AO REDACTOR DA NAÇÃO

(Julho, 1850)



A necessidade de reprimir o abuso do ministerio do pulpito que contra mim se estava practicando obrigou-me a dirigir a sua eminencia o Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem faltar á consideração devida ao prelado da diocese, nem aos outros bispos do reino, entendi que cumpria usar de uma linguagem severa, mas justa, para com a maioria do clero. Habituado a patentear livre e singelamente as minha opiniões ácerca dos homens e das cousas, não soube nem quiz buscar rodeios, ou adoçar as phrases para me exprimir de modo menos aspero n'uma questão que me respeitava pessoalmente, e em que até certo ponto estava compromettido, não só o meu caracter litterario, mas tambem, o que mais importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa periodica, politica e não politica, sem distincção de partidos, foi unanime em condemnar actos que me obrigavam a dar um passo a que bem desejaria me houvessem poupado. Como os outros jornaes, a Nação reprovou as aggressões inauditas perpetradas por uma parte do clero, e toleradas por outra. O procedimento de v.. para comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre, quanto é certo que a indole do seu jornal deveria talvez levá-lo a rebater a opinião de diversas publicações periodicas, se o sentimento da justiça não fosse mais forte no animo de v.. do que outras quaesquer considerações. É assim que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave missão, e remedeia do modo possivel a decadencia do sacerdocio religioso. Continuando, porém, a tractar de uma questão, que, embora interessasse um simples e quasi obscuro individuo, era demasiado importante pelo alcance e significação dos factos que a haviam suscitado, v.. teve a bondade de dirigir-me algumas observações, que me pareceu exigirem de mim explicações como christão e como homem de letras. Não as dei logo, porque não tardou a annunciar-se publicamente uma refutação da minha carta, em desaggravo do clero. Falava-se n'um milagre de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu teria de fugir desalentado como os sarracenos de Ourique diante do da apparição. Citavam-se, até, nomes: falava-se em summidades da igreja e da eschola. Como entendo que não é bom fugir sem ver de que, esperei que rebentasse o temporal. Se fosse por elle submergido, de que aproveitariam as explicações dadas a v..? Se, porém, podesse salvar o meu fragil baixel, pediria misericordia aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v.. razão de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado no oratorio, com o ouvido attento ao som que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora, todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade, eu alimentava esperanças de salvação com um argumento que fazia a mim mesmo. Não é provavel, dizia comigo, que um membro do clero illustrado e honesto queira vir combater-me no terreno desigual e escorregadio em que a imprudencia collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical tem impedimento dirimente para entrar neste empenho. Para escrever é preciso saber ler e ter lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por este lado podia eu estar tranquillo.

É certo que o annuncio feito nos jornaes não foi materialmente vão. Appareceu um folheto, que parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me que é de um mancebo principiante. Revela, sem dúvida, algum talento no auctor. Com o tempo, e estudando, este póde vir a ser um escriptor soffrivel, e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou d'outras questões com honra sua e proveito do paiz.

Non ragioniam di lui, ma guarda, e passa.

É pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei do modo mais breve que me for possivel. Se alguma phrase menos comedida me fugir da penna, declaro desde já que a retiro. Dirigindo-me a um escriptor como v.., tão urbano nas proprias censuras que me faz, embora sobre tão melindrosa materia como o são as cousas da fé, espero que v.. não veja por caso algum nas minhas palavras a menor intenção offensiva.

Tres censuras irroga v.. ao conteúdo da minha carta; a primeira contra a antithese contida no titulo do opusculo Eu e o clero: a segunda contra as expressões de intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e cubiçosas, de que me servi para qualificar alguns papas: a terceira contra a phrase, Roma que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo, e contra os terrores que attribuo á igreja ácerca do futuro. Considerarei em especial cada uma dessas tres censuras.

Diz v.. que me era licito collocar-me em antagonismo com um ou outro clerigo, porém não com o clero em geral, por honra e credito meu, que nada podia ganhar em lucta tão desigual, e que, a existir, seria a minha condemnação. Antes de tudo é necessario observar duas cousas: 1.ª, que o antagonismo não o creei eu: resultou de factos practicados pelo clero, que tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria talvez sempre em silencio, se não receiasse que no progresso da aggressão chegassem a levantar-me um pulpito diante da porta, para d'ahi me fazerem um sermão sobre a sanctidade dos papas da idade média, ou sobre os milagres referidos por S. Bernardo: 2.ª, que é pelo opusculo e não pelo seu titulo, que se há de avaliar até onde esse antagonismo vai, e se elle é legitimo. Não apparece uma unica passagem da minha carta em que eu me refira com phrases hostis a todo o clero português. Os homens que ha no meio delle illustrados e virtuosos, respeito-os; respeito-os duplicadamente pela sua illustração e pelas suas virtudes; pelo seu caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal. Esses não sobem aos pulpitos a dizer despropositos; não me querem mal, nem a mim nem aos meus pobres escriptos. Ao que eu me contrapús foi ás turbas tonsuradas; foi á maioria material e numerica; minoria nos dominios da intellectualidade, das idéas, e dos puros e nobres affectos. Faria uma offensa gratuita; practicaria uma brutalidade indesculpavel, estaria em contradicção comigo mesmo, com as minhas opiniões, se assim, sem motivo, sem provocação, tivesse o proposito de maltractar aquell'outra parte do clero.

É esta a idéa que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a reler. Quanto a esses de quem me queixo, não sou eu homem que esconda as proprias convicções. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria do nosso clero é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a natural repugnancia a despedaçar um cadaver, daria aqui as razões da minha persuasão. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: não tergiverso, não me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades, senão mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu somno deixasse de ser profundo, como o é habitualmente.

Postas as cousas nestes termos, que são os exactos, não me é possivel comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, nessa lucta desigual, que envolveria a minha condemnação. Se v.. viu naquella fatal antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu não valerei mais, litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem, mas mil, mas dez mil clerigos máus ou insipientes, ainda que os fundam e os acrisolem, chegarão, acaso, a produzir o equivalente de um homem de alguma intelligencia e de alguma honestidade? Não. O resultado de todas essas operações será sempre, a meu ver, um substratum de parvoice ou de corrupção. Peccado de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido. Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porém, v.. ao perigo litterario? Tambem não póde ser. É v.. assaz instruido para sentir que por esse lado a lucta me dá tanto cuidado como daria a v.. se estivesse no meu logar. É o perigo religioso? A idéa da condemnação antes de contestada a lide, e envolvida na proposição da causa, torna talvez plausivel esta interpretação. Nessa hypothese, v.. não teria advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero português não é a maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico não constitue por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposição com esta; mas confio em que a Providencia me livrará de cair nesse abysmo, não só agora, mas sempre.

Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, será condemnavel, senão pela substancia, ao menos pelos accidentes? Será condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes, de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepção. É de um padre da igreja, a cujas obras o nosso clero foi tão affeiçoado, que até lh'as quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos. Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta são de suprema doçura comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a corrupção, não do clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas em geral do sacerdocio do seu tempo. «Manou a iniquidade—dizia S. Bernardo—dos anciãos, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus; daquelles que parecem governar o teu povo! Já não é licito dizertal o povo, tal o sacerdocio; porque este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e exercem na igreja o mando supremo[1]». E, como se estas acres expressões não bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta dirigida, não a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio II, na seguinte diatribe: A insolencia do clero, a qual nasce da indulgencia dos bispos, turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os bispos as cousas sanctas a cães, e as pedras preciosas a porcos, e elles em paga mettem-nas debaixo dos pés. Assim o quizeram, assim o tenham[2]». Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que matinada se alevantaria contra mim!

Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu não passo de um peccador e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de longe, non passibus æquis. Comtudo, v.. não deixará de advertir em que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge, humilde, simples, sem pretensões orgulhosas, sem presciencia de que tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bôca esses brados d'indignação, como loucas provocações arrancaram da minha penna palavras muito menos violentas.

Já agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado português quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasião de alludir na minha carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brandão ácerca do clero português no principio deste seculo. O metropolita explicava n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a desconsideração sobre o poder pontificio: «São aquelles—dizia o arcebispo de Braga—que á força de supplicas importunas, de respeitos humanos, e outros motivos ainda mais vergonhosos, costumam extorquir da curia romana provisões beneficiaes, que mais parecem titulos de contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos; provisões a favor das quaes tem infestado as parochias e córos (collegiadas e cabidos) de todo o reino uma tropa confusa de sujeitos indignos, etc.[3]». Que se leia inteira a passagem impressa daquella carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais desabrida linguagem.

Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me a crença de que não estão no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S. Bernardo.

Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me quer ver collocado, em relação á maioria do clero. Foram apenas alguns que me provocaram do pulpito, e eu chamo á autoria o grande numero. É verdade. Não sei com certeza senão de alguns factos de aggressão, mas a noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem, dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho. É acaso provavel que se não repetissem por outras dioceses? Em Lisboa, onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustração, onde, até, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria fé é mais tibia, onde, emfim, os prégadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria delles, houve dous exemplos. Não me será licito inferir que, não tendo eu uma policia ás minhas ordens, ignoro muitos successos analogos? Depois, houve, á vista desses factos repetidos, não digo punição de semelhante abuso do ministerio sagrado, o que não peço, o que até me contristaria, porque me lembro das palavras de Christo «Perdoa-lhes Pae, que não sabem o que fazem, mas a minima providencia para impedir a renovação de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero diocesano? Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem entendem que a sanctidade dos papas da idade média ou o apparecimento de Ourique são partes integrantes da crença catholica, e que se trepassem ao pulpito, e lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se não estão de accordo com os prégadores, como se esquecem de que os padres de Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de falsidades[4], e de que os do concilio 1.º de Colonia ordenam aos mesmos oradores que não falem imprudentemente de milagres, limitando-se aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de peso, estribados em solidos fundamentos historicos[5]? Como quer pois v.. que eu não increpe o maior numero e que não o supponha alistado contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?

Passando ao segundo capitulo de accusação, sinto verdadeira magoa em ser constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi ácerca dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha. Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas, violentas e cubiçosas, alguns delles que se chamaram Gregorio, Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz, creio eu, justiça, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque viveu antes de nascer a monarchia. É singular como v.. pôde perceber que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! Não teria eu direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me parece indubitavel é que alguma convicção historica preoccupava o espirito de v.. quando nas minhas expressões vagas e geraes viu um ataque directo e especial á memoria daquelles homens extraordinarios, cujos meritos não neguei, nem tenho empenho em negar.

Entretanto não pense v.. que com isto pretendo lançar fóra de mim a responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III. Não tenho a minima dúvida em lhes applicar as designações de intelligencias violentas e cubiçosas, como não a tenho em chamar corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. É verdade que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisação, e Innocencio III com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisação constitua dogma de fé, e obste á liberdade do historiador para avaliar como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que, fundando-se as canonisações em provas humanas, e não em factos revelados, as decisões pontificias a tal respeito são sempre falliveis, o que bem se manifesta da oração que ainda no seculo XIV os papas faziam na solemnidade das canonisações, pedindo a Deus permittisse que não se houvessem enganado. Esta doutrina é corrente, e v.. não a ignora, nem poderia ignorá-la[6].

Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous pontifices a justiça que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos que a civilisação lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos não conheço nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se valer exclusivamente da idéa em que se resume a historia do progresso humano. Esta idéa é a lucta do espirito com a sua manifestação, com a fórma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no meio da força do acaso[7]». Elle vê-a representada, incarnada, digamos assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da instituição. É inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe a manifestação da idéa, e em philosophia historica os defeitos desses papas desapparecem, quando se considera a maneira vasta e energica por que elles desempenharam a missão providencial do papado n'aquella epocha. Todavia, na apreciação moral dos seus actos como individuos, é por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu da historia «No mundo dos phenomenos—diz elle—a luz da verdade não se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. Não são os phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo delles.» Para avaliar o pontifice como representante e typo da instituição, a regra é exacta; para o avaliar como homem, não; porque a intenção, a causa moral dos actos, é necessaria para a apreciação abstracta de um caracter. A suberba, a ambição e até a cubiça de Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente me referi n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se é possivel, documentos irrefragaveis.

Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa intenção moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas cousas os sanctos padres. São respeitaveis auctoridades! «De resto—diz um delles—rogo humildemente ao meu S. Satanaz que não se enfureça tanto comigo, e que a sua veneranda suberba não me fustigue com tão longa flagellação[9]».

