IV

SOLEMNIA VERBA


SEGUNDA CARTA

AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES

(Novembro, 1850)



Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais exacção, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas as principaes regras da critica, em relação ás fontes historicas. Dessas regras resulta o que a boa razão está por si indicando; que é necessario premunir-nos contra a credulidade, não só por honra da sciencia e pela consideração do proprio credito litterario, mas tambem, o que é mais grave, para não deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os outros se consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos testemunhos synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer sobrenaturaes e incriveis para a razão humana; quer elles nos sejam transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porém, se tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto é certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impõe as palavras de S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos a Deus.

Que podia eu fazer em relação ao supposto milagre de Ourique, escrevendo a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas, historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de provas daquella celebre tradição, só tinha servido de convencer-me das aberrações em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados, quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os caracteres desta a um preconceito. Não me era possivel omittir a batalha de Ourique. Que podia eu fazer, repito, ácerca do milagre da apparição? Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospôr as doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram de critica historica, calcar aos pés a maxima do mais illustre escriptor romano, ou então manifestar sem hesitação as proprias convicções, que julgava e julgo legitimas, isto é, proceder de um modo que v.. mesmo crê nobre e honroso
[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não sei se está em perfeita harmonia com a idéa geral que predomina nas considerações que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria commum, da manifestação das minhas doutrinas.

Disse, pois, o que suppús e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me dilatar, sem exaggeração, sem pretensões a ter feito um importante descobrimento historico; porque realmente o não era: disse-o singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito dizê-lo, nem v.. nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides concentravam todas as forças em Africa, para salvarem o imperio da ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem a heroica guarnição de uma praça como Aurelia ao seu triste destino. A narrativa anterior, o quadro da situação dos lamtunitas e das perturbações quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam o leitor para por si fazer conceito das dimensões da batalha de Ourique. Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar, talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum modo desculpar a significação exaggerada que depois se lhe attribuiu. Sobre a apparição disse apenas o restrictamente necessario para o leitor vulgar conhecer que eu não a admittia. Se tivesse o proposito deliberado de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo, crê v.. que eu não teria recursos para aproveitar o lado contradictorio e até ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se não possa encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da historia? Crê v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da invenção dessa maravilha, e avaliá-las severa ou, se quizerem, malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me dizer que foi necessaria demasiada prevenção contra mim, ou a favor da inviolabilidade da apparição, para se não ver que procurei, quanto me era possivel sem offender a verdade, não converter os factos que se prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas com que finalisa cada volume do meu livro são destinadas para os homens da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opiniões. Estas notas são, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores não se cansa com essas discussões tediosas. Foi, porém, ahi que eu alludi ao ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaça, o que fiz apenas pelo desejo de dar uma satisfação aos homens professionaes. Se eu fosse o impio, o atheu, e não sei que mais, que por ahi me chamam os padres ignorantes e mal procedidos, não tiraria vantagem dessa falsificação insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas do céu para fins terrenos? Não practicaria ao menos aquillo que a justissima indignação de qualquer homem religioso o levaria talvez a practicar? Se tal se houvesse de crer, não deveriam qualificar-me de impio, mas sim de insigne mentecapto.

Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as minhas opiniões, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de juramento conservado em Alcobaça, eu fiz uma citação contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano não nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaça?—«Quem desejar conhecer a impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc.»—Se o auctor concorda comigo em que elle é falso, onde está a improcedencia da citação? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma que acreditava na apparição, posto negasse a genuinidade do pergaminho de Alcobaça, e que eu não creio nem no documento, nem no facto. Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. Não era, porém, para a opinião manifestada pelo academico em relação ao successo, mas sim para as suas razões contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o que elle diz em favor do facto não é mais do que repetir o que outros disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente de Fóra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, dá como provavelmente tirada de outro original falso. O que se vê de tudo aquillo é que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaça, quiz ao menos salvar-se, protestando pela pureza da sua crença no milagre de Ourique. Talvez, se eu vivesse então, fizesse o mesmo, em attenção á circumstancia que nos recorda Gmeiner: «onde vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade».

Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho pelo meu paiz desta necessidade de disputar ácerca de um diploma falso, que se acha depositado nos archivos do estado, onde qualquer pessoa póde examiná-lo. Qualquer pessoa, sim; porque não é preciso ter a menor idéa de paleographia para o reconhecer por falso. Basta pôr-lhe ao lado dous ou tres diplomas genuinos do meiado do seculo XII, e comparar. Esses multiplicados recursos que possue a diplomatica para desmascarar falsarios são aqui perfeitamente inuteis. Estou certo de que v.. nunca o viu; porque tambem estou certo de que, se o houvera visto, eu acharia v.. a meu lado para dizer aos homens sem pudor que ainda ousam inculcar como legitima essa invenção torpe: «Sois uns miseraveis!»

Sinto sinceramente que v.. se dignasse de tomar para si, a favor da apparição, um argumento que devia pertencer precipuo aos apologistas dos clerigos ignorantes e devassos. Consiste elle em que, negando eu que a tradição de Ourique remonte aos tempos a que se refere, devo dizer quando, como, e para que a forjaram. Onde existe semelhante canon de critica historica? O que sei é que ella começou a apparecer no ultimo quartel do seculo XV, mais de trezentos annos depois da epocha em que se diz succedido o milagre; o que sei é que em nenhum escriptor, nem em nenhum documento legitimo, coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de semelhante tradição; o que sei é que os escriptores modernos que a publicaram não se referem a testemunho contemporaneo ou proximo; o que sei, portanto, é que as regras de critica adoptadas por homens não menos pios que sabios me obrigam a rejeitá-la. Diga-me v..: se um devedor seu pretendesse pagar-lhe certa quantia em moeda falsa, v.., depois de a examinar e convencer-se da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios por que pretende julgar-me, devia reconhecê-la por boa e acceitá-la, emquanto não podesse mostrar quando, como, por quem e para que fora forjada. Não vê v.. que uma tal regra de critica nos obrigaria a adoptar como verdadeiras até as lendas indicas de Vishnú e de Brahma?

Outro argumento me faz v.. que eu tambem desejara tivesse deixado aos ex-frades ignorantes e hypocritas: é o da impossibilidade de nossos avós terem adoptado uma tradição que não fosse verdadeira. Quer v.. que lhes concedamos a mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma honra, o mesmo amor da propria fama e dignidade que nós temos. Concedo por um momento. Mas o patriotismo de v.. não será tão inimigo da logica, nem tão cego, que recuse os mesmos dotes aos avós dos actuaes castelhanos, franceses, italianos e allemães. Por aquella doutrina, v.. deve acreditar todas as lendas desses paizes, ainda quando a critica historica as tenha feito abandonar aos castelhanos, franceses, italianos e allemães de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo, acreditar à fortiori a historia da papisa Joanna, embora já os proprios protestantes se riam dessa calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou por seculos. Mais ainda: v.. é assaz instruido para não ignorar qual foi a civilisação dos arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura, qual a nobreza do seu caracter. Apesar disso, elles nunca deixaram de crer na tradição dos milagres de Mafoma. Não é de esperar da justiça de v.. que recuse a esse povo tão culto os dotes intellectuaes e moraes que attribue a nossos avós. Adoptará v.. as lendas mussulmanas ácerca do propheta de Mekka? Principios que provam tanto, ou antes que provam tudo, permitta-me v.. desconfiar de que não provam nada. Deus nos livre de pensar que uma fabula que se generalisa, se converte por isso em verdade. Semelhantes doutrinas, deixe-as v.., christão, cavalheiro, e homem de letras, para essa parte da cleresia, que quer lucrar com as illusões populares. A nós, christãos, incumbe recordar-nos daquellas tremendas palavras do divino Mestre:

«Guardae-vos do fermento dos phariseus, que é a hypocrisia:»

«Porque nenhuma cousa ha occulta que não venha a descubrir-se; e nenhuma ha escondida que não venha a saber-se....»

«E todo o que proferir uma palavra contra o filho do Homem ser-lhe-ha dado perdão; mas áquelle que blasphemar contra o Espirito Sancto, não lhe será perdoado

V.. sabe, tão bem como eu, que, segundo Sancto Agostinho, uma das blasphemias contra o Espirito Sancto é o negar a verdade conhecida por tal.

