que a instancias do mesmo cardeal que excitara
a tempestade, receioso de que os ministros portugueses,
chegando a Roma, lhe pagassem em
igual moeda, fazendo-lhe perder parte do poder
e credito de que gosava
[36].
Parece, porém, que, emquanto proseguia em
Portugal a lucta tenebrosa e encarniçada de uma
aristocracia suberba com um rei ambicioso e
inexoravel, o cardeal não dormia em Roma. Invectivava-se
ahi ou fingia-se invectivar contra a
frouxidão de Sixto IV, que deixava o rei português
quebrar os privilegios do clero sem se lhe
comminarem censuras
[37].
Deste clamor sincero,
ou desta farça, resultou uma bulla concebida em
durissimos termos, que se expediu nos primeiros
mezes de 1484. A linguagem della era a linguagem
habitual da curia, insolente e grosseira;
mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo.
O papa recordava uma cousa de que os reis
portugueses se haviam esquecido; recordava a
D. João II que
tinha a dignidade real por
dadiva
da sé apostolica e de que era seu
tributario[38].
Uma bulla destas faria hoje desatar a rir quaesquer
ministros portugueses, até em pleno parlamento.
Naquelle tempo, porém, ainda o negocio era
um pouco serio. D. João II, se riu, foi em particular.
O arcebispo D. João Galvão, um dos
valídos
do rei e inimigo figadal da familia de Bragança
[39],
tinha sido transferido, ainda em tempo de Affonso
V, da sé suffraganea de Coimbra para a
metropolitana de Braga. O arcebispo olhava para
as cousas ecclesiasticas como certos prégadores
d'hoje olham para a prédica; pelo lado solido.
Sem lhe importar obter o pallio, foi usando
do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas
da mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava
devorar pacificamente tão bom quinhão na mesa
ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir
o clero
[40];
mas até que ponto eram graves
as culpas do arcebispo, que assim se arriscava a
perder a dignidade archiepiscopal (como tem
succedido a muitos outros) não sei eu dizer: falo
pela boca do papa, que lhe dirigiu tambem uma
carta de ameaças. O que é certo é que
o movedor
das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal
da Costa, não devia esquecer-se de carregar a
mão no valído do seu adversario. Odio de padre
contra padre ainda é mais profundo e tenaz do
que contra qualquer secular.
As relações com Roma offereciam, pois, um
aspecto pouco agradavel, quando Sixto IV veio a
fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura
em que elrei apunhalava em Setubal o Duque de
Viseu, mandava envenenar o Bispo d'Evora, assassinar
D. Gotterre no fundo de um calabouço,
e degolar e esquartejar em praça outros fidalgos.
D. João I tomara da côrte de Inglaterra o
esplendor,
os habitos cavalleirosos, o amor da cultura
litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje
distinguem as classes elevadas na Gran-Bretanha.
Seu bisneto tomava da côrte de França apenas
um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava
modelar as manifestações da sua alma.
A casa de Bragança procedia de D. João I,
mas de D. João I antes de rei e simples mestre
da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se
enlaçado com as armas de Portugal, porque D.
João I não se esquecera, depois de rei, de que
fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava.
Com as mãos tinctas do sangue do duque de
Viseu, D. João II arrancou a cruz do escudo de
Portugal, e alterou a posição dos escudetes
lateraes,
collocados até ahi horisontalmente, dando
assim nova fórma ás armas do reino. Dir-se-hia
que até d'alli quizera affastar a memoria da linhagem
dos seus principaes adversarios.
Era essa a causa da mudança? Não o sei. Ruy
de Pina, um dos amoucos do principe perfeito,
attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar
ou recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O
que é certo é que a
alteração se fez no mesmo
anno de 1484.
Hoje a heraldica e os brasões são dixes com
que se entretem
as
creanças barbadas: o jogo do
xadrez é cousa incomparavelmente mais grave.
Nos fins do seculo XV não era, porém, assim. A
attenção da Europa devia volver-se principalmente
para o ensanguentado drama que se representava
na côrte de Portugal; mas a cruz de Christo
expulsa das moedas, dos sellos e das bandeiras
do reino, pelas mãos de um rei algoz, havia de
dar occasião a mais de um commentario pouco
favoravel.
Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco
escudetes representassem uma cruz, e ao mesmo
tempo contivessem uma allusão mysteriosa á
paixão
de Christo; se as arruellas que os ornavam
representassem os trinta dinheiros por que Judas
vendeu o Senhor, que falta faria a cruz floreteada
de Aviz nas armas de Portugal? Não ficava ahi
uma cruz mystica, um symbolo piedoso?
Fallecido o papa que recordara a D. João II
qual era a origem da independencia de Portugal
relativamente a Leão, e que ainda ousava lembrar-se
do signal de vassallagem que outr'ora se
offerecera á igreja de Roma, elle fora substituido
por Innocencio VIII. Sabido o successo, elrei resolveu
mandar a Roma uma embaixada, para orador
da qual escolheu um homem de plena confiança,
o castelhano Vasco de Lucena.
Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor
que as bullas de Lucio II e de Alexandre III ácerca
da independencia do reino, e que talvez Affonso
Henriques houvesse dado a guardar aos seus
chronistas, João Camello e Pedro Alfarde? Se o
tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem
dessa circumstancia o novo papa, tirando
assim á curia a vontade de repetir as doutrinas
carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV.
Porei aqui a parte mais interessante do discurso,
que o orador de Portugal fez ao papa rodeado
dos seus cardeaes, em cujo numero se contava
o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre
Pereira já traduziu uma porção desse
discurso;
mas era um preguiçoso aquelle bom do padre Pereira.
V.. hade permittir que eu o seja menos, e
dê um talho mais largo.
Depois de indicar em poucas phrases as origens
de Portugal, o orador fala dos primeiros annos
do governo de Affonso I e da pequenez dos seus
estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas
e conquistas: Leiria, Santarem, Lisboa tomadas,
o Tejo transposto, a provincia transtagana
submettida, com Evora sua capital, Cezimbra
e Palmela, fortalezas inexpugnaveis, reduzidas,
sendo por elle desbaratados
milhares
infinitos[41]
de mouros com poucos cavalleiros. «Outra vez
(ou
novamente)—prosegue Lucena—no
campo
de Ourique, naquelle sitio a que o
vulgo chama
agora Cabeças dos Reis,
com um pequeno exercito
venceu cinco poderosissimos reis mouros.
Na qual batalha, para se ver quão porfiada fosse,
e quão excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram
as lanças dos barbaros os escudos que
embraçava na mão esquerda. Desta singular e
famosa
victoria procedeu
fixar elle as insignias e
armas dos reis de Portugal, pondo nellas cinco
escudos, e collocando em cada um delles cinco dinheiros,
sendo sabido que até então as armas
eram um escudo só, todo semeado de besantes.
Estes cinco escudos
postos em fórma de
cruz, e
estes besantes quinarios
tambem distribuidos em
cruz, que nos indicam senão os trinta
dinheiros,
preço do sangue de Christo, pelo qual este foi entregue
aos judeus pelo crudelissimo Judas? Antes
de dar o signal para a batalha, este rei, orando de
joelhos, viu o Salvador pendente da cruz, e foi
tal a confiança do regio animo, tal a fé gravada
no
seu coração, que, sem se aterrar com a estupenda
maravilha,
se atreveu a dizer que
não convinha
que Christo apparecesse a um firmissimo crente,
mas que tal apparecimento era necessario aos hereges,
aos que se afastavam da fé christan. D'isto
e d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa
sanctidade conhecerá mais claro que esta luz que
nos alumia
por qual constancia d'animo, por
qual ardor de virtude, por que prendas, por quaes
degráus e successos subiu ao fastigio
regio; como
esse varão tão religioso, forte e pio augmentou
os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo
jugo da servidão; com que razão, por
força
da
clarissima vontade e da suprema
direcção
(optimo auspicio)
da eterna
magestade, com
auxilio
do povo e
adjutorio da sancta igreja romana,
tomou o regio nome com direito
perfeito (optimo
jure)
e o legou aos seus
successores; mais feliz nisto
que outros principes, dos quaes muitos aspiraram
ao titulo real pelo favor dos povos; outros
por temor dos seus satellites armados; poucos,
a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro
caminho da virtude.»
