
para a verdade.»
«Não faltaram impostores e falsarios, que
trabalharam
em alterar varias passagens nos antigos
monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram
a outros.»
Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas
linhas do theologo Dannenmayr:
«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica—diz
elle—devemos principalmente ter
em mira,
que nem se nos inculquem fabulas
sobcolor
de verdades, nem consideremos como duvidosos
factos absolutamente certos e largamente
provados.»
Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario
estabelecer uma doutrina, uma norma, por onde
os animos imparciaes, e ainda os prevenidos,
mas sinceros nas suas prevenções, houvessem
de julgar-me, não tanto no foro da sciencia, que
era o meu foro, que era aquelle para onde eu
tinha direito de trazer o litigio, mas nó da mais
restricta piedade. Em these, a contenda dos que
blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia
(e que apologia, meu Deus!) das tradições
fabulosas, não é comigo; é com os
apostolos,
com os sanctos, com os historiadores do catholicismo,
com os theologos, com todos aquelles e
com tudo aquillo a que mais importava á hypocrisia
mentir acatamento nesta comedia beata.
A tonta e imprudente não se lembrou de que lhe
caía a mascara, e de que alguem poderia
levantá-la
para a entregar ao povo, que nos seus grandes
instinctos de justiça lhe fustigaria as faces
com ella. Na hypothese, no que me diz respeito,
o meu dever é provar aos homens sinceramente
pios que, rejeitando falsas lendas, não ultrapassei
os limites de uma crítica irreprehensivel. Será
esse o objecto da carta immediata, que em breve
espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão
das minhas opiniões ácerca da maioria do nosso
clero, e ácerca da curia romana. Compelliram-me
a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o
paiz os conhecesse: hão-de ser satisfeitos.
Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos
choram em silencio a vergonha da sua classe,
e emquanto os prelados dormem tranquillos nas
suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa
dos tristes dias de tempestade!