IV
SOLEMNIA VERBA
SEGUNDA CARTA
AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES
(Novembro, 1850)
Na minha antecedente carta deixei eu, ou para
me exprimir com mais exacção, deixaram muitos
e mui piedosos escriptores catholicos apontadas
as principaes regras da critica, em relação
ás fontes historicas. Dessas regras resulta o que
a boa razão está por si indicando; que
é necessario
premunir-nos contra a credulidade, não só por
honra da sciencia e pela consideração do proprio
credito litterario, mas tambem, o que é mais grave,
para não deslizarmos da doutrina dos apostolos,
inculcada nos livros sanctos. O mais necessario
canon, em que de certo modo todos os outros se
consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos
testemunhos synchronos ou quasi synchronos,
aos testemunhos daquelles que presenciaram os
factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos
contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes
e criveis, quer sobrenaturaes e incriveis para
a razão humana; quer elles nos sejam transmittidos
por narrativas coevas ou quasi coevas, quer
por documentos do tempo, embora descubertos
por escriptores modernos. Quando, porém, se tractar
de milagres, a critica deve ser tanto mais
severa, quanto é certo que a isso nos constrange
o dever religioso, que nos impõe as palavras de
S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos
a Deus.
Que podia eu fazer em relação ao supposto
milagre de Ourique, escrevendo a historia do
reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente
chronicas, historias, documentos coevos ou
quasi coevos, que o narrassem. O exame attento
de quanto modernamente se escrevera para supprir
a falta de provas daquella celebre tradição,
só tinha servido de convencer-me das
aberrações
em que se podem transviar ainda os espiritos
mais elevados, quando, em vez de buscarem simplesmente
a verdade, buscam accommodar os
caracteres desta a um preconceito. Não me era
possivel omittir a batalha de Ourique. Que podia
eu fazer, repito, ácerca do milagre da
apparição?
Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho
a Deus, pospôr as doutrinas dos homens
mais pios e eruditos do orbe catholico, que
falaram de critica historica, calcar aos pés a maxima
do mais illustre escriptor romano, ou então
manifestar sem hesitação as proprias
convicções,
que julgava e julgo legitimas, isto é, proceder
de um modo que v.. mesmo crê nobre e honroso
[26];
affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não
sei se está em perfeita harmonia com a idéa geral
que predomina nas considerações que v..
tem tido a bondade de dirigir-me sobre os inconvenientes
que resultam, no entender de v..
para a nossa patria commum, da manifestação
das minhas doutrinas.
Disse, pois, o que suppús e supponho verdade:
disse-o sem sobre isso me dilatar, sem
exaggeração,
sem pretensões a ter feito um importante
descobrimento historico; porque realmente
o não era: disse-o singelamente, simplesmente:
indiquei apenas de passagem as incongruencias
historicas, que desmentiam a importancia que se
costuma attribuir ao successo. E n'esta parte,
seja-me licito dizê-lo, nem v.. nem ninguem se
encarregou de me refutar; porque, na verdade,
seria um pouco difficil de admittir que houvesse
centenas de milhares de sarracenos para virem
combater em Ourique, quando os almoravides
concentravam todas as forças em Africa, para salvarem
o imperio da ultima ruina, exhaurindo a
Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem
a heroica guarnição de uma praça como
Aurelia
ao seu triste destino. A narrativa anterior, o quadro
da situação dos lamtunitas e das
perturbações
quo agitavam as provincias mussulmanas do
Gharb habilitavam o leitor para por si fazer conceito
das dimensões da batalha de Ourique. Se
em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia
foi em procurar, talvez em demasia, achar resultados
moraes dessa batalha, para de algum modo
desculpar a significação exaggerada que depois
se lhe attribuiu. Sobre a apparição disse apenas
o restrictamente necessario para o leitor vulgar
conhecer que eu não a admittia. Se tivesse o proposito
deliberado de combater quando podesse
ferir o chamado sentimento religioso do povo,
crê v.. que eu não teria recursos para aproveitar
o lado contradictorio e até ridiculo, (que cousa
ha neste mundo onde elle se não possa encontrar?)
do celebre milagre, sem todavia abandonar
o estylo grave da historia? Crê v.. que se eu intentasse
buscar as causas provaveis da invenção
dessa maravilha, e avaliá-las severa ou, se quizerem,
malevolamente, me faltariam meios para
assim o practicar? Permitta-se-me dizer que foi
necessaria demasiada prevenção contra mim, ou
a favor da inviolabilidade da apparição, para se
não ver que procurei, quanto me era possivel sem
offender a verdade, não converter os factos que
se prendem a esse falso milagre n'um escandalo
historico. As extensas notas com que finalisa cada
volume do meu livro são destinadas para os homens
da sciencia, para debater os fundamentos
das minhas opiniões. Estas notas são, portanto,
para poucos. A generalidade dos leitores não se
cansa com essas discussões tediosas. Foi, porém,
ahi que eu alludi ao ridiculo instrumento do cartorio
d'Alcobaça, o que fiz apenas pelo desejo de
dar uma satisfação aos homens professionaes. Se
eu fosse o impio, o atheu, e não sei que mais,
que por ahi me chamam os padres ignorantes e
mal procedidos, não tiraria vantagem dessa
falsificação
insigne, para mostrar como a hypocrisia
costuma fazer joguete das cousas do céu para
fins terrenos? Não practicaria ao menos aquillo
que a justissima indignação de qualquer homem
religioso o levaria talvez a practicar? Se tal se houvesse
de crer, não deveriam qualificar-me de impio,
mas sim de insigne mentecapto.
Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra
de escrever contra as minhas opiniões, v.. insiste
em que, citando naquella nota a Memoria de
Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade
do diploma de juramento conservado em
Alcobaça, eu fiz uma citação
contraproducente
[27].
Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano
não nega ahi redondamente a authenticidade do
diploma? O que dizia eu ao citar a Memoria sobre
os codices d'Alcobaça?—«
Quem
desejar conhecer
a impostura desse documento famoso consulte
a Memoria, etc.»—Se o auctor concorda
comigo
em que elle é falso, onde está a improcedencia
da citação? Se v.. me permitte que seja
interprete do seu pensamento, o que v.. queria
talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho
affirma que acreditava na apparição, posto
negasse a genuinidade do pergaminho de Alcobaça,
e que eu não creio nem no documento, nem
no facto. Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo.
Não era, porém, para a opinião
manifestada
pelo academico em relação ao successo,
mas sim para as suas razões contra o diploma
que eu remettia o leitor. E realmente, o que elle
diz em favor do facto não é mais do que repetir o
que outros disseram antes delle, e citar uma copia
de 1597 existente em S. Vicente de Fóra vista por
elle, e a qual, duas paginas adiante, dá como provavelmente
tirada
de outro original falso. O
que
se vê de tudo aquillo é que o pobre frade,
conhecendo
o risco de mostrar o que era e o que valia
O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaça, quiz
ao menos salvar-se, protestando pela pureza da sua
crença no milagre de Ourique. Talvez, se eu vivesse
então, fizesse o mesmo, em attenção
á circumstancia
que nos recorda Gmeiner: «
onde vigorou
o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira
estava prompta para a verdade».
Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho
pelo meu paiz desta necessidade de disputar
ácerca de um diploma falso, que se acha depositado
nos archivos do estado, onde qualquer pessoa
póde examiná-lo. Qualquer pessoa, sim; porque
não é preciso ter a menor idéa de
paleographia
para o reconhecer por falso. Basta pôr-lhe ao
lado dous ou tres diplomas genuinos do meiado
do seculo XII, e comparar. Esses multiplicados
recursos que possue a diplomatica para desmascarar
falsarios são aqui perfeitamente inuteis.
Estou certo de que v.. nunca o viu; porque tambem
estou certo de que, se o houvera visto, eu
acharia v.. a meu lado para dizer aos homens
sem pudor que ainda ousam inculcar como legitima
essa
invenção
torpe:
«
Sois uns
miseraveis!»
Sinto sinceramente que v.. se dignasse de
tomar para si, a favor da apparição, um argumento
que devia pertencer precipuo aos apologistas
dos clerigos ignorantes e devassos. Consiste
elle em que, negando eu que a tradição de
Ourique remonte aos tempos a que se refere,
devo dizer quando, como, e para que a forjaram.
Onde existe semelhante canon de critica historica?
O que sei é que ella começou a apparecer
no ultimo quartel do seculo XV, mais de trezentos
annos depois da epocha em que se diz succedido
o milagre; o que sei é que em nenhum
escriptor, nem em nenhum documento legitimo,
coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de semelhante
tradição; o que sei é que os
escriptores
modernos que a publicaram não se referem a
testemunho contemporaneo ou proximo; o que
sei, portanto, é que as regras de critica adoptadas
por homens não menos pios que sabios me
obrigam a rejeitá-la. Diga-me v..: se um devedor
seu pretendesse pagar-lhe certa quantia
em moeda falsa, v.., depois de a examinar e convencer-se
da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios
por que pretende julgar-me, devia reconhecê-la
por boa e acceitá-la, emquanto não podesse
mostrar quando, como, por quem e para que fora
forjada. Não vê v.. que uma tal regra de critica
nos obrigaria a adoptar como verdadeiras até as
lendas indicas de Vishnú e de Brahma?
Outro argumento me faz v.. que eu tambem
desejara tivesse deixado aos ex-frades ignorantes
e hypocritas: é o da impossibilidade de nossos
avós terem adoptado uma tradição que
não fosse
verdadeira. Quer v.. que lhes concedamos a
mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma
honra, o mesmo amor da propria fama e dignidade
que nós temos. Concedo por um momento.
