que a instancias do mesmo cardeal que excitara a tempestade, receioso de que os ministros portugueses, chegando a Roma, lhe pagassem em igual moeda, fazendo-lhe perder parte do poder e credito de que gosava[36].

Parece, porém, que, emquanto proseguia em Portugal a lucta tenebrosa e encarniçada de uma aristocracia suberba com um rei ambicioso e inexoravel, o cardeal não dormia em Roma. Invectivava-se ahi ou fingia-se invectivar contra a frouxidão de Sixto IV, que deixava o rei português quebrar os privilegios do clero sem se lhe comminarem censuras[37]. Deste clamor sincero, ou desta farça, resultou uma bulla concebida em durissimos termos, que se expediu nos primeiros mezes de 1484. A linguagem della era a linguagem habitual da curia, insolente e grosseira; mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo. O papa recordava uma cousa de que os reis portugueses se haviam esquecido; recordava a D. João II que tinha a dignidade real por dadiva da sé apostolica e de que era seu tributario[38]. Uma bulla destas faria hoje desatar a rir quaesquer ministros portugueses, até em pleno parlamento. Naquelle tempo, porém, ainda o negocio era um pouco serio. D. João II, se riu, foi em particular.

O arcebispo D. João Galvão, um dos valídos do rei e inimigo figadal da familia de Bragança[39], tinha sido transferido, ainda em tempo de Affonso V, da sé suffraganea de Coimbra para a metropolitana de Braga. O arcebispo olhava para as cousas ecclesiasticas como certos prégadores d'hoje olham para a prédica; pelo lado solido. Sem lhe importar obter o pallio, foi usando do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas da mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava devorar pacificamente tão bom quinhão na mesa ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir o clero[40]; mas até que ponto eram graves as culpas do arcebispo, que assim se arriscava a perder a dignidade archiepiscopal (como tem succedido a muitos outros) não sei eu dizer: falo pela boca do papa, que lhe dirigiu tambem uma carta de ameaças. O que é certo é que o movedor das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal da Costa, não devia esquecer-se de carregar a mão no valído do seu adversario. Odio de padre contra padre ainda é mais profundo e tenaz do que contra qualquer secular.

As relações com Roma offereciam, pois, um aspecto pouco agradavel, quando Sixto IV veio a fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura em que elrei apunhalava em Setubal o Duque de Viseu, mandava envenenar o Bispo d'Evora, assassinar D. Gotterre no fundo de um calabouço, e degolar e esquartejar em praça outros fidalgos. D. João I tomara da côrte de Inglaterra o esplendor, os habitos cavalleirosos, o amor da cultura litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje distinguem as classes elevadas na Gran-Bretanha. Seu bisneto tomava da côrte de França apenas um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava modelar as manifestações da sua alma.

A casa de Bragança procedia de D. João I, mas de D. João I antes de rei e simples mestre da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se enlaçado com as armas de Portugal, porque D. João I não se esquecera, depois de rei, de que fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava.

Com as mãos tinctas do sangue do duque de Viseu, D. João II arrancou a cruz do escudo de Portugal, e alterou a posição dos escudetes lateraes, collocados até ahi horisontalmente, dando assim nova fórma ás armas do reino. Dir-se-hia que até d'alli quizera affastar a memoria da linhagem dos seus principaes adversarios.

Era essa a causa da mudança? Não o sei. Ruy de Pina, um dos amoucos do principe perfeito, attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar ou recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O que é certo é que a alteração se fez no mesmo anno de 1484.

Hoje a heraldica e os brasões são dixes com que se entretem as creanças barbadas: o jogo do xadrez é cousa incomparavelmente mais grave. Nos fins do seculo XV não era, porém, assim. A attenção da Europa devia volver-se principalmente para o ensanguentado drama que se representava na côrte de Portugal; mas a cruz de Christo expulsa das moedas, dos sellos e das bandeiras do reino, pelas mãos de um rei algoz, havia de dar occasião a mais de um commentario pouco favoravel.

Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco escudetes representassem uma cruz, e ao mesmo tempo contivessem uma allusão mysteriosa á paixão de Christo; se as arruellas que os ornavam representassem os trinta dinheiros por que Judas vendeu o Senhor, que falta faria a cruz floreteada de Aviz nas armas de Portugal? Não ficava ahi uma cruz mystica, um symbolo piedoso?

Fallecido o papa que recordara a D. João II qual era a origem da independencia de Portugal relativamente a Leão, e que ainda ousava lembrar-se do signal de vassallagem que outr'ora se offerecera á igreja de Roma, elle fora substituido por Innocencio VIII. Sabido o successo, elrei resolveu mandar a Roma uma embaixada, para orador da qual escolheu um homem de plena confiança, o castelhano Vasco de Lucena.

Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor que as bullas de Lucio II e de Alexandre III ácerca da independencia do reino, e que talvez Affonso Henriques houvesse dado a guardar aos seus chronistas, João Camello e Pedro Alfarde? Se o tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem dessa circumstancia o novo papa, tirando assim á curia a vontade de repetir as doutrinas carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV.

Porei aqui a parte mais interessante do discurso, que o orador de Portugal fez ao papa rodeado dos seus cardeaes, em cujo numero se contava o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre Pereira já traduziu uma porção desse discurso; mas era um preguiçoso aquelle bom do padre Pereira. V.. hade permittir que eu o seja menos, e dê um talho mais largo.

Depois de indicar em poucas phrases as origens de Portugal, o orador fala dos primeiros annos do governo de Affonso I e da pequenez dos seus estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas e conquistas: Leiria, Santarem, Lisboa tomadas, o Tejo transposto, a provincia transtagana submettida, com Evora sua capital, Cezimbra e Palmela, fortalezas inexpugnaveis, reduzidas, sendo por elle desbaratados milhares infinitos[41] de mouros com poucos cavalleiros. «Outra vez (ou novamente)—prosegue Lucena—no campo de Ourique, naquelle sitio a que o vulgo chama agora Cabeças dos Reis, com um pequeno exercito venceu cinco poderosissimos reis mouros. Na qual batalha, para se ver quão porfiada fosse, e quão excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram as lanças dos barbaros os escudos que embraçava na mão esquerda. Desta singular e famosa victoria procedeu fixar elle as insignias e armas dos reis de Portugal, pondo nellas cinco escudos, e collocando em cada um delles cinco dinheiros, sendo sabido que até então as armas eram um escudo só, todo semeado de besantes. Estes cinco escudos postos em fórma de cruz, e estes besantes quinarios tambem distribuidos em cruz, que nos indicam senão os trinta dinheiros, preço do sangue de Christo, pelo qual este foi entregue aos judeus pelo crudelissimo Judas? Antes de dar o signal para a batalha, este rei, orando de joelhos, viu o Salvador pendente da cruz, e foi tal a confiança do regio animo, tal a fé gravada no seu coração, que, sem se aterrar com a estupenda maravilha, se atreveu a dizer que não convinha que Christo apparecesse a um firmissimo crente, mas que tal apparecimento era necessario aos hereges, aos que se afastavam da fé christan. D'isto e d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa sanctidade conhecerá mais claro que esta luz que nos alumia por qual constancia d'animo, por qual ardor de virtude, por que prendas, por quaes degráus e successos subiu ao fastigio regio; como esse varão tão religioso, forte e pio augmentou os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo jugo da servidão; com que razão, por força da clarissima vontade e da suprema direcção (optimo auspicio) da eterna magestade, com auxilio do povo e adjutorio da sancta igreja romana, tomou o regio nome com direito perfeito (optimo jure) e o legou aos seus successores; mais feliz nisto que outros principes, dos quaes muitos aspiraram ao titulo real pelo favor dos povos; outros por temor dos seus satellites armados; poucos, a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro caminho da virtude.»