Aqui tem v.. o que se lê na oração de
Lucena
relativamente a Affonso I. Note v.. que o
orador passava por um dos homens mais instruidos
do seu tempo, e não podia por ignorancia
fazer o que fez; isto é, inverter a ordem dos
successos do reinado d'aquelle principe. Deste
discurso o que se deduz é que a batalha de Ourique
foi a ultima façanha notavel delle, posterior
a tudo, inclusivamente á tomada de Evora,
e quem sabe se á bulla de Alexandre III, que
concedeu ao principe português a
qualificação
de rei? O que é certo é que, se a chronologia
fingida por Lucena fosse verdadeira, a batalha
e o milagre de Ourique, em que elle visivelmente
quer fundar a independencia de Portugal,
embora
com o favor do povo e de Roma,
teriam sido
posteriores á carta de feudo á sé
apostolica e á
bulla de acceitação de homenagem expedida
por Lucio II. Assim, a dignidade do rei e a independencia
de Affonso I assentariam n'um titulo,
não só incomparavelmente melhor, qual
era a vontade de Deus milagrosamente manifestada,
mas tambem posterior á offerta e
acceitação
da homenagem feita em 1144, que
por esse facto ficavam invalidadas por inuteis.
Presupposto isto, a impertinente recordação da
curia romana, inserida na bulla «
Ut
saluti» de
Sisto IV, ficava tambem de todo o ponto refutada.
Mas dirá v..—o cardeal D. Jorge da Costa,
presente ao acto, não podia impugnar este inaudito
milagre?—Não se impugnam assim milagres.
Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra
mim, porque no seculo XIX não creio n'uma fabula
provada tal até a saciedade, e imagine se
um padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre
nos fins do seculo XV; e quando se atrevesse
a dizer alguma cousa, seria em particular
ao papa e aos cardeaes. Outra flagrante mentira
dizia ahi Lucena sem temor de que D. Jorge o
contradissesse: era a historia dos cinco dínheiros
em cada escudete, desmentida por todas as
armas reaes gravadas nos sêllos e moedas dos
nossos antigos reis da primeira dynastia, começando
em Sancho I. Restam muitos desses sêllos
e moedas; muitos mais deviam restar naquella
epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa
notavel: havia de ter visto muitissimos; mas nem
por isso Lucena titubeou, antes nesta parte o seu
discurso, geralmente frio, melifluo, calculado,
tem certo sabor de colerica invectiva contra os
que disso duvidassem. O descaramento é, ha muitos
seculos, um dos dotes do homem d'estado.
Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador
de Portugal no concilio de Basiléa, e na
embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as
orações de abertura nas côrtes de 1478
e de
1481. Todas essas orações, que não
deviam ser
menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas
escapou a da embaixada de Roma de 1485,
e não só escapou, mas tambem foi impressa, e
não só foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se
della duas edições em caracteres gothicos e sem
data, ao que parece, estampadas
fóra do
reino
e com todos os signaes de
pertencerem aos primeiros
tempos da arte da impressão[42]. Se de
feito
a oração foi reproduzida pela imprensa pouco
depois de recitada, devia sê-lo fóra do reino,
onde a imprensa de livros latinos e vulgares não
consta que existisse ainda. Mas duas edições da
mesma epocha, que provam, senão que
alguem
interessava em dar áquelle discurso a maxima
publicidade?
Recorde-se v.. do que eu disse a proposito
de Olivier de la Marche, e da influencia que é
provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista
flamengo ácerca das armas de Portugal. Vê-se
que em 1492, em que este escrevia, as opiniões
andavam encontradas. As armas que ahi mais
se deviam conhecer eram as antigas com a cruz
d'Aviz, porque a reforma de D. João II tinha apenas
oito annos. Entretanto a noticia do milagre
de Ourique, postoque alterada, corria já alli, e
a alteração provinha de quererem
alguns acommodar
a fabula ás armas antigas. Consequentemente,
outros não queriam: logo disputava-se
ácerca disso: logo a historia da
apparição era
uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a
explicação
sabida e ordinaria, como Lucena dissera
em Roma, teria De la Marche accumulado a serie
de despropositos que anteriormente transcrevi?
Elle falara ácerca d'isto com muitos portugueses,
e escrevia á vista das suas
informações. O que
indica essa completa confusão d'idéas do
chronista?
Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente
no meio das lendas que se ligavam ao
brazão dos reis de Portugal, as tinha inteiramente
baralhado.
Agora note v.. que por estes mesmos annos
de 1491 e 92 Lucena devia estar em Flandres,
porque é neste tempo que elle começa a
intitular-se
conde palatino (titulo que parece provir-lhe
do cargo d'escanção da viuva de Carlos o
Temerario),
ao passo que nessa conjunctura o achamos
ausente de Portugal
[43].
V.. ajuisará das
illações
que destes factos se podem tirar.
Mais ou menos inexactas que sejam as noticias
que nos restam ácerca da existencia em Sancta
Cruz de Coimbra de um monumento relativo á
apparição, parece todavia que alguma cousa ahi
houve, e o transumpto do juramento de Affonso
I, feito pelo notario Manso
em tempo d'elrei D.
João II, não é de
desprezar, logo que um homem
como frei Francisco Brandão affirma tê-lo visto.
Tal transumpto, se não prova a existencia de um
documento verdadeiro, faz crer que
alguma
cousa
sobre a apparição
tinha apparecido
em Sancta
Cruz no tempo daquelle rei.
Advirta, porém, v.. que D. João
Galvão, o arcebispo
de Braga, valído de João II, tinha sido
prior mór de Sancta Cruz, devendo por isso conservar
estreitas relações com os frades, e que a
familia Galvão parece ter tido particular tendencia
para aquelle mosteiro; um outro D. João
Galvão era seu prior crasteiro no principio do seculo
XVI, e, como vimos, diz-se que em 1556 um
frade cruzio, velho de oitenta annos, o
cartorario
D. Manuel Galvão, depôs que existia o auto do
juramento de Affonso I,
em que os prelados e os
grandes da corte estavam assignados, grossa mentira,
seja de passagem dicto, porque o estylo
constante, sem excepção no seculo XII e ainda
no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo
notario que os exarava os nomes dos prelados
e ricos-homens confirmantes. Mas os Galvões
não acabam aqui. Duarte Galvão,
irmão do arcebispo
valído, escrevendo depois de 1500 a
chronica
de Affonso Henriques (no fim da qual adverte
innocentemente
que seu irmão o arcebispo lhe dissera
que tinha motivos para crer
que Affonso
Henriques fora sancto,) introduz na narrativa
da batalha de Ourique a historia da apparição,
aperfeiçoada com a scena do ermitão que esquecera
a Lucena. Galvão refere-se nesta parte ao
que
elle mesmo (Affonso I)
disse, e dentro da sua
historia se contém, o que parece alludir a
uma
especie de memoria ou diploma em que figura o
filho de D. Theresa, o
Pharaó
obdurado. Tudo
o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em
fama; isto é, a reprehensão dada pelo rei a
Christo
por lhe apparecer a elle; as promessas da
protecção
perpetua do reino feitas por Deus; emfim
tudo aquillo que os frades de Alcobaça metteram
para dentro do
seu original do
juramento, porque
em verdade era pena que andasse tanta cousa
boa só em
confirmada
fama, como diz Duarte
Galvão. Mas se os frades bernardos souberam
aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem
um juramento vistoso, e de uma apparição
rachitica uma apparição ancha e acabada, o
chronista
não tinha mostrado menos juizo em lhe dar
uma applicação util. Para D. João II,
morto e sepultado,
não servia ella já de nada. A bulla
Ut
Saluti, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio
VIII tinham desapparecido da scena politica. Na
cadeira de S. Pedro estava assentado o sancto padre
Alexandre Borgia, que tinha assaz que fazer
em administrar piamente a igreja de Deus, para
não cogitar na sujeição politica de
Portugal á sancta
sé. O milagre de Ourique andava de todo desaproveitado.
Era uma lastima. O chronista olhou
para o mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro
dos Galvões, e entendeu que a
apparição lhe podia
ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente
da apparição, no que ninguem até ahi
sonhara.
Fora a causa de tamanha mercê do céu o ter Affonso
I fundado e enriquecido Sancta Cruz
com
grande devoção. Na verdade isto
era em parte
mentira; porque as grandes doações de terras,
castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques
áquelles frades, são todas posteriores a 1139
e anterior á batalha de Ourique apenas a de uma
horta em Coimbra
[44].