Mas o patriotismo de v.. não será tão
inimigo
da logica, nem tão cego, que recuse os mesmos
dotes aos avós dos actuaes castelhanos, franceses,
italianos e allemães. Por aquella doutrina, v..
deve acreditar todas as lendas desses paizes, ainda
quando a critica historica as tenha feito abandonar
aos castelhanos, franceses, italianos e allemães
de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo,
acreditar
à fortiori a
historia da papisa Joanna,
embora já os proprios protestantes se riam dessa
calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou
por seculos. Mais ainda: v.. é assaz instruido
para não ignorar qual foi a
civilisação dos
arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes
hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura,
qual a nobreza do seu caracter. Apesar disso, elles
nunca deixaram de crer na tradição dos milagres
de Mafoma. Não é de esperar da justiça
de v.. que
recuse a esse povo tão culto os dotes intellectuaes
e moraes que attribue a nossos avós. Adoptará
v.. as lendas mussulmanas ácerca do propheta
de Mekka? Principios que provam tanto, ou antes
que provam tudo, permitta-me v.. desconfiar
de que não provam nada. Deus nos livre de
pensar que uma fabula que se generalisa, se converte
por isso em verdade. Semelhantes doutrinas,
deixe-as v.., christão, cavalheiro, e homem
de letras, para essa parte da cleresia, que quer
lucrar com as illusões populares. A nós,
christãos,
incumbe recordar-nos daquellas tremendas
palavras do divino Mestre:
«Guardae-vos do fermento dos phariseus, que
é a hypocrisia:»
«
Porque nenhuma cousa ha occulta que
não
venha a descubrir-se; e nenhuma ha escondida
que não venha a saber-se....»
«E todo o que proferir uma palavra contra o
filho do Homem ser-lhe-ha dado perdão; mas
áquelle que blasphemar contra o Espirito
Sancto,
não lhe será
perdoado.»
V.. sabe, tão bem como eu, que, segundo
Sancto Agostinho, uma das blasphemias contra o
Espirito Sancto
é o negar a verdade
conhecida por
tal.
E é isto o que responde a todas as
considerações
que v.. me faz sobre a conveniencia de não
desilludir o povo ácerca das suas
tradições mentirosas:
são estas palavras do Salvador, que fulminam
os phariseus modernos, como fulminaram
os antigos, que me obrigam a falar verdade escrevendo
a historia. Ainda que essas considerações
fossem exactas, a patria verdadeira do christão
é o céu, cujas portas ficarão
cerradas, conforme
a doutrina de Christo, aos que tiverem
desmentido a verdade na terra. A patria deste
mundo é nosso dever amá-la, sacrificar-lhe tudo,
menos a honra, menos as esperanças de além do
tumulo, menos a fé. É esta a mais sancta das
tradições
que herdámos de nossos paes. O crucifixo
sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os
que nos geraram, não o insultemos na vida, para
podermos tambem despedir o ultimo alento, abraçados
com elle, sem terror, sem remorsos, e para
o legarmos immaculado a nossos filhos; para que
elles, no momento de o transmittirem moribundos
a nossos netos, não se lembrem horrorisados
de que essa imagem do Redemptor já foi bafejada
pelo extremo respirar de um blasphemo.
Amemos e respeitemos a tradição divina, e
tenhamos
esforço bastante para repellir mentiras,
sobretudo quando, segundo as palavras do apostolo,
ellas envolvem um falso testemunho contra
Deus.
Isto é para os christãos. Para os falsos
politicos,
que cuidam ser a religião apenas um instrumento
que serve para conter os humildes e pobres,
a que Christo chama os grandes do seu reino,
e a que elles chamam massas brutas; para
esses, que não crendo acaso em Deus, accusam
os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores
de nossa gloria; para esses liberaes e
até democratas, que desprezam o povo ainda mais
do que o desprezavam os poderosos de outros
tempos; para os taes não applico eu só o dicto
de Fleury, de que são ignorantissimos em materias
de religião; digo tambem que o são em materias
de politica. Para o povo ser livre, é necessario
que seja religioso e honesto; não que seja
credulo. Para que elle seja religioso e honesto é
necessario que conheça as doutrinas do evangelho,
que não são mais do que a
confirmação divina
da moral universal. Em vez de inculcar crendices
ao povo, cumpre inculcar-lhe os principios do
christinanismo, e as consequencias daquelles principios:
cumpre illustrá-lo, em vez de o conservar
na ignorancia; fazer-lhe sentir que a força de
practicar grandes e nobres sacrificios, tão recommendados
por Jesus, é o caracter que distingue
o espirito immortal do homem do instincto que
anima as alimarias. É preciso convencê-lo de que
o patriotismo, de que esse puro e sancto affecto
que nos faz abandonar os commodos domesticos,
as affeições do coração, e
arrostar com a fome,
com a sede, com a nudez, com a intemperie das
estações, para irmos morrer n'um campo de
batalha,
salvando a terra em que dormem nossos
maiores, defendendo a cruz do nosso adro, a vida
de nossos paes, a honra de nossas irmãs e mulheres,
é a manifestação mais solemne da
energia
do espirito humano, e da abnegação christan. E
estas verdades eternas; estas verdades, que,
gravadas nos corações do povo, tantas vezes
têm
salvado as pequenas nações dos intentos
ambiciosos
das grandes, d'onde se deduzem? É das
invenções dos milagreiros e falsarios, ou das
divinas
paginas da biblia?
V.. deve conhecer, como homem de letras
que é, a historia dos povos mussulmanos. Houve
nunca no mundo crença que se estribasse tanto
como o islamismo em falsos milagres, quasi
sempre conducentes a inspirar o amor da guerra
e o enthusiasmo das multidões credulas? E todavia,
quaes foram os effeitos desse enthusiasmo,
que não correspondia a doutrinas accordes com
os instinctos naturaes da nossa alma, que não se
fundava em convicções reflectidas, na certeza
moral
do dever, mas que se inspirava de promessas
fingidas do céu? Os mussulmanos devastaram e
submetteram a melhor porção da Asia e da Africa,
e ainda uma pequena parte da Europa: formaram
quinze ou vinte nações de falsos crentes,
e estas nações cresceram e civilisaram-se
combatendo
sempre. E depois? Depois, quando foi preciso
conservar o edificio; quando se tractou de
defender a patria, em vez de a tirar aos outros;
quando foi preciso repellir em vez de aggredir,
mostrar essa perseverança, que nem se exalta
com o triumpho, nem desanima com o revés;
que padece, calada e soffrida; essa perseverança
que é a mais poderosa arma dos povos ameaçados
na sua existencia, tudo faltou. As nações
mussulmanas desmembraram-se, fundiram-se,
annullaram-se umas, desappareceram outras, e
conservando todas as suas crenças, todos os seus
milagres, ei-las ahi estão as que restam, ludibrio
da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo
ao crepusculo da passada gloria, lançando nos
dias da afflicção e do perigo os olhos para o
occidente,
a vêr se os filhos da cruz estendem o braço
para proteger o crescente. As tradições das
victorias, as maravilhas celestes dos tempos heroicos
de Islam lá estão gravadas na memoria
de todos. Porque não salvam, não regeneram ellas
essas sociedades atrophiadas e moribundas?
Ainda hoje ha homens das novas idéas, os
quaes se dizem cheios de illustração e de
philosophia,
que, abandonando os milagres suppostos,
não porque os tenham por infundados
ou absurdos em si, mas porque suppõe que o
fanatismo póde lucrar com elles, não querem
que se toque nas tradições humanas que se ligam
á gloria nacional. É verdade que não
sabem
bem que deva consistir a gloria de uma nação,
porque nunca pensaram nisso. Para elles,
que vivem no seculo XIX, onde quer que pereceram
milhares de homens, combatendo por interesses
que não comprehendiam, ou por torpe
cubiça; onde quer que o ferro e o fogo arrasaram
as cidades, despovoaram os campos, embora
dessas cidades e campos nenhum mal tivesse
vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem
mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos
e pacificos dos gigantes da assolação,
dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,
avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens
as façanhas dos proprios avós. Se a historia
pergunta:—«Acaso esses combates, em
que, sem duvida, se practicaram grandes feitos,
foram uteis ao progresso moral e material do
povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram
a sua decadencia? Está ou não essa gloria
militar,
aliàs indisputavel, assombrada por grandes
crimes? Foi a intenção, a qual só
determina o
valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura,
ou teve motivos menos elevados? Foi um arrojo,
um impeto nacional, ou um impulso dado
pela ambição, ou pelo capricho de algum
principe?»—A
historia que faz estas perguntas ou
outras analogas, porque esse é o seu dever, commette
aos olhos dos taes um crime de leso-patriotismo.
O castelhano, por exemplo, que disser:—«As
barbaridades e crimes commettidos
por Cortez, Pizarro, ou Almagro, na conquista
da America, deshonram as emprezas arriscadas
e longinquas dos filhos da Peninsula, embora o
descubrimento do Novo Mundo demonstre a sua
pericia, o seu ardimento de navegadores e de
soldados. Os effeitos dessa conquista foram o
corromperem-se os costumes, morrerem as industrias
nascentes, despovoarem-se os campos
da Hespanha, seccarem-se, em summa, todas as
fontes da sua prosperidade solida e legitima: foram
amontoarem-se nas mãos do fisco e dos poderosos
o ouro e a prata, que, obtidos sem custo
pelos crimes, se desbarataram sem pudor pelos
vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades,
e com ellas o sentimento da dignidade humana,
cujo ultimo brado soou nas rebelliões contra
a tyrannia de Carlos V:»—o hespanhol que
disser isto é um mau cidadão aos olhos dos mansos
guerreadores destes nossos tempos. E porque?
Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se,
elevar-se pelas tradições da sua grandeza e
gloria. O povo! Pois o povo que tantas vezes tracta
de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde
o berço de farrapos até a enxerga rota em que
fenece, vai travada de receios, de sobresaltos,
de desalentos, e de agonias, pensa lá nas cutiladas
que se deram, nas bombardadas que se despediram,
ha tres ou quatro seculos, por mãos
d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se
memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque
não sabe ler, nem tem dinheiro para pão,
quanto mais para livros? Que são essas palavras
retumbantes de regeneração pelas
tradições, senão
sons ôcos, que não correspondem a nenhuma
idéa? Supponhamos, porém, que todas essas
recordações
chegavam ao povo. Podem ellas servir-lhe
de exemplo, de licção para as suas necessidades
actuaes? N'um paiz onde a riqueza
passageira destruiu os habitos do trabalho e da
economia, entorpeceu pela miseria, resultado infallivel
da prosperidade ficticia, a energia do coração,
que faz luctar o homem com a adversidade
e vencê-la, de que serve estar de contínuo a
prégar ao povo:—«Teus avós levaram o
terror
do seu nome aos confins do mundo, saquearam
e queimaram emporios opulentos em plagas remotas,
metteram a pique poderosas armadas,
derribaram os templos alheios, violaram as mulheres
extranhas, passaram á espada os que eram
menos valorosos que elles, abriram caminho ao
engrandecimento dos outros povos da Europa, e
affeitos a gosos faceis, deposeram aos pés do absolutismo
as suas velhas franquias, beijaram os
grilhões que lhes deitavam aos pulsos por que
eram dourados, e tornaram-se ludibrio do mundo.»—Estas
licções é que hão-de
ensinar a actividade
no trabalho, a severidade nos costumes,
o amor da liberdade moderada, mas verdadeira,
o desejo de cultivar as artes da paz, no meio de
um paiz decadente, cuja unica esperança de
salvação
está em se desenvolverem nelle essas e outras
tendencias analogas? Não! O povo, que tem
mais logica do que os prégadores de vãos
apophtegmas,
ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de
concluir que é assaz fidalgo para não contrahir
habitos villãos e ruins. De historias
d'aggressões
e de conquistas brilhantes não se deduz a
necessidade de morrer obscuramente em defesa
da terra da patria; não se deduz a
moderação revestida
de firmeza, que faz respeitar pelas grandes
as nações pequenas; não se deduzem nem
o
amor do trabalho, nem o amor da virtude. Em
vez de contarem ao povo as façanhas da Africa e
do Oriente, contem-lhe qual era o commercio
de Lisboa, e o movimento agricola do paiz no
no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia
desses e de outros factos analogos lhe é mais
proveitosa, material e moralmente, de que recordar-lhe
a gloria de batalhas e de conquistas.
Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras
lendas humanas nunca salvaram um paiz,
quando a podridão penetrou no amago da arvore
social. Onde e quando o homem renega
da sua origem divina, vende a liberdade a troco
de delicias, esquece que o elevar-se acima de
viciosas paixões traz um goso interior que vale
bem todos os que dão os sentidos, não
é lisonjeando-lhe
vaidades, que, nem sequer respeitam
a magestade de Deus, que o havemos de revocar
ao sentimento da dignidade e do dever. V..
sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio
romano, e nomeadamente a historia do baixo-imperio.
Não leio essas paginas melancholicas,
sem que involuntariamente volva os olhos
para o estado actual de algumas nações modernas:
as analogias que encontramos entre estas
e aquella são symptomas dolorosos; mas não
vem para aqui. Eu peço a v.. que reflicta sobre
essa historia em relação á efficacia
das tradições.
Ella completa o quadro que nos offerecem as
nações mussulmanas. Não foi no tempo
da republica,
foi sob o ferreo dominio dos cesares,
que os poetas cantaram os mythos da gente romana,
que os historiadores celebraram as suas
glorias, e deram a importancia da verdade a centenares
de lendas tradicionaes e fabulosas, que
a sciencia moderna, as investigações do grande
Niebuhr, reduziram já ao seu justo valor. De que
serviram, porém, essas glorias, esses milagres
do polytheismo, contados gravemente a um povo
servo e gasto, que apodrecia aos pés dos tyrannos?
Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos
espraiavam-se em exaggerações sobre as
grandezas passadas, emquanto os cidadãos recusavam
combater por uma patria que se tornara
em nome vão, e preferiam o jugo dos barbaros
a uma nacionalidade mentida. Os hymnos,
as gloriosas recordações romanas serviram
só
para acompanhar ao cemiterio da historia o ataúde
de Roma.
Consinta v.. que a estas rapidas considerações
eu ajuncte ainda um exemplo domestico,
sobre o qual peço a v.. que medite. Na lucta
violenta e tenaz que Portugal sustentou nos fins
do seculo XIV para repellir o dominio estrangeiro,
ninguem se lembrou de fortalecer os animos
invocando o milagre de Ourique; ao menos não
espero que v.. me aponte o menor vestigio historico
que me desminta. A razão para desaproveitar
tal auxilio foi demasiado forte; foi a razão
do cordeiro da fabula—
o milagre ainda não
era
nascido. E todavia o triumpho coroou os heroicos
esforços de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente
ser livre.
Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava,
absoluto e não contradicto, no commum
dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de
modo innegavel. E todavia, quasi sem combate,
as espadas castelhanas acabaram com a independencia
de Portugal n'um dia.
Entre os dous factos está, além do milagre, a
grande gloria das conquistas, gloria que não era
uma tradição remota, quasi oblitterada na memoria
do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a
bem dizer actual. Alguns dos que mais tinham
contribuido para ella ainda viviam.
Estes dous phenomenos, que determinam duas
epochas principaes da nossa historia, assim aproximados,
são a negação mais solemne da
utilidade
dos embustes religiosos, ou para melhor dizer,
anti-religiosos, e do orgulho selvagem de ter
annaes escriptos com o sangue humano vertido
em guerras não provocadas, em guerras de
aggressão,
e sobretudo de cubiça.
Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso
singular, um general ou um homem d'estado tirasse
vantagem dessa deploravel força moral que
se estriba nas superstições, ou nas
idéas de uma
gloria feroz. A questão é, se hoje o povo
português
tem alguma vantagem que tirar dessas tradições,
na situação em que a Providencia o collocou.
Sejamos sinceros. Póde elle sonhar em ser
conquistador, ou sequer em constituir uma potencia
maritima ou continental que pése com demasiada
força na balança dos acontecimentos politicos?
Parece-me que nenhum sisudo o dirá.
Somos pequenos; mas nem isso é vergonha, nem
impedirá que as grandes nações nos
respeitem,
se formos respeitaveis. Para obtermos
consideração
basta que os nossos progressos intellectuaes
e moraes mostrem á Europa que sabemos, queremos,
e podemos regenerar-nos pela sciencia,
pelo trabalho e pela morigeração.
Morigeração, trabalho, sciencia, eis as armas
com que a philosophia politica deste seculo ensina
as nações civilisadas a combaterem n'uma lucta
generosa. Os espiritos mais altos, seja qual
fôr a sua crença religiosa e politica, proclamam
a paz e a fraternidade entre os homens. E não só
as proclamam, mas até empregam a poderosa
alavanca da associação para promoverem, digamos
assim, uma cruzada sancta contra as tendencias
guerreiras. Os esforços collectivos desses
homens summos serão baldados? Não o cremos.
Elles tem um alliado irresistivel. Quando os
exercitos permanentes e as grandes marinhas militares
tiverem devorado todo o peculio de cada
povo, e exhaurido a melhor e mais pura seiva
da sua vida economica, é então que a philosophia
politica hade alcançar um triumpho decisivo.
Mas esse triumpho que outra cousa será
senão o ultimo termo de uma sorites immensa,
composta dos factos de dezenove seculos, de uma
demonstração practica e invencivel, de que a lei
moralmente necessaria das sociedades modernas
é o christianismo, é o verbo de amor e da paz
revelado
no Evangelho?
Nesses dias, que porventura tardam menos do
que muitos pensam, que destino darão os sacerdotes
da bombarda, da lança e da espada aos
seus deuses fulminados? As palavras «façanhas,
gloria guerreira, conquistas,» como serão
definidas
nos diccionarios das linguas vivas, dentro de
um ou dous seculos? Como julgará a historia os
milagres inventados para sanctificar o derramamento
de sangue humano?
Desculpe v.. esta digressão, que não creio
nem inutil nem extranha ao assumpto. De novo
entrarei directamente nelle, para proseguir nas
explicações que devo aos meus adversarios
sinceros,
honestos e instruidos, e não á ignorancia
malevola e presumida de hypocritas insignificantes.
Começarei por dar a v.. a razão moral, a
razão
suprema, porque rejeito não só o milagre de
Ourique, mas tambem os outros milagres, como
o de Alcacer, a que ou a má fé, ou a piedade
pouco illustrada quizeram attribuir a sorte das
batalhas, sorte dependente dos occultos designios
da Providencia e de mil accidentes, previstos ou
fortuitos, explicaveis ou inexplicaveis para a historia.
Não creio que essas guerras contra os infiéis
fossem cousa excessivamente christan, e
por isso o meu espirito recusa-se a acceitar como
factos verdadeiros os testemunhos de approvação
divina a um procedimento anti-evangelico.
Na idade média passava como cousa corrente,
que o guerrear os infiéis e fazer-lhes acceitar á
força
o jugo, aliàs tão suave e tão livre,
do christianismo,
era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se
desta doutrina, ou, para sermos justos,
acreditavam-na, em geral, sinceramente: acreditavam-na,
até, a maior parte dos homens intelligentes
e pios. Entre estes se distingue o proprio
S. Bernardo, que o excessivo zelo da gloria do
christianismo incitou a promover a segunda cruzada,
cujo infeliz resultado lhe acarretou tantas
accusações amargas, tantos desgostos pungentes.