E é isto o que responde a todas as considerações que v.. me faz sobre a conveniencia de não desilludir o povo ácerca das suas tradições mentirosas: são estas palavras do Salvador, que fulminam os phariseus modernos, como fulminaram os antigos, que me obrigam a falar verdade escrevendo a historia. Ainda que essas considerações fossem exactas, a patria verdadeira do christão é o céu, cujas portas ficarão cerradas, conforme a doutrina de Christo, aos que tiverem desmentido a verdade na terra. A patria deste mundo é nosso dever amá-la, sacrificar-lhe tudo, menos a honra, menos as esperanças de além do tumulo, menos a fé. É esta a mais sancta das tradições que herdámos de nossos paes. O crucifixo sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os que nos geraram, não o insultemos na vida, para podermos tambem despedir o ultimo alento, abraçados com elle, sem terror, sem remorsos, e para o legarmos immaculado a nossos filhos; para que elles, no momento de o transmittirem moribundos a nossos netos, não se lembrem horrorisados de que essa imagem do Redemptor já foi bafejada pelo extremo respirar de um blasphemo. Amemos e respeitemos a tradição divina, e tenhamos esforço bastante para repellir mentiras, sobretudo quando, segundo as palavras do apostolo, ellas envolvem um falso testemunho contra Deus.

Isto é para os christãos. Para os falsos politicos, que cuidam ser a religião apenas um instrumento que serve para conter os humildes e pobres, a que Christo chama os grandes do seu reino, e a que elles chamam massas brutas; para esses, que não crendo acaso em Deus, accusam os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores de nossa gloria; para esses liberaes e até democratas, que desprezam o povo ainda mais do que o desprezavam os poderosos de outros tempos; para os taes não applico eu só o dicto de Fleury, de que são ignorantissimos em materias de religião; digo tambem que o são em materias de politica. Para o povo ser livre, é necessario que seja religioso e honesto; não que seja credulo. Para que elle seja religioso e honesto é necessario que conheça as doutrinas do evangelho, que não são mais do que a confirmação divina da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpre inculcar-lhe os principios do christinanismo, e as consequencias daquelles principios: cumpre illustrá-lo, em vez de o conservar na ignorancia; fazer-lhe sentir que a força de practicar grandes e nobres sacrificios, tão recommendados por Jesus, é o caracter que distingue o espirito immortal do homem do instincto que anima as alimarias. É preciso convencê-lo de que o patriotismo, de que esse puro e sancto affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as affeições do coração, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a intemperie das estações, para irmos morrer n'um campo de batalha, salvando a terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de nossas irmãs e mulheres, é a manifestação mais solemne da energia do espirito humano, e da abnegação christan. E estas verdades eternas; estas verdades, que, gravadas nos corações do povo, tantas vezes têm salvado as pequenas nações dos intentos ambiciosos das grandes, d'onde se deduzem? É das invenções dos milagreiros e falsarios, ou das divinas paginas da biblia?

V.. deve conhecer, como homem de letras que é, a historia dos povos mussulmanos. Houve nunca no mundo crença que se estribasse tanto como o islamismo em falsos milagres, quasi sempre conducentes a inspirar o amor da guerra e o enthusiasmo das multidões credulas? E todavia, quaes foram os effeitos desse enthusiasmo, que não correspondia a doutrinas accordes com os instinctos naturaes da nossa alma, que não se fundava em convicções reflectidas, na certeza moral do dever, mas que se inspirava de promessas fingidas do céu? Os mussulmanos devastaram e submetteram a melhor porção da Asia e da Africa, e ainda uma pequena parte da Europa: formaram quinze ou vinte nações de falsos crentes, e estas nações cresceram e civilisaram-se combatendo sempre. E depois? Depois, quando foi preciso conservar o edificio; quando se tractou de defender a patria, em vez de a tirar aos outros; quando foi preciso repellir em vez de aggredir, mostrar essa perseverança, que nem se exalta com o triumpho, nem desanima com o revés; que padece, calada e soffrida; essa perseverança que é a mais poderosa arma dos povos ameaçados na sua existencia, tudo faltou. As nações mussulmanas desmembraram-se, fundiram-se, annullaram-se umas, desappareceram outras, e conservando todas as suas crenças, todos os seus milagres, ei-las ahi estão as que restam, ludibrio da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo ao crepusculo da passada gloria, lançando nos dias da afflicção e do perigo os olhos para o occidente, a vêr se os filhos da cruz estendem o braço para proteger o crescente. As tradições das victorias, as maravilhas celestes dos tempos heroicos de Islam lá estão gravadas na memoria de todos. Porque não salvam, não regeneram ellas essas sociedades atrophiadas e moribundas?

Ainda hoje ha homens das novas idéas, os quaes se dizem cheios de illustração e de philosophia, que, abandonando os milagres suppostos, não porque os tenham por infundados ou absurdos em si, mas porque suppõe que o fanatismo póde lucrar com elles, não querem que se toque nas tradições humanas que se ligam á gloria nacional. É verdade que não sabem bem que deva consistir a gloria de uma nação, porque nunca pensaram nisso. Para elles, que vivem no seculo XIX, onde quer que pereceram milhares de homens, combatendo por interesses que não comprehendiam, ou por torpe cubiça; onde quer que o ferro e o fogo arrasaram as cidades, despovoaram os campos, embora dessas cidades e campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos gigantes da assolação, dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans, avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens as façanhas dos proprios avós. Se a historia pergunta:—«Acaso esses combates, em que, sem duvida, se practicaram grandes feitos, foram uteis ao progresso moral e material do povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram a sua decadencia? Está ou não essa gloria militar, aliàs indisputavel, assombrada por grandes crimes? Foi a intenção, a qual só determina o valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela ambição, ou pelo capricho de algum principe?»—A historia que faz estas perguntas ou outras analogas, porque esse é o seu dever, commette aos olhos dos taes um crime de leso-patriotismo. O castelhano, por exemplo, que disser:—«As barbaridades e crimes commettidos por Cortez, Pizarro, ou Almagro, na conquista da America, deshonram as emprezas arriscadas e longinquas dos filhos da Peninsula, embora o descubrimento do Novo Mundo demonstre a sua pericia, o seu ardimento de navegadores e de soldados. Os effeitos dessa conquista foram o corromperem-se os costumes, morrerem as industrias nascentes, despovoarem-se os campos da Hespanha, seccarem-se, em summa, todas as fontes da sua prosperidade solida e legitima: foram amontoarem-se nas mãos do fisco e dos poderosos o ouro e a prata, que, obtidos sem custo pelos crimes, se desbarataram sem pudor pelos vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades, e com ellas o sentimento da dignidade humana, cujo ultimo brado soou nas rebelliões contra a tyrannia de Carlos V:»—o hespanhol que disser isto é um mau cidadão aos olhos dos mansos guerreadores destes nossos tempos. E porque? Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se, elevar-se pelas tradições da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas vezes tracta de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde o berço de farrapos até a enxerga rota em que fenece, vai travada de receios, de sobresaltos, de desalentos, e de agonias, pensa lá nas cutiladas que se deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou quatro seculos, por mãos d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque não sabe ler, nem tem dinheiro para pão, quanto mais para livros? Que são essas palavras retumbantes de regeneração pelas tradições, senão sons ôcos, que não correspondem a nenhuma idéa? Supponhamos, porém, que todas essas recordações chegavam ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de licção para as suas necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza passageira destruiu os habitos do trabalho e da economia, entorpeceu pela miseria, resultado infallivel da prosperidade ficticia, a energia do coração, que faz luctar o homem com a adversidade e vencê-la, de que serve estar de contínuo a prégar ao povo:—«Teus avós levaram o terror do seu nome aos confins do mundo, saquearam e queimaram emporios opulentos em plagas remotas, metteram a pique poderosas armadas, derribaram os templos alheios, violaram as mulheres extranhas, passaram á espada os que eram menos valorosos que elles, abriram caminho ao engrandecimento dos outros povos da Europa, e affeitos a gosos faceis, deposeram aos pés do absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os grilhões que lhes deitavam aos pulsos por que eram dourados, e tornaram-se ludibrio do mundo.»—Estas licções é que hão-de ensinar a actividade no trabalho, a severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas verdadeira, o desejo de cultivar as artes da paz, no meio de um paiz decadente, cuja unica esperança de salvação está em se desenvolverem nelle essas e outras tendencias analogas? Não! O povo, que tem mais logica do que os prégadores de vãos apophtegmas, ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de concluir que é assaz fidalgo para não contrahir habitos villãos e ruins. De historias d'aggressões e de conquistas brilhantes não se deduz a necessidade de morrer obscuramente em defesa da terra da patria; não se deduz a moderação revestida de firmeza, que faz respeitar pelas grandes as nações pequenas; não se deduzem nem o amor do trabalho, nem o amor da virtude. Em vez de contarem ao povo as façanhas da Africa e do Oriente, contem-lhe qual era o commercio de Lisboa, e o movimento agricola do paiz no no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia desses e de outros factos analogos lhe é mais proveitosa, material e moralmente, de que recordar-lhe a gloria de batalhas e de conquistas.

Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras lendas humanas nunca salvaram um paiz, quando a podridão penetrou no amago da arvore social. Onde e quando o homem renega da sua origem divina, vende a liberdade a troco de delicias, esquece que o elevar-se acima de viciosas paixões traz um goso interior que vale bem todos os que dão os sentidos, não é lisonjeando-lhe vaidades, que, nem sequer respeitam a magestade de Deus, que o havemos de revocar ao sentimento da dignidade e do dever. V.. sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio romano, e nomeadamente a historia do baixo-imperio. Não leio essas paginas melancholicas, sem que involuntariamente volva os olhos para o estado actual de algumas nações modernas: as analogias que encontramos entre estas e aquella são symptomas dolorosos; mas não vem para aqui. Eu peço a v.. que reflicta sobre essa historia em relação á efficacia das tradições. Ella completa o quadro que nos offerecem as nações mussulmanas. Não foi no tempo da republica, foi sob o ferreo dominio dos cesares, que os poetas cantaram os mythos da gente romana, que os historiadores celebraram as suas glorias, e deram a importancia da verdade a centenares de lendas tradicionaes e fabulosas, que a sciencia moderna, as investigações do grande Niebuhr, reduziram já ao seu justo valor. De que serviram, porém, essas glorias, esses milagres do polytheismo, contados gravemente a um povo servo e gasto, que apodrecia aos pés dos tyrannos? Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos espraiavam-se em exaggerações sobre as grandezas passadas, emquanto os cidadãos recusavam combater por uma patria que se tornara em nome vão, e preferiam o jugo dos barbaros a uma nacionalidade mentida. Os hymnos, as gloriosas recordações romanas serviram só para acompanhar ao cemiterio da historia o ataúde de Roma.

Consinta v.. que a estas rapidas considerações eu ajuncte ainda um exemplo domestico, sobre o qual peço a v.. que medite. Na lucta violenta e tenaz que Portugal sustentou nos fins do seculo XIV para repellir o dominio estrangeiro, ninguem se lembrou de fortalecer os animos invocando o milagre de Ourique; ao menos não espero que v.. me aponte o menor vestigio historico que me desminta. A razão para desaproveitar tal auxilio foi demasiado forte; foi a razão do cordeiro da fabula—o milagre ainda não era nascido. E todavia o triumpho coroou os heroicos esforços de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente ser livre.

Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava, absoluto e não contradicto, no commum dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de modo innegavel. E todavia, quasi sem combate, as espadas castelhanas acabaram com a independencia de Portugal n'um dia.

Entre os dous factos está, além do milagre, a grande gloria das conquistas, gloria que não era uma tradição remota, quasi oblitterada na memoria do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a bem dizer actual. Alguns dos que mais tinham contribuido para ella ainda viviam.

Estes dous phenomenos, que determinam duas epochas principaes da nossa historia, assim aproximados, são a negação mais solemne da utilidade dos embustes religiosos, ou para melhor dizer, anti-religiosos, e do orgulho selvagem de ter annaes escriptos com o sangue humano vertido em guerras não provocadas, em guerras de aggressão, e sobretudo de cubiça.

Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso singular, um general ou um homem d'estado tirasse vantagem dessa deploravel força moral que se estriba nas superstições, ou nas idéas de uma gloria feroz. A questão é, se hoje o povo português tem alguma vantagem que tirar dessas tradições, na situação em que a Providencia o collocou. Sejamos sinceros. Póde elle sonhar em ser conquistador, ou sequer em constituir uma potencia maritima ou continental que pése com demasiada força na balança dos acontecimentos politicos? Parece-me que nenhum sisudo o dirá. Somos pequenos; mas nem isso é vergonha, nem impedirá que as grandes nações nos respeitem, se formos respeitaveis. Para obtermos consideração basta que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem á Europa que sabemos, queremos, e podemos regenerar-nos pela sciencia, pelo trabalho e pela morigeração.

Morigeração, trabalho, sciencia, eis as armas com que a philosophia politica deste seculo ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma lucta generosa. Os espiritos mais altos, seja qual fôr a sua crença religiosa e politica, proclamam a paz e a fraternidade entre os homens. E não só as proclamam, mas até empregam a poderosa alavanca da associação para promoverem, digamos assim, uma cruzada sancta contra as tendencias guerreiras. Os esforços collectivos desses homens summos serão baldados? Não o cremos. Elles tem um alliado irresistivel. Quando os exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tiverem devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e mais pura seiva da sua vida economica, é então que a philosophia politica hade alcançar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa será senão o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de dezenove seculos, de uma demonstração practica e invencivel, de que a lei moralmente necessaria das sociedades modernas é o christianismo, é o verbo de amor e da paz revelado no Evangelho?

Nesses dias, que porventura tardam menos do que muitos pensam, que destino darão os sacerdotes da bombarda, da lança e da espada aos seus deuses fulminados? As palavras «façanhas, gloria guerreira, conquistas,» como serão definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou dous seculos? Como julgará a historia os milagres inventados para sanctificar o derramamento de sangue humano?

Desculpe v.. esta digressão, que não creio nem inutil nem extranha ao assumpto. De novo entrarei directamente nelle, para proseguir nas explicações que devo aos meus adversarios sinceros, honestos e instruidos, e não á ignorancia malevola e presumida de hypocritas insignificantes.

Começarei por dar a v.. a razão moral, a razão suprema, porque rejeito não só o milagre de Ourique, mas tambem os outros milagres, como o de Alcacer, a que ou a má fé, ou a piedade pouco illustrada quizeram attribuir a sorte das batalhas, sorte dependente dos occultos designios da Providencia e de mil accidentes, previstos ou fortuitos, explicaveis ou inexplicaveis para a historia. Não creio que essas guerras contra os infiéis fossem cousa excessivamente christan, e por isso o meu espirito recusa-se a acceitar como factos verdadeiros os testemunhos de approvação divina a um procedimento anti-evangelico. Na idade média passava como cousa corrente, que o guerrear os infiéis e fazer-lhes acceitar á força o jugo, aliàs tão suave e tão livre, do christianismo, era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se desta doutrina, ou, para sermos justos, acreditavam-na, em geral, sinceramente: acreditavam-na, até, a maior parte dos homens intelligentes e pios. Entre estes se distingue o proprio S. Bernardo, que o excessivo zelo da gloria do christianismo incitou a promover a segunda cruzada, cujo infeliz resultado lhe acarretou tantas accusações amargas, tantos desgostos pungentes. A favor das guerras contra os mussulmanos durante a idade média, principalmente a favor da que se fazia na Peninsula, podem militar boas razões de politica, e até de direito, porque essa guerra não era mais do que a reacção contra uma conquista. Razão religiosa é que eu não vejo nenhuma que a favoreça. Repugna-me á consciencia que o Christo, o Deus de paz e misericordia, viesse pessoalmente ou enviasse os seus anjos a incitar christãos a derramarem o sangue humano, a levarem a assolação e a morte ao meio daquelles que não o adoravam. Será este um modo errado de vêr? A S. Thomás de Aquino, que ainda alcançou os tempos das cruzadas, não fizeram força alguma as opiniões que haviam dado origem áquellas expedições longinquas, para deixar de estabelecer que a diversidade de crença não é motivo bastante para um povo atacar outro. Reprovando a guerra de religião, não era possivel cresse que Deus approvava essas luctas crueis com manifestações sensiveis. Vê-se, portanto, que os milagres militares, que então se contavam a tal respeito, pouco credito mereciam a um dos homens mais pios do seculo XIII, e sem contradicção ao mais profundo philosopho do seu tempo. Ouçamos, porém, o grande historiador da igreja, falando dessas guerras contra os mussulmanos.

«Os christãos—diz Fleury—devem applicar-se, não a destruir mas sim a converter os infiéis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer ao mundo a guerra, da sequencia do seu discurso, e do procedimento dos seus discipulos se manifesta claramente que só se referia ás turbações que havia de excitar a sua doutrina celestial, turbações em que a violencia havia de vir toda dos inimigos, a quem os christãos opporiam a resistencia que as ovelhas oppõem aos lobos. A verdadeira religião deve conservar-se e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu, pela prédica discreta, pelas obras virtuosas, e mais que tudo por illimitada paciencia. Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres, mais prompto será o effeito. Quando Machiavello dizia que os prophetas desarmados nunca saíram com seus intentos, mostrava-se a um tempo ignorante e impio; porque Jesu-Christo, o mais desarmado de todos, foi o que fez conquistas mais rapidas e firmes; conquistas como elle as queria, ganhando as almas, mudando de todo os homens, e tornando-os de maus em bons, o que nenhum conquistador jámais fez....»