Aqui tem v.. o que se lê na oração de Lucena relativamente a Affonso I. Note v.. que o orador passava por um dos homens mais instruidos do seu tempo, e não podia por ignorancia fazer o que fez; isto é, inverter a ordem dos successos do reinado d'aquelle principe. Deste discurso o que se deduz é que a batalha de Ourique foi a ultima façanha notavel delle, posterior a tudo, inclusivamente á tomada de Evora, e quem sabe se á bulla de Alexandre III, que concedeu ao principe português a qualificação de rei? O que é certo é que, se a chronologia fingida por Lucena fosse verdadeira, a batalha e o milagre de Ourique, em que elle visivelmente quer fundar a independencia de Portugal, embora com o favor do povo e de Roma, teriam sido posteriores á carta de feudo á sé apostolica e á bulla de acceitação de homenagem expedida por Lucio II. Assim, a dignidade do rei e a independencia de Affonso I assentariam n'um titulo, não só incomparavelmente melhor, qual era a vontade de Deus milagrosamente manifestada, mas tambem posterior á offerta e acceitação da homenagem feita em 1144, que por esse facto ficavam invalidadas por inuteis. Presupposto isto, a impertinente recordação da curia romana, inserida na bulla «Ut saluti» de Sisto IV, ficava tambem de todo o ponto refutada.

Mas dirá v..—o cardeal D. Jorge da Costa, presente ao acto, não podia impugnar este inaudito milagre?—Não se impugnam assim milagres. Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra mim, porque no seculo XIX não creio n'uma fabula provada tal até a saciedade, e imagine se um padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre nos fins do seculo XV; e quando se atrevesse a dizer alguma cousa, seria em particular ao papa e aos cardeaes. Outra flagrante mentira dizia ahi Lucena sem temor de que D. Jorge o contradissesse: era a historia dos cinco dínheiros em cada escudete, desmentida por todas as armas reaes gravadas nos sêllos e moedas dos nossos antigos reis da primeira dynastia, começando em Sancho I. Restam muitos desses sêllos e moedas; muitos mais deviam restar naquella epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa notavel: havia de ter visto muitissimos; mas nem por isso Lucena titubeou, antes nesta parte o seu discurso, geralmente frio, melifluo, calculado, tem certo sabor de colerica invectiva contra os que disso duvidassem. O descaramento é, ha muitos seculos, um dos dotes do homem d'estado.

Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador de Portugal no concilio de Basiléa, e na embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as orações de abertura nas côrtes de 1478 e de 1481. Todas essas orações, que não deviam ser menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas escapou a da embaixada de Roma de 1485, e não só escapou, mas tambem foi impressa, e não só foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se della duas edições em caracteres gothicos e sem data, ao que parece, estampadas fóra do reino e com todos os signaes de pertencerem aos primeiros tempos da arte da impressão[42]. Se de feito a oração foi reproduzida pela imprensa pouco depois de recitada, devia sê-lo fóra do reino, onde a imprensa de livros latinos e vulgares não consta que existisse ainda. Mas duas edições da mesma epocha, que provam, senão que alguem interessava em dar áquelle discurso a maxima publicidade?

Recorde-se v.. do que eu disse a proposito de Olivier de la Marche, e da influencia que é provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista flamengo ácerca das armas de Portugal. Vê-se que em 1492, em que este escrevia, as opiniões andavam encontradas. As armas que ahi mais se deviam conhecer eram as antigas com a cruz d'Aviz, porque a reforma de D. João II tinha apenas oito annos. Entretanto a noticia do milagre de Ourique, postoque alterada, corria já alli, e a alteração provinha de quererem alguns acommodar a fabula ás armas antigas. Consequentemente, outros não queriam: logo disputava-se ácerca disso: logo a historia da apparição era uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a explicação sabida e ordinaria, como Lucena dissera em Roma, teria De la Marche accumulado a serie de despropositos que anteriormente transcrevi? Elle falara ácerca d'isto com muitos portugueses, e escrevia á vista das suas informações. O que indica essa completa confusão d'idéas do chronista? Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente no meio das lendas que se ligavam ao brazão dos reis de Portugal, as tinha inteiramente baralhado.

Agora note v.. que por estes mesmos annos de 1491 e 92 Lucena devia estar em Flandres, porque é neste tempo que elle começa a intitular-se conde palatino (titulo que parece provir-lhe do cargo d'escanção da viuva de Carlos o Temerario), ao passo que nessa conjunctura o achamos ausente de Portugal[43]. V.. ajuisará das illações que destes factos se podem tirar.

Mais ou menos inexactas que sejam as noticias que nos restam ácerca da existencia em Sancta Cruz de Coimbra de um monumento relativo á apparição, parece todavia que alguma cousa ahi houve, e o transumpto do juramento de Affonso I, feito pelo notario Manso em tempo d'elrei D. João II, não é de desprezar, logo que um homem como frei Francisco Brandão affirma tê-lo visto. Tal transumpto, se não prova a existencia de um documento verdadeiro, faz crer que alguma cousa sobre a apparição tinha apparecido em Sancta Cruz no tempo daquelle rei.