A favor das guerras contra os mussulmanos durante
a idade média, principalmente a favor da
que se fazia na Peninsula, podem militar boas
razões de politica, e até de direito, porque essa
guerra não era mais do que a reacção
contra
uma conquista. Razão religiosa é que eu
não vejo
nenhuma que a favoreça. Repugna-me á consciencia
que o Christo, o Deus de paz e misericordia,
viesse pessoalmente ou enviasse os seus
anjos a incitar christãos a derramarem o sangue
humano, a levarem a assolação e a morte ao meio
daquelles que não o adoravam. Será este um modo
errado de vêr? A S. Thomás de Aquino, que
ainda alcançou os tempos das cruzadas, não
fizeram
força alguma as opiniões que haviam dado
origem áquellas expedições longinquas,
para deixar
de estabelecer que a diversidade de crença
não é motivo bastante para um povo atacar outro.
Reprovando a guerra de religião, não era
possivel cresse que Deus approvava essas luctas
crueis com manifestações sensiveis.
Vê-se, portanto,
que os
milagres militares, que
então se contavam
a tal respeito, pouco credito mereciam a
um dos homens mais pios do seculo XIII, e sem
contradicção ao mais profundo philosopho do seu
tempo. Ouçamos, porém, o grande historiador
da igreja, falando dessas guerras contra os mussulmanos.
«Os christãos—diz Fleury—devem applicar-se,
não a destruir mas sim a converter os
infiéis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer
ao mundo a guerra, da sequencia do seu
discurso, e do procedimento dos seus discipulos
se manifesta claramente que só se referia ás
turbações que havia de excitar a sua doutrina
celestial, turbações em que a violencia havia de
vir toda dos inimigos, a quem os christãos opporiam
a resistencia que as ovelhas oppõem aos
lobos. A verdadeira religião deve conservar-se
e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu,
pela prédica discreta, pelas obras virtuosas,
e mais que tudo por illimitada paciencia.
Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres,
mais prompto será o effeito. Quando Machiavello
dizia que os prophetas desarmados nunca
saíram com seus intentos, mostrava-se a um
tempo ignorante e impio; porque Jesu-Christo,
o mais desarmado de todos, foi o que fez conquistas
mais rapidas e firmes; conquistas como
elle as queria, ganhando as almas, mudando de
todo os homens, e tornando-os de maus em bons,
o que nenhum conquistador jámais fez....»
«Repito pois, que não se deve tractar de diminuir
as falsas religiões, ou dilatar a verdadeira
pelas armas e pela violencia: não são os
infiéis que se devem destruir, mas sim a infidelidade,
conservando os homens, e illustrando-os
ácerca dos seus erros. Em summa, para isso não
ha senão um meio, persuadir e converter....»
Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres
d'Alcacer e de Ourique, milagres em que se faz
intervir o céu para o derramamento do sangue
humano; milagres, que nem tem o merito de
originalidade, porque não havia por essa épocha
paiz da Europa, onde tambem a credulidade de
muitos, e a má fé de alguns não
tivessem associado
largamente o céu ás luctas sanguinolentas
daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres,
emfim, que, por sua natureza, são, religiosa
e moralmente, absurdos.
De passagem lembrarei a v.. que não é bem
fundada a accusação que me dirige, de que
não
appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente
de Lerins, quando foi exactamente o contrario
que fiz. Dos tres testemunhos presenciaes
que temos ácerca daquelle celebre recontro, só
em dous se allude aos signaes miraculosos que
se viram no céu. O auctor da Historia Damiatana,
que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia
milagrosa. Não acha v.. significativo este
silencio? Em todo o caso falta o
ab
omnibus de
Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a
doutrina de Mabillon, citada por mim na carta
antecedente, de que é
temerario, não
só o acreditarmos
em milagres falsos, mas até nos simplesmente
duvidosos. Quando o sentimento
religioso,
o respeito das doutrinas evangelicas
não obstasse á crença nesse favor do
céu, obstar-lhe-hia
a severa doutrina do grande benedictino.
Se não fosse o desejo de dar
satisfação plena
aos homens escrupulosos, mas capazes de se convencerem
da verdade, como v.. talvez concluisse
aqui esta carta, porque as grosserias parvoas
da ignorancia e os rugidos do interesse ferido,
que vê fugir atraz da apparição de
Ourique todos
os milagres rendosos, só se punem com a immortalidade
do ridiculo.
Não concluirei, porém, sem dizer alguma cousa
em especial sobre a tradição do apparecimento
de Christo a Affonso I, considerada na sua origem,
e no modo como foi propagada e defendida.
Os principios mais solidos da critica, o silencio
absoluto, não só dos contemporaneos, mas tambem
de dez gerações successivas, bastaria para
condemnar a tradição aos olhos dos
desapaixonados,
quando ella não fosse absurda em si,
porque é absurdo pôr Deus em
contradicção com
a indole do christianismo. Ha, porém, na historia
da invenção, propagação, e
aperfeiçoamento dessa
lenda tanta hesitação, tantas
contradições, tanta
imprudencia, tanta falsificação, tantos desejos
de se illudir ou de illudir os outros, em homens
que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas,
que o colligir as provas disso é offerecer
uma licção salutar do perigo que ha em abusar
do sentimento religioso do povo para fins mundanos,
e da miseria a que podem chegar ainda
os altos engenhos, quando se esquecem das doutrinas
evangelicas, e de que as duas cousas que o
Salvador mais solemnemente amaldicçoou neste
mundo foram a mentira e a hypocrisia.
O silencio de mais de tres seculos sobre um
facto estrondoso, que deveria andar na memoria
de todos, como o milagre de Ourique, não é
só
negativo, por assim nos exprimirmos; é tambem
positivo. Conjuncturas houve, antes dos fins do
seculo XV, em que elle se teria publicamente invocado,
se não fosse uma fabula ainda não inventada.
Citarei duas. Seria inexplicavel, se admittissemos
a existencia da tradição cem annos antes
de 1485, que nem um só dos prégadores, letrados,
e capitães de D. João I, os quaes mais de
uma vez, nas suas allocuções ao povo e aos
soldados,
reccorreram ás cousas religiosas para accender
os animos contra os castelhanos, e para
crear a confiança de victoria final na lucta brilhante
da independencia; que nem um só desses
prégadores,
letrados e capitães, os quaes não cessavam
de accusar os inimigos de scismaticos,
pretendendo ligar á sua causa a causa de Deus,
se lembrasse jámais de citar as promessas feitas
por Christo a Affonso I, o que era decisivo. Antes
disso, tambem, nos principios do seculo XIV,
tractando-se com grande empenho da separação
da ordem de Sanctiago em Portugal do grão-mestrado
de Castella, o mestre e os freires portugueses
dirigiram ao papa um longo arrazoado em
que argumentavam, que, sendo os bens que a ordem
possuia em Portugal, reino separado e independente
de Castella, dados pelos reis deste
paiz, não era justo que o grão-mestre castelhano
os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para
firmar na origem do reino a independencia daquella
parte dos cavalleiros que nelle residiam, o
mestre Pedro Escacho e os seus commendadores
allegavam ao papa um facto novo, mas do qual
era quasi impossivel que separassem a historia
da apparição, se della houvesse vestigios. O
facto
novo era a acclamação de Affonso I em Ourique.
«Outr'ora—diziam em Roma os procuradores
dos spatharios—o rei de Portugal, D. Affonso I
de clara memoria, o qual, esmagando com mão
poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo
de Ourique, foi elevado a rei pelos seus nobres
e
pelos outros concelhos, combateu
os dictos
sarracenos inimigos da religião orthodoxa com
todas as forças, para exaltação da
fé catholica e
defensão do proprio reino. O mesmo rei, debellando
e expugnando os infiéis, acommetteu-os e
tirou-lhes castellos, fortalezas e muitas terras.
Acceso em zelo da fé, e attendendo ao esforço do
mestre e freires de Sanctiago que então viviam,
concedeu-lhes, etc.»
Não fazendo caso da ignorancia dos procuradores
de Pedro Escacho
[28]
ácerca do estado da
sociedade portuguesa no meiado do seculo XII,
quando mencionam os villãos dos concelhos como
intervindo n'uma eleição de rei, não
faz peso
a v.. que não se lembrem do milagre da
apparição?
Se existisse a tradição, poderiam elles
ignorá-la,
e não a ignorando ommitti-la, quando tanto
convinha invocá-la? Não era evidente que o titulo
e a independencia do rei obtinham incomparavelmente
mais importancia e firmeza dos mandados
positivos de Christo, do que das acclamações
da soldadesca? Deixo á imparcialidade de v.. o
resolver estas questões.
Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas
as memorias e documentos anteriores a 1485
ácerca da apparição não
é só negativo; que é tambem
positivo. Mas existe realmente este silencio?—perguntar-me-ha
v.. Conforme a sua opinião,
estribada na de Cenaculo e Pereira, elle não
existe. No folheto recentemente publicado, que
v.. intitulou
Nova Insistencia, com
lealdade de
cavalheiro e de homem de letras v.. abandonou
o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que
tambem o antigo documento da
Symmicta ao destino
que elles mereciam; mas insiste nos outros
documentos que se citam. Examinarei se v.. tem
razão na insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar
aqui v.. das injurias que a bruta ignorancia
de um pobre tonto vomitou indirectamente contra
v.. por não distinguir o texto attribuido no breviario
a S. Bernardo; cabe-me, digo, consolá-lo
com o meu exemplo, e com o de um sacerdote
instruido, que, enganado com v.. por aquella
insigne falsificação, expondo-lhe eu as minhas
opiniões ácerca do milagre de Ourique, me
contrapunha
o testemunho do grande abbade de Claraval,
inserto no breviario. Como, porém, para
escrever a historia do nosso paiz é necessario
caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja,
lá com todas as prevenções contra os
salteadores,
cá attentos sempre a que não nos illuda
a cada momento um fabricante de mentiras ou
um falsificador de documentos e textos, amestrado
pela experiencia repliquei que duvidava da
passagem do breviario, e que duvidava sobretudo
pelo adjectivo
lusitanum, que nella
se lê, e que
eu tinha a certeza de não se encontrar em monumento
nenhum do seculo XII para significar
português,
cousa portuguesa. Na duvida, passámos
a examinar o texto do sancto, e a falsificação
appareceu-nos
logo mais clara que o dia. Assim v..
teve companheiros na illusão; nem creia que tem
tido só dous: ha-de ter tido milhares delles. Ria-se
destes eruditos que adivinham tudo quanto
se lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra,
que logo distinguem
pelo estylo
quatro ou cinco
linhas interpoladas nas obras de qualquer escriptor.