Antes, porém, da pontilhuda
dialectica dos diplomaticos não se olhava de tão
perto para as cousas. A mentira util tornava-se
em verdade pelo consenso dos sabios, e sabios
eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade
de explorar a tradição em beneficio dos conegos
cruzios era indisputavel. Os caseiros e emphyteutas
do mosteiro, raça dura e rebelde em
pagar suas rendas e foros, não pagava, e ria-se
das excommunhões; os officiaes da coroa quebravam
impiamente os privilegios da ordem, e até,
anteriormente, os villãos de Montemor tinham
ousado accusá-la de haver obtido com dolo e
mentira parte das suas rendas e direitos senhoriaes
[45].
Depois, naquella conjunctura, o mosteiro
estava gasto e desbaratado das guerras que pouco
antes o prior D. João de Noronha tivera com o
bispo de Coimbra, em razão de uma pouca de
carne furtada da cozinha do bispo pelos criados
do prior; guerras em que se deram cruas batalhas
nas praças de Coimbra, sendo necessario que o
poder publico mandasse marchar tropas para pacificar
á força os dous reverendos
campeões
[46].
Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes,
os bens e rendas de Sancta Cruz sob a protecção
de um bom milagre, naquella occasião desoccupado,
d'ahi só podia provir utilidade aos cruzios
sem damno de terceiro. Valia a pena, por isso,
de achar a causa verdadeira do milagre de Ourique,
com que ninguem ainda tinha atinado.
Paro aqui; e peço desculpa a v.. da minha
linguagem. Ha cousas que nenhuma equanimidade
basta para dellas se falar sem indignação, ou
sem riso. É necessario escolher, e eu prefiro o
ultimo quando se tracta de embustes e miserias
que já não fazem mal. V.. tomará na
conta que
merecem os factos e as reflexões que no decurso
desta carta lhe submetto, e de que no seu foro
intimo tirará as conclusões que julgar razoaveis.
Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado
pela imprensa que se retirava da arena da
discussão. Por mais oppostas que sejam em tantas
cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica
com um homem honesto, cortez e instruido,
era-me summamente agradavel. Mas d'hoje avante,
dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que
não faria uma acção boa.
Até certo ponto sería
ferir pelas costas um adversario leal. Cessou por
isso a nossa correspondencia. Restam mil outros
meios de falar com o geral dos homens de bem
e sinceros, e de dizer ao meu paiz as verdades
em que a guerra da maioria do clero me obriga,
por propria defesa, a fazê-lo pensar.
V
A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA
AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO
(Março, 1851)
Meu amigo.—Remette-me v.. o folheto de
A. C. P. (que me diz ser um «academico» o sr.
Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os
crimes, as fabulas, as contradicções, as
ignorancias
e não sei quantas cousas mais, em que o peccador
de mim caiu na narrativa da batalha de
Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa
no seu jornal acerca desta publicação, a qual
fez,
segundo v.. affirma, certo effeito, por causa das
garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por
lithographia ao folheto, como prova dos progressos
da arte typographica entre nós, que é o mais
que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas.
Sabe o bom redactor da
Semana a
primeira
impressão que o folheto me causou? A que em
mim produzem muitas cousas que se publicam
nesta nossa terra. Lembrei-me da Divina Providencia,
para lhe agradecer que o estudo da nossa
lingua esteja tão pouco generalisado na Europa.
A reputação litteraria do paiz ganha immensamente
com isso. Dizem que não se deve nunca
desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que
litterariamente desesperava della, se não fosse a
mocidade, á qual Deus queira dar bastante amor
do estudo, e alumiá-la com um sancto horror a
cruzar os umbraes da Academia. A dizer a verdade,
meu amigo, começa a fallecer-me a paciencia
e a vontade para discutir cousas que nos escorregam
para o chão quando tentamos submettê-las
á analyse. Demais, do que eu tracto agora é de
pôr quanto antes na imprensa o quarto volume
da
Historia de Portugal, que, em
consciencia,
me tem dado mais que pensar do que todas as
criticas academicas, presentes e futuras. Com a
mão no coração, digo-lhe que,
exceptis excipiendis,
o areopago censorio mais inoffensivo, mais
divertido até, que ha em todo o mundo é a
Academia
de Lisboa. Collectivas ou individuaes, as
censuras que partem d'alli nem sequer arranham
a supposta victima. Se não escorchassem, por via
de regra, a grammatica e o senso commum, não
só seriam suaves e morbidas; seriam até,
permitta-me
dizê-lo, voluptuosas. Traduzidas em
chim, tomavam-nas por obra de algum collegio
de mandarins letrados do celeste imperio.
O opusculo que o meu amigo me remette é pasmoso
no genero: é um botaréu da maravilhosa
fabrica das memorias e actas academicas tirado
do seu logar, e a que fizeram perder aquella parte
de formosura que lhe houvera resultado da
harmonia do todo. Sinceramente, é uma cousa
que lastimo.
Agora o que, tambem sinceramente, eu não
esperava era achar no opusculo certa cortezia
nas fórmas que o auctor empregou. Sabía que
se estava imprimindo contra mim um cartapacio
mourisco. Pensei que fosse obra dos reverendos,
que, tão pobres de saber e de intelligencia como
ricos de odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria
a colera que os abafa. E ainda bem! Apesar
do nojo que tenho desses pobres-diabos, não
quero que elles estourem, porque são meus irmãos,
como em
gira jesuitica se costuma
dizer a
cada punhalada que se dá no proximo. Estou já
tão affeito aos improperios da imprensa devota,
á caridade dos nossos khatibs e ul-máis, que
não
esperava no imminente opusculo senão mais uma
prova a favor da minha crença na atrophia moral
e intellectual da maioria do nosso clero, crença
que elle se encarregou de demonstrar até a saciedade.
Enganei-me: era obra secular; academica,
porém cortez; cortez (entendamo-nos) até
o ponto de não usar o auctor das phrases dos
prostibulos e das tabernas, mas não até o ponto
de respeitar o meu caracter moral, porque ahi
sou accusado de
falto de sinceridade
(pag. 10),
de
critico cheio de fel, de
criminoso (pag. 15),
de
aviltador do valor
português (pag. 18). Isto,
porém, pode ser violento, mas não é
immundo.
Os mentecaptos indecentes são os que a minha
dignidade de escriptor e de homem me não consente
refutar. Assim, ser-me-ha licito satisfazer
aos desejos do bom redactor da
Semana e remetter-lhe
algumas notas ácerca deste curioso
papel.
Uma explicação. Quando digo que não
posso
refutar mentecaptos indecentes, não quero significar
que essa guerra que se me faz, atroz
na intenção, ridicula nos effeitos, ha de ficar
sem punição. Não sou homem disso; mas
tambem
não sou homem que gaste polvora com
guerrilhas. Hei de ir buscar a seu tempo as columnas
de infanteria e os macissos de cavallaria
que estão atraz dellas. As miserias que ahi vão
pela imprensa contra mim são um veu que encobre,
ou antes descobre por demasiado raro,
negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se
a Europa catholica se hade infeudar de novo ás
corrupções da curia romana, com o seu cortejo
de jesuitas de todos os formatos, de todas as
idades e de todas as mascaras; com os seus
titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas
em miniatura. Tentêa-se este solo de Portugal:
manda-se hostilisar em mim o progresso
das novas idéas, a independencia das opiniões,
não porque eu seja o mais forte, mas porque
circumstancias, que não preparei nem provoquei,
me collocaram na primeira linha do combate.
O que é certo é que alguem se ha de
enganar ácerca do desfecho da lucta, ou nós,
ou esse grupo, essa cousa, que por ahi anda
a ajunctar quanto pó e podridão ha no cemiterio
dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida;
essa cousa hedionda, que, incapaz das ambições
grandiosas, do despotismo esplendido da
Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho
que ella desmente, fulminada pela philosophia
que ella detesta, depois de apurar as
suas doutrinas espirituaes nas fontes catholicas
das margens do Neva, vem refocilar-se para a
peleja, e desafiar a justiça de Deus e dos homens
atraz dos olhos buliçosos da madona de
Frosinone. Aqui, no ultimo occidente, o recontro
final ha de ser mais tarde. Que a mocidade
não durma, porém! Prepare-se para os dias de
prova, e talvez de tribulação, com a severidade
dos costumes, que dá a energia moral, e
com a severidade do estudo, que subministra
as armas para a victoria. Por ora pedem-nos só
jesuitas; o perigo da petição não
é grande. A
igreja da
Memoria, cujas grimpas
vejo d'aqui,
collocada lá a meia encosta, vigia a foz do Tejo.