«Repito pois, que não se deve tractar de diminuir as falsas religiões, ou dilatar a verdadeira pelas armas e pela violencia: não são os infiéis que se devem destruir, mas sim a infidelidade, conservando os homens, e illustrando-os ácerca dos seus erros. Em summa, para isso não ha senão um meio, persuadir e converter....»

Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres d'Alcacer e de Ourique, milagres em que se faz intervir o céu para o derramamento do sangue humano; milagres, que nem tem o merito de originalidade, porque não havia por essa épocha paiz da Europa, onde tambem a credulidade de muitos, e a má fé de alguns não tivessem associado largamente o céu ás luctas sanguinolentas daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres, emfim, que, por sua natureza, são, religiosa e moralmente, absurdos.

De passagem lembrarei a v.. que não é bem fundada a accusação que me dirige, de que não appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente de Lerins, quando foi exactamente o contrario que fiz. Dos tres testemunhos presenciaes que temos ácerca daquelle celebre recontro, só em dous se allude aos signaes miraculosos que se viram no céu. O auctor da Historia Damiatana, que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia milagrosa. Não acha v.. significativo este silencio? Em todo o caso falta o ab omnibus de Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a doutrina de Mabillon, citada por mim na carta antecedente, de que é temerario, não só o acreditarmos em milagres falsos, mas até nos simplesmente duvidosos. Quando o sentimento religioso, o respeito das doutrinas evangelicas não obstasse á crença nesse favor do céu, obstar-lhe-hia a severa doutrina do grande benedictino.

Se não fosse o desejo de dar satisfação plena aos homens escrupulosos, mas capazes de se convencerem da verdade, como v.. talvez concluisse aqui esta carta, porque as grosserias parvoas da ignorancia e os rugidos do interesse ferido, que vê fugir atraz da apparição de Ourique todos os milagres rendosos, só se punem com a immortalidade do ridiculo.

Não concluirei, porém, sem dizer alguma cousa em especial sobre a tradição do apparecimento de Christo a Affonso I, considerada na sua origem, e no modo como foi propagada e defendida. Os principios mais solidos da critica, o silencio absoluto, não só dos contemporaneos, mas tambem de dez gerações successivas, bastaria para condemnar a tradição aos olhos dos desapaixonados, quando ella não fosse absurda em si, porque é absurdo pôr Deus em contradicção com a indole do christianismo. Ha, porém, na historia da invenção, propagação, e aperfeiçoamento dessa lenda tanta hesitação, tantas contradições, tanta imprudencia, tanta falsificação, tantos desejos de se illudir ou de illudir os outros, em homens que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas, que o colligir as provas disso é offerecer uma licção salutar do perigo que ha em abusar do sentimento religioso do povo para fins mundanos, e da miseria a que podem chegar ainda os altos engenhos, quando se esquecem das doutrinas evangelicas, e de que as duas cousas que o Salvador mais solemnemente amaldicçoou neste mundo foram a mentira e a hypocrisia.

O silencio de mais de tres seculos sobre um facto estrondoso, que deveria andar na memoria de todos, como o milagre de Ourique, não é só negativo, por assim nos exprimirmos; é tambem positivo. Conjuncturas houve, antes dos fins do seculo XV, em que elle se teria publicamente invocado, se não fosse uma fabula ainda não inventada. Citarei duas. Seria inexplicavel, se admittissemos a existencia da tradição cem annos antes de 1485, que nem um só dos prégadores, letrados, e capitães de D. João I, os quaes mais de uma vez, nas suas allocuções ao povo e aos soldados, reccorreram ás cousas religiosas para accender os animos contra os castelhanos, e para crear a confiança de victoria final na lucta brilhante da independencia; que nem um só desses prégadores, letrados e capitães, os quaes não cessavam de accusar os inimigos de scismaticos, pretendendo ligar á sua causa a causa de Deus, se lembrasse jámais de citar as promessas feitas por Christo a Affonso I, o que era decisivo. Antes disso, tambem, nos principios do seculo XIV, tractando-se com grande empenho da separação da ordem de Sanctiago em Portugal do grão-mestrado de Castella, o mestre e os freires portugueses dirigiram ao papa um longo arrazoado em que argumentavam, que, sendo os bens que a ordem possuia em Portugal, reino separado e independente de Castella, dados pelos reis deste paiz, não era justo que o grão-mestre castelhano os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para firmar na origem do reino a independencia daquella parte dos cavalleiros que nelle residiam, o mestre Pedro Escacho e os seus commendadores allegavam ao papa um facto novo, mas do qual era quasi impossivel que separassem a historia da apparição, se della houvesse vestigios. O facto novo era a acclamação de Affonso I em Ourique.

«Outr'ora—diziam em Roma os procuradores dos spatharios—o rei de Portugal, D. Affonso I de clara memoria, o qual, esmagando com mão poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo de Ourique, foi elevado a rei pelos seus nobres e pelos outros concelhos, combateu os dictos sarracenos inimigos da religião orthodoxa com todas as forças, para exaltação da fé catholica e defensão do proprio reino. O mesmo rei, debellando e expugnando os infiéis, acommetteu-os e tirou-lhes castellos, fortalezas e muitas terras. Acceso em zelo da fé, e attendendo ao esforço do mestre e freires de Sanctiago que então viviam, concedeu-lhes, etc.»

Não fazendo caso da ignorancia dos procuradores de Pedro Escacho[28] ácerca do estado da sociedade portuguesa no meiado do seculo XII, quando mencionam os villãos dos concelhos como intervindo n'uma eleição de rei, não faz peso a v.. que não se lembrem do milagre da apparição? Se existisse a tradição, poderiam elles ignorá-la, e não a ignorando ommitti-la, quando tanto convinha invocá-la? Não era evidente que o titulo e a independencia do rei obtinham incomparavelmente mais importancia e firmeza dos mandados positivos de Christo, do que das acclamações da soldadesca? Deixo á imparcialidade de v.. o resolver estas questões.

Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas as memorias e documentos anteriores a 1485 ácerca da apparição não é só negativo; que é tambem positivo. Mas existe realmente este silencio?—perguntar-me-ha v.. Conforme a sua opinião, estribada na de Cenaculo e Pereira, elle não existe. No folheto recentemente publicado, que v.. intitulou Nova Insistencia, com lealdade de cavalheiro e de homem de letras v.. abandonou o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que tambem o antigo documento da Symmicta ao destino que elles mereciam; mas insiste nos outros documentos que se citam. Examinarei se v.. tem razão na insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar aqui v.. das injurias que a bruta ignorancia de um pobre tonto vomitou indirectamente contra v.. por não distinguir o texto attribuido no breviario a S. Bernardo; cabe-me, digo, consolá-lo com o meu exemplo, e com o de um sacerdote instruido, que, enganado com v.. por aquella insigne falsificação, expondo-lhe eu as minhas opiniões ácerca do milagre de Ourique, me contrapunha o testemunho do grande abbade de Claraval, inserto no breviario. Como, porém, para escrever a historia do nosso paiz é necessario caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja, lá com todas as prevenções contra os salteadores, cá attentos sempre a que não nos illuda a cada momento um fabricante de mentiras ou um falsificador de documentos e textos, amestrado pela experiencia repliquei que duvidava da passagem do breviario, e que duvidava sobretudo pelo adjectivo lusitanum, que nella se lê, e que eu tinha a certeza de não se encontrar em monumento nenhum do seculo XII para significar português, cousa portuguesa. Na duvida, passámos a examinar o texto do sancto, e a falsificação appareceu-nos logo mais clara que o dia. Assim v.. teve companheiros na illusão; nem creia que tem tido só dous: ha-de ter tido milhares delles. Ria-se destes eruditos que adivinham tudo quanto se lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra, que logo distinguem pelo estylo quatro ou cinco linhas interpoladas nas obras de qualquer escriptor.

Mas, voltando ás cousas sérias, v.., repito, insiste nas outras provas, desprezadas as evidentemente falsas. E quaes são as que ficam? Creio que v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon, e de toda a gente que não esteja em guerra declarada com o senso-commum, de que não provém maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que o outro tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu. Assim, tendo nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do seculo XVI annullam-se completamente. Ha, porém, outras anteriores, dirá talvez v.. É verdade que Cenaculo as propõe. Mas quaes são ellas? Examinemos.

1.º Um indice, escripto em Roma, de documentos relativos a Portugal em que se memora o facto da apparição.

Como Cenaculo nos não diz a data do indice, estamos desobrigados de discutir o documento a que se refere: provavelmente havia de ser pelo gosto do da Symmicta.

2.º A doação ao mosteiro de Claraval, feita por Affonso Henriques.

Tem o pequeno inconveniente de ser falsa. João Pedro Ribeiro reduziu-a a lastimoso estado na segunda das suas Dissertações Chronologicas. Estou certo de que o bispo de Béja, se resuscitasse, não havia de ter vontade de tornar a falar nella.