Mas, voltando ás cousas sérias, v.., repito,
insiste
nas outras provas, desprezadas as evidentemente
falsas. E quaes são as que ficam? Creio que
v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon,
e de toda a gente que não esteja em guerra declarada
com o senso-commum,
de que não
provém
maior certeza a um facto historico de ser relatado
em livros de muitos auctores mais modernos,
cada um dos quaes foi copiando o que o outro
tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais
do que o primeiro que o referiu. Assim, tendo
nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam
o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do
seculo XVI annullam-se completamente. Ha, porém,
outras anteriores, dirá talvez v.. É verdade
que Cenaculo as propõe. Mas quaes são ellas?
Examinemos.
1.º Um indice, escripto em Roma, de documentos
relativos a Portugal em que se memora o
facto da apparição.
Como Cenaculo nos não diz a data do indice,
estamos desobrigados de discutir o documento
a que se refere: provavelmente havia de ser pelo
gosto do da Symmicta.
2.º A doação ao mosteiro de Claraval,
feita
por Affonso Henriques.
Tem o pequeno inconveniente de ser falsa.
João Pedro Ribeiro reduziu-a a lastimoso estado
na segunda das suas Dissertações Chronologicas.
Estou certo de que o bispo de Béja, se resuscitasse,
não havia de ter vontade de tornar a falar
nella.
3.º Nos
Commentarios de Affonso
sabio, traduzidos
em português no tempo de Affonso IV,
termina o capitulo 416 por uma passagem, em
que Cenaculo quiz ver a memoria do milagre,
embora nella não haja uma palavra a semelhante
respeito.
Este testemunho, ainda suppondo que a passagem
diga o que não diz, tem tambem outro
pequeno inconveniente. É que Affonso sabio não
escreveu Commentarios nenhuns. Veja v.. se
os encontra mencionados no extenso e minucioso
artigo ácerca de Affonso X, na
Bibliotheca
Hespanhola de Rodrigues de Castro, ou se acha
em parte alguma vestigios de taes Commentarios.
4.º Uma passagem de uma chronica inedita
dos reis de Portugal, que,
pela fórma da
letra e
pela linguagem, se conhece ser do tempo de
Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta
de um codice da camara d'Evora.
Pedirei pela primeira vez um favor a v.. É
que não acredite demasiado na pericia paleographica
de Cenaculo. A diplomatica ainda não
acho meios sufficientes para distinguir com
certeza pela fórma dos caracteres, nos codices
portugueses, os que são do seculo XIV ou do
XV. Tanto em letra assentada como em cursivo,
não ha nelles senão a alleman pura, ou a francesa
com maior ou menor resabio de monachal
ou alleman. Isto é commum a ambos os seculos.
A mesma romana pura ou restaurada, que começa
a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio
da monachal. Pelo que respeita á outra
adivinhação de Cenaculo relativamente
á linguagem,
v.. como homem de letras, está por certo
habilitado para avaliar a
força deste meio de
apreciação. Se o bispo de Béja
vivesse, eu compromettia-me
a apresentar-lhe passagens extensas,
escriptas em vulgar no meio do seculo XIV
e outras escriptas já na segunda metade do XV,
e se elle fosse capaz de dizer quaes eram as antigas
e quaes as modernas, dava-lhe a minha palavra
de honra de ficar crendo no milagre de
Ourique. Esta experiencia que eu offereceria ao
erudito bispo, estou prompto a offerecê-la a
quem quer que pretender tentá-la.
Agora accrescentarei mais alguma cousa. No
archivo da camara d'Evora, que examinei por
meus proprios olhos, posso certificar a v.. que
nada ha anterior a D. João I; nem diplomas,
nem codices. Que é feito da tal chronica que
o bispo de Béja diz existir no archivo da camara
d'Evora? O que havia de estimação naquelle
archivo foi distrahido pelo antiquario
Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de
Cenaculo. Isto é sabido pelas pessoas eruditas
d'aquella cidade. V.. deduzirá d'aqui as
conclusões
legitimas.
A erudição immensa de Cenaculo tem um defeito
que nelle provinha do excesso de uma util
faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa.
Era essa faculdade a da memoria comprehensiva
e tenaz. Lia muito e fiava-se na força
da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos
seus escriptos que grande numero das citações
que fazia e das auctoridades em que se
estribava não as verificava, e que a memoria o
trahia ás vezes, quando menos em particularidades
e accidentes que modificavam a significação
dos textos, servindo mal os
intuitos
do
bom do prelado e tornando suspeita a sua candura.
Os
Commentarios, por exemplo, de
Affonso
sabio, traduzidos em português, podiam ser, não
uma invenção, mas sim uma reminiscencia, ou
uma nota tomada á pressa por Cenaculo, e talvez
a chronica inedita dos reis de Portugal, que
pela fórma da letra e pela
linguagem se conhecia
ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa
analoga aos taes
Commentarios, isto
é, apenas
uma confusão de idéas, ou, quando muito, uma
inexacção de apontamentos.
Existe uma compilação historica em vulgar,
ou colligida ou accrescentada nos meiados do
seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal
abrange a regencia e morte do infante D. Pedro
(cap. 438) e nada contém posterior a este facto,
continuando nos capitulos seguintes a historia
dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se
tres exemplares desta compilação, que constitue,
ao menos intencionalmente, uma historia
geral das Hespanhas desde os tempos mais
remotos até os seculos XIV e XV. Em París e em
Madrid conservam-se os dous exemplares mais
antigos. O de París trasladou-o o dr. Nunes de
Carvalho com o intuito de imprimir aquelle curioso
inedito. Dadiva do meu tão erudito como
modesto amigo José Gomes Monteiro, possuo
eu o terceiro exemplar, que parece ter pertencido
a Manuel Severim de Faria. O codice de
Madrid é talvez o mesmo que menciona pouco
explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de
Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A
Cronica General attribuida a Affonso
sabio subministrou
ao compilador a historia fabulosa e a
historia antiga da Peninsula atè a epocha leonosa.
A corographia d'Hespanha, bem como a narração
da entrada e conquista desta pelos mussulmanos
e dos primeiros tempos do seu predominio
são extrahidas da historia arabe de Arrazi,
conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro
Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e á
iniciativa daquelle principe uma traducção do
livro
do historiador musulmano, e effectivamente
esta parte da compilação é uma
daquellas que parecem
mais antigas pela rudeza da linguagem. A
chronica do Cid, publicada modernamente pelo
P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por
Masdeu, era conhecida já do compilador, que largamente
a aproveitou na composição do seu livro.
No exemplar de París, conforme o que se vê
da copia de Nunes de Carvalho, faltam os capitulos
411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no
exemplar de Madrid. Encontram-se, porém, no
que pertenceu a Severim de Faria; e é justamente
nestes capitulos, desde o 412 até o 438
que está inserida a chronica dos reis de Portugal,
começando na vinda do conde D. Henrique
e finalisando nos primeiros annos do governo
de Affonso V. É uma narrativa assás resumida,
distinguindo-se apenas a parte relativa aos reinados
de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos
verdadeiros ou fabulosos são mais particularisados.
Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto,
com o n.º 79, um antigo codice transferido para
alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de Coimbra.
Contém varias memorias historicas e outros
papeis avulsos escriptos por diversas mãos, tudo
colligido, segundo parece, nos fins do seculo XV.
Acaba o codice por dous chronicons em vulgar
[29].
Um tem por titulo «
Como e donde descenderom
os reis de Portugal»: o outro
«
Aqui
se compeça a istoria dos reys de
Portugal»: Ambos
se referem em breves palavras ao conde Henrique,
dilatando-se com os successos e lendas da
vida de Affonso Henriques, successos e lendas
aproveitados pelo chronista Galvão. Ao passo,
porém, que o primeiro chronicon não ultrapassa
a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque
em breve resumo, as vidas dos seus successores
até D. Dinis. Em relação aos tempos de
Affonso Henriques são em parte identicos, não
só
no contexto, mas até nas phrases. Ha todavia entre
elles uma differença digna de reparo: é a de
que no primeiro se repetem mais de uma vez as
palavras
conta a historia, que
não apparecem no
segundo, ao passo que n'aquelle se referem
tradições
relativas a Affonso I ommittidas neste, donde
se conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho
historico mais antigo, de que talvez o segundo
seja apenas um extracto, embora accrescentado
com leves traços dos subsequentes reinados.
No exemplar da compilação que pertenceu
a Severim de Faria a narrativa dos successos de
Portugal durante a vida de Affonso I póde dizer-se
que é um complexo dos dous chronicons de
Sancta Cruz, ás vezes perfeitamente semelhante,
outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se
os chronicons na compilação ou tiraram-se
della? Por outra: qual dos tres monumentos
é mais antigo? É o que não importa nem
eu me
atrevo a resolver.
O que importa é o que se lê nestes monumentos,
os mais remotos que nos restam escriptos
em vulgar, ácerca da batalha de Ourique.
Vejamos se lá se encontram vestigios do celebre
milagre.