Os filhos de Loiola não passariam áquem da
barra sem que o sangue de D. José I gemesse
nos fundamentos do templo, e este gemido retumbaria
pelo reino de Portugal, porque a imprensa
tem echos.
Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por
não deshonrar esta terra: empreguemos unidos
os nossos esforços para augmentar os thesouros
da civilisação no paiz; associemo-nos lealmente
a quantas idéas generosas e puras de progresso
material e intellectual surgirem no meio de nós.
Filhos da imprensa, os nossos deveres são arduos;
mas é necessario cumpri-los. Porque estou
eu tranquillo no meio da tormenta que ruge?
Porque tenho a consciencia de os haver
desempenhado escrevendo a historia. Se transigisse
com vaidades e mentiras; se vendesse a
minha
penna a paixões
pequenas e más; se recuasse
diante de considerações miseraveis, as
horas da solidão e do silencio, que são as mais
da minha vida, não seriam tão repousadas para
mim. Alumiado por essa luz moral, que nunca
devemos perder de vista, espero levar ao cabo
o empenho que tomei, até porque a historia
de Portugal é uma das mais ricas em
licções
para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas,
e essas licções são hoje altamente
proficuas.
Não ha nella, sob tal aspecto, uma só
epocha infertil, desde os tempos barbaros em
que o arcebispo João Peculiar, furioso contra o
seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos
paços episcopaes deste, convertia a cathedral
em estabulo dos seus cavallos, e espalhava por
terra as sacras fórmas, n'um impeto de bruta
colera, até aquelles, não barbaros mas corruptos,
em que os devotos e pios inquisidores,
depois de mandarem desconjunctar nos tractos
do potro os membros delicados das virgens
hebreas, ou das tidas por taes, iam, curvados
sobre o leito da dôr, pousar mollemente os
olhos lubricos nos debeis corpos das martyres,
e fartar a sua luxuria de tigres palpando aquellas
carnes pisadas e sangrentas. Quando a justiça
de Deus põe a penna na dextra do historiador,
ao passo que lhe põe na esquerda os documentos
indubitaveis de crimes que pareciam
escondidos para sempre debaixo das lousas, elle
deve seguir ávante sem hesitar, embora a hypocrisia
ruja em redor, porque a missão do historiador
tem nesse caso o que quer que seja de
divina.
E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo!
O opusculo tinha-me profundamente esquecido.
O eruditissímo academico meu adversario declara-me
inhabilitado para escrever a historia do
dominio mussulmano na Hespanha, porque não
sei arabe.
Pois então dou-a por não escripta. Largo o titulo
de historiador; mas consolo-me com a boa
companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras não sabiam
arabe; Barros não sabia o sanskrito; Raynal
não sabia as linguas bunda, tupinamba e iroquesa;
Bossuet não sabia as setenta e duas linguas
da torre de Babel.
O auctor do opusculo passa a demonstrar como
eu não sei arabe. Não era preciso: nas notas do
meu livro estou mais que confesso. Nunca citei
um texto escripto nessa lingua, que não dissesse
de que traducção me tinha valido.
Eis, todavia, as provas
da minha
insciencia:
Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem
phenicia.
E continúo a attribuir-lh'a. O nome radical do
rio é
Ana: e os eruditos
concordam geralmente
em que a palavra é phenicia.
Guadi,
wadi, ou
como em mouro direito for, é árabe, e significa
rio. Até ahi chega o meu arabismo. Mas não
são
essas syllabas que o distinguem, porque os sarracenos
as ajunctavam a muitos
nomes
proprios
de rios.
Guadiana nada mais
é que o
rio Ana.
Segunda: Digo que
Alcacer significa
paços
reaes.
E porque não o havia de dizer? Os
Vestigios
arabicos de Moura dão-lhe a
significação de
palacio
acastellado; e eu, que não sei arabe, mas
que sei outras cousas que o auctor do opusculo
ignora, affirmo-lhe que naquella epocha o
Al-kassr
ou
Al-kassba (aqui me colhe n'alguma
tropelia
arabica) era isso, ou mais exactamente, um
castello apalaçado.
Quanto ao adjectivo
reaes,
asseguro-lhe
á fé de christão (e tanto da gemma,
que
não entendo o alcorão) que em virtude das
instituições
politicas d'aquelles tempos, assim entre
sarracenos como entre nazarenos, o
alcacer era
necessariamente
real, isto
é, dependente do poder
publico.
Terceira: Chamo a
Ourique nome
proprio de
logar.
Sobre isso falaremos d'espaço.
Quarta: Interpreto
Iman dignidade
religiosa.
Esta accusação deixou-me quasi academico.
Para um arabista parece-me gracejo forte de mais.
Pois
Iman não significa
dignidade religiosa? O
auctor do opusculo devia então dizer-nos se o
iman era algum capitão de
mar e guerra, mercador
de retalho, dentista, ou que demonio era o
iman. Quem a mim me metteu nestes
trabalhos
sei eu. Foi o celebre traductor e refutador do alcorão,
Marraccio, que teve a insolencia de dar
sempre á palavra
iman a
significação de
chefe do
culto, de
principal sacerdote
(sacrorum antistes)[47]:
foi o orientalista Von-Hammer
[48],
que sabe mais
das cousas mussulmanas, que toda a eschola arabica
de Lisboa desde a sua fundação até
hoje: foram
todas as exposições da
organisação religiosa
entre os mussulmanos, não só da Peninsula, mas
de todo o mundo.
Quinta: Digo ser
Ismar
corrupção de
Omar
ou de
Ismael.
É possivel que eu me enganasse: todavia,
porque não me fez o auctor do opusculo um favor
especial; porque não me citou na historia de
Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou
na de Al-Keiruani, onde se mencionam milhares
de individuos mussulmanos, um só que se chamasse
Ismar? Assim fico em duvida, e
desconfiado
de que tenhamos outra anecdota como a
d'
Iman.
Felizmente as provas não continuam. Se o auctor
proseguisse, temo que demonstrasse contra
mim que eu sabía arabe. Era um aperto em que
me punha; porque na realidade eu não sei decifrar
um unico daquelles engaços de passas, que
elle lithographou ao cabo do seu opusculo.
Passado o preambulo, o auctor annuncia que
vai provar-me pelos historiadores arabes que a
batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o
golpe fatal dado no dominio
mussulmano. Sancto
breve da marca! Sempre são mouros! Se tal
affirmam, digo ao illustre arabista que não os
acredite. Os monumentos christãos, ainda os mais
exaggerados, não contam tanto. O dominio mussulmano
ficou como estava depois da jornada
d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para
os seus estados, ao norte do Mondego, porque
sabía do officio de soldado. Sessenta annos de
lucta depois da bulha d'Ourique não bastaram
para expulsar de todo do actual territorio português
os mussulmanos. Apesar da celebre jornada
de 1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando
palmo a palmo a Estremadura e o Alemtejo.
Que
golpe fatal foi, portanto, esse
de Ourique?
Ah mouros, mouros! Isso é debicar com o
proximo.
Depois de citar o que eu refiro como introducção
á narrativa da batalha, o opusculo vem deitar-me
tudo por terra com um sopro. Errei a
chronologia, os nomes dos imperadores almoravides,
tudo. Oh peccador de mim!
Lá vai o texto do nosso academico arabico:
«Nada tem o facto de Ourique,
succedido no reinado
de Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este
Aly-Ibn-Iussuf foi o primeiro imperador da dynastia
dos morabethins e falleceu no anno 496 da Hegira, 1103
da era Christã...»
«Não foi,
portanto, no reinado de
Aly-Ibn-Iussuf, nem
durante o de Aly-Ben-Taxefin, que começou a
pretensão
do celebre El-Mohdy, mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly,
que succedeu a Aly-Ben-Taxefin, isto é, principiou
no reinado do III imperador e só tomou seu maior
incremento no meio do reinado do IV imperador da dynastia
dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin:
logo no reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi
a batalha de Ourique, não houve
revolução, nem politica,
nem religiosa, que distrahisse as tropas; o que tudo
confirmamos, convidando nossos leitores a que leiam os
capitulos desde 32 até 36 inclusivamente da Historia
Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por
Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim.»