3.º Nos Commentarios de Affonso sabio, traduzidos em português no tempo de Affonso IV, termina o capitulo 416 por uma passagem, em que Cenaculo quiz ver a memoria do milagre, embora nella não haja uma palavra a semelhante respeito.

Este testemunho, ainda suppondo que a passagem diga o que não diz, tem tambem outro pequeno inconveniente. É que Affonso sabio não escreveu Commentarios nenhuns. Veja v.. se os encontra mencionados no extenso e minucioso artigo ácerca de Affonso X, na Bibliotheca Hespanhola de Rodrigues de Castro, ou se acha em parte alguma vestigios de taes Commentarios.

4.º Uma passagem de uma chronica inedita dos reis de Portugal, que, pela fórma da letra e pela linguagem, se conhece ser do tempo de Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta de um codice da camara d'Evora.

Pedirei pela primeira vez um favor a v.. É que não acredite demasiado na pericia paleographica de Cenaculo. A diplomatica ainda não acho meios sufficientes para distinguir com certeza pela fórma dos caracteres, nos codices portugueses, os que são do seculo XIV ou do XV. Tanto em letra assentada como em cursivo, não ha nelles senão a alleman pura, ou a francesa com maior ou menor resabio de monachal ou alleman. Isto é commum a ambos os seculos. A mesma romana pura ou restaurada, que começa a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio da monachal. Pelo que respeita á outra adivinhação de Cenaculo relativamente á linguagem, v.. como homem de letras, está por certo habilitado para avaliar a força deste meio de apreciação. Se o bispo de Béja vivesse, eu compromettia-me a apresentar-lhe passagens extensas, escriptas em vulgar no meio do seculo XIV e outras escriptas já na segunda metade do XV, e se elle fosse capaz de dizer quaes eram as antigas e quaes as modernas, dava-lhe a minha palavra de honra de ficar crendo no milagre de Ourique. Esta experiencia que eu offereceria ao erudito bispo, estou prompto a offerecê-la a quem quer que pretender tentá-la.

Agora accrescentarei mais alguma cousa. No archivo da camara d'Evora, que examinei por meus proprios olhos, posso certificar a v.. que nada ha anterior a D. João I; nem diplomas, nem codices. Que é feito da tal chronica que o bispo de Béja diz existir no archivo da camara d'Evora? O que havia de estimação naquelle archivo foi distrahido pelo antiquario Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de Cenaculo. Isto é sabido pelas pessoas eruditas d'aquella cidade. V.. deduzirá d'aqui as conclusões legitimas.

A erudição immensa de Cenaculo tem um defeito que nelle provinha do excesso de uma util faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa. Era essa faculdade a da memoria comprehensiva e tenaz. Lia muito e fiava-se na força da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos seus escriptos que grande numero das citações que fazia e das auctoridades em que se estribava não as verificava, e que a memoria o trahia ás vezes, quando menos em particularidades e accidentes que modificavam a significação dos textos, servindo mal os intuitos do bom do prelado e tornando suspeita a sua candura.

Os Commentarios, por exemplo, de Affonso sabio, traduzidos em português, podiam ser, não uma invenção, mas sim uma reminiscencia, ou uma nota tomada á pressa por Cenaculo, e talvez a chronica inedita dos reis de Portugal, que pela fórma da letra e pela linguagem se conhecia ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa analoga aos taes Commentarios, isto é, apenas uma confusão de idéas, ou, quando muito, uma inexacção de apontamentos.

Existe uma compilação historica em vulgar, ou colligida ou accrescentada nos meiados do seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal abrange a regencia e morte do infante D. Pedro (cap. 438) e nada contém posterior a este facto, continuando nos capitulos seguintes a historia dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se tres exemplares desta compilação, que constitue, ao menos intencionalmente, uma historia geral das Hespanhas desde os tempos mais remotos até os seculos XIV e XV. Em París e em Madrid conservam-se os dous exemplares mais antigos. O de París trasladou-o o dr. Nunes de Carvalho com o intuito de imprimir aquelle curioso inedito. Dadiva do meu tão erudito como modesto amigo José Gomes Monteiro, possuo eu o terceiro exemplar, que parece ter pertencido a Manuel Severim de Faria. O codice de Madrid é talvez o mesmo que menciona pouco explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A Cronica General attribuida a Affonso sabio subministrou ao compilador a historia fabulosa e a historia antiga da Peninsula atè a epocha leonosa. A corographia d'Hespanha, bem como a narração da entrada e conquista desta pelos mussulmanos e dos primeiros tempos do seu predominio são extrahidas da historia arabe de Arrazi, conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e á iniciativa daquelle principe uma traducção do livro do historiador musulmano, e effectivamente esta parte da compilação é uma daquellas que parecem mais antigas pela rudeza da linguagem. A chronica do Cid, publicada modernamente pelo P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por Masdeu, era conhecida já do compilador, que largamente a aproveitou na composição do seu livro.

No exemplar de París, conforme o que se vê da copia de Nunes de Carvalho, faltam os capitulos 411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no exemplar de Madrid. Encontram-se, porém, no que pertenceu a Severim de Faria; e é justamente nestes capitulos, desde o 412 até o 438 que está inserida a chronica dos reis de Portugal, começando na vinda do conde D. Henrique e finalisando nos primeiros annos do governo de Affonso V. É uma narrativa assás resumida, distinguindo-se apenas a parte relativa aos reinados de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos verdadeiros ou fabulosos são mais particularisados.

Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto, com o n.º 79, um antigo codice transferido para alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de Coimbra. Contém varias memorias historicas e outros papeis avulsos escriptos por diversas mãos, tudo colligido, segundo parece, nos fins do seculo XV. Acaba o codice por dous chronicons em vulgar[29]. Um tem por titulo «Como e donde descenderom os reis de Portugal»: o outro «Aqui se compeça a istoria dos reys de Portugal»: Ambos se referem em breves palavras ao conde Henrique, dilatando-se com os successos e lendas da vida de Affonso Henriques, successos e lendas aproveitados pelo chronista Galvão. Ao passo, porém, que o primeiro chronicon não ultrapassa a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque em breve resumo, as vidas dos seus successores até D. Dinis. Em relação aos tempos de Affonso Henriques são em parte identicos, não só no contexto, mas até nas phrases. Ha todavia entre elles uma differença digna de reparo: é a de que no primeiro se repetem mais de uma vez as palavras conta a historia, que não apparecem no segundo, ao passo que n'aquelle se referem tradições relativas a Affonso I ommittidas neste, donde se conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho historico mais antigo, de que talvez o segundo seja apenas um extracto, embora accrescentado com leves traços dos subsequentes reinados.

No exemplar da compilação que pertenceu a Severim de Faria a narrativa dos successos de Portugal durante a vida de Affonso I póde dizer-se que é um complexo dos dous chronicons de Sancta Cruz, ás vezes perfeitamente semelhante, outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se os chronicons na compilação ou tiraram-se della? Por outra: qual dos tres monumentos é mais antigo? É o que não importa nem eu me atrevo a resolver.

O que importa é o que se lê nestes monumentos, os mais remotos que nos restam escriptos em vulgar, ácerca da batalha de Ourique. Vejamos se lá se encontram vestigios do celebre milagre.

O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos que Affonso Henriques, acclamado rei pelo exercito antes do combate, depois deste, por memoria daquelle boo aquecimento que lhe deus dera pôs no seu pendam cinquo escudos por aquelles cinquo reis e pose-os em cruz por renembrança da cruz de nosso senhor ieshu christo, e pôs em cada huum XXX dinheiros por memoria daquelles XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu christo.

No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada da lucta de Affonso Henriques com sua mãe e com o conde de Trava (a que faz seguir immediatamente o recontro de Valdevez) e a lenda do cardeal legado e do bispo negro medeia a noticia da batalha de Ourique por estas simples palavras: E depois ouve batalha em nos quanpos dourique e venceo a. Indicio notavel de que ainda no seculo XV havia quem desse áquelle acontecimento uma importancia secundaria.

Na compilação a passagem relativa á jornada de Ourique é a seguinte: «Ajuntou suas gentes e foyse sobre os mouros e correolhes a terra dês coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e correo toda a terra ataa o campo de Ourique, onde achou elRey ismar, que a essa sazon era Rey da estremadura, com sinco Reys que o vinham buscar sabendo o grande dapno que lhes fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha no lugar que se chama crasto verde, e vencêos e prendêos e matou a mayor parte de todas suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha os seus o alçaram por Rey, e dês enton se chamou Rey de portugal: e depois que os Reis forom vencidos, elRey dom Affom de portogal, por memoria daquelle boo acontecimento que lhe deus dera trouve por armas sinco escudos por aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrança da cruz de nosso senhor jesu cristo, e poz em cada huum escudo trinta dinheiros por os trinta dinheiros por que judas o vendêo, e dêsi tornouse para sua terra muy honradamente».