O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos
que Affonso Henriques, acclamado rei pelo exercito
antes do combate, depois deste,
por
memoria
daquelle boo aquecimento que lhe deus dera
pôs no seu pendam cinquo escudos por aquelles
cinquo reis e pose-os em cruz por renembrança
da cruz de nosso senhor ieshu christo, e pôs em
cada huum XXX dinheiros por memoria daquelles
XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu
christo.
No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada
da lucta de Affonso Henriques com
sua mãe e com o conde de Trava (a que faz seguir
immediatamente o recontro de Valdevez) e
a lenda do cardeal legado e do bispo negro medeia
a noticia da batalha de Ourique por estas
simples palavras:
E depois ouve batalha em nos
quanpos dourique e venceo a. Indicio notavel de
que ainda no seculo XV havia quem desse áquelle
acontecimento uma importancia secundaria.
Na compilação a passagem relativa á
jornada
de Ourique é a seguinte: «Ajuntou suas gentes
e foyse sobre os mouros e correolhes a terra dês
coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e
correo toda a terra ataa o campo de Ourique,
onde achou elRey ismar, que a essa sazon era
Rey da estremadura, com sinco Reys que o vinham
buscar sabendo o grande dapno que lhes
fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha
no lugar que se chama crasto verde, e vencêos
e prendêos e matou a mayor parte de todas
suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha
os seus o alçaram por Rey, e dês enton se
chamou Rey de portugal: e depois que os Reis
forom vencidos, elRey dom Affom de portogal,
por memoria daquelle boo acontecimento que lhe
deus dera trouve por armas sinco escudos por
aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrança
da cruz de nosso senhor jesu cristo, e
poz em cada huum escudo trinta dinheiros por
os trinta dinheiros por que judas o vendêo, e
dêsi tornouse para sua terra muy honradamente».
Onde estará o milagre em qualquer destas tres
passagens não posteriores aos meados do seculo
XV e que por ventura são mais antigas?
É muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa
e variadissima leitura, tivesse visto alguma
copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente
a compilação no exemplar de Severim de Faria,
que viveu no Alemtejo, onde tambem Cenaculo
residiu longamente, e onde o manuscripto
podia conservar-se ainda no tempo do bispo de
Beja. Uma circumstancia digna de notar-se torna
mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim
do capitulo 416 dos suppostos
Commentarios, e
na compilação os ultimos periodos do capitulo
415 são os que se referem á batalha de Ourique
e aos seus resultados. O logar do capitulo citado
é o mesmo: a differença está na
numeração deste,
e essa differença é apenas de uma unidade.
Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz
derivar o imaginario escudo de Affonso Henriques,
nada mais facil do que Cenaculo, citando
de memoria, dar á compilação, tirada
em grande
parte da
Cronica general, o titulo
de Commentarios
d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta
Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo
tempo a lenda do escudo d'armas com a lenda
da apparição, acerca da qual não ha
ahi uma
palavra. Tudo isto não passa de conjecturas, mas
de conjecturas que põem em salvo a probidade
litteraria de um dos nossos mais illustres prelados
de uma epocha ainda pouco remota, em
que os bispos portugueses eram bispos, e não
vigarios do papa
[30].
Em Cenaculo a defensão do milagre de Ourique
era empenho cego. Não sei, nem me importam
os motivos. Importa-me o facto, que annullaria
melhores testemunhos do que esses que cita,
quando elle fosse o seu unico abonador. Quer
v.. uma prova decisiva da cegueira do douto
prelado? Eu lh'a dou, e irrefragavel: é o seguinte
periodo:
«O advertido padre Pereira faz ver que desde o
seculo XV se acham escriptores mui auctorisados,
que referem o acontecimento como de cousa
então
vulgar entre as pessoas que haviam tractado
os immediatos contemporaneos do successo, em
maneira que a tradição é
coetanea.»
Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer
que em 1485 (epocha do primeiro testemunho
preciso sobre a apparição, o de Vasco Fernandes
de Lucena), havia gente que tinha conhecido
individuos do tempo da batalha de Ourique,
ou por outra, que no seculo XV havia pessoas
com
trezentos annos de idade.
Quem diz isto póde dizer livremente o que lhe
aprouver. Quando um espirito não-vulgar chega
a este estado, que nos resta senão confessarmos
o nosso nada diante da summa intelligencia de
Deus?
Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto
me foi possivel, a falar de leve na apparição;
eis
porque tenho até hoje reluctado em descer á
discussão
especial dessa mentira ridicula, com que
os prégadores vão ludibriar o povo na cadeira do
evangelho. Estas miserias e vergonhas, e as que
successivamente apontarei, sobre quem recaem?
Sobre homens que aliàs têm direito á
reputação
que adquiriram na historia litteraria do paiz e nos
annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso
talvez de amor proprio
[31],
talvez uma piedade
ou um patriotismo irreflectido, fizeram com que,
em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova
de que tal ou tal cousa era verdade, caminho
deploravel em cujo termo é certo o precipicio.
Fóra dos testemunhos cujo nenhum fundamento
acabo de mostrar, Cenaculo reduziu-se a adoptar
as pretendidas provas do padre Pereira, sem
exceptuar o juramento de Alcobaça. E note v..
que elle o conhecia tão pouco ou era tão fraco
diplomatico, que não hesitou em escrever estas
palavras memoraveis:—«
Duvidar da
apparição
emquanto o desconhecimento dos testemunhos a
faz presumir de piedade popular e crença apaixonada,
pode ser critica; mas a
interpretação livre
e esquerda da palavra real e fundada (o juramento
de Alcobaça) merece ser sempre vista com
desapprovação e desagrado».—Isto quer
dizer
que, se não houvesse o instrumento da
apparição,
podiamos com boa critica deixar de crer no
milagre. Assim, se o bispo de Béja vivesse hoje,
á vista da declaração official da
falsidade do documento,
que o meu amigo Rebello da Silva arrancou
ao juiz mais competente na materia, o
lente de diplomatica e guarda-mór interino do
Archivo Nacional, elle teria de passar com armas
e bagagens para o campo dos
impios,
se quizesse
(havia de querer) intitular-se bom critico.
Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria
hoje a opinião de Cenaculo, vamos aos
Novos
Testemunhos do padre Pereira. Disse eu que este
escripto traria deshonra ao auctor da
Tentativa
Theologica, e da
Vida de Gregorio
VII, se não
fosse uma ironia. Confesso a v.., que antes quero
salvar, por esta hypothese, a reputação de um
nome illustre na nossa litteratura, do que acceitar
a anecdota, a que alguns attribuem a concepção
dos
Novos Testemunhos, anecdota que
mais
de uma vez tenho ouvido referir. Conta-se, que,
sendo o padre Pereira pouco aferrado ao dinheiro
(é defeito de classe: não creia v.. que usurario
nenhum fosse nunca homem de letras) veio a
achar-se um dia com a bolsa completamente vazia.
Advertido da apertura da situação pelo creado,
pegou n'algumas folhas de papel, escreveu os
Novos Testemunhos, mandou-os ao seu
editor, e
recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos
por dous ou tres dias. Eu prefiro a ironia á
anecdota, que não sei se é verdadeira. Mas ou a
musa do opusculo fosse a precisão de dinheiro,
ou fosse a vontade de gracejar, o que tenho por
certo é que, a não ser assim, a obra fora indigna
de um homem, que pulverisou as pretensões
illegitimas e insolentes da curia romana, e que
fez tremer boa meia duzia de hypocritas e pedantes
do seu tempo. As provas de que os
Novos
Testemunhos precisam da minha
explicação,
ou d'outra qualquer, vou dá-las a v.., começando
por transcrever uma passagem da introducção
do opusculo. Depois de apresentar como
demonstração de não ser forjado
o juramento
d'Alcobaça o haver, antes de Brito o
publicar,
testemunhos
da
tradição de Ourique (argumento
na verdade singular!) o padre Pereira prosegue:
«Mas quanto a verificar o caso da
apparição,
tem a dita demonstração
o
defeito de que nenhum
dos testemunhos em que ella se funda remonta a
maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel.
E assim
poderão os emulos
das nossas glorias
repôr que uns
testemunhos do principio do
XVI não são sufficientes para
extorquir delles o
assenso a um facto, que se suppõe
acontecido no
meio do seculo XII.»
Depois d'isto, que digam todas as pessoas que
lerem esta carta, não sendo algum clerigo mau e
ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte
quaesquer prevenções, o que se deve esperar no
opusculo? O auctor confessa que a favor da
apparição
não bastam os testemunhos posteriores ao
anno de 1495, insufficientes para provas de um
facto succedido em 1139, logo elle vai offerecer-nos
documentos, trezentos, ou, pelo menos, duzentos
annos anteriores. Eu digo o que nos offerece
Pereira em logar dos
testemunhos
insufficientes.
1.º A narrativa de Olivier de la Marche na
introducção
ás suas Memorias.
Esta introducção foi começada a
escrever em
1492, conforme o proprio auctor das Memorias
declara
[32]:
isto é, as passagens relativas ás
armas
reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres
annos antes de começar a epocha em que os testemunhos
ácerca de um milagre succedido 357
annos antes nada provam, segundo confessa o
padre Pereira, advertindo que, por esses não prestarem,
nos ía expor quatro novos,
todos de tanto
peso e authoridade, que não ha para que se desejem
outros mais graves. Destas premissas segue-se,
que o testemunho dado a favor de um
facto 357 annos depois do tempo em que se diz
succedido é
defeituoso e
insufficiente, mas dado
354 annos depois do successo é igual ao de qualquer
pessoa, ou de muitas pessoas que houvessem
presenciado este, visto que
nada ha mais
grave, do que um testemunho posterior de 354
annos, emquanto o posterior de 357 não presta
para nada.
Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico?
Deixo a escolha a v.. postoque estou certo
de que das duas explicações ha-de preferir a
ultima.