De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um pobre velho: S. Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao proprio cardeal. Verdade é que não sabía quão grande sancto havia de vir a ser o seu S. Satanaz. Nessas palavras amargas do veneravel monge está explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior intellectualmente aos outros homens, a ambição de os dominar a todos fê-lo até negar a realeza, não só como facto, mas tambem como principio. Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? Não o creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas. «Que!—diz elle—uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos principes) não estará sujeita á que Deus estabeleceu para gloria propria? Quem não sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes pagãos, os quaes por instigações do diabo, que é o verdadeiro principe do mundo, movidos por cega paixão e levados por intoleravel presumpção, usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes, pondo por obra, com esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os crimes?[10]» Não lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse, o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso que o sancto varão fazia do famoso texto biblico: Per me reges regnant. Dir-se-hia que tinha lido: Per diabolum reges regnant. Podemos nós os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio) acceitar as idéas do celebre S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho, uma intolerancia para com os poderes da terra, que não comprehenderiamos, talvez, hoje, se não tivesse vivido no nosso seculo uma intelligencia igualmente vasta e energica, chamada Napoleão Bonaparte?

Vamos ás ultimas censuras de v.. em que me parece não ter mais razão do que nas primeiras. Diz v.. que Roma, significando o poder pontificio, não póde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?—Pela palavra Roma não se póde entender senão o poder pontificio, não se póde significar senão o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S. Bernardo para me salvar da condemnação eminente. Nesta contenda, não sei porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellações para o papa, e alludindo a dous bispos allemães carregados de crimes, que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro, haviam sido repellidos nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo exclama: «Grande novidade! Quando até o dia de hoje rejeitou Roma dinheiro?[11]» Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, não pretendia affrontar. Que significa pois a palavra Roma na bôca do grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a opinião do severo cluniacense, «era mais facil entrar honesto, do que tornar-se lá homem de bem[12]»; essa curia que me obrigaria a encher paginas e paginas de citações se quizesse colligir as passagens relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se tractava de receber ouro, passagens que se encontram ás dezenas nos escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, até, versos das cantigas populares contra a cubiça da curia, o que prova ter-se tornado proverbial a corrupção de Roma[13].

Mas concedamos que, ultrapassando além da curia romana, eu tivesse em mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos publicos são do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos moraes e politicos poderem trazer graves turbações, dias de amargura á igreja, não é licito a todo e qualquer christão deplorar essas consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma parece ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem de ter a intenção directa de o destruir? Ou eu não sei português, ou empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? Parece que se quer matar! E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a idéa de attribuir a esse individuo a intenção directa do suicidio? Ou será que as expressões simples, as phrases innocentes dos outros homens se convertem em peste e veneno, quando saem da bôca do feroz herege que ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo ácerca do milagre de Ourique?

Em que tempos estamos nós? Para onde caminha a reacção religiosa? Que!? Eu não poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um papa, em relação aos futuros destinos da igreja, e S. Thomás de Cantuaria poderia sem ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III as gravissimas accusações de o trahir, e de querer conduzi-lo á morte[14]? Poderia S. Thomás de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII, ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro dizia «não possuo nem ouro nem prata»—responder-lhe «que tambem era passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico—levanta-te e anda[15]» epigramma pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás ser um doutor da igreja, depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o vendilhão de igrejas[16]? Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florença, que não duvidou de pintar com as mais negras côres os vicios hediondos de Clemente V[17]. Não chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.º discurso sobre a historia Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que não sou nenhuma dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos principios eternos da moral, da justiça e da caridade evangelica as acções dos papas sem renegar da igreja.

Não disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos. Cada qual póde vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que, porém, eu tenho jus é a averiguar se é exacta a proposição absoluta de v.., de que o futuro da igreja é muito sabido, claro e indisputavel para os catholicos. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em que a proposição assim absolutamente enunciada, conduziria ao impossivel? O que é certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um dos seus membros, é que ella será perpetua, indestructivel. Mas por quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de tribulação; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, virão ou não como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v.. sabemos. Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico, habilitado para me dizer de um modo certo e claro, se a idea revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram á voz da curia romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compressão inexoravel, preferida á politica evangelica da tolerancia, do perdão das injurias, da caridade sem limites, poderá varrer para sempre dos animos italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor póde v.. julgá-los legitimos ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que elles não existam; que elles não possam triumphar algum dia, eis o que v.., por certo, não affirmará com a mão na consciencia. E nessa hypothese, quem saberá dizer até onde chegarão os excessos da colera e da vingança, azedadas pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por elle, se legitimidade se póde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem catholico é licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé ácerca da perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve entristecer, aterrada pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe ardentes sobre o seio materno. Se attribuir ao gremio dos fiéis, composto de homens, os affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não é, de certo, das tradições evangelicas, nem das tradições dos antigos padres. Já no seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio Magno não duvidava de dizer: «A sancta igreja, emquanto vive esta vida de corrupção, não cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que passa»: e n'outra parte: «A dor esmaga a igreja quando vê os perversos prosperarem na propria maldade»[20]. É dessas vicissitudes a que allude o sancto pontifice que eu falo; é a essas vicissitudes, demasiado provaveis, que os erros dos homens, as paixões anti-christans do sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previsões, um caracter de terribilidade.

Tenho dado razão de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto que o limitado espaço de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo, o inhibisse de assim o practicar. Gósto de ser advertido dos erros em que caio, quando é a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister, e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas ulteriores observações v.. me convencesse de que eu errava. Á ignorancia presumida, ou á insolencia estupida, é que não costumo fazer a honra de responder. Quanto a esta questão, que não suscitei, e que até deploro, ella terminou para mim. Que os hypocritas façam visagens beatas contra a minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas são essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras inquisitoriaes, mercê de Deus, acabaram para sempre. A raça dos escribas e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle mais cordealmente amaldiçoou, é immortal e immutavel; mas deixá-la viver. Quem diz ao sapo:—«não sejas asqueroso?»—Quem diz á vibora:—«não sejas peçonhenta?»—Babem e mordam; é o seu destino, coitados!

O que não tolerarei é que me chamem de novo, a mim ou aos meus escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se deshonram os pulpitos. Que os prelados façam ou não o seu dever a este respeito, pouco me importa. Estejam certos de que não será a suas excellencias que pedirei desaggravo.