Onde estará o milagre em qualquer destas tres passagens não posteriores aos meados do seculo XV e que por ventura são mais antigas?

É muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa e variadissima leitura, tivesse visto alguma copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente a compilação no exemplar de Severim de Faria, que viveu no Alemtejo, onde tambem Cenaculo residiu longamente, e onde o manuscripto podia conservar-se ainda no tempo do bispo de Beja. Uma circumstancia digna de notar-se torna mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim do capitulo 416 dos suppostos Commentarios, e na compilação os ultimos periodos do capitulo 415 são os que se referem á batalha de Ourique e aos seus resultados. O logar do capitulo citado é o mesmo: a differença está na numeração deste, e essa differença é apenas de uma unidade. Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz derivar o imaginario escudo de Affonso Henriques, nada mais facil do que Cenaculo, citando de memoria, dar á compilação, tirada em grande parte da Cronica general, o titulo de Commentarios d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo tempo a lenda do escudo d'armas com a lenda da apparição, acerca da qual não ha ahi uma palavra. Tudo isto não passa de conjecturas, mas de conjecturas que põem em salvo a probidade litteraria de um dos nossos mais illustres prelados de uma epocha ainda pouco remota, em que os bispos portugueses eram bispos, e não vigarios do papa[30].

Em Cenaculo a defensão do milagre de Ourique era empenho cego. Não sei, nem me importam os motivos. Importa-me o facto, que annullaria melhores testemunhos do que esses que cita, quando elle fosse o seu unico abonador. Quer v.. uma prova decisiva da cegueira do douto prelado? Eu lh'a dou, e irrefragavel: é o seguinte periodo:

«O advertido padre Pereira faz ver que desde o seculo XV se acham escriptores mui auctorisados, que referem o acontecimento como de cousa então vulgar entre as pessoas que haviam tractado os immediatos contemporaneos do successo, em maneira que a tradição é coetanea.»

Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer que em 1485 (epocha do primeiro testemunho preciso sobre a apparição, o de Vasco Fernandes de Lucena), havia gente que tinha conhecido individuos do tempo da batalha de Ourique, ou por outra, que no seculo XV havia pessoas com trezentos annos de idade.

Quem diz isto póde dizer livremente o que lhe aprouver. Quando um espirito não-vulgar chega a este estado, que nos resta senão confessarmos o nosso nada diante da summa intelligencia de Deus?

Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto me foi possivel, a falar de leve na apparição; eis porque tenho até hoje reluctado em descer á discussão especial dessa mentira ridicula, com que os prégadores vão ludibriar o povo na cadeira do evangelho. Estas miserias e vergonhas, e as que successivamente apontarei, sobre quem recaem? Sobre homens que aliàs têm direito á reputação que adquiriram na historia litteraria do paiz e nos annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso talvez de amor proprio[31], talvez uma piedade ou um patriotismo irreflectido, fizeram com que, em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova de que tal ou tal cousa era verdade, caminho deploravel em cujo termo é certo o precipicio.

Fóra dos testemunhos cujo nenhum fundamento acabo de mostrar, Cenaculo reduziu-se a adoptar as pretendidas provas do padre Pereira, sem exceptuar o juramento de Alcobaça. E note v.. que elle o conhecia tão pouco ou era tão fraco diplomatico, que não hesitou em escrever estas palavras memoraveis:—«Duvidar da apparição emquanto o desconhecimento dos testemunhos a faz presumir de piedade popular e crença apaixonada, pode ser critica; mas a interpretação livre e esquerda da palavra real e fundada (o juramento de Alcobaça) merece ser sempre vista com desapprovação e desagrado».—Isto quer dizer que, se não houvesse o instrumento da apparição, podiamos com boa critica deixar de crer no milagre. Assim, se o bispo de Béja vivesse hoje, á vista da declaração official da falsidade do documento, que o meu amigo Rebello da Silva arrancou ao juiz mais competente na materia, o lente de diplomatica e guarda-mór interino do Archivo Nacional, elle teria de passar com armas e bagagens para o campo dos impios, se quizesse (havia de querer) intitular-se bom critico.

Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria hoje a opinião de Cenaculo, vamos aos Novos Testemunhos do padre Pereira. Disse eu que este escripto traria deshonra ao auctor da Tentativa Theologica, e da Vida de Gregorio VII, se não fosse uma ironia. Confesso a v.., que antes quero salvar, por esta hypothese, a reputação de um nome illustre na nossa litteratura, do que acceitar a anecdota, a que alguns attribuem a concepção dos Novos Testemunhos, anecdota que mais de uma vez tenho ouvido referir. Conta-se, que, sendo o padre Pereira pouco aferrado ao dinheiro (é defeito de classe: não creia v.. que usurario nenhum fosse nunca homem de letras) veio a achar-se um dia com a bolsa completamente vazia. Advertido da apertura da situação pelo creado, pegou n'algumas folhas de papel, escreveu os Novos Testemunhos, mandou-os ao seu editor, e recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos por dous ou tres dias. Eu prefiro a ironia á anecdota, que não sei se é verdadeira. Mas ou a musa do opusculo fosse a precisão de dinheiro, ou fosse a vontade de gracejar, o que tenho por certo é que, a não ser assim, a obra fora indigna de um homem, que pulverisou as pretensões illegitimas e insolentes da curia romana, e que fez tremer boa meia duzia de hypocritas e pedantes do seu tempo. As provas de que os Novos Testemunhos precisam da minha explicação, ou d'outra qualquer, vou dá-las a v.., começando por transcrever uma passagem da introducção do opusculo. Depois de apresentar como demonstração de não ser forjado o juramento d'Alcobaça o haver, antes de Brito o publicar, testemunhos da tradição de Ourique (argumento na verdade singular!) o padre Pereira prosegue:

«Mas quanto a verificar o caso da apparição, tem a dita demonstração o defeito de que nenhum dos testemunhos em que ella se funda remonta a maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel. E assim poderão os emulos das nossas glorias repôr que uns testemunhos do principio do XVI não são sufficientes para extorquir delles o assenso a um facto, que se suppõe acontecido no meio do seculo XII

Depois d'isto, que digam todas as pessoas que lerem esta carta, não sendo algum clerigo mau e ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte quaesquer prevenções, o que se deve esperar no opusculo? O auctor confessa que a favor da apparição não bastam os testemunhos posteriores ao anno de 1495, insufficientes para provas de um facto succedido em 1139, logo elle vai offerecer-nos documentos, trezentos, ou, pelo menos, duzentos annos anteriores. Eu digo o que nos offerece Pereira em logar dos testemunhos insufficientes.

1.º A narrativa de Olivier de la Marche na introducção ás suas Memorias.

Esta introducção foi começada a escrever em 1492, conforme o proprio auctor das Memorias declara[32]: isto é, as passagens relativas ás armas reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres annos antes de começar a epocha em que os testemunhos ácerca de um milagre succedido 357 annos antes nada provam, segundo confessa o padre Pereira, advertindo que, por esses não prestarem, nos ía expor quatro novos, todos de tanto peso e authoridade, que não ha para que se desejem outros mais graves. Destas premissas segue-se, que o testemunho dado a favor de um facto 357 annos depois do tempo em que se diz succedido é defeituoso e insufficiente, mas dado 354 annos depois do successo é igual ao de qualquer pessoa, ou de muitas pessoas que houvessem presenciado este, visto que nada ha mais grave, do que um testemunho posterior de 354 annos, emquanto o posterior de 357 não presta para nada.

Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico? Deixo a escolha a v.. postoque estou certo de que das duas explicações ha-de preferir a ultima.

Mas o caso não pára aqui. Tenha v.. paciencia, porque não fui eu que quiz discutir o milagre de Ourique; foram os padres, que me têm insultado porque o tractei como elle merecia, que me compelliram a isso. Hão-de esgotar o calix da ignominia até as fézes. Elles dizem do pulpito abaixo que era melhor que eu não tivesse falado em tal; e eu digo-lhes da imprensa, do meu pulpito, que era melhor continuarem a aleijar o latim do breviario e do missal, e deixarem-me em paz escrever a historia verdadeira do meu paiz.