Mas o caso não pára aqui. Tenha v.. paciencia,
porque não fui eu que quiz discutir o milagre de
Ourique; foram os padres, que me têm insultado
porque o tractei como elle merecia, que me
compelliram a isso. Hão-de esgotar o calix da
ignominia até as fézes. Elles dizem do pulpito
abaixo que era melhor que eu não tivesse falado
em tal; e eu digo-lhes da imprensa, do meu pulpito,
que era melhor continuarem a aleijar o
latim do breviario e do missal, e deixarem-me
em paz escrever a historia verdadeira do meu
paiz.
Digo que o caso não pára aqui, porque o modo
como é narrada a historia da apparição
por
Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas,
é curiosissimo. Segundo elle, o conde
Henrique tinha escudo branco: depois este escudo
adornou-se por quatro vezes: 1.ª quando Affonso
I, passando o Tejo, desbaratou em campo
d'Ourique (
Cambdorick) os cinco reis
mouros, e,
em allusão a cinco bandeiras que lhes tomou, pôs
no escudo branco cinco escudetes azues. 2.ª Houve
nova mudança quando
o mesmo rei foi a
Roma
emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno
consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu
pondo-se inteiramente nú, e desafiando
o papa e os cardeaes para que lhe mostrassem todos
junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes
das que elle tinha recebido pela fé de Christo.
Era maravilhoso, de feito, o numero d'ellas: cinco
com visiveis indicios de deverem ter sido
mortaes, a não se haver dado milagre no caso. O
argumento fora peremptorio. O papa e os cardeaes
disseram-lhe que vestisse a camisa; e para
lhe darem uma satisfação da injusta pronuncia,
mandaram-lhe que em cada um dos escudetes
posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria
daquellas famosissimas lançadas de que os
mouros o haviam servido. 3.ª Tendo o infante D.
Fernando, rei de Portugal, casado em França com
a condessa Maria de Bolonha, teve um filho, chamado
Henrique, o qual accrescentou a orla do
escudo em que estão os castellos. E sobre este
ponto discute o auctor o erro que havia nos dictos
castellos, estribando-se na opinião de portuguêses
notaveis. Entre estes devo advertir, para o que
v.. logo verá, que elle havia já mencionado
especialmente
e com elogios extraordinarios o
celebre
Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a dignidade
de escanção de Madama Margarida, viuva
de Carlos o Temerario
[33].
A 4.º alteração, que
vinha a ser a quinta fórma das armas reaes portuguesas,
foi o pôr-lhes uma cruz firmada no escudo
um rei de Portugal (já se vê que muito posterior
a Affonso I), facto cuja origem
alguns attribuiam
(aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido
uma cruz no céu durante uma batalha com os
sarracenos,
o que vendo o principe dissera, orando
a Deus, que
mostrasse antes a
cruz aos infieis, e
assim se fez, com o que os mouros
ficaram desbaratados.
Accrescenta Olivier de La Marche que
talvez o milagre seja verdadeiro; mas que
para
elle a verdade é que o bom rei
João (D. João I)
foi quem ajunctou ás armas portuguesas os quatro
braços floreteados firmados no escudo.
Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la
Marche em toda a sua força e pureza, postoque
resumido. Não lhe faço commentarios. Deixo a
v.. e a todos homens instruidos que os façam.
Eu por mim estou satisfeito.
Inverterei aqui a serie dos quatro
irrecusaveis
testemunhos do padre Pereira, porque tenho uma
razão de ordem que me obriga a reservar o segundo
para o ultimo logar. Falarei, portanto, do
terceiro.
Gomes Eannes de Azurara, na continuação da
chronica de D. João I por Fernão Lopes,
transcreve
um discurso feito áquelle principe pelos
seus confessores, frei Vasco Pereira e frei João
Xira, a quem elrei pedira lhe dissessem se era
serviço de Deus intentar a conquista de Ceuta. A
resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se
no exemplo de muitos outros principes e cavalleiros
famosos, que haviam acommettido os infiéis
na persuasão de que practicavam uma obra
meritoria, offerecendo-se á morte. Os que a tinham
alcançado, entendiam os dous frades que
ficavam equiparados no céu aos martyres, e que
os que não a haviam obtido, nem por isso deixavam
de ser sanctos, estando resolvidos a morrer
alegremente pela fé. Os theologos terminaram a
serie dos exemplos (nos quaes figuram entre
aquella especie singular de bemaventurados o
Cid Ruy Dias e o conde de Castella Fernão
Gonçalves,
que nunca desconfiaram de que eram sanctos)
pela seguinte passagem, conforme se lê na
edição de 1644:
«...temos ante nossos olhos a memoria do
mui notavel, fiel e catholico christão elrei D. Affonso
Henriques, cujas reliquias tractamos entre
nossas mãos. Vêde, senhor, os signaes que trazeis
em vossas bandeiras, e perguntai e sabei
como e por que guisa foram ganhados; os quaes
certamente de todas as partes mostram a paixão
de Nosso Senhor Jesu-Christo,
por cuja reverencia
e amor o bemaventurado rei offereceu o seu
corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles
cinco reis, como vossa mercê sabe. Considerae
isso mesmo (do mesmo modo) Senhor,
se elle
duvidara se o seguinte trabalho era serviço de
Deus, não tivereis vós hoje em dia esta mui
nobre cidade (Lisboa) nem a villa de Santarem,
com outros logares, etc.»
Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque
illustrava o sentido das phrases relativas á
batalha de Ourique. O que frei João Xira queria
dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera
a morrer por Christo em Ourique, entendendo
que fazia serviço a Deus, como depois, na
tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala
aqui no milagre? Se houvesse outras testemunhas
daquella epocha (1415), que positivamente
referissem a apparição, ainda se poderia, embora
com violencia, suppôr nas phrases do frade
uma allusão ao successo; mas faltando-nos
absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa
tal supposição. Trazer esta passagem para
provar, que já em 1415 existia a
tradição, ao
passo que, para ella poder ter a significação
forçada que se lhe quer dar é necessario
suppôr
a existencia da mesma tradição, o que
é,
senão um circulo vicioso, uma petição
de principio?
Não é, porém, só isso.
Nestas lendas, inventadas
com fins humanos por milagreiros e
falsarios, quasi que não é possivel dar um passo
sem encontrar falsificação. A chronica de
Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra
contra os castelhanos, depois da revolução de
1640, e precedida por uma gravura representando
a apparição, foi viciada nesta passagem,
provavelmente para se ver nella uma allusão
obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu
ver, o padre Pereira. No codice authentico do
Archivo nacional, onde no impresso se lê
«
vencendo»,
está escripto
«
vendo».
«Vendo» torna o
sentido da passagem claro. O rei
vendo os
cinco
reis mouros, offereceu o seu corpo a Jesus, e pôs
nas suas bandeiras os
cinco escudos.
Substituida,
porém, a palavra
vendo
por
vencendo, a phrase
obscurece-se; a causa de se pôrem os cincos escudos
nas bandeiras, isto é, o serem os reis
mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que
se cria tirar vantagem em 1644, ganha em frei
João Xira um novo, postoque bem debil, alliado.
Mas supponhamos tudo quanto quizerem.
Adoptemos como exacto o texto impresso de
Azurara: vejamos ahi a apparição, embora
não
haja lá uma unica palavra a semelhante respeito.
O testemunho singular de frei João Xira em 1415
não seria um pouco tardio para provar um successo
de 1139, profundamente esquecido nos
chronicons e monumentos coevos? Não o rejeitam
as regras da critica sincera; regras estabelecidas
accordemente por tantos e tão respeitaveis
escriptores ecclesiasticos; regras, emfim,
cuja solidez a experiencia demonstra de contínuo
aos que se votam a serios estudos historicos?
Quer v.. um exemplo domestico da utilidade
das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos,
dos Fleurys,
desprezadas
só por aquelles que
desprezam tudo, menos os dezeseis tostões de
um sermão de milagres? É exemplo que
não está
no cartorio da camara de Evora, nem nos Commentarios
ideaes de Affonso X, mas no Archivo
Nacional, onde todos o podem vêr. Consiste n'uma
especie de summario historico dos reis de Portugal,
lançado no 4.º volume de
Inquirições
de
Affonso III, no reinado de D. João I. No preambulo
daquelle summario, destinado a avaliar-se,
á vista dos factos historicos, a genuinidade das
doações dos reis anteriores, affirma-se que para
o escrever se averiguara com extrema exacção
a verdade, fixando-se assim a serie chronologica
dos principes portugueses. Sabe v.. qual é a
exacção desse monumento destinado a servir de
padrão legal, para por elle se afferirem diplomas
que importavam á fortuna particular e aos direitos
da corôa? Citarei só os erros relativos a Affonso
I. Segundo o summario official, elle nasceu
em 1092, foi casado com a filha de D. Affonso
de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em
dezembro de 1184. D'aqui verá v.. o credito
que deveriam merecer-nos os testemunhos do
seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre
do seculo XII, quando esses testemunhos existissem,
e não fossem um rol vergonhoso de
falsificações
e mentiras.
O quarto testemunho do padre Pereira é o proprio
instrumento da apparição, que existiu em
Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o
de Alcobaça. O auctor dos Novos Testemunhos diz
que não sabe se os dous foram uma e a mesma
cousa, passando o celebre documento do archivo
daquelle mosteiro para o d'Alcobaça. Como demonstra
elle, porém, essa existencia? Pelo depoimento
de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556,
e publicado por outro frade cruzio, insigne forjador
de textos e diplomas, e chronista da ordem,
frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario
pelos seus proprios confrades
[34].