III

SOLEMNIA VERBA


AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES

(Outubro, 1850)



Porque virá tempo em que muitos homens não soffrerão a san doutrina; mas..... accumularão para si mestres conforme aos seus desejos:

E assim apartarão os ouvidos da verdade e os applicarão ás fabulas.

S. Paulo, Epistola II a Thimoteo
c. 4. v. 3, 4.



Permitta-me v.. que, sem existirem entre nós outras relações que não sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa, uma carta a v..

Esta carta será um pouco extensa. Será talvez seguida de outras. Não o sei ainda. N'uma questão litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que o procedimento de alguns individuos da ordem sacerdotal converteu n'uma contenda que não sei até onde chegará, v.. fez-me a honra de ser meu adversario, escrevendo dous opusculos em que combate as minhas opiniões n'um, ou para melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria. Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas epochas, v.. se houve sempre para comigo com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia de um espirito cultivado. Póde haver ahi uma ou outra expressão mais viva, que feriria certas vaidades demasiado mimosas; se, porém, as ha, não me feriram a mim, endurecido já nestes recontros, e que tambem não sou dos menos sujeitos a ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade.

No meio dos que me tem combatido, v.. representa a meus olhos a parte san, os homens sinceros do gremio, da eschola, do partido (como quizerem chamar-lhe, porque os nomes importam pouco) a que v.. pertence. Representa, digo, essa parte, postoque, e ainda bem que assim é, não a resuma. Igual testemunho devo deixar aqui, se os meus escriptos tem de viver mais algum dia que eu, ácerca dos Redactores do jornal A Nação. Meus adversarios tambem, não recebi delles na impugnação das minhas doutrinas, senão provas de consideração e de urbanidade.

Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita em que quiz encerrar-se no seu ultimo e recente opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses homens probos e leaes que estimo e respeito, embora julgue erroneas, deploraveis até, as suas opiniões n'uma contenda, que, não por minha culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma direcção fatal. Deus queira que os imprudentes que lhe deram origem não tenham de chorar a sua loucura com lagrymas amargas!

Sería bem triste que essa porção de compatricios meus em cujos corações o amor do passado é um sentimento puro, postoque, a meu ver, ás vezes se manifeste de modo pouco reflectido, me cressem traidor á sancta causa da patria. Se os erros de nossos paes e os erros de todos nós os que vivemos, erros que nos trouxeram a uma situação que não posso, que não quero definir aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal, ameaçado na sua independencia e nacionalidade, brade por todos os seus filhos para um esforço supremo, para o salvarem ou para morrerem, espero em Deus, e depois de Deus na minha consciencia, que, sem crer no milagre de Ourique, não serei o ultimo a acceitar esse terrivel convite. O passado! Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com mais saudade para as suas tradições? Mas as tradições de que tenho saudade; mas o passado que eu amo, não o são essas lendas absurdas (desculpe v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas por interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que sejam, nem a philosophia nem o christianismo consentem se faça o céu instrumento. Nos tempos que foram o que me sorri, não só como saudade, mas (porque não direi agora o que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem como esperança, são as tradições dessa liberdade primitiva, postoque incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para mãe, para abrigo das sociedades da Peninsula; dessa liberdade, rude e turbulenta como uma creança educada á lei da natureza, mas como ella robusta e viçosa; dessa liberdade que se estribava nos habitos, que resultava de instituições positivas e exequiveis, e não de instituições copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os Pyreneus; dessa liberdade que tornava a monarchia uma cousa sancta, necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraça sua e nossa, foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio, politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e Commentarios das escholas d'Italia; dessa liberdade, que, desenvolvida e organisada logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez á gloria immensa, mas para nós mais que esteril, de nos convertermos em victimas da civilisação da Europa, de revelar o Oriente á sua cubiça, para logo virmos assentar-nos extenuados n'um occaso de tres seculos; dessa liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em esforços impotentes de emancipação, que tomámos como licções d'extranhos, e que era mais velha para nós do que o era para elles. Eis-aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual não só creio, mas tambem espero.

Peço a v.. e aos animos honestos que pensam como v.. se persuadam de que o homem que não admitte certas narrativas infundadas, nem por isso deixa de ser bom português, e que, se não está excessivamente inclinado a adorar o Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em Deus.

Com elles, com v.. a discussão grave, pausada, modesta, é possivel; é mais, é uma necessidade do espirito, em que este se sente viver da vida, a elle tão congenita, do raciocinio. Mas como replicar seriamente a homens, não só ignorantes e ineptos, do que elles não tem culpa, mas que falsificam, truncam, omittem as palavras do adversario, que lhe alteram as ideas, que, mettidos no charco mais fetido dos becos da Alfama ou do Bairro Alto, atíram ás faces do impio que passa quanto lodo lhes cabe nas mãos, contrahidas e convulsas pela colera? A taes desgraçados que se póde fazer, senão dar-lhes a triste celebridade dos Cotins ou dos freis Gerundios, e enviá-los á geração futura, envolvidos no sudario do escarneo, para lhe distrahir os tedios?

Se as expressões, talvez severas e acres em demasia, que me escaparam n'um impeto de indignação contra a maioria do nosso clero, e não contra os homens honestos e instruidos que pertencem a essa classe, como sem pudor se inculca, não estivessem justificadas pelos actos que as suscitaram, as consequencias do meu escripto tê-las-hiam remido. Dos que me impugnaram, foi aos seculares que coube a moderação, a lealdade, e a elevação dos pensamentos; foi a sacerdotes que couberam as manifestações de odio incrivel
[21], a transfiguração das minhas ideas, e a linguagem sem nome das prostitutas. Isto é significativo. É que esses seculares nunca tinham trajado a roupeta, usada a cubrir mais hypocritas e devassos ignorantes do que varões religiosos e sabios: tinham, sim, vestido a farda de soldado, costumada a despertar tantas vezes nobres e grandes instinctos. E que me importam a mim esse odio impotente, essa linguagem vergonhosa? O que o futuro ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o v.. As ameaças, que ahi se murmuram pelos cantos, essas causam-me dó. Se ao poder publico faltasse a força para manter illesa a segurança dos cidadãos, devolvia-se a estes o direito da propria defesa. Mas os Jacques-Clementes não apparecem senão onde a sinceridade das convicções degenerou em delirio, e não onde as crenças são especulação. Para ser Jacques-Clemente requer-se mais alguma cousa do que saber assassinar; é necessario saber morrer.