Advirta, porém, v.. que D. João Galvão, o arcebispo de Braga, valído de João II, tinha sido prior mór de Sancta Cruz, devendo por isso conservar estreitas relações com os frades, e que a familia Galvão parece ter tido particular tendencia para aquelle mosteiro; um outro D. João Galvão era seu prior crasteiro no principio do seculo XVI, e, como vimos, diz-se que em 1556 um frade cruzio, velho de oitenta annos, o cartorario D. Manuel Galvão, depôs que existia o auto do juramento de Affonso I, em que os prelados e os grandes da corte estavam assignados, grossa mentira, seja de passagem dicto, porque o estylo constante, sem excepção no seculo XII e ainda no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo notario que os exarava os nomes dos prelados e ricos-homens confirmantes. Mas os Galvões não acabam aqui. Duarte Galvão, irmão do arcebispo valído, escrevendo depois de 1500 a chronica de Affonso Henriques (no fim da qual adverte innocentemente que seu irmão o arcebispo lhe dissera que tinha motivos para crer que Affonso Henriques fora sancto,) introduz na narrativa da batalha de Ourique a historia da apparição, aperfeiçoada com a scena do ermitão que esquecera a Lucena. Galvão refere-se nesta parte ao que elle mesmo (Affonso I) disse, e dentro da sua historia se contém, o que parece alludir a uma especie de memoria ou diploma em que figura o filho de D. Theresa, o Pharaó obdurado. Tudo o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em fama; isto é, a reprehensão dada pelo rei a Christo por lhe apparecer a elle; as promessas da protecção perpetua do reino feitas por Deus; emfim tudo aquillo que os frades de Alcobaça metteram para dentro do seu original do juramento, porque em verdade era pena que andasse tanta cousa boa só em confirmada fama, como diz Duarte Galvão. Mas se os frades bernardos souberam aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem um juramento vistoso, e de uma apparição rachitica uma apparição ancha e acabada, o chronista não tinha mostrado menos juizo em lhe dar uma applicação util. Para D. João II, morto e sepultado, não servia ella já de nada. A bulla Ut Saluti, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio VIII tinham desapparecido da scena politica. Na cadeira de S. Pedro estava assentado o sancto padre Alexandre Borgia, que tinha assaz que fazer em administrar piamente a igreja de Deus, para não cogitar na sujeição politica de Portugal á sancta sé. O milagre de Ourique andava de todo desaproveitado. Era uma lastima. O chronista olhou para o mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro dos Galvões, e entendeu que a apparição lhe podia ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente da apparição, no que ninguem até ahi sonhara. Fora a causa de tamanha mercê do céu o ter Affonso I fundado e enriquecido Sancta Cruz com grande devoção. Na verdade isto era em parte mentira; porque as grandes doações de terras, castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques áquelles frades, são todas posteriores a 1139 e anterior á batalha de Ourique apenas a de uma horta em Coimbra[44]. Antes, porém, da pontilhuda dialectica dos diplomaticos não se olhava de tão perto para as cousas. A mentira util tornava-se em verdade pelo consenso dos sabios, e sabios eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade de explorar a tradição em beneficio dos conegos cruzios era indisputavel. Os caseiros e emphyteutas do mosteiro, raça dura e rebelde em pagar suas rendas e foros, não pagava, e ria-se das excommunhões; os officiaes da coroa quebravam impiamente os privilegios da ordem, e até, anteriormente, os villãos de Montemor tinham ousado accusá-la de haver obtido com dolo e mentira parte das suas rendas e direitos senhoriaes[45]. Depois, naquella conjunctura, o mosteiro estava gasto e desbaratado das guerras que pouco antes o prior D. João de Noronha tivera com o bispo de Coimbra, em razão de uma pouca de carne furtada da cozinha do bispo pelos criados do prior; guerras em que se deram cruas batalhas nas praças de Coimbra, sendo necessario que o poder publico mandasse marchar tropas para pacificar á força os dous reverendos campeões[46]. Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes, os bens e rendas de Sancta Cruz sob a protecção de um bom milagre, naquella occasião desoccupado, d'ahi só podia provir utilidade aos cruzios sem damno de terceiro. Valia a pena, por isso, de achar a causa verdadeira do milagre de Ourique, com que ninguem ainda tinha atinado.

Paro aqui; e peço desculpa a v.. da minha linguagem. Ha cousas que nenhuma equanimidade basta para dellas se falar sem indignação, ou sem riso. É necessario escolher, e eu prefiro o ultimo quando se tracta de embustes e miserias que já não fazem mal. V.. tomará na conta que merecem os factos e as reflexões que no decurso desta carta lhe submetto, e de que no seu foro intimo tirará as conclusões que julgar razoaveis. Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado pela imprensa que se retirava da arena da discussão. Por mais oppostas que sejam em tantas cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica com um homem honesto, cortez e instruido, era-me summamente agradavel. Mas d'hoje avante, dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que não faria uma acção boa. Até certo ponto sería ferir pelas costas um adversario leal. Cessou por isso a nossa correspondencia. Restam mil outros meios de falar com o geral dos homens de bem e sinceros, e de dizer ao meu paiz as verdades em que a guerra da maioria do clero me obriga, por propria defesa, a fazê-lo pensar.



V

A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA


AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO

(Março, 1851)



Meu amigo.—Remette-me v.. o folheto de A. C. P. (que me diz ser um «academico» o sr. Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os crimes, as fabulas, as contradicções, as ignorancias e não sei quantas cousas mais, em que o peccador de mim caiu na narrativa da batalha de Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa no seu jornal acerca desta publicação, a qual fez, segundo v.. affirma, certo effeito, por causa das garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por lithographia ao folheto, como prova dos progressos da arte typographica entre nós, que é o mais que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas. Sabe o bom redactor da Semana a primeira impressão que o folheto me causou? A que em mim produzem muitas cousas que se publicam nesta nossa terra. Lembrei-me da Divina Providencia, para lhe agradecer que o estudo da nossa lingua esteja tão pouco generalisado na Europa. A reputação litteraria do paiz ganha immensamente com isso. Dizem que não se deve nunca desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que litterariamente desesperava della, se não fosse a mocidade, á qual Deus queira dar bastante amor do estudo, e alumiá-la com um sancto horror a cruzar os umbraes da Academia. A dizer a verdade, meu amigo, começa a fallecer-me a paciencia e a vontade para discutir cousas que nos escorregam para o chão quando tentamos submettê-las á analyse. Demais, do que eu tracto agora é de pôr quanto antes na imprensa o quarto volume da Historia de Portugal, que, em consciencia, me tem dado mais que pensar do que todas as criticas academicas, presentes e futuras. Com a mão no coração, digo-lhe que, exceptis excipiendis, o areopago censorio mais inoffensivo, mais divertido até, que ha em todo o mundo é a Academia de Lisboa. Collectivas ou individuaes, as censuras que partem d'alli nem sequer arranham a supposta victima. Se não escorchassem, por via de regra, a grammatica e o senso commum, não
só seriam suaves e morbidas; seriam até, permitta-me dizê-lo, voluptuosas. Traduzidas em chim, tomavam-nas por obra de algum collegio de mandarins letrados do celeste imperio. O opusculo que o meu amigo me remette é pasmoso no genero: é um botaréu da maravilhosa fabrica das memorias e actas academicas tirado do seu logar, e a que fizeram perder aquella parte de formosura que lhe houvera resultado da harmonia do todo. Sinceramente, é uma cousa que lastimo.