Transcrevi todas estas blasphemias historicas,
para que se veja com quanta razão dou graças a
Deus de que a nossa lingua seja pouco conhecida,
e o que se deve esperar de uma academia onde
ha destes eruditos. Pús á vista de todos o corpo
de delicto. Vamos ao auto.
A serie dos imperadores almoravides que resulta
das precedentes passagens é a seguinte.
| 1.º
Aly-Ibn-Iussuf |
|
1103 |
(morto) |
| 2.º
Aly-Ben-Taxefin |
|
1139 |
(batalha d'Ourique) |
| 3.º
Taxefin-Ben-Aly |
|
(apparecimento do
Mahadi) |
| 4.º
Ibrahim-Ben-Taxefin |
|
|
|
Em que se funda o auctor? Que é o que cita
em seu abono?
Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia
de Assaleh-Ben-Abdel-Halim, ou Salihn Abd-Alihim,
conforme for em mouro a graça de sua mercê,
porque não ha dous arabistas que escrevam
um nome de gente do mesmo feitio.
Ora os capitulos citados
[49]
têem apenas o pequeno
inconveniente de se referirem ás primeiras
conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento
do seu dominio na Africa
na segunda
metade do seculo XI. É no capitulo 37 que
se
narra a primeira passagem á Hespanha de
Iussuf-Ibn-Tachfin e a victoria de Zalaka em
1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a
terceira em que Iussuf incorporou nos seus
dominios os estados mussulmanos da Peninsula,
que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf
foi o primeiro imperador almoravide d'Africa e
de Hespanha.
A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos
39 e seguintes da Historia de Assaleh-Abdel-halim
é:
| 1.º
Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido)
em |
|
1106 |
| 2.º
Aly-Ibn-Iussuf
(appel. Abu-Hassan) (fallecido) em |
|
1142 |
| 3.º Tachfin-Ibn-Aly
(morto
em) |
|
1145 |
Se o meu amigo comparar isto com o que se
diz no opusculo, não me ha-de acreditar. Tem
razão. É monstruoso, é incrivel,
é absurdo; mas
está la. Se quizer desenganar-se, procure a
versão
de Assaleh pelo padre Moura esplendidamente
impressa pela Academia em papel pardo e letra
safada. Veja o que diz o historiador arabe, o
que eu digo, e o que diz o opusculo. Depois julgue-nos;
e, ainda depois, faça idea do que irá
pela
Classe de Sciencias Moraes e
Bellas-letras
(ou, como quem o dissesse em português,
e
Boas-letras)
da Academia
[50].
É assim que esta gente salva a gloria nacional
e vindica a bulha d'Ourique contra a minha má
fé, contra o fel da minha critica.
A má fé é minha. Repare bem nisso.
Mas haverá outros textos de Abdel-halim, que
tenham alguns capitulos 32 a 36, que nos contem
essas historias do opusculo?
Na parte da
Historia do Dominio dos
Arabes
por D. J. Conde, relativa á dynastia almoravide,
o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte
do seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve
aproveitar-se com cautela. Todavia Conde era
incapaz de commetter um erro tão grosseiro
como transtornar completamente a chronologia
daquella epocha. Isto estava reservado para um
membro da nossa academia.
Eis o resumo da chronologia de Conde quanto
á dynastia almoravide
[51]:
| 1.º
Abu-Bekr-Ibn-Omar
(unicamente na Africa) |
|
2.º
Iussuf-Ibn-Tachfin,
fallecido na
egira
(1106-1107)
|
|
500 |
3.º Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na
egira
(1139-1140)
|
|
534 |
4.º Tachfin-Ibn-Aly fallecido na
egira
(1146-1147)
|
|
541 |
A ordem dos imperadores é a mesma. Conde
atraza dous annos a morte de Aly-Ibn-Iussuf e
adianta um a de seu filho. Ainda admittida a chronologia
Conde, a jornada de Ourique cai dentro
do reinado de Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira
534 correu de
agosto de 1139 a
agosto de 1140.
Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan
e Ibn-Al-Khatib consideram Iussuf-Ibn-Tachfin
como o fundador da dynastia almoravide. Eis a
chronologia seguida por elles:
| 1.º Iussuf,
fallecido na
egira |
|
500
(1106-7) |
|
| 2.º Aly, fallecido na
egira |
|
537 (1142-3) |
|
| 3.º Tachfin, fallecido na
egira |
|
539
(1144-5) |
[52] |
Já se vê que, segundo a chronologia de
Ibn-Khallekan
e de Ibn-Al-Khatib, a ordem da dynastia
é a mesma, e que o successo d'Ourique tambem
cai no reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre
Abu-l-Feda concorda com elles. «Na Egira de
500—diz Abu-l-Feda—morreu Iussuf-Ibn-Tachfin,
amir al-moslemin. Succedeu-lhe Aly
seu filho
(Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o titulo de
amir
al-moslemin, como seu pae
[53].»
Resta apontar o que resulta da narrativa do
principal historiador arabe do dominio mussulmano
Peninsula, Al-Makkari, ácerca da dynastia
almoravide:
| 1.º
Iussuf-Ibn-Tachfin |
|
1052 a
1106 |
|
| 2.º
Aly-Ibn-Iussuf |
|
1106 a 1143 |
|
| 3.º
Tachfin-Ibn-Aly |
|
1143 a 1145 |
|
| 4.º
Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin |
|
1145 a 1147 |
[54] |
Que tal parece ao meu amigo a erudição arabica
da parte sarracena da nossa Academia?
Nos arabes vê-se que se encontra exactamente
o contrario do que se lê no opusculo. Certamente
o auctor descubriu essa deliciosa historia dos
almoravides, que nos conta, nos escriptores
christãos coevos ou quasi coevos. Sempre era
gente que se confessava. Mouro e judeu mentem
por officio. Vejamos:
A chronica dos godos nas suas referencias aos
imperadores almoravides:
| 1.º
Iussuf |
|
(batalha de Zalaka) |
1085 aliàs 1086 |
| 2.º Aly-Ibn-Iussuf |
|
(cerco de
Coimbra) |
1117[55] |
A conimbricense:
| 2.º Aly |
|
(cerco de
Coimbra) 1117[56] |
Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII
mais instruido na litteratura arabe e christã da
Peninsula, estabelece para a dynastia almoravide
d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55
annos desde a Egira 484 até a Egira 539, a seguinte
chronologia:
| 1.º
Iussuf-Ibn-Tachfin
(principio da dynastia) |
|
1091-2 |
|
| 2.º Aly-Ibn-Iussuf |
|
|
|
| 3.º Tachfin-Ibn-Aly (fim da
dynastia) |
|
1144-5 |
[57] |
Ao
digno academico restam talvez
para estribar
as suas famosas historias
almoraviditicas (na
falta de arabes e christãos) alguns historiadores
tartaros, mongoles, ou chinas.
É provavel que seja assim.
Perdôe, meu amigo, estas extensas
citações.
Era necessario dar uma prova, que não admittisse
subterfugios, dos deploraveis, por não dizer
vergonhosos, extremos a que o desejo de me
combater tem levado certas pessoas.
O auctor do opusculo negou, com a mesma
sem cerimonia com que transtornou a serie dos
imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi (Mohammed-Ibn-Tiumarta)
começasse a revolução almohade
no reinado de Aly, e que nos ultimos annos
deste reinado, isto é, na epocha da batalha ou
recontro de Ourique, essa revolução houvesse
tomado um incremento irresistivel. Todavia são
os mesmos escriptores arabes que contam o successo
como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim,
em que elle finge estribar-se com uma
citação
falsa;
falsa, digo, porque tanta
confusão
involuntaria é moralmente impossivel. A narrativa
de Abdel-halim é, que em 1120 appareceu
o Mahadi; que de 1122 a 1125 já se achava com
forças para vir assentar campo perto de Marrocos;
que, tendo fallecido em 1130, tomou o commando
dos almohades Abdel-mumen, o qual foi acclamado
imperador em 1133, continuando guerra
incessante contra os almoravides até os destruir
[58].
É elle que, depois de narrar as victorias de Tachfin-Ibn-Aly
contra os christãos desde 1126
até 1137, refere que logo passara á Africa
[59].
Conde diz-nos que fora chamado por seu pae
ameaçado da ultima ruina
[60].
Habil e feliz general
contra os christãos, esta causa da sua partida
parece confirmada, não só pela razão,
mas
tambem pelo texto de Al-Khatib
[61].