Digo que o caso não pára aqui, porque o modo como é narrada a historia da apparição por Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas, é curiosissimo. Segundo elle, o conde Henrique tinha escudo branco: depois este escudo adornou-se por quatro vezes: 1.ª quando Affonso I, passando o Tejo, desbaratou em campo d'Ourique (Cambdorick) os cinco reis mouros, e, em allusão a cinco bandeiras que lhes tomou, pôs no escudo branco cinco escudetes azues. 2.ª Houve nova mudança quando o mesmo rei foi a Roma emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu pondo-se inteiramente nú, e desafiando o papa e os cardeaes para que lhe mostrassem todos junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes das que elle tinha recebido pela fé de Christo. Era maravilhoso, de feito, o numero d'ellas: cinco com visiveis indicios de deverem ter sido mortaes, a não se haver dado milagre no caso. O argumento fora peremptorio. O papa e os cardeaes disseram-lhe que vestisse a camisa; e para lhe darem uma satisfação da injusta pronuncia, mandaram-lhe que em cada um dos escudetes posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria daquellas famosissimas lançadas de que os mouros o haviam servido. 3.ª Tendo o infante D. Fernando, rei de Portugal, casado em França com a condessa Maria de Bolonha, teve um filho, chamado Henrique, o qual accrescentou a orla do escudo em que estão os castellos. E sobre este ponto discute o auctor o erro que havia nos dictos castellos, estribando-se na opinião de portuguêses notaveis. Entre estes devo advertir, para o que v.. logo verá, que elle havia já mencionado especialmente e com elogios extraordinarios o celebre Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a dignidade de escanção de Madama Margarida, viuva de Carlos o Temerario[33]. A 4.º alteração, que vinha a ser a quinta fórma das armas reaes portuguesas, foi o pôr-lhes uma cruz firmada no escudo um rei de Portugal (já se vê que muito posterior a Affonso I), facto cuja origem alguns attribuiam (aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido uma cruz no céu durante uma batalha com os sarracenos, o que vendo o principe dissera, orando a Deus, que mostrasse antes a cruz aos infieis, e assim se fez, com o que os mouros ficaram desbaratados. Accrescenta Olivier de La Marche que talvez o milagre seja verdadeiro; mas que para elle a verdade é que o bom rei João (D. João I) foi quem ajunctou ás armas portuguesas os quatro braços floreteados firmados no escudo.

Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la Marche em toda a sua força e pureza, postoque resumido. Não lhe faço commentarios. Deixo a v.. e a todos homens instruidos que os façam. Eu por mim estou satisfeito.

Inverterei aqui a serie dos quatro irrecusaveis testemunhos do padre Pereira, porque tenho uma razão de ordem que me obriga a reservar o segundo para o ultimo logar. Falarei, portanto, do terceiro.

Gomes Eannes de Azurara, na continuação da chronica de D. João I por Fernão Lopes, transcreve um discurso feito áquelle principe pelos seus confessores, frei Vasco Pereira e frei João Xira, a quem elrei pedira lhe dissessem se era serviço de Deus intentar a conquista de Ceuta. A resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se no exemplo de muitos outros principes e cavalleiros famosos, que haviam acommettido os infiéis na persuasão de que practicavam uma obra meritoria, offerecendo-se á morte. Os que a tinham alcançado, entendiam os dous frades que ficavam equiparados no céu aos martyres, e que os que não a haviam obtido, nem por isso deixavam de ser sanctos, estando resolvidos a morrer alegremente pela fé. Os theologos terminaram a serie dos exemplos (nos quaes figuram entre aquella especie singular de bemaventurados o Cid Ruy Dias e o conde de Castella Fernão Gonçalves, que nunca desconfiaram de que eram sanctos) pela seguinte passagem, conforme se lê na edição de 1644:

«...temos ante nossos olhos a memoria do mui notavel, fiel e catholico christão elrei D. Affonso Henriques, cujas reliquias tractamos entre nossas mãos. Vêde, senhor, os signaes que trazeis em vossas bandeiras, e perguntai e sabei como e por que guisa foram ganhados; os quaes certamente de todas as partes mostram a paixão de Nosso Senhor Jesu-Christo, por cuja reverencia e amor o bemaventurado rei offereceu o seu corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles cinco reis, como vossa mercê sabe. Considerae isso mesmo (do mesmo modo) Senhor, se elle duvidara se o seguinte trabalho era serviço de Deus, não tivereis vós hoje em dia esta mui nobre cidade (Lisboa) nem a villa de Santarem, com outros logares, etc.»

Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque illustrava o sentido das phrases relativas á batalha de Ourique. O que frei João Xira queria dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera a morrer por Christo em Ourique, entendendo que fazia serviço a Deus, como depois, na tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala aqui no milagre? Se houvesse outras testemunhas daquella epocha (1415), que positivamente referissem a apparição, ainda se poderia, embora com violencia, suppôr nas phrases do frade uma allusão ao successo; mas faltando-nos absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa tal supposição. Trazer esta passagem para provar, que já em 1415 existia a tradição, ao passo que, para ella poder ter a significação forçada que se lhe quer dar é necessario suppôr a existencia da mesma tradição, o que é, senão um circulo vicioso, uma petição de principio? Não é, porém, só isso. Nestas lendas, inventadas com fins humanos por milagreiros e falsarios, quasi que não é possivel dar um passo sem encontrar falsificação. A chronica de Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra contra os castelhanos, depois da revolução de 1640, e precedida por uma gravura representando a apparição, foi viciada nesta passagem, provavelmente para se ver nella uma allusão obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu ver, o padre Pereira. No codice authentico do Archivo nacional, onde no impresso se lê «vencendo», está escripto «vendo». «Vendo» torna o sentido da passagem claro. O rei vendo os cinco reis mouros, offereceu o seu corpo a Jesus, e pôs nas suas bandeiras os cinco escudos. Substituida, porém, a palavra vendo por vencendo, a phrase obscurece-se; a causa de se pôrem os cincos escudos nas bandeiras, isto é, o serem os reis mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que se cria tirar vantagem em 1644, ganha em frei João Xira um novo, postoque bem debil, alliado.

Mas supponhamos tudo quanto quizerem. Adoptemos como exacto o texto impresso de Azurara: vejamos ahi a apparição, embora não haja lá uma unica palavra a semelhante respeito. O testemunho singular de frei João Xira em 1415 não seria um pouco tardio para provar um successo de 1139, profundamente esquecido nos chronicons e monumentos coevos? Não o rejeitam as regras da critica sincera; regras estabelecidas accordemente por tantos e tão respeitaveis escriptores ecclesiasticos; regras, emfim, cuja solidez a experiencia demonstra de contínuo aos que se votam a serios estudos historicos? Quer v.. um exemplo domestico da utilidade das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos, dos Fleurys, desprezadas só por aquelles que desprezam tudo, menos os dezeseis tostões de um sermão de milagres? É exemplo que não está no cartorio da camara de Evora, nem nos Commentarios ideaes de Affonso X, mas no Archivo Nacional, onde todos o podem vêr. Consiste n'uma especie de summario historico dos reis de Portugal, lançado no 4.º volume de Inquirições de Affonso III, no reinado de D. João I. No preambulo daquelle summario, destinado a avaliar-se, á vista dos factos historicos, a genuinidade das doações dos reis anteriores, affirma-se que para o escrever se averiguara com extrema exacção a verdade, fixando-se assim a serie chronologica dos principes portugueses. Sabe v.. qual é a exacção desse monumento destinado a servir de padrão legal, para por elle se afferirem diplomas que importavam á fortuna particular e aos direitos da corôa? Citarei só os erros relativos a Affonso I. Segundo o summario official, elle nasceu em 1092, foi casado com a filha de D. Affonso de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em dezembro de 1184. D'aqui verá v.. o credito que deveriam merecer-nos os testemunhos do seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre do seculo XII, quando esses testemunhos existissem, e não fossem um rol vergonhoso de falsificações e mentiras.

O quarto testemunho do padre Pereira é o proprio instrumento da apparição, que existiu em Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o de Alcobaça. O auctor dos Novos Testemunhos diz que não sabe se os dous foram uma e a mesma cousa, passando o celebre documento do archivo daquelle mosteiro para o d'Alcobaça. Como demonstra elle, porém, essa existencia? Pelo depoimento de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556, e publicado por outro frade cruzio, insigne forjador de textos e diplomas, e chronista da ordem, frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario pelos seus proprios confrades[34]. Se acreditarmos este, os conegos de Sancta Cruz, empenhados em fazer canonisar Affonso I, requereram se tirasse um depoimento de testemunhas sobre os milagres do primeiro rei português, do Pharaó obdurado dos monges de Cella-Nova. Quem primeiramente depôs foi um dos conegos empenhados, e foi este que disse constar o milagre de Ourique pelo juramento que existia do mesmo rei. Desse juramento original tiraram-se então em duplicado copias authenticas; uma para se guardar no mosteiro, outra para ir a Roma, o que não chegou a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz o original e uma copia em instrumento, e fóra d'alli outra copia authentica. Tudo isto se perdeu, e nada resta de um documento de tanta valia, que forçosamente se havia de guardar com recato, senão a grosseira impostura dos frades bernardos, restando tambem, nos fins do seculo passado, um traslado que se dizia transcripto de um original, diverso no seu theor do outro original de Alcobaça, e só semelhante a elle em ter sellos pendentes, cousa que não existia na epocha em que o juramento se diz exarado.