Agora o que, tambem sinceramente, eu não esperava era achar no opusculo certa cortezia nas fórmas que o auctor empregou. Sabía que se estava imprimindo contra mim um cartapacio mourisco. Pensei que fosse obra dos reverendos, que, tão pobres de saber e de intelligencia como ricos de odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria a colera que os abafa. E ainda bem! Apesar do nojo que tenho desses pobres-diabos, não quero que elles estourem, porque são meus irmãos, como em gira jesuitica se costuma dizer a cada punhalada que se dá no proximo. Estou já tão affeito aos improperios da imprensa devota, á caridade dos nossos khatibs e ul-máis, que não esperava no imminente opusculo senão mais uma prova a favor da minha crença na atrophia moral e intellectual da maioria do nosso clero, crença que elle se encarregou de demonstrar até a saciedade. Enganei-me: era obra secular; academica, porém cortez; cortez (entendamo-nos) até o ponto de não usar o auctor das phrases dos prostibulos e das tabernas, mas não até o ponto de respeitar o meu caracter moral, porque ahi sou accusado de falto de sinceridade (pag. 10), de critico cheio de fel, de criminoso (pag. 15), de aviltador do valor português (pag. 18). Isto, porém, pode ser violento, mas não é immundo. Os mentecaptos indecentes são os que a minha dignidade de escriptor e de homem me não consente refutar. Assim, ser-me-ha licito satisfazer aos desejos do bom redactor da Semana e remetter-lhe algumas notas ácerca deste curioso papel.

Uma explicação. Quando digo que não posso refutar mentecaptos indecentes, não quero significar que essa guerra que se me faz, atroz na intenção, ridicula nos effeitos, ha de ficar sem punição. Não sou homem disso; mas tambem não sou homem que gaste polvora com guerrilhas. Hei de ir buscar a seu tempo as columnas de infanteria e os macissos de cavallaria que estão atraz dellas. As miserias que ahi vão pela imprensa contra mim são um veu que encobre, ou antes descobre por demasiado raro, negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se a Europa catholica se hade infeudar de novo ás corrupções da curia romana, com o seu cortejo de jesuitas de todos os formatos, de todas as idades e de todas as mascaras; com os seus titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas em miniatura. Tentêa-se este solo de Portugal: manda-se hostilisar em mim o progresso das novas idéas, a independencia das opiniões, não porque eu seja o mais forte, mas porque circumstancias, que não preparei nem provoquei, me collocaram na primeira linha do combate. O que é certo é que alguem se ha de enganar ácerca do desfecho da lucta, ou nós, ou esse grupo, essa cousa, que por ahi anda a ajunctar quanto pó e podridão ha no cemiterio dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida; essa cousa hedionda, que, incapaz das ambições grandiosas, do despotismo esplendido da Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho que ella desmente, fulminada pela philosophia que ella detesta, depois de apurar as suas doutrinas espirituaes nas fontes catholicas das margens do Neva, vem refocilar-se para a peleja, e desafiar a justiça de Deus e dos homens atraz dos olhos buliçosos da madona de Frosinone. Aqui, no ultimo occidente, o recontro final ha de ser mais tarde. Que a mocidade não durma, porém! Prepare-se para os dias de prova, e talvez de tribulação, com a severidade dos costumes, que dá a energia moral, e com a severidade do estudo, que subministra as armas para a victoria. Por ora pedem-nos só jesuitas; o perigo da petição não é grande. A igreja da Memoria, cujas grimpas vejo d'aqui, collocada lá a meia encosta, vigia a foz do Tejo. Os filhos de Loiola não passariam áquem da barra sem que o sangue de D. José I gemesse nos fundamentos do templo, e este gemido retumbaria pelo reino de Portugal, porque a imprensa tem echos.

Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por não deshonrar esta terra: empreguemos unidos os nossos esforços para augmentar os thesouros da civilisação no paiz; associemo-nos lealmente a quantas idéas generosas e puras de progresso material e intellectual surgirem no meio de nós. Filhos da imprensa, os nossos deveres são arduos; mas é necessario cumpri-los. Porque estou eu tranquillo no meio da tormenta que ruge? Porque tenho a consciencia de os haver desempenhado escrevendo a historia. Se transigisse com vaidades e mentiras; se vendesse a minha penna a paixões pequenas e más; se recuasse diante de considerações miseraveis, as horas da solidão e do silencio, que são as mais da minha vida, não seriam tão repousadas para mim. Alumiado por essa luz moral, que nunca devemos perder de vista, espero levar ao cabo o empenho que tomei, até porque a historia de Portugal é uma das mais ricas em licções para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas, e essas licções são hoje altamente proficuas. Não ha nella, sob tal aspecto, uma só epocha infertil, desde os tempos barbaros em que o arcebispo João Peculiar, furioso contra o seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos paços episcopaes deste, convertia a cathedral em estabulo dos seus cavallos, e espalhava por terra as sacras fórmas, n'um impeto de bruta colera, até aquelles, não barbaros mas corruptos, em que os devotos e pios inquisidores, depois de mandarem desconjunctar nos tractos do potro os membros delicados das virgens hebreas, ou das tidas por taes, iam, curvados sobre o leito da dôr, pousar mollemente os olhos lubricos nos debeis corpos das martyres, e fartar a sua luxuria de tigres palpando aquellas carnes pisadas e sangrentas. Quando a justiça de Deus põe a penna na dextra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os documentos indubitaveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, elle deve seguir ávante sem hesitar, embora a hypocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina.

E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo! O opusculo tinha-me profundamente esquecido.

O eruditissímo academico meu adversario declara-me inhabilitado para escrever a historia do dominio mussulmano na Hespanha, porque não sei arabe.

Pois então dou-a por não escripta. Largo o titulo de historiador; mas consolo-me com a boa companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras não sabiam arabe; Barros não sabia o sanskrito; Raynal não sabia as linguas bunda, tupinamba e iroquesa; Bossuet não sabia as setenta e duas linguas da torre de Babel.

O auctor do opusculo passa a demonstrar como eu não sei arabe. Não era preciso: nas notas do meu livro estou mais que confesso. Nunca citei um texto escripto nessa lingua, que não dissesse de que traducção me tinha valido.

Eis, todavia, as provas da minha insciencia:

Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem phenicia.

E continúo a attribuir-lh'a. O nome radical do rio é Ana: e os eruditos concordam geralmente em que a palavra é phenicia. Guadi, wadi, ou como em mouro direito for, é árabe, e significa rio. Até ahi chega o meu arabismo. Mas não são essas syllabas que o distinguem, porque os sarracenos as ajunctavam a muitos nomes proprios de rios. Guadiana nada mais é que o rio Ana.