Um monumento
christão, escripto por individuo do mesmo
seculo, a
Chronica Adefonsi
Imperatoris,
confirma e particularisa o facto. Narrando os successos
de 1138, diz que Tachfin levara comsigo,
retirando-se para a Africa, até os mosarabes e os
prisioneiros christãos para os oppôr aos
almohades
[62].
Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas
almoravides, quando a defesa de Marrocos o
obrigava a converter em soldados os proprios nazarenos
captivos? Destroem-se estes factos com
citações falsas? Como se explica o abandono
d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande
batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco)
no occidente da Peninsula entre almoravides
e portugueses, quando de Africa se não dispensava
um soldado para a salvação d'aquella chave
da fronteira musulmana? Que se póde dizer que
tenha um vislumbre de senso commum contra o
que a este proposito reflecti?
Quem dá documentos de má fé? Sou eu ou
os
meus adversarios?
Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico
arabe não vale a pena disso.
Depois d'estas façanhas, o auctor do opusculo
prosegue com accusações curiosissimas. Fora
extenso de mais citá-las todas. Uma d'ellas é que
chamo á serie dos imperadores almoravides
dynastia
lamtunense para explicar o apparecimento
das mulheres no recontro de Ourique, e para
taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor
faz a mercê de dizer-me que o vocabulo
lamtunense,
ou antes almolatamenense, não serve
para indicar covardia. Devéras? E eu que não
caía em nada! Isto é incrivel, amigo redactor da
Semana. Digo mais: era impossivel
haver quem
fizesse d'estas, se não houvesse academias. Chamei
aos principes almoravides
dynastia
lamtunense,
ou
lamtunita, porque todos os
historiadores
arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari,
Al-Khatib, Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o
para indicar valentia ou covardia tanto
como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raças
bereberes que serviram de nucleo ao imperio almoravide,
a de Lamtuna ou Lamta
[63]
era a principal,
e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide,
era da tribu de Masufah pertencente a
essa raça. Aquella phrase do opusculo
«
ou antes
almolatamenense», é deliciosa.
Como o nosso
arabista precisava de mostrar a sua pobre
erudição,
fez pouco mais ou menos este raciocinio:
«o auctor da Historia de Portugal denomina os
principes almoravides
lamtunenses;
eu digo-lhe,
ex auctoritate qua fungor que era
melhor chamar-lhes
almolatamenenses»: ora
como esta denominação
provinha de terem os almoravides cuberto
o rosto com veus de mulheres n'uma batalha,
e possa crer-se um epigramma contra o seu
esforço, embora elle não usasse de tal vocabulo,
devia usar, para eu poder reprehendê-lo por isso;
porque é uma violencia negar a um pobre escholar
arabico a occasião de mostrar
erudições
reconditas.
Sabe o meu amigo o que isto faz lembrar?
Faz lembrar o prégador que punha o barrete na
borda do pulpito, encarregava-o do papel do
diabo, e depois convencia-o á sua vontade. Vamos
a outro exemplo. No opusculo mourisco
affirma-se contra mim:
Que os principes almoravides usaram do titulo
de
amir-el-muminin[64].
A prova disto é curiosa, como tudo o mais. Os
almoravides usaram-no, segundo o opusculo sarraceno,
porque Abdel-halim diz que foi usado
duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas)
soberanos arabes de Cordova. Não o diz
Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o
que fizeram os ommiadas com o que fizeram os
almoravides? Isto, meu amigo, é incrivel! Acima
transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela
qual se vê que o titulo dos soberanos lamtunenses
era
amir-al-moslémin
(principe dos mussulmanos).
Ouçamos agora o sr. Gayangos: «Não
consta da historia—diz elle—que Iussuf-Ibn-Tachfin
ou algum dos seus successores tomasse
nunca o titulo de
Amiru-l-muminin,
que era reservado
para o khalifa, ou vigario do propheta no
oriente. Contentaram-se pelo contrario, ao que
parece, com o titulo mais modesto de
Amiru-l-muslemin,
ou
principe dos moslems (de Africa e
de
Hespanha). Os proprios sultões de Cordova, postoque
descendentes do tronco dos Benu-Umeyyah,
e tão intimamente ligados com a familia do propheta,
não se atreveram a tomar este titulo honorifico
emquanto a familia de Abbás não chegou a
ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda
assim, o uso desse titulo foi reputado sacrilego
por alguns theologos de Cordova e d'outras cidades
da Peninsula
[65]».
Effectivamente Abu-l-Feda
nos certifica que Abderrahman III «foi o primeiro
entre os principes ommiadicos do Andalus
que se arrogou o titulo de
amir-al-muminin proprio
do Khalifa[66].»
Isto não são citações
falsas. Por ellas póde ver
o meu amigo com quanta exacção eu escrevi
ácerca dos almoravides, embora não fosse esse o
objecto essencial do meu trabalho, e com quanta
leveza foi escripto o opusculo sarraceno destinado
a refutar-me. Não fica, porém, aqui o negocio.
O academico auctor do opusculo accusa-me
de ignorancia da lingua arabe e de historia por
dizer que os principes da dynastia almohade adoptaram
o titulo de khalifa ou de
amir-al-muminin,
porque, diz elle, o de khalifa só se deu aos imperadores
do oriente, e estas palavras khalifa
e amir-al-muminin significam diversas cousas.
Agradeço a ultima novidade; mas eu não escrevia
grammatica; escrevia historia, e, politicamente,
as duas expressões eram synonimas. Que
se pensaria de quem accusasse d'ignorancia de
grammatica e de historia aquelle que, falando do
imperador da Russia, dissesse «
o czar ou
autocrata?»
Por outra parte para o academico auctor
do opusculo affirmar que o titulo de khalifa se deu
ou não se deu aos principes mussulmanos do occidente,
ainda tem que estudar muito a historia
moslemica d'Africa e de Hespanha, cujos rudimentos
parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro
6 d'Al-Makkari, ahi achará que o imperador
ommiada de Cordova Abderrahmam III «foi o
primeiro soberano da sua familia que assumiu
os
titulos de khalifa e de amiru-l-muminin».
Se tambem
quizer saber se os principes almohades tomaram
ou não o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani,
e lá achará este periodo: «El-Mohdi
elevou
o khalifado para os que lhe
succederam
[67]»,
e mais
adiante, onde se conta certa anecdota do primeiro
imperador almohade, Abd-el-mumen, lerá que
um poeta da côrte dizia a outro: «Até
quando
importunarás tu
o
khalifa?»; porque é de advertir
que naquelle tempo havia poetas impertinentes,
como hoje ha criticos academicamente
originaes.
Mas, em consciencia, meu amigo, eu ás vezes
merecia ser feito socio effectivo da classe de
sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha simpleza
maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno
tanta mourisma, quando o proprio Abdel-halim,
que, segundo parece, constitue toda a
matalotagem arabica do
digno
academico, se lhe
rebella e tumultua dentro do bornal litterario
em que o traz mettido? E senão, ouçamo-lo. As
palavras mandadas ensinar ao leão e ao papagaio,
de que Abdel-mumen se serviu para os almohades
o acclamarem imperador, traduzidas
por Moura na sua versão de Abdel-halim, são
«
as victorias e o poder competem ao califa
Abdelmumen[68]».
É verdade que o auctor do folheto,
que repete a historia do leão e do papagaio,
não sei para me provar o que, traduz, em
logar de
califa,
successor. Mas aqui para
nós,
meu amigo, postoque eu não saiba arabe, apostava
que isso foi uma esperteza, e que naquella
expressão
algalifatu (ou,
como Moura lê,
el-califa)
anda o que quer que seja de
khalifa.
Estou com pressa de chegar ao fim, porque
temo fazer uma carta tamanha como o opusculo,
o que seria para o publico, em vez de uma desgraça,
duas. Mas faltou-me o animo quando fui a
saltar por cima do precioso paragrapho 8, que o
auctor destinou para me provar que Ourique não é
nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo,
que significa
adversidade ou
infortunio.
Sou, porém, nesta parte absolvido do peccado,
porque quem me deitou a perder foi o padre
Moura, conforme resa o folheto. Ao menos,
valha-nos isso! A consequencia, todavia, immediata
deste importante descubrimento, que o digno
academico fez, é exactamente a contraria da
que elle desejava. Se assim é, torna-se impossivel
achar jámais uma passagem de auctor arabe
que se refira com certeza ao conflicto de Ourique.