O que tudo isto vem a ser é uma serie de vergonhas e miserias repugnantes, e sobretudo de falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios, elles nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os seus embustes. Se frei Nicolau, ou os conegos de 1156 (porque eu não sei se a historia do depoimento se verificou, ou se é invenção do chronista) se lembrassem do que passou antes d'elles, teriam procedido com mais cautela nas suas mentiras. Quem lê a façanhosa chronica dos conegos regrantes conclue que no tempo de frei Nicolau os pergaminhos originaes eram aos milhares em Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui está o que não só elle proprio, postoque fraca testemunha, mas tambem escriptores mais serios, que se reportam a um documento coevo, nos referem como acontecido em 1411. No dia de Corpo de Deus desse anno, uma tempestade que estourou sobre Coimbra produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu o mosteiro de Sancta Cruz. «A agua (diz o auto que sobre isto se redigiu) levou, além de muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas de memorias antigas e de doações que os reis fizeram ao dicto mosteiro, que todas foram molhadas e a mór parte dellas perdida». Sabendo elrei D. João I do successo, segundo confessa o mesmo frei Nicolau, ordenou se trasladassem em publica fórma as doações e mais escripturas que restavam dando-se a este transumpto a mesma força dos originaes, «com o que, prosegue o chronista, se restaurou parte da perda de tantas e tão antigas escripturas que hoje nos fazem grande falta». De duas uma: ou o instrumento da apparição depositado em Sancta Cruz pereceu em 1411, ou escapou. Se escapou, devia ser trasladado no chartulario em que, segundo a ordem delrei, se lançou o que restava. Esse chartulario existia ainda no tempo do chronista, e provavelmente existe ainda hoje. Para que inventaram, pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaça? Porque, em vez de imaginarem cem mentiras para amparar a tradição, não foram a Sancta Cruz extrahir desse traslado authentico dez ou cem traslados novos, que tambem seriam historica e até legalmente authenticos? Porque não vão lá buscá-los ainda hoje para confundirem a minha impiedade? Se, porém, o pergaminho original pereceu em 1411, que são essas historias de publicas-fórmas do original feitas pelos notarios Manso e Thomé da Cruz, e não sei por quem mais, senão embustes, ou copias tiradas de um documento falso. Porque eu não disputo, nem me importa, que elle fosse forjado pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de S. Bernardo.

Falta o segundo testemunho, que deixei para ultimo logar, porque se prende com o que me resta a dizer a v.. sobre a lenda da apparição. Esse testemunho é o de Vasco Fernandes de Lucena, que, indo como orador da embaixada enviada por D. João II ao papa em 1485, referiu a historia da apparição no discurso que recitou perante Innocencio VIII e perante a curia. Como prova do successo, elle tem pouco mais ou menos o valor do de Olivier de la Marche. Se aos historiadores que escreveram depois de 1495 se não póde attribuir, segundo Pereira, e muito mais segundo as doutrinas dos pios e eruditos escriptores a que me referi na carta antecedente, auctoridade bastante para nos compellirem a acceitar a tradição de Ourique, tê-la-ha, porventura, o testemunho singular de um homem que o refere apenas dez annos antes, tractando-se de um milagre que se diz succedido n'uma epocha anterior de mais de tres seculos? É impossivel que v.. não sinta que semelhante auctoridade nada vale.

Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu. O primeiro e o segundo são dos fins do seculo XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a um só. Persuadem-no o affirmar Olivier de la Marche que sobre a questão das armas portuguesas ouvira pessoas notaveis de Portugal com quem tractara[35] tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos elogios á sciencia e talento de Vasco de Lucena. O terceiro é uma passagem, aliàs viciada, de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer correcta, não contém uma unica palavra ácerca da apparição. Finalmente, o quarto é o juramento de Affonso Henriques, que consta existia em Sancta Cruz muito antes de Fr. Bernardo de Brito encontrar o de Alcobaça, o qual se não sabe se é o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas que nós sabemos perfeitamente que é falso. Eis aqui os testemunhos do milagre de Ourique, «de tanto peso e auctoridade, que não ha para que se desejem outros mais graves».

Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo a decidir se o padre Pereira escreveu isto em seu juizo, ou se estava dando largas á sua jovialidade.

Resta-me só fazer um esforço para acceder, até onde é possivel, a uma pretensão de v.. embora já ficasse provado que ella era infundada. Diz v.. que para refutar plenamente a fabula da apparição deveria eu dizer quando, como, para que, e por quem fora inventada. É evidente que o falsario havia de precaver-se para não o descubrirem, e só elle poderia dizer positivamente qual era o seu intuito quando forjou a patranha. Sendo homem astuto, saberia não somente guardar segredo, mas tambem fazer espalhar com arte a fabula. Que calumnias não tem alevantado uns aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos? Muitas dellas, passando primeiro de boca em boca, vindo á imprensa, combatidas pelos calumniados, nem por isso hão deixado de generalisar-se, e de tomar ás vezes tal consistencia, que é possivel passarem algumas, d'aqui a um seculo, por factos historicos, até que uma critica severa e desapaixonada as reduza ao seu justo valor. Sobre a origem da fabula de Ourique não se podem produzir factos decisivos, mas podem reunir-se alguns, que, assim aproximados, offerecerão fundamento a suspeitas vehementes sobre a epocha do nascimento da tradição, sobre seus auctores, e sobre os fins com que foi inventada. Note v.. que eu falo da tradição e não do juramento, que provavelmente, no estado em que hoje o temos, é mais moderno. Quanto a esse invento grosseiro, considerado em si, confesso que me fallece o animo para o analysar.

Partamos de um facto. O primeiro testemunho sobre a existencia da tradição relativa ao milagre de Ourique, preciso, incontroverso, é o de Vasco Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais são chronicas que se perderam, vestigios que se apagaram, obras que ninguem conhece. Isto faz lembrar o gracioso livro das Antiguidades de Evora, que muitos tem tomado por obra de um tolo, e que na realidade são a satyra dos falsarios e crendeiros, feita por um homem espirituoso e engraçado. Tudo quanto se cita anterior a 1485 são embustes e ridicularias, sem exceptuar as chronicas do tempo de Affonso Henriques attribuidas aos imaginarios chronistas João Camello e Pedro Alfarde, onde se diz que talvez se achasse a tradição. A invenção dos taes chronistas, frades de Sancta Cruz, tinha já sido reduzida a pó pelo cruzio D. Thomás da Incarnação, e por frei Manuel de Figueiredo, frade d'Alcobaça. A referencia a semelhantes mentiras feita por Pereira e por Cenaculo, que escreveram depois de ellas estarem refutadas, prova a sinceridade com que foram redigidos nesta parte os Cuidados Litterarios, e tambem os Novos Testemunhos.

Temos, pois, um homem celebre, um castelhano, erudito, valido de D. João II, que, n'um discurso recitado perante Innocencio VIII, menciona pela primeira vez a apparição. Singular origem de uma fabula, que, revelada por um estrangeiro, vem á luz em terra estrangeira, regida por um governo theocratico, que tem por fundamento primitivo do seu dominio temporal um titulo falso.

A memoria de D. João II é odiosa. Entre todos os reis legitimos portugueses, é elle o unico ao qual sem injustiça a historia póde attribuir a qualificação de tyranno. Elle foi quem deu o golpe mortal nas velhas liberdades desta nossa terra. No seu reinado tem de ir buscar o historiador a causa fundamental da nossa decadencia, que começa com o estabelecimento do absolutismo, embora a podridão que corroe a arvore se esconda por alguns annos no cerne. É tambem singular por esta circumstancia a origem da tradição. Nasce, dilata-se, cresce, firmando as raizes no tumulo da liberdade.

Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado do principe perfeito um foragido português, seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da Costa. Depois do assassinio judicial do duque de Bragança, o cardeal aproveitou o ensejo para malquistar o rei português com Sixto IV. Em consequencia d'isso (ao menos assim se acreditava), o papa enviou em 1483 um nuncio a Portugal, a queixar-se dos abusos do poder temporal contra as pretendidas immunidades da igreja, que o filho de Affonso V respeitava tanto como os foros politicos do reino. Foi o rei emprazado para apparecer ante o papa, por si ou por procurador, para dar explicações ácerca do seu procedimento. Nomearam-se embaixadores; mas antes de partirem, Sixto IV relevou o rei da citação, diz-se