Segunda: Digo que Alcacer significa paços reaes.

E porque não o havia de dizer? Os Vestigios arabicos de Moura dão-lhe a significação de palacio acastellado; e eu, que não sei arabe, mas que sei outras cousas que o auctor do opusculo ignora, affirmo-lhe que naquella epocha o Al-kassr ou Al-kassba (aqui me colhe n'alguma tropelia arabica) era isso, ou mais exactamente, um castello apalaçado. Quanto ao adjectivo reaes, asseguro-lhe á fé de christão (e tanto da gemma, que não entendo o alcorão) que em virtude das instituições politicas d'aquelles tempos, assim entre sarracenos como entre nazarenos, o alcacer era necessariamente real, isto é, dependente do poder publico.

Terceira: Chamo a Ourique nome proprio de logar.

Sobre isso falaremos d'espaço.

Quarta: Interpreto Iman dignidade religiosa.

Esta accusação deixou-me quasi academico. Para um arabista parece-me gracejo forte de mais. Pois Iman não significa dignidade religiosa? O auctor do opusculo devia então dizer-nos se o iman era algum capitão de mar e guerra, mercador de retalho, dentista, ou que demonio era o iman. Quem a mim me metteu nestes trabalhos sei eu. Foi o celebre traductor e refutador do alcorão, Marraccio, que teve a insolencia de dar sempre á palavra iman a significação de chefe do culto, de principal sacerdote (sacrorum antistes)[47]: foi o orientalista Von-Hammer[48], que sabe mais das cousas mussulmanas, que toda a eschola arabica de Lisboa desde a sua fundação até hoje: foram todas as exposições da organisação religiosa entre os mussulmanos, não só da Peninsula, mas de todo o mundo.

Quinta: Digo ser Ismar corrupção de Omar ou de Ismael.

É possivel que eu me enganasse: todavia, porque não me fez o auctor do opusculo um favor especial; porque não me citou na historia de Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou na de Al-Keiruani, onde se mencionam milhares de individuos mussulmanos, um só que se chamasse Ismar? Assim fico em duvida, e desconfiado de que tenhamos outra anecdota como a d'Iman.

Felizmente as provas não continuam. Se o auctor proseguisse, temo que demonstrasse contra mim que eu sabía arabe. Era um aperto em que me punha; porque na realidade eu não sei decifrar um unico daquelles engaços de passas, que elle lithographou ao cabo do seu opusculo.

Passado o preambulo, o auctor annuncia que vai provar-me pelos historiadores arabes que a batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o golpe fatal dado no dominio mussulmano. Sancto breve da marca! Sempre são mouros! Se tal affirmam, digo ao illustre arabista que não os acredite. Os monumentos christãos, ainda os mais exaggerados, não contam tanto. O dominio mussulmano ficou como estava depois da jornada d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para os seus estados, ao norte do Mondego, porque sabía do officio de soldado. Sessenta annos de lucta depois da bulha d'Ourique não bastaram para expulsar de todo do actual territorio português os mussulmanos. Apesar da celebre jornada de 1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando palmo a palmo a Estremadura e o Alemtejo. Que golpe fatal foi, portanto, esse de Ourique? Ah mouros, mouros! Isso é debicar com o proximo.

Depois de citar o que eu refiro como introducção á narrativa da batalha, o opusculo vem deitar-me tudo por terra com um sopro. Errei a chronologia, os nomes dos imperadores almoravides, tudo. Oh peccador de mim!

Lá vai o texto do nosso academico arabico:


«Nada tem o facto de Ourique, succedido no reinado de Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este Aly-Ibn-Iussuf foi o primeiro imperador da dynastia dos morabethins e falleceu no anno 496 da Hegira, 1103 da era Christã...»

«Não foi, portanto, no reinado de Aly-Ibn-Iussuf, nem durante o de Aly-Ben-Taxefin, que começou a pretensão do celebre El-Mohdy, mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly, que succedeu a Aly-Ben-Taxefin, isto é, principiou no reinado do III imperador e só tomou seu maior incremento no meio do reinado do IV imperador da dynastia dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin: logo no reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi a batalha de Ourique, não houve revolução, nem politica, nem religiosa, que distrahisse as tropas; o que tudo confirmamos, convidando nossos leitores a que leiam os capitulos desde 32 até 36 inclusivamente da Historia Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim.»


Transcrevi todas estas blasphemias historicas, para que se veja com quanta razão dou graças a Deus de que a nossa lingua seja pouco conhecida, e o que se deve esperar de uma academia onde ha destes eruditos. Pús á vista de todos o corpo de delicto. Vamos ao auto.

A serie dos imperadores almoravides que resulta das precedentes passagens é a seguinte.


1.º Aly-Ibn-Iussuf
1103 (morto)
2.º Aly-Ben-Taxefin
1139 (batalha d'Ourique)
3.º Taxefin-Ben-Aly
(apparecimento do Mahadi)
4.º Ibrahim-Ben-Taxefin


Em que se funda o auctor? Que é o que cita em seu abono?

Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia de Assaleh-Ben-Abdel-Halim, ou Salihn Abd-Alihim, conforme for em mouro a graça de sua mercê, porque não ha dous arabistas que escrevam um nome de gente do mesmo feitio.

Ora os capitulos citados[49] têem apenas o pequeno inconveniente de se referirem ás primeiras conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento do seu dominio na Africa na segunda metade do seculo XI. É no capitulo 37 que se narra a primeira passagem á Hespanha de Iussuf-Ibn-Tachfin e a victoria de Zalaka em 1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a terceira em que Iussuf incorporou nos seus dominios os estados mussulmanos da Peninsula, que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf foi o primeiro imperador almoravide d'Africa e de Hespanha.

A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos 39 e seguintes da Historia de Assaleh-Abdel-halim é:


1.º Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido) em
1106
2.º Aly-Ibn-Iussuf (appel. Abu-Hassan) (fallecido) em
1142
3.º Tachfin-Ibn-Aly (morto em)
1145


Se o meu amigo comparar isto com o que se diz no opusculo, não me ha-de acreditar. Tem razão. É monstruoso, é incrivel, é absurdo; mas está la. Se quizer desenganar-se, procure a versão de Assaleh pelo padre Moura esplendidamente impressa pela Academia em papel pardo e letra safada. Veja o que diz o historiador arabe, o que eu digo, e o que diz o opusculo. Depois julgue-nos; e, ainda depois, faça idea do que irá pela Classe de Sciencias Moraes e Bellas-letras (ou, como quem o dissesse em português, e Boas-letras) da Academia[50].

É assim que esta gente salva a gloria nacional e vindica a bulha d'Ourique contra a minha má fé, contra o fel da minha critica.