Embora até aqui não tenha apparecido essa
passagem, podia ainda apparecer; mas desde
que a palavra ourique (tirei-lhe o
O
maiusculo,
não pensem que teimo em fazê-la nome proprio)
significa só
adversidade
ou
infortunio, o caso
muda de figura. O combate que Affonso I teve,
no fossado de julho de 1139, com os mouros
do Alemtéjo é um facto provado pelos testimunhos
que eu colligi; o que não está provado,
nem se ha de provar nunca, é que elle fosse um
successo importante. N'algum escriptor arabe,
ainda inedito, que particularisasse muito os
acontecimentos de Hespanha naquella epocha podia
vir mencionado o recontro do
campo de
Ourique;
mas como o auctor do opusculo não
consente que esse pobre
o tome as
dimensões de
letra maiuscula, qualquer passagem que appareça
ha de ser traduzida pelos arabistas da seguinte
maneira: «Houve em 1139 um combate entre
os moslems e os infieis
no campo da adversidade
ou do infortunio». Ora como nesse anno, do
mesmo modo que nos antecedentes e consequentes,
houve muitos recontros entre os christãos
e os mussulmanos, segue-se que não saberemos
a que conflicto allude o auctor arabe;
porque todos os campos de combate são de adversidade
ou infortunio para um dos contendores,
e talvez para ambos. Realmente este modo
de defender a importancia da batalha de Ourique
é galantissimo.
O que, porém, é verdadeiramente academico
e digno do pincel de Molière é o que pondera o
auctor do folheto sobre o erro de Moura ácerca
da etymologia de Ourique. «É bem clara—diz
elle—
ainda para os que não sabem
arabe, a
nenhuma analogia que se nota
com o
ouvido
entre
orique e
arique». Agora, quer o meu
amigo saber com que palavra arabe
orique se parece
muito? É com
araka. Isto
não precisa de
commentario. Nas contendas dos nossos rapazes
ácerca da Stoltz e da Novello, quem devia dar a
sentença definitiva era o illustre arabista. Proponham
a questão á Academia.
Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o
folheto vem neste mesmo paragrapho. É uma
novidade que escapou a todos os etymologistas
e ethnographos. Na translação das palavras de
umas linguas para as outras, ellas se transfiguram
com a irregularidade que necessariamente
resulta da ignorancia das multidões, que são
quem ordinariamente faz essas adopções de termos
peregrinos. As proprias transformações das
linguas são assim, e assim foi que a latina se
transformou nos modernos idiomas da Europa
occidental. Nestas mudanças e adopções
não ha
letra que não possa alterar-se; e basta ter uns
rudimentos de linguistica para não o ignorar.
Agora ouça o meu amigo um mysterio da lingua
arabe: «Moura—diz o opusculo—foi buscar a
raiz de tal vocabulo no verbo
araka,
cuja primeira
letra radical, que é um
alif,
não soffre a conversão
para a letra
o nas linguas
europeas». Isto
quer dizer que aos rudes portugueses do seculo
XII, que escorchavam sem piedade quantas letras,
quantas palavras celticas, phenicias, gregas,
romanas, germanicas lhes caíam nas unhas,
era prohibido tocar no
alif, especie
de
noli-me-tangere
arabico. Certamente, meu amigo, no alcorão
ha uma sura intitulada «
Dos escorchamentos
etymologicos» onde o propheta diz:
«Todo o
infiel nazareno que bulir na sancta letra
alif para
della engenhar um dos seus maldictos
ós, vai preso».
Foram peccados meus que me impediram
d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me
embair por aquelle herege do padre Moura,
que pelo que vejo, era um pessimo sarraceno.
Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu
amigo, o gallicismo, mas como isto ha de ser lido
pelo digno academico arabista membro da classe
de sciencias moraes e bellas-letras, elle entenderá
assim melhor a phrase); vem uma longa chicana
sobre as palavras
fossado,
correria,
entrada, e
não sei que mais, em que o auctor desenvolve
uma erudição pasmosa em diccionario de Moraes.
Chamei fossado á expedição de Affonso
I em
1139, porque todas as etymologias do mundo não
podem fazer com que uma cousa deixe de ser o
que é. O fossado era uma expedição que
se fazia em
regra todos os annos no começo do verão
ás terras
inimigas: questionar sobre isto não sería mais
do que mostrar-se profundamente ignorante das
nossas cousas antigas.
Correria
é um nome que
cabe ao fossado tão bem como
expedição;
porque
correria é uma especie do genero
expedição, mais
nada. Quem faz uma expedição, fossado, ou
correria
no territorio inimigo, entra nelle (emquanto
o alcorão ou a Academia não mandarem o contrario)
e por consequencia faz uma
entrada.
Não é
uma miseria, além disso, affirmar-se n'um papel
que tem a pretensão de ser cousa séria, que
eu me contradigo, porque, chamando correria ao
fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a
idéa de que os mussulmanos hespanhoes buscaram
em si proprios recursos para atalhar o passo
aos invasores na falta das tropas almoravides,
visto que (diz-se ahi), sendo a correria um acto
repentino, os mussulmanos não podiam precaver-se?
Que resposta séria se póde dar a isto?
Fique-se entendendo que quando um paiz é invadido
rapidamente, os habitantes deixam-se matar
como carneiros e não se unem para se defenderem,
ou que os soldados que fazem correrias,
não andam, mas voam, ou vão em aerostatos descer
aonde e quando querem sem que ninguem os
veja passar. Dizer que no fossado de Ourique não
houve audacia, a ser como eu o narrei, embora
as tropas almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem,
é cousa tão absurda, quanto é certo
que
essa expedição importava uma longa marcha de
cincoenta leguas (que tantas irão de Coimbra ao
campo de Ourique) quasi toda por paiz inimigo,
porque, como bem observa a chronica dos godos,
Ourique ficava
no coração das
terras mussulmanas.
Qualquer cabo de esquadra sabe que difficuldades
se offerecem á marcha de tropas, embora
disciplinadas (como de certo não eram as de Affonso
I) atravez de um paiz excitado contra essas
tropas pelo fanatismo politico e religioso. O principe
português deixava, além disso, na sua retaguarda,
por um e por outro lado, logares importantes
fortificados, e bem ou mal guarnecidos,
taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas,
Evora, etc.; o que tornava a volta de Affonso I
aos proprios estados duplicadamente arriscada.
Emfim, meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens
intelligentes avaliar se o fossado de Ourique,
com as poucas circumstancias que delle
sabemos, embora não tivesse as dimensões que
lhe attribuiram depois, foi ou não foi um acto de
bastante ousadia.
De passagem, meu amigo, deixe-me protestar
contra um falso testimunho que me levanta o
auctor do opusculo, quando, citando textualmente
as minhas palavras, me attribue o uso do
vocabulo
derrota por
destroço ou
desbarato (dos
sarracenos em Ourique). Não escrevi o meu livro
para se inserir nas actas da Academia: escrevi-o
para o publico português, e por isso na
sua lingua, ao menos até onde eu a sabía.
Vamos á questão principal. Para a tractar
não
me parece que fosse necessario accumular previamente
tanta inexacção e tanto desproposito.
Eu tinha affirmado que os diversos escriptores
arabes que nos transmittiram a historia daquella
epocha guardaram silencio ácerca da batalha de
Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma
a proposição
contraria, isto é, que
nesses diversos
escriptores arabes se encontram, não só
vestigios della, mas tambem a sua
descripção,
e as suas
consequencias terriveis.
Algum de nós, pois, engana o publico; algum
de nós commette uma acção indigna de
homens
de letras affirmando uma cousa opposta á verdade.
Eu consultei os historiadores arabes que
escreveram a historia do dominio mussulmano
na Peninsula, e que estão traduzidos. Era essa
unicamente a minha obrigação, porque
não sei
arabe. O auctor do opusculo
devia
tê-los visto
antes de escrever, e
podia ter lido
outros, porque
diz que sabe arabe. Se a minha narrativa
fosse conforme com os primeiros comparados
com os monumentos christãos, e o auctor achasse
que esses não-traduzidos os desmentiam, devia
provar que o seu testimunho era preferivel
ao delles e ao dos monumentos christãos,
sendo accordes uns com outros. Sem isso nada
tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa de
Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e
Conde, e esta narrativa concorda em geral com
a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda
no seculo XII ou nos começos do XIII. Das
tres fontes historicas resulta ou não resulta o
que eu disse? Resulta ou não resulta, que antes
de julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido
para Africa, levando comsigo as tropas
que pôde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos
christãos? É verdade que o cerco de Aurelia
ou Cazorla durou
de abril a setembro ou
outubro[69]?