Entrarei na materia.

Na questão suscitada pelo modo como tractei na Historia de Portugal a lenda de Ourique, e ainda outras lendas analogas, é necessario confessar que se tem partido sempre de um ponto nebuloso e fluctuante. Para se chegar a um resultado preciso era necessario ter convindo em certo numero de principios, acceitar certas formulas de raciocinio. Não se fez isso. E todavia, a crítica historica tem regras para a credibilidade, regras a que todo aquelle que tracta de taes materias deve sujeitar-se, porque se estribam, não só na acceitação dos homens de sciencia, mas tambem na razão commum. Estes preceitos são no nosso seculo, em que os estudos historicos têm feito na Europa tantos ou mais progressos que as outras sciencias, assaz severos; mas essa severidade começou a desenvolver-se desde os fins do seculo XVII, em que a congregação de S. Mauro, aquelle brilhante seminario de homens illustres, creou a diplomatica. O estudo dos archivos, estudo alumiado pela philosophia crítica, mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas compilações de trabalhos historicos dos seculos anteriores. É de S. Germão dos Prados, de S. Brás da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos da França e da Allemanha, que partiu o movimento intellectual da Europa nesta parte do saber humano. O que o seculo presente, amestrado por maior experiencia, tem feito é apertar mais as condições da credibilidade, evitando ao mesmo tempo todo o genero de preoccupação que possa proceder dos interesses de partido politico ou da incredulidade em materias de religião; é tambem o ter dirigido as indagações historicas mais para o estudo da indole das sociedades, do que para os actos dos individuos. Não nega as tradições da antiga sciencia; completa-as, aperfeiçoa-as. No exame dos monumentos, na sua confrontação, tem dado exemplos de imparcialidade e de paciencia, que mereceriam os applausos dos grandes reformadores benedictinos, se podessem contemplar os resultados da eschola que elles crearam, embora a sciencia moderna, como era natural, os tenha deixado bem longe de si. Os doutos que têm comparado os Monumenta Germaniæ Historica de Pertz, os Monumenta Historiæ Patriæ, publicados em Turin, a Collecção dos Archivos d'Inglaterra, a continuação dos Scriptores Rerum Francicarum, e emfim as demais publicações desta ordem com o que os maurienses nos deixaram nesse genero, sabem que passos gigantes tem dado a crítica das fontes historicas. O uso dessas fontes, a applicação dos preceitos a ellas, tem produzido historiadores como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amári, Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira conhece e admira. É a estes typos que hoje forçosamente ha-de tentar aproximar-se quem escrever historia, se não quizer deshonrar-se e deshonrar a litteratura do seu paiz. Foi essa aproximação que eu tentei, persuadido de que bem merecia por isso da terra em que nasci. Se é assim ou não, pertence decidi-lo áquelles que vierem após nós. No meio de uma revolução litteraria não ha desafogo de animo bastante para se fazer inteira justiça, nem aos meus esforços, nem á candura das minhas intenções. Conheço a difficuldade de se abandonarem antigas preoccupações, e seria louco se me irritasse com isso.

Mas para refutar as impugnações que até aqui têm apparecido não me parece necessario invocar a sciencia no seu estado actual, e nem sequer a sciencia anterior na sua applicação á historia profana. Bastam-me as regras acceitas pelos historiadores ecclesiasticos mais respeitaveis, inculcadas por theologos, estabelecidas por membros illustres do clero, a quem nem uma unica voz ousará accusar de menos crentes, ou sequer de menos piedosos. É, creio eu, e v.. o julgará, acceitar a situação mais desvantajosa possivel: é tambem o que eu já tinha feito invocando a regra de Vicente de Lerins. Se a religião (cuja base é a crença em cousas que excedem a comprehensão humana, e que nos impõe a synthese, o dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente á analyse) exige dos factos tradicionaes, antes de os acceitarmos, as condições de terem sido acreditados sempre, em toda a parte, e por todos, quem pede para crer ou deixar de crer factos puramente humanos (sujeitos pela sua natureza a toda a discussão possivel) apenas as garantias de liberdade intellectual que a igreja, tão parca em concedê-las, concede aos fiéis para acceitarem uma parte das suas crenças, não abdica evidentemente de uma liberdade, de uma vantagem que é sua, que ninguem lhe disputaria? Mais de uma vez terei talvez de appellar para a probidade litteraria e para a intelligencia de v.. e dos homens sinceros e honestos que pensam como v..; mas aqui, parece-me tão evidente a materia, que a deixo á discrição do espirito mais vulgar, da consciencia mais prevenida. Se Galileu, quando descobriu que era a terra e não o sol que andava, tivesse presentes as condições do Comonitorio, não o teria affirmado, e evitaria as perseguições da inquisição, postoque deixaria para outro a gloria de ter descuberto um facto importante. Aquelle canon, applicado á sciencia, é mais perigoso para a verdade nova do que para o erro antigo.

Eu disse que as auctoridades que estabeleceram as regras historicas acceitas por mim serão ineluctaveis para aquelles mesmos que mais ferrenhos se mostram em conservar quanto os tempos passados nos transmittiram. Essas regras, pois, ao menos as principaes, permitta-me v.. que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver uma parte do clero insultar-me nos pulpitos e na imprensa, calumniar-me nas praças e corrilhos, porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas para se estudar e escrever a historia da igreja por homens que são a gloria e honra da classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos, na consciencia de todos não estivesse quanto escrevi ácerca da decadencia intellectual da maioria do nosso clero, parece-me que o que vou transcrever sería medida sobeja para por ella se aferir essa verdade. Já que falei dos religiosos da congregação de S. Mauro, começarei pelo mais celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon. Eis o que elle nos ensina:

1.º «Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da historia é em evitar todos esses vicios em que é facil cair; quero dizer, evitar admittir por verdadeiro o que é falso, ou deixar-nos dominar pelas affeições particulares dos historiadores. É necessario, primeiro que tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se é idoneo e sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou seita...»