A má fé é minha. Repare bem nisso.

Mas haverá outros textos de Abdel-halim, que tenham alguns capitulos 32 a 36, que nos contem essas historias do opusculo?

Na parte da Historia do Dominio dos Arabes por D. J. Conde, relativa á dynastia almoravide, o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte do seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve aproveitar-se com cautela. Todavia Conde era incapaz de commetter um erro tão grosseiro como transtornar completamente a chronologia daquella epocha. Isto estava reservado para um membro da nossa academia.

Eis o resumo da chronologia de Conde quanto á dynastia almoravide[51]:


1.º Abu-Bekr-Ibn-Omar (unicamente na Africa)
2.º Iussuf-Ibn-Tachfin, fallecido na egira
(1106-1107)
500
3.º Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na egira
(1139-1140)
534
4.º Tachfin-Ibn-Aly fallecido na egira
(1146-1147)
541


A ordem dos imperadores é a mesma. Conde atraza dous annos a morte de Aly-Ibn-Iussuf e adianta um a de seu filho. Ainda admittida a chronologia Conde, a jornada de Ourique cai dentro do reinado de Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira 534 correu de agosto de 1139 a agosto de 1140.

Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan e Ibn-Al-Khatib consideram Iussuf-Ibn-Tachfin como o fundador da dynastia almoravide. Eis a chronologia seguida por elles:


1.º Iussuf, fallecido na egira
500 (1106-7)
2.º Aly, fallecido na egira
537 (1142-3)
3.º Tachfin, fallecido na egira
539 (1144-5) [52]


Já se vê que, segundo a chronologia de Ibn-Khallekan e de Ibn-Al-Khatib, a ordem da dynastia é a mesma, e que o successo d'Ourique tambem cai no reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre Abu-l-Feda concorda com elles. «Na Egira de 500—diz Abu-l-Feda—morreu Iussuf-Ibn-Tachfin, amir al-moslemin. Succedeu-lhe Aly seu filho (Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o titulo de amir al-moslemin, como seu pae[53]

Resta apontar o que resulta da narrativa do principal historiador arabe do dominio mussulmano Peninsula, Al-Makkari, ácerca da dynastia almoravide:


1.º Iussuf-Ibn-Tachfin
1052 a 1106
2.º Aly-Ibn-Iussuf
1106 a 1143
3.º Tachfin-Ibn-Aly
1143 a 1145
4.º Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin
1145 a 1147 [54]


Que tal parece ao meu amigo a erudição arabica da parte sarracena da nossa Academia?

Nos arabes vê-se que se encontra exactamente o contrario do que se lê no opusculo. Certamente o auctor descubriu essa deliciosa historia dos almoravides, que nos conta, nos escriptores christãos coevos ou quasi coevos. Sempre era gente que se confessava. Mouro e judeu mentem por officio. Vejamos:

A chronica dos godos nas suas referencias aos imperadores almoravides:

1.º Iussuf
(batalha de Zalaka) 1085 aliàs 1086
2.º Aly-Ibn-Iussuf
(cerco de Coimbra) 1117[55]


A conimbricense:

2.º Aly
(cerco de Coimbra) 1117[56]


Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII mais instruido na litteratura arabe e christã da Peninsula, estabelece para a dynastia almoravide d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55 annos desde a Egira 484 até a Egira 539, a seguinte chronologia:


1.º Iussuf-Ibn-Tachfin (principio da dynastia)
1091-2
2.º Aly-Ibn-Iussuf
3.º Tachfin-Ibn-Aly (fim da dynastia)
1144-5 [57]


Ao digno academico restam talvez para estribar as suas famosas historias almoraviditicas (na falta de arabes e christãos) alguns historiadores tartaros, mongoles, ou chinas.

É provavel que seja assim.

Perdôe, meu amigo, estas extensas citações. Era necessario dar uma prova, que não admittisse subterfugios, dos deploraveis, por não dizer vergonhosos, extremos a que o desejo de me combater tem levado certas pessoas.

O auctor do opusculo negou, com a mesma sem cerimonia com que transtornou a serie dos imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi (Mohammed-Ibn-Tiumarta) começasse a revolução almohade no reinado de Aly, e que nos ultimos annos deste reinado, isto é, na epocha da batalha ou recontro de Ourique, essa revolução houvesse tomado um incremento irresistivel. Todavia são os mesmos escriptores arabes que contam o successo como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim, em que elle finge estribar-se com uma citação falsa; falsa, digo, porque tanta confusão involuntaria é moralmente impossivel. A narrativa de Abdel-halim é, que em 1120 appareceu o Mahadi; que de 1122 a 1125 já se achava com forças para vir assentar campo perto de Marrocos; que, tendo fallecido em 1130, tomou o commando dos almohades Abdel-mumen, o qual foi acclamado imperador em 1133, continuando guerra incessante contra os almoravides até os destruir[58]. É elle que, depois de narrar as victorias de Tachfin-Ibn-Aly contra os christãos desde 1126 até 1137, refere que logo passara á Africa[59]. Conde diz-nos que fora chamado por seu pae ameaçado da ultima ruina[60]. Habil e feliz general contra os christãos, esta causa da sua partida parece confirmada, não só pela razão, mas tambem pelo texto de Al-Khatib[61]. Um monumento christão, escripto por individuo do mesmo seculo, a Chronica Adefonsi Imperatoris, confirma e particularisa o facto. Narrando os successos de 1138, diz que Tachfin levara comsigo, retirando-se para a Africa, até os mosarabes e os prisioneiros christãos para os oppôr aos almohades[62]. Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas almoravides, quando a defesa de Marrocos o obrigava a converter em soldados os proprios nazarenos captivos? Destroem-se estes factos com citações falsas? Como se explica o abandono d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco) no occidente da Peninsula entre almoravides e portugueses, quando de Africa se não dispensava um soldado para a salvação d'aquella chave da fronteira musulmana? Que se póde dizer que tenha um vislumbre de senso commum contra o que a este proposito reflecti?

Quem dá documentos de má fé? Sou eu ou os meus adversarios?

Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico arabe não vale a pena disso.

Depois d'estas façanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusações curiosissimas. Fora extenso de mais citá-las todas. Uma d'ellas é que chamo á serie dos imperadores almoravides dynastia lamtunense para explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a mercê de dizer-me que o vocabulo lamtunense, ou antes almolatamenense, não serve para indicar covardia. Devéras? E eu que não caía em nada! Isto é incrivel, amigo redactor da Semana. Digo mais: era impossivel haver quem fizesse d'estas, se não houvesse academias. Chamei aos principes almoravides dynastia lamtunense, ou lamtunita, porque todos os historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib, Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raças bereberes que serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da tribu de Masufah pertencente a essa raça. Aquella phrase do opusculo «ou antes almolatamenense», é deliciosa. Como o nosso arabista precisava de mostrar a sua pobre erudição, fez pouco mais ou menos este raciocinio: «o auctor da Historia de Portugal denomina os principes almoravides lamtunenses; eu digo-lhe, ex auctoritate qua fungor que era melhor chamar-lhes almolatamenenses»: ora como esta denominação provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforço, embora elle não usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehendê-lo por isso; porque é uma violencia negar a um pobre escholar arabico a occasião de mostrar erudições reconditas. Sabe o meu amigo o que isto faz lembrar? Faz lembrar o prégador que punha o barrete na borda do pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o á sua vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra mim:

Que os principes almoravides usaram do titulo de amir-el-muminin[64].