É verdade que os seus
defensores pediram
debalde soccorro a Tachfin,
que se achava
então em Africa? São, portanto,
bem deduzidas
as minhas inferencias de que é absurdo imaginar
que havia trezentos ou quatrocentos mil mouros
para saltarem por cima do exercito do imperador
Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a
Affonso Henriques, e não os havia para descercarem
uma praça daquella importancia? É para
responder negativamente a estas perguntas de um
modo tão categorico como eu as faço, que desafio
o auctor do opusculo sarraceno.
Ao que se colhe dos monumentos christãos e
mussulmanos coevos ou quasi coevos
[70]
que textos
exquisitos e reconditos vem, porém, oppôr
o
digno academico? Vejamos:
Um mouro chamado Hamed-el-Nabil,
que viveu
no principio do seculo XVII, vindo a Hespanha,
escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da
epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as
palavras seguintes, que vou transcrever, porque
gósto de apresentar o corpo de delicto:
«E dizem alguns dos sabios precedentes
sobre
o governo da Andaluzia (
sic) que
ella muito se
engrandeceu:
e na verdade conquistou com boa
posse (
sic) muitos
dos logares
os
(
sic) mais notaveis:
e foi isto depois que l'Enrick
derrotou os
mussulmanos; (
sic) não
persistiram estes depois
disso no paiz senão quando obravam pacificamente;
e
por isso
(
sic) ficaram os
christãos neste
paiz senhores de suas terras e de suas riquezas
(
sic),
(
sic),
(
sic).»
O meu amigo ha de ficar espantado quando
souber que nesta salsada, que até certo ponto
simula lingua portuguesa, ha,
não
só claros vestigios
da batalha de Ourique, mas tambem a
descripção
della e das suas consequencias. Pois
saiba
que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes
antes de se imprimir o opusculo sarraceno,
se dizia pelos cantos, que na Academia se lera
uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo
d'alguns daquelles padres-conscriptos, porque
ahi se me provava com textos arabes que eu
não soubera o que tinha dicto quando falei com
tanta irreverencia e falta de patriotismo nesse
facto d'Ourique. Rogia-se de um papel achado
n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas
as minhas opiniões aereas. No fim de contas
era o sr. Hamed, que no principio do seculo XVII
tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi
vê em meio-mouro. Realmente a cousa é
séria,
sobretudo exornada com as erudições e
commentarios
do traductor, a quem Deus dê alguma
inclinação mais proveitosa do que esta de
traduzir
para lingua franca os itinerarios dos viajantes
marroquinos.
Pretende-se nesses commentarios que o mouro
Hamed, na phrase relativa a l'Enrik (que é
possivel seja Affonso Henriques) se refira aos
mesmos escriptores a quem, sob o nome de sabios
precedentes, allude no principio do periodo,
e que por sabios precedentes se devem entender
antigos escriptores sarracenos, porque os arabes
servem-se da palavra
ulmá-i para significarem
os
seus historiadores. Vamos por
partes. Se o
sr. Hamed escreveu
sabios
precedentes, é porque
já tinha dicto quem elles eram: nesse caso,
em vez de uma dissertação ácerca da
palavra
ulmá-i,
não seria mais simples e mais a proposito
dizer-nos o traductor os nomes delles? Teriamos
a Bibliotheca de Haji-Khalfah traduzida por
Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos
as notas de sr. Gayangos á versão de Al-Makkari,
notas preciosas como fonte de erudição
arabica; teriamos, emfim, estes ou outros
recursos para sabermos que importancia deveriamos
dar aos
sabios precedentes como
auctoridades
para os successos do seculo XII, que era o
que importava. Hamed ou trinta Hameds, que
vivessem em tempos modernos ou houvessem
vindo a Hespanha e repetissem o que por cá tivessem
ouvido ácerca do recontro d'Ourique ou
de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500
annos antes, provariam tanto a favor della como
a
precedente
traducção prova que o auctor do
opusculo sabe grammatica e conhece a indole da
nossa lingua. Suppondo, porém, que Hamed se
refira no principio do periodo a historiadores
arabes, e que esses historiadores sejam assaz
antigos, o que é certo é que a phrase relativa a
l'Enrik não é dos taes
sabios
precedentes, mas
do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu
amigo sabe bastante da lingua franca para ver
que desde as palavras «
e na
verdade» não são
os
sabios precedentes, mas sim o
proprio Hamed,
em corpo e alma, quem fala; quem parece
querer confirmar com o seu testimunho o dicto
delles, se é possivel perceber aquelle
imbroglio
que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade
maior é que o proprio texto está provando que
Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a
facto algum especial, se refere em geral ás victorias
e conquistas de Affonso I, (se é que se refere
a isto) as quaes ninguem contesta, e que eu
particularisei com a miudeza e exacção, a que os
sabios precedentes, os
ulmá-i da nossa terra,
não tinham chegado. Se Hamed se referisse a
Ourique falando do desbarato dos mussulmanos
por l'Enrik, tudo o mais que vem na passagem
seria um rol de mentiras; porque as consequencias
materiaes desse recontro foram nenhumas.
Como já disse, Affonso Henriques voltou aos
seus estados sem conquistar um palmo de terra,
e foi annos depois que submetteu a Estremadura
e o Alemtéjo, ficando no paiz os mussulmanos
que curvaram a cabeça ao jugo christão.
Aqui tem o bom redactor da
Semana o
que é
e o que vale o papel da tenda de Marrocos, que
devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos
monumentos coevos, e em argumentos de congruencia
irresistiveis. É o dicto vago e obscuro de
um viajante moderno, dicto que se torce para se
fazer com que o pobre mouro diga aquillo em
que nem sequer pensou. Que terra esta nossa,
meu amigo, em que o auctor de um livro serio é
ás vezes obrigado a acceitar o triste encargo de
refutar taes miserias!
O famoso texto do viajante marroquino é reforçado
com um contraforte tirado do Abdel-halim
do uso particular do auctor do opusculo; digo
do uso particular, porque nem em Conde, nem
em Moura se encontra semelhante passagem, nem
no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos
ver o texto
inedito de Assaleh ou de
Ibn-Abi-Zara,
que o meu critico trouxe á luz do dia:
«E neste anno 533 (8 de septembro de 1138
a 27 d'agosto de 1139) desbaratou o general Taxefin
as multidões dos christãos
nos
campos de
Attibbat; e fez perecer delles um numero
extraordinario;
e levou de seus prisioneiros
seis mil captivos:
em consequencia do que partiu para Marrocos,
e á sua chegada
lhe saiu ao encontro seu
pae, o imperador dos mussulmanos,
que ficou em
profundo desgosto e cheio de grande susto.»
No capitulo 33 do Karttás traduzido pelo padre
Moura não vem esta passagem. Entretanto não
devo crer que o auctor do opusculo a inventásse.
Cumpre suppôr que elle se serviu de algum
exemplar mutilado, viciado, ou extremamente
incorrecto da obra de Abdel-halim. Na versão de
Moura é no capitulo 40 que se contém as ultimas
acções do Tachfin na Hespanha, antes de partir
para a Africa. Eis o que ella nos diz:
«No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7
de septembro de 1138) passou o principe Taxefin
de Hespanha para a Mauritania, depois do ter
combatido e tomado de assalto
a cidade de
Segovia,
levando comsigo
seis mil captivos; e
tendo
chegado a Marrocos
veio seu pae
encontrá-lo com
grande pompa e
se alegrou com elle,
etc.
[71].»
As duas passagens são, se não identicas, por
certo parallelas. Tracta-se em ambas da partida de
Tachfin para a Africa, depois de obtido um triumpho
em que captivou seis mil homens. A differença
está nas circumstancias, e
na
data. Qual dessas
se deve preferir? Vejamos.
Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente:
mas põe-na como immediata á
reducção
de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro
de 1136 a 18 de septembro de 1137) e assim
concorda com Assaleh quanto ao anno da partida,
visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins
de 531, a saída do principe almoradive para a
Africa devia verificar-se já em 532, isto é, nos
fins de 1137 ou nos principios de 1138.
Com esta data concorda o auctor da chronica
de Affonso VII, mencionando a partida de Tachfin
para além-mar entre os successos de 1138, e descrevendo
a mensagem que lhe enviaram á Africa
os defensores de Aurelia durante o cerco posto a
esse castello por Affonso VII