2.º «Devemos averiguar se o auctor que lemos é synchrono (contemporaneo); se escreveu elle proprio, ou se copiou outro; se é prudente nas suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas; porquanto, dada a paridade no demais, deve preferir-se a opinião do auctor coevo á do mais moderno. Digo—dada a paridade no demais—porque póde acontecer, e acontece ás vezes, escrever a historia com inteira madureza o auctor não synchrono, estribado em monumentos serios e boas razões, e o contemporaneo muito ao contrario, ou seja por negligencia, ou seja por ignorancia dos factos, ou seja por alguma prevenção, ou finalmente porque o subjuga a força do proprio interesse

3.º «Segue-se d'aqui não se dever confiar demasiado naquelles factos sobre que os escriptores rigorosamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos, guardaram silencio; postoque possa acontecer que um auctor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados em logar occulto quando os factos aconteceram, ou visse escriptores synchronos, ou quasi synchronos, cujas obras depois se perdessem.

«Se, porém, esses escriptores, ou os que lhes succederam, no intervallo de um até dous seculos, nada dizem a tal respeito, e não obstante isso, um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho ou auctoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente esses factos, bem pequena conta se deve fazer delle, aliás abririamos ampla estrada para errarmos, e para enganarmos os outros.»

4.º «Com todo o cuidado nos devemos premunir para não sermos illaqueados por alguns auctores suppositicios, inventados nestes nossos tempos...»

5.º «Não se deve proscrever qualquer auctor por um ou outro defeito de paixão ou allucinação, pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeição propria da natureza humana, comtanto que seja sincero e pontual no resto...»

6.º «Não se devem desprezar os antiquarios, auctores de resumos historicos, e compiladores...»

7.º «Quando as narrativas variam, não nos devemos deixar attrahir pela consideração do numero, mas sim pelo merito e gravidade[22] dos auctores; visto que muitas vezes acontece que a auctoridade de um auctor grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos fé, porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discussão e diligente exame das cousas...»

8.º «Por este mesmo motivo não deve fazer-se grande fundamento na quasi innumeravel multidão de casos que muitos modernos costumam amontoar nas vidas de certos sanctos... Dizendo isto, sinto apertar-se-me o coração, e com magua devo accrescentar, que são muitissimo mais exactos os auctores profanos escrevendo vidas de ethnicos, do que muitos christãos relatando vidas de sanctos, o que já não receou affirmar Melchior Cano, referindo-se a Diogenes Laercio e a Suetonio.»

Ouçamos ainda n'outra parte o fundador da diplomatica francesa:

«É necessaria a crítica para distinguirmos as historias verdadeiras das falsas; para não darmos temerariamente credito a narrações supersticiosas, a vans opiniões, a delirios aereos, a milagres fingidos ou duvidosos, a escriptos suppostos dos sanctos padres. O veneravel Guigo, quinto geral dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma de crítica: ...Buscae a prova de tudo; o bom respeitae-o. Quem crê de prompto é leve de coração.»

Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador da igreja catholica. Depois de varias considerações sobre os documentos falsos com que o clero innundou a Europa nos seculos de trevas, e da falta de instrucção que entre elle reinava, o historiador observa:

«Outro resultado da ignorancia é tornarem-se os homens credulos e supersticiosos, por falta de principios seguros de crença e de exacto conhecimento dos deveres religiosos. Deus é poderosissimo, e os sanctos têm alto valimento para com elle: verdades são estas que nenhum catholico rejeita: logo devo acreditar todos os milagres attribuidos á intercessão dos sanctos. Má conclusão. Cumpre examinar as provas delles, e com tanta mais exacção, quanto esses factos mais incriveis e importantes forem. Porque, dar por certo um milagre falso nada menos é, segundo S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus, como mui judiciosamente observa S. Pedro Damião. Assim, longe de ser acto de piedade crê-los de leve, é a propria piedade que nos obriga a averiguarmos com rigor as provas em que se fundam. O mesmo se deve dizer das revelações, das apparições de espiritos, das operações do demonio... Em summa, toda a pessoa dotada de bom juizo e religiosidade deve ser cautelosissima em acreditar factos sobrenaturaes.»

Mas observemos as precauções de que Fleury se rodeava, as balisas que para si proprio punha, ao começar o immenso lavor da sua Historia Ecclesiastica, ainda hoje não substituida, apesar de tantas monographias excellentes com que depois tem sido illuminada, por um ou por outro aspecto, n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis os limites que elle estabeleceu á credibilidade n'um genero de escriptos onde esta poderia ser mais ampla, limites que á fortiori não será nunca licito ultrapassar em matéria de tradições humanas. Mas antes permitta-me v.. que cite algumas passagens, as quaes me parecem grandemente applicaveis a essa parte do clero, que, em vomitando, no pulpito ou na imprensa, contra quem diz a verdade, quantos adjectivos injuriosos contém o diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra dessas fabulas e crendices que estão costumados a propalar entre o povo, provavelmente pela mesma razão por que prégam mal, isto é porque os festeiros gostam d'isso, embora os concilios lh'o prohibam, os apostolos os condemnem, os membros mais doutos e pios da igreja catholica lhes mostrem o abysmo em que se precipitam! Para onde has tu fugido, oh religião de Christo?!

«Vejo bem—diz Fleury—que a minha historia não ha-de agradar aos espiritos acanhados, atidos ás suas preoccupações, e sempre promptos em condemnar os que pretendem desenganá-los; aos que tapam os ouvidos quando a verdade soa, para se abraçarem com as fabulas, buscando doutores que vão com elles. Não lhes faltarão livros acommodados ao paladar. Escrevo em vulgar para ser util aos homens de juizo...»

«Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um de credulidade, outro de critica. Nem só a simpleza faz credulos. Pessoas ha que o são por politica e por deploravel sobranceria. Julgam que o povo é incapaz ou indigno de saber a verdade; e tem por necessario alimentar-lhe todas as opiniões que lhe foram inculcadas como religião, receiosos de abalar o que é solido, atacando o que é frivolo. Na essencia, estes suberbos politicos são ignorantissimos. Desconhecendo a religião, não a tomam a serio, e nada os liga a ella senão as preoccupações da infancia e os interesses temporaes. Nunca examinaram as seguras provas do evangelho, nem sentiram a excellencia da sua moral e a esperança dos bens eternos. É por isso que não ousam profundar as cousas antigas e temem conhecê-las: sabem que lhes não são favoraveis. Querem crer que sempre se viveu como hoje, porque não querem mudar de vida, como se nos fosse proveitoso enganar-nos a nós mesmos, ou se a verdade podesse trocar-se em mentira á força de averiguações. Graças a Deus, a fé christan passou pelo chrysol; o que ella teme[23] é que não a conheçam.