Se acreditarmos
este, os conegos de Sancta Cruz,
empenhados em
fazer canonisar Affonso I, requereram se tirasse
um depoimento de testemunhas sobre os milagres
do primeiro rei português, do
Pharaó obdurado
dos monges de Cella-Nova. Quem primeiramente
depôs foi um
dos conegos
empenhados, e foi
este que disse constar o milagre de Ourique pelo
juramento que existia do mesmo rei. Desse juramento
original tiraram-se então em duplicado
copias authenticas; uma para se guardar no
mosteiro, outra para ir a Roma, o que não chegou
a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz
o original e uma copia em instrumento, e fóra
d'alli outra copia authentica. Tudo isto se perdeu,
e nada resta de um documento de tanta
valia, que forçosamente se havia de guardar com
recato, senão a grosseira impostura dos frades
bernardos, restando tambem, nos fins do seculo
passado, um traslado que se dizia transcripto
de
um original, diverso no seu theor
do outro
original de Alcobaça, e só
semelhante a elle em
ter sellos pendentes, cousa que não existia na
epocha em que o juramento se diz exarado.
O que tudo isto vem a ser é uma serie de vergonhas
e miserias repugnantes, e sobretudo de
falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios, elles
nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os
seus embustes. Se frei Nicolau, ou os conegos de
1156 (porque eu não sei se a historia do depoimento
se verificou, ou se é invenção do
chronista)
se lembrassem do que passou antes d'elles,
teriam procedido com mais cautela nas suas mentiras.
Quem lê a façanhosa chronica dos conegos
regrantes conclue que no tempo de frei Nicolau
os pergaminhos originaes eram aos milhares em
Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui está o que não
só elle proprio, postoque fraca testemunha, mas
tambem escriptores mais serios, que se reportam
a um documento coevo, nos referem como acontecido
em 1411. No dia de Corpo de Deus desse
anno, uma tempestade que estourou sobre Coimbra
produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu
o mosteiro de Sancta Cruz. «A agua (diz o
auto que sobre isto se redigiu) levou, além de
muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas
de memorias antigas e de doações que os reis
fizeram ao dicto mosteiro, que
todas
foram molhadas
e a mór parte dellas
perdida». Sabendo
elrei D. João I do successo, segundo confessa o
mesmo frei Nicolau, ordenou se trasladassem
em publica fórma as
doações e mais
escripturas
que restavam dando-se a este transumpto a
mesma força dos originaes, «
com o
que, prosegue
o chronista,
se restaurou parte da perda
de tantas e tão antigas escripturas que hoje nos
fazem grande falta». De duas uma: ou o
instrumento
da apparição depositado em Sancta Cruz
pereceu em 1411, ou escapou. Se escapou, devia
ser trasladado no chartulario em que, segundo
a ordem delrei, se lançou o que restava. Esse
chartulario existia ainda no tempo do chronista,
e provavelmente existe ainda hoje. Para que inventaram,
pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaça?
Porque, em vez de imaginarem cem mentiras
para amparar a tradição, não foram a
Sancta
Cruz extrahir desse traslado authentico dez
ou cem traslados novos, que tambem seriam
historica e até legalmente authenticos? Porque
não vão lá buscá-los ainda
hoje para confundirem
a minha impiedade? Se, porém, o pergaminho
original pereceu em 1411, que são essas
historias de publicas-fórmas
do
original feitas
pelos notarios Manso e Thomé da Cruz, e não
sei por quem mais, senão embustes, ou copias
tiradas de um documento falso. Porque eu não
disputo, nem me importa, que elle fosse forjado
pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de
S. Bernardo.
Falta o segundo testemunho, que deixei para
ultimo logar, porque se prende com o que me
resta a dizer a v.. sobre a lenda da apparição.
Esse testemunho é o de Vasco Fernandes de
Lucena, que, indo como orador da embaixada
enviada por D. João II ao papa em 1485, referiu
a historia da apparição no discurso que recitou
perante Innocencio VIII e perante a curia.
Como prova do successo, elle tem pouco
mais ou menos o valor do de Olivier de la Marche.
Se aos historiadores que escreveram depois
de 1495 se não póde attribuir, segundo Pereira,
e muito mais segundo as doutrinas dos pios e
eruditos escriptores a que me referi na carta antecedente,
auctoridade bastante para nos compellirem
a acceitar a tradição de Ourique,
tê-la-ha,
porventura, o testemunho singular de um homem
que o refere apenas dez annos antes, tractando-se
de um milagre que se diz succedido
n'uma epocha anterior de mais de tres seculos?
É impossivel que v.. não sinta que semelhante
auctoridade nada vale.
Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu.
O primeiro e o segundo são dos fins do seculo
XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a
um só. Persuadem-no o affirmar Olivier de la
Marche que sobre a questão das armas portuguesas
ouvira pessoas
notaveis de Portugal
com quem
tractara
[35]
tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos
elogios á sciencia e talento de Vasco de
Lucena. O terceiro é uma passagem, aliàs viciada,
de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer
correcta, não contém uma unica palavra
ácerca
da apparição. Finalmente, o quarto é o
juramento
de Affonso Henriques, que
consta
existia em
Sancta Cruz muito antes de Fr. Bernardo de Brito
encontrar o de Alcobaça, o qual se não sabe
se é o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas
que nós sabemos perfeitamente que é falso. Eis
aqui os testemunhos do milagre de Ourique,
«
de
tanto peso e auctoridade, que não ha para que se
desejem outros mais graves».
Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo
a decidir se o padre Pereira escreveu isto em seu
juizo, ou se estava dando largas á sua jovialidade.
Resta-me só fazer um esforço para acceder,
até
onde é possivel, a uma pretensão de v.. embora
já ficasse provado que ella era infundada. Diz
v.. que para refutar plenamente a fabula da
apparição
deveria eu dizer quando, como, para que,
e por quem fora inventada. É evidente que o falsario
havia de precaver-se para não o descubrirem,
e só elle poderia dizer positivamente qual
era o seu intuito quando forjou a patranha. Sendo
homem astuto, saberia não somente guardar
segredo, mas tambem fazer espalhar com arte a
fabula. Que calumnias não tem alevantado uns
aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos?
Muitas dellas, passando primeiro de boca em
boca, vindo á imprensa, combatidas pelos calumniados,
nem por isso hão deixado de generalisar-se,
e de tomar ás vezes tal consistencia, que é
possivel passarem algumas, d'aqui a um seculo,
por factos historicos, até que uma critica severa
e desapaixonada as reduza ao seu justo
valor. Sobre a origem da fabula de Ourique não
se podem produzir factos decisivos, mas podem
reunir-se alguns, que, assim aproximados, offerecerão
fundamento a suspeitas vehementes sobre
a epocha do nascimento da tradição, sobre
seus auctores, e sobre os fins com que foi inventada.
Note v.. que eu falo da tradição e não
do
juramento, que provavelmente, no estado em que
hoje o temos, é mais moderno. Quanto a esse invento
grosseiro, considerado em si, confesso que
me fallece o animo para o analysar.
Partamos de um facto. O primeiro testemunho
sobre a existencia da tradição relativa ao
milagre
de Ourique, preciso, incontroverso, é o de Vasco
Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais são
chronicas que
se perderam, vestigios
que
se apagaram,
obras que
ninguem conhece. Isto faz
lembrar
o gracioso livro das
Antiguidades de
Evora,
que muitos tem tomado por obra de um tolo, e
que na realidade são a satyra dos falsarios e crendeiros,
feita por um homem espirituoso e engraçado.
Tudo quanto se cita anterior a 1485 são
embustes e ridicularias, sem exceptuar as chronicas
do tempo de Affonso Henriques attribuidas
aos imaginarios chronistas João Camello e
Pedro Alfarde, onde se diz que
talvez se achasse
a tradição. A invenção dos
taes chronistas, frades
de Sancta Cruz, tinha já sido reduzida a pó pelo
cruzio D. Thomás da Incarnação, e por
frei Manuel
de Figueiredo, frade d'Alcobaça. A referencia
a semelhantes mentiras feita por Pereira e por
Cenaculo, que escreveram depois de ellas estarem
refutadas, prova a
sinceridade com
que foram
redigidos nesta parte os
Cuidados
Litterarios,
e tambem os
Novos Testemunhos.
Temos, pois, um homem celebre, um castelhano,
erudito, valido de D. João II, que, n'um discurso
recitado perante Innocencio VIII, menciona
pela primeira vez a apparição. Singular origem
de uma fabula, que, revelada por um estrangeiro,
vem á luz em terra estrangeira, regida por um
governo theocratico, que tem por fundamento
primitivo do seu dominio temporal um titulo
falso.
A memoria de D. João II é odiosa. Entre todos
os reis legitimos portugueses, é elle o unico ao
qual sem injustiça a historia póde attribuir a
qualificação de tyranno. Elle foi quem deu o
golpe
mortal nas velhas liberdades desta nossa terra.
No seu reinado tem de ir buscar o historiador a
causa fundamental da nossa decadencia, que começa
com o estabelecimento do absolutismo,
embora a podridão que corroe a arvore se esconda
por alguns annos no cerne. É tambem singular
por esta circumstancia a origem da tradição.
Nasce, dilata-se, cresce, firmando as raizes no
tumulo da liberdade.
Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado
do
principe perfeito um foragido
português,
seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da
Costa. Depois do assassinio judicial do duque de
Bragança, o cardeal aproveitou o ensejo para
malquistar o rei português com Sixto IV. Em consequencia
d'isso (ao menos assim se acreditava),
o papa enviou em 1483 um nuncio a Portugal, a
queixar-se dos abusos do poder temporal contra
as pretendidas immunidades da igreja, que o filho
de Affonso V respeitava tanto como os foros
politicos do reino. Foi o rei emprazado para apparecer
ante o papa, por si ou por procurador,
para dar explicações ácerca do seu
procedimento.
Nomearam-se embaixadores; mas antes de partirem,
Sixto IV relevou o rei da citação, diz-se