A prova disto é curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no, segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de Cordova. Não o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, é incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se vê que o titulo dos soberanos lamtunenses era amir-al-moslémin (principe dos mussulmanos). Ouçamos agora o sr. Gayangos: «Não consta da historia—diz elle—que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores tomasse nunca o titulo de Amiru-l-muminin, que era reservado para o khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de Amiru-l-muslemin, ou principe dos moslems (de Africa e de Hespanha). Os proprios sultões de Cordova, postoque descendentes do tronco dos Benu-Umeyyah, e tão intimamente ligados com a familia do propheta, não se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbás não chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova e d'outras cidades da Peninsula[65]». Effectivamente Abu-l-Feda nos certifica que Abderrahman III «foi o primeiro entre os principes ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de amir-al-muminin proprio do Khalifa[66]

Isto não são citações falsas. Por ellas póde ver o meu amigo com quanta exacção eu escrevi ácerca dos almoravides, embora não fosse esse o objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o opusculo sarraceno destinado a refutar-me. Não fica, porém, aqui o negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de amir-al-muminin, porque, diz elle, o de khalifa só se deu aos imperadores do oriente, e estas palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeço a ultima novidade; mas eu não escrevia grammatica; escrevia historia, e, politicamente, as duas expressões eram synonimas. Que se pensaria de quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que, falando do imperador da Russia, dissesse «o czar ou autocrata?» Por outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de khalifa se deu ou não se deu aos principes mussulmanos do occidente, ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha, cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6 d'Al-Makkari, ahi achará que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam III «foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu os titulos de khalifa e de amiru-l-muminin». Se tambem quizer saber se os principes almohades tomaram ou não o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e lá achará este periodo: «El-Mohdi elevou o khalifado para os que lhe succederam[67]», e mais adiante, onde se conta certa anecdota do primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, lerá que um poeta da côrte dizia a outro: «Até quando importunarás tu o khalifa?»; porque é de advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha criticos academicamente originaes.

Mas, em consciencia, meu amigo, eu ás vezes merecia ser feito socio effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue toda a matalotagem arabica do digno academico, se lhe rebella e tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E senão, ouçamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leão e ao papagaio, de que Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador, traduzidas por Moura na sua versão de Abdel-halim, são «as victorias e o poder competem ao califa Abdelmumen[68]». É verdade que o auctor do folheto, que repete a historia do leão e do papagaio, não sei para me provar o que, traduz, em logar de califa, successor. Mas aqui para nós, meu amigo, postoque eu não saiba arabe, apostava que isso foi uma esperteza, e que naquella expressão algalifatu (ou, como Moura lê, el-califa) anda o que quer que seja de khalifa.

Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraça, duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique não é nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa adversidade ou infortunio.

Sou, porém, nesta parte absolvido do peccado, porque quem me deitou a perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento, que o digno academico fez, é exactamente a contraria da que elle desejava. Se assim é, torna-se impossivel achar jámais uma passagem de auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora até aqui não tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas desde que a palavra ourique (tirei-lhe o O maiusculo, não pensem que teimo em fazê-la nome proprio) significa só adversidade ou infortunio, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtéjo é um facto provado pelos testimunhos que eu colligi; o que não está provado, nem se ha de provar nunca, é que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do campo de Ourique; mas como o auctor do opusculo não consente que esse pobre o tome as dimensões de letra maiuscula, qualquer passagem que appareça ha de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: «Houve em 1139 um combate entre os moslems e os infieis no campo da adversidade ou do infortunio». Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e consequentes, houve muitos recontros entre os christãos e os mussulmanos, segue-se que não saberemos a que conflicto allude o auctor arabe; porque todos os campos de combate são de adversidade ou infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este modo de defender a importancia da batalha de Ourique é galantissimo.

O que, porém, é verdadeiramente academico e digno do pincel de Molière é o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura ácerca da etymologia de Ourique. «É bem clara—diz elle—ainda para os que não sabem arabe, a nenhuma analogia que se nota com o ouvido entre orique e arique». Agora, quer o meu amigo saber com que palavra arabe orique se parece muito? É com araka. Isto não precisa de commentario. Nas contendas dos nossos rapazes ácerca da Stoltz e da Novello, quem devia dar a sentença definitiva era o illustre arabista. Proponham a questão á Academia.

Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo paragrapho. É uma novidade que escapou a todos os etymologistas e ethnographos. Na translação das palavras de umas linguas para as outras, ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta da ignorancia das multidões, que são quem ordinariamente faz essas adopções de termos peregrinos. As proprias transformações das linguas são assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas da Europa occidental. Nestas mudanças e adopções não ha letra que não possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para não o ignorar. Agora ouça o meu amigo um mysterio da lingua arabe: «Moura—diz o opusculo—foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo araka, cuja primeira letra radical, que é um alif, não soffre a conversão para a letra o nas linguas europeas». Isto quer dizer que aos rudes portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras, quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes caíam nas unhas, era prohibido tocar no alif, especie de noli-me-tangere arabico. Certamente, meu amigo, no alcorão ha uma sura intitulada «Dos escorchamentos etymologicos» onde o propheta diz: «Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra alif para della engenhar um dos seus maldictos ós, vai preso». Foram peccados meus que me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo sarraceno.

Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de sciencias moraes e bellas-letras, elle entenderá assim melhor a phrase); vem uma longa chicana sobre as palavras fossado, correria, entrada, e não sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudição pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado á expedição de Affonso I em 1139, porque todas as etymologias do mundo não podem fazer com que uma cousa deixe de ser o que é. O fossado era uma expedição que se fazia em regra todos os annos no começo do verão ás terras inimigas: questionar sobre isto não sería mais do que mostrar-se profundamente ignorante das nossas cousas antigas. Correria é um nome que cabe ao fossado tão bem como expedição; porque correria é uma especie do genero expedição, mais nada. Quem faz uma expedição, fossado, ou correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcorão ou a Academia não mandarem o contrario) e por consequencia faz uma entrada. Não é uma miseria, além disso, affirmar-se n'um papel que tem a pretensão de ser cousa séria, que eu me contradigo, porque, chamando correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a idéa de que os mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos não podiam precaver-se? Que resposta séria se póde dar a isto? Fique-se entendendo que quando um paiz é invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar como carneiros e não se unem para se defenderem, ou que os soldados que fazem correrias, não andam, mas voam, ou vão em aerostatos descer aonde e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de Ourique não houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem, é cousa tão absurda, quanto é certo que essa expedição importava uma longa marcha de cincoenta leguas (que tantas irão de Coimbra ao campo de Ourique) quasi toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos, Ourique ficava no coração das terras mussulmanas. Qualquer cabo de esquadra sabe que difficuldades se offerecem á marcha de tropas, embora disciplinadas (como de certo não eram as de Affonso I) atravez de um paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O principe português deixava, além disso, na sua retaguarda, por um e por outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos, taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim, meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos, embora não tivesse as dimensões que lhe attribuiram depois, foi ou não foi um acto de bastante ousadia.

De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo derrota por destroço ou desbarato (dos sarracenos em Ourique). Não escrevi o meu livro para se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico português, e por isso na sua lingua, ao menos até onde eu a sabía.

Vamos á questão principal. Para a tractar não me parece que fosse necessario accumular previamente tanta inexacção e tanto desproposito. Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio ácerca da batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposição contraria, isto é, que nesses diversos escriptores arabes se encontram, não só vestigios della, mas tambem a sua descripção, e as suas consequencias terriveis.

Algum de nós, pois, engana o publico; algum de nós commette uma acção indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta á verdade. Eu consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio mussulmano na Peninsula, e que estão traduzidos. Era essa unicamente a minha obrigação, porque não sei arabe. O auctor do opusculo devia tê-los visto antes de escrever, e podia ter lido outros, porque diz que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros comparados com os monumentos christãos, e o auctor achasse que esses não-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era preferivel ao delles e ao dos monumentos christãos, sendo accordes uns com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda no seculo XII ou nos começos do XIII. Das tres fontes historicas resulta ou não resulta o que eu disse? Resulta ou não resulta, que antes de julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo as tropas que pôde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christãos? É verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou de abril a setembro ou outubro[69]? É verdade que os seus defensores pediram debalde soccorro a Tachfin, que se achava então em Africa? São, portanto, bem deduzidas as minhas inferencias de que é absurdo imaginar que havia trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso Henriques, e não os havia para descercarem uma praça daquella importancia? É para responder negativamente a estas perguntas de um modo tão categorico como eu as faço, que desafio o auctor do opusculo sarraceno.

Ao que se colhe dos monumentos christãos e mussulmanos coevos ou quasi coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porém, oppôr o digno academico? Vejamos:

Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, que viveu no principio do seculo XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou transcrever, porque gósto de apresentar o corpo de delicto:

«E dizem alguns dos sabios precedentes sobre o governo da Andaluzia (sic) que ella muito se engrandeceu: e na verdade conquistou com boa posse (sic) muitos dos logares os (sic) mais notaveis: e foi isto depois que l'Enrick derrotou os mussulmanos; (sic) não persistiram estes depois disso no paiz senão quando obravam pacificamente; e por isso (sic) ficaram os christãos neste paiz senhores de suas terras e de suas riquezas (sic), (sic), (sic).»

O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que até certo ponto simula lingua portuguesa, ha, não só claros vestigios da batalha de Ourique, mas tambem a descripção della e das suas consequencias. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes que eu não soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opiniões aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi vê em meio-mouro. Realmente a cousa é séria, sobretudo exornada com as erudições e commentarios do traductor, a quem Deus dê alguma inclinação mais proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos viajantes marroquinos.

Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a l'Enrik (que é possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra ulmá-i para significarem os seus historiadores. Vamos por partes. Se o sr. Hamed escreveu sabios precedentes, é porque já tinha dicto quem elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertação ácerca da palavra ulmá-i, não seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as notas de sr. Gayangos á versão de Al-Makkari, notas preciosas como fonte de erudição arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para sabermos que importancia deveriamos dar aos sabios precedentes como auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava. Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem vindo a Hespanha e repetissem o que por cá tivessem ouvido ácerca do recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos antes, provariam tanto a favor della como a precedente traducção prova que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa lingua. Suppondo, porém, que Hamed se refira no principio do periodo a historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o que é certo é que a phrase relativa a l'Enrik não é dos taes sabios precedentes, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe bastante da lingua franca para ver que desde as palavras «e na verdade» não são os sabios precedentes, mas sim o proprio Hamed, em corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu testimunho o dicto delles, se é possivel perceber aquelle imbroglio que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior é que o proprio texto está provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a facto algum especial, se refere em geral ás victorias e conquistas de Affonso I, (se é que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que eu particularisei com a miudeza e exacção, a que os sabios precedentes, os ulmá-i da nossa terra, não tinham chegado. Se Hamed se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik, tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como já disse, Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtéjo, ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabeça ao jugo christão.

Aqui tem o bom redactor da Semana o que é e o que vale o papel da tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis. É o dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio é ás vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias!

O famoso texto do viajante marroquino é reforçado com um contraforte tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o texto inedito de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe á luz do dia:

«E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139) desbaratou o general Taxefin as multidões dos christãos nos campos de Attibbat; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de seus prisioneiros seis mil captivos: em consequencia do que partiu para Marrocos, e á sua chegada lhe saiu ao encontro seu pae, o imperador dos mussulmanos, que ficou em profundo desgosto e cheio de grande susto

No capitulo 33 do Karttás traduzido pelo padre Moura não vem esta passagem. Entretanto não devo crer que o auctor do opusculo a inventásse. Cumpre suppôr que elle se serviu de algum exemplar mutilado, viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na versão de Moura é no capitulo 40 que se contém as ultimas acções do Tachfin na Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz:

«No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido e tomado de assalto a cidade de Segovia, levando comsigo seis mil captivos; e tendo chegado a Marrocos veio seu pae encontrá-lo com grande pompa e se alegrou com elle, etc.[71]

As duas passagens são, se não identicas, por certo parallelas. Tracta-se em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um triumpho em que captivou seis mil homens. A differença está nas circumstancias, e na data. Qual dessas se deve preferir? Vejamos.

Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas põe-na como immediata á reducção de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de 1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a saída do principe almoradive para a Africa devia verificar-se já em 532, isto é, nos fins de 1137 ou nos principios de 1138.

Com esta data concorda o auctor da chronica de Affonso VII, mencionando a partida de Tachfin para além-mar entre os successos de 1138, e descrevendo a mensagem que lhe enviaram á Africa os defensores de Aurelia durante o cerco posto a esse castello por Affonso VII