«A outra especie de pessoas credulas em demasia são christãos sinceros, mas fracos e escrupulisadores, que á propria sombra da religião respeitam, e sempre receiam crer de menos. Falta a uns a instrucção; cerram os outros os olhos, e não querem fazer uso do entendimento. É para os taes objecto de devoção crer quanto escreveram os auctores catholicos e quanto crê o ignorante vulgo. A meu vêr, a legitima devoção consiste em prezar a verdade e a pureza da religião, e em observar, primeiro que tudo, os preceitos expressamente estabelecidos na sagrada escriptura. Ora, vemos que S. Paulo recommenda repetidas vezes a Tito e a Timotheo que evitem as fabulas, predizendo tambem que uma das desordens do fim do mundo será o affastarem-se os homens da verdade para se aterem a crendices; vemos que as fabulas eruditas não merecem menos desprezo a S. Pedro que os contos de velhas de S. Paulo; e do mesmo modo que elle condemna as fabulas judaicas, teria condemnado as christans, se já então as houvesse. Que dirão a isto aquelles que a timidez torna tão credulos? Não terão escrupulo em menosprezar semelhante auctoridade? Dirão que nunca houve fabulas entre os christãos? Seria desmentir a antiguidade em peso...»

«A critica é portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradições, deve averiguar-se quaes são dignas de credito; devemos fazê-lo, até, se não queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os milagres estão bem provados, para lhe não levantarmos falso testemunho, attribuindo-lhe os que elle não fez.»

Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico ácerca dos milagres, estribado nos livros que Deus inspirou. Quem será, pois, o impio, o incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que esquecidos dos deveres, não digo do sacerdocio (porque neste caracter, o seu procedimento não tem nome), mas do simples christão, ousam perguntar ao historiador sincero: «Se é necessario, se é util que o historiador se constitua campeão acerrimo contra essas tradições que deturpam a historia? e que respondem:—É um arrojo mui imprudente e reprehensivel no historiador semelhante intento. Que precisão, que vantagem ha em destruir as crenças theocraticas[24], que uma tradição de seculos fora radicando no coração do povo? Nenhuma ha:» e depois accrescentam esta maxima impia de Laharpe—«a politica sabia e devia tirar partido do poderoso movel da geral crença, cujos effeitos são geralmente bons em todo o governo, mesmo quando a crença é erronea!» Não peço a v.. tão cavalheiro e tão indulgente para comigo; peço ao homem que mais me odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os desgraçados que não se envergonham, christãos e sacerdotes, de invocar contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que insultam, não a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia, mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo.

Mancebos, cujos corações generosos a indignação póde desvairar! No meio destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos hombros seu velho e já tão roto manto, e nua e vinolenta pragueja a verdade, atira com a fé aos pés da politica, rasga as sacras paginas, maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, não volteis, cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia, a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que estão sanctificadas no livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta, que o povo só póde ser virtuoso se crer em falsos milagres, saí, porque o templo está polluido pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis da cruz. A cruz está pura; a cruz será eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio chegasse, o que não creio, a corrompê-lo inteiramente; se não achassemos uma ara, juncto da qual orassemos em espirito e verdade, a cruz lá está hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos irmos abraçar com ella: os mortos não tem ouro, os mortos não são festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi não se tem blasphemado.

Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christão sincero o ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preço por que o venderam, acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia, e vejamos, como já disse, as mais importantes dessas regras que o pio e douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia credulidade.

«Não tenho em conta de provas, senão o testemunho dos auctores originaes, isto é, daquelles que escreveram contemporaneamente, ou pouco depois. Porque a memoria dos successos não póde subsistir por muito tempo sem ser escripta. Bastante será se durar um seculo. O filho póde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou avô lhe referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos que tem passado por varias gerações não obtem a mesma certeza: cada qual lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar. É por isso que as tradições vagas de factos muito antigos, que tarde ou nunca se escreveram, nenhum credito merecem, principalmente repugnando a factos provados. Nem se diga que as historias pódem ter-se perdido; porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas nunca existiram. O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos anteriores a elles muitos seculos; se não citam os auctores d'onde os tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os rumores vulgares.....»

«Os proprios auctores contemporaneos não devem adoptar-se sem exame... deve averiguar-se bem se o escriptor é digno de fé, quasi como quem inquire testemunhas n'um processo... O que se encontra em cartas, ou em outros diplomas da epocha, deve ser preferido ás narrativas dos historiadores.»

Até aqui Fleury. Para estas largas citações preferi dous homens de indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos ou protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma questão que evidentemente não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia invocar a bella sentença de Cicero: «Quem ignora que a primeira lei da historia é não ousar dizer a menor falsidade, e a segunda não nos faltar jámais valor para dizermos a verdade?» É certo que uma parte do clero português do seculo XIX se ergueria para lhe responder:—«Ignoramo-lo nós.»—Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no seculo XVII, as palavras de João Leclerc:—«Quando se escreve a historia, sobretudo de tempos antigos, não é licito dissimular a minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulação, inutil para aquelles, é profundamente damnosa a estes.»—Não me quiz aproveitar dessas auctoridades summas, porque um não era christão, outro não era catholico. Parece-me que é levar longe o escrupulo. E todavia, o protestante Leclerc estribava-se na opinião de S. Isidoro Pelusiota—«Aquelles—diz o sancto—que com artificiosas palavras encobrem a verdade, muito mais desgraçados me parecem de que os que não a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho não a alcançaram, estes não são talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam, commettem mais grave e imperdoavel peccado.»

Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Serão os theologos de profissão mais indulgentes para com as lendas e tradições não provadas? Exigirão, ao menos em referencia á historia da igreja, maior credulidade nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre Melchior Cano, o qual ninguem accusará de excessivo amor pelos fóros e liberdades do raciocinio: eis algumas das suas observações ácerca do credito que deve dar-se ás tradições infundadas.

«A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra perfeitamente applicavel quando os historiadores testificam terem presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que os presenciaram...»

«É cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a historia ecclesiastica não podem ser gente boa e sincera, e que toda a sua narrativa é tecida para d'ahi tirarem lucro, ou para persuadirem o erro; torpes no primeiro caso, perniciosos no segundo. Justissimas são as queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas no seio da igreja; prudentes e graves as arguições que dirige áquelles que julgam obra pia fazerem de mentiras religião, cousa altamente perigosa e profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos acreditar. Por isso os que pretendem concitar os animos ao culto dos bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado tirarão, talvez, se não negar-se fé ás cousas verdadeiras por causa das falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa consciencia auctores de inteira veracidade

Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade, outro bem diverso extracto. Juro que não o faço com o intento de humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vêr, cega um erro deploravel. É para vingar a religião injuriada; é para dar ao paiz um desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. Só advirto que a passagem é concepção de um sacerdote, que celebra por certo tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro tempo:

«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de vós Isaias, quando disse:

«Esta gente honra-me com os labios; mas o seu coração está affastado de mim.»

Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peço venia de lançar, depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um homem tão delicado como v..

«Os historiadores têm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios singulares, que registavam em seus escriptos não eram fundados senão em rumores populares; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta precaução, já porque elles mesmos fossem povo a tal respeito... já porque elles não julgassem dever abalar a crença vulgar; bem convencidos que á sombra de um prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a que talvez tivessem vergonha de prejudicar.»

«Eis aqui os dictames prudenciaes, adoptados pelos mais distinctos historiadores, ácerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem dirigir todo o escriptor sensato. O contrario é querer campar por uma anomalia extravagante e ridicula...»

«Se, porém, gravemente offende o melindre patriotico de uma nação aquelle que simplesmente contradiz os pontos theocraticos das suas tradições historicas constantemente recebidos e venerados; quanto não se torna mais altamente réu d'este attentado aquelle escriptor, que não só os nega, mas tem a asquerosa villania de á cara descuberta os vir insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente tenha commettido tão reprehensivel e extranho excesso, é por certo o auctor da carta aviltante, a respeito da Apparição de Christo a D. Affonso Henriques. É uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e aviltam esse escripto sandeu, que rancorosamente a impropéra...»

«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro por seculos...? Quando, porventura, o tivesse sido, teria, não receio dizê-lo, por effeito dessa universal crença dos sabios, perdido a sua natureza e deixado de o ser!!!...»

Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a averiguar tranquillamente se os theologos de profissão concordam com os eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda algumas palavras de Melchior Cano.

«Achareis outros, não tão ineptos, mas quasi tão imprudentes, que não buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar onde é raro encontrá-la, em aereos e vagos rumores. Acontece isto frequentemente aos inconstantes e leves de cabeça; porque os homens graves e severos não costumam andar á caça dos dictos vãos do vulgo

Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenças mais sanctas e legitimas em milhares de corações. Vacillou, acaso, por isso a critica dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua falsa miragem? V.. o julgará pelas doutrinas de muitos varões religiosos dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam precedido. Por exemplo, o theologo piemontês Denina, diz-nos:

«Acontecem algumas cousas fóra da ordem natural, que, de per si só, são incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres, os quaes, nem é licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem acceitar todos sem selecção...»

«Pertence á prudencia do historiador nada escrever, que não saiba por si proprio, ou não se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas, cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo. Mas ninguem póde ter conhecimento do que narra, se não viveu no tempo em que os factos aconteceram; nem sabê-los de pessoas fidedignas, se estas não os presenciaram; nem escapa de credulo, se não explicar e expender as razões, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o fazem nenhum credito merecem...»

«Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar; salvo constando que fôra curioso em indagar e explorar...»

«Se o historiador referir cousas, não do seu tempo, mas succedidas muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, se individuar os auctores d'onde as tirou, sendo aliàs daquelles que as podiam saber...»

«Não duvido de chamar máu historiador a todo aquelle que devendo ter por norma o não ousar dizer a menor falsidade, nem faltar-lhe animo para dizer qualquer verdade, encubrir esta aos leitores, seja por que motivo for...»

Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos, a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituições de historia ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses compendios relativas ao criterium da verdade historica nada mais são do que o desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram ex-professo ou accidentalmente da crítica historica. Andam esses livros nas mãos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este, coitado, não sabe ler. Não serei, por isso, demasiado extenso em citá-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem sobretudo ao intento.

«Como os narradores—diz Gmeiner—por falta de habilidade sufficiente, ou de sciencia, nos possam enganar, ou por falta de sinceridade, ou por vontade nos queiram illudir, só podêmos acquiescer ao seu testemunho, se não houver razões sufficientes para duvidar da sua habilidade ou sinceridade.»

«A auctoridade das testemunhas não é uma e a mesma, e portanto deve attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.º em relação aos sentidos, 2.º em relação ao entendimento, 3.º em relação á vontade. Em relação aos sentidos, essas testemunhas ou são de vista ou de ouvida. As de ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que ouviram aos coevos o que narram...»

«D'aqui se segue, que pouca fé deve dar-se áquillo que os escriptores ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de mencionar...»

«A verdade dos conhecimentos historicos não depende de modo nenhum da abundancia dos historiadores, visto que não provém maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu...»

«A consideração do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que escreveu importa muito em relação ao seu intuito de falar verdade. N'alguns paizes a liberdade de escrever é franca; n'outros opprimida; n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia romana receberam ás vezes em premio de suas fadigas o barrete cardinalicio ou a dignidade do episcopado. Naquellas provincias onde vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade.»

«Não faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a outros.»

Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo Dannenmayr:

«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica—diz elle—devemos principalmente ter em mira, que nem se nos inculquem fabulas sobcolor de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos e largamente provados.»

Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina, uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas sinceros nas suas prevenções, houvessem de julgar-me, não tanto no foro da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha direito de trazer o litigio, mas nó da mais restricta piedade. Em these, a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e que apologia, meu Deus!) das tradições fabulosas, não é comigo; é com os apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava á hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente não se lembrou de que lhe caía a mascara, e de que alguem poderia levantá-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de justiça lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz respeito, o meu dever é provar aos homens sinceramente pios que, rejeitando falsas lendas, não ultrapassei os limites de uma crítica irreprehensivel. Será esse o objecto da carta immediata, que em breve espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão das minhas opiniões ácerca da maioria do nosso clero, e ácerca da curia romana. Compelliram-me a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os conhecesse: hão-de ser satisfeitos.

Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes dias de tempestade!