CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia
CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia
A construcção, exceptuando a pequena saliencia da
ábside principal, está circumscripta n'um vasto
quadrado
de 77 metros de lado, como se vê da seguinte
planta, limpa das excrescencias de origem turca.
A disposição interna offerece tres naves, a do
centro
muito larga e alta em relação ás
lateraes. A cobertura
d'esta nave central constitue um dos caracteres
principaes da architectura byzantina. No meio
d'ella desenha-se um grande quadrado de 31 metros
de lado, exactamente a largura da nave, definido pelos
angulos internos de quatro enormes pilares muito
elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes
arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos
d'estes arcos, ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro
é, portanto, egual ao lado do quadrado. O espaço
vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos de
circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que
ella assenta, foi cheio, formando uma superficie concava
e triangular, gerada pela curvatura da cupula
descendo ao longo dos arcos. Esta construcção,
facilitando
a passagem da figura circular da cupula para a
quadrada dos pilares, constitue quatro enormes
pendentes,
que ligam a mesma cupula aos arcos, sobre
que ella repousa.
Esta disposição, muito caracteristica,
comprehende-se
com facilidade, estudando o anterior córte, feito
pelo centro da cupula e perpendicular ao eixo maior
da nave central.
Para o oriente e para o occidente—porque o eixo
principal da egreja tem esta
direcção—duas
semi-cupulas
firmam-se nas paredes externas e encostam-se
aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso;
assim fica fechada a cobertura da nave central. O
templo era, pois, orientado; a luz da madrugada espalhava-se
na grande nave, durante as ceremonias
religiosas, em geral matutinas. Esta orientação
apparece
mais tarde no Estylo Romanico. Vamos, assim,
fazendo desde já simples
approximações.
Os grandes arcos lateraes da nave principal foram
cheios por paredes, onde se abrem arcadas de volta inteira
sobre as columnas do primeiro e segundo pavimento
das naves secundarias; por cima d'estas galerias
a egreja recebe luz directa de janelas, abertas
para o exterior e deitando sobre os terraços das mesmas
naves, cobertas por abobadas de volta inteira.
Assim, o corpo central do edificio apparece definido,
mais elevado do que os collateraes, recebendo luz de
fóra. Se o Estylo Latino deixou aqui reminiscencias
das galerias sobrepostas para separação dos
sexos, a
disposição tambem faz lembrar as naves centraes
mais
elevadas dos templos romanicos e ogivaes. Na parede
oriental, sob a semi-cupula respectiva, rasgam-se tres
ábsides, das quaes a do centro, um pouco saliente do
edificio, era o
sanctuario. Na
parede occidental em
frente das ábsides, existem as tres portas de entrada,
precedidas de um duplo
narthex,
reminiscencia do
porticos dos templos classicos, adoptados tambem pelo
Estylo Latino.
Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente
illuminado por numerosas janelas de volta inteira,
relativamente pequenas, existindo na base da
grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta
d'estas janelas, que lhe dão um aspecto singular
de elegancia e de levesa, teremos esboçado singela
descripção architectonica, que, sem
confusões e incertezas
segundo pensamos, dará idéa do edificio e das
feições caracteristicas do Estylo Byzantino, que
Santa
Sophia traduz magistralmente.
Sem falarmos por emquanto na ornamentação,
devemos
concluir que o primeiro caracter evidente d'este
estylo é a cupula. Como quasi todos os elementos
fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no
mundo antigo. Constitue uma especie de cobertura,
que os grandes constructores e architectos da antiguidade
deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo,
principalmente nos climas muito quentes, de longas
estiagens e por isso de poucas florestas, que economicamente
fornecessem madeira para construcções.
Póde
servir isto de exemplo para as influencias do clima
sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim,
tambem
a ogiva, por outras rasões especiaes, deve ter
sido conhecida pelos bons architectos e constructores,
porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.
A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural
e logico. Mas não póde existir a menor duvida em
que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda
hoje na cidade eterna A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem;
é natural
e logico. Mas não póde existir a menor duvida em
que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda
hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de
Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal
jazem os restos mortaes de Victor Manuel I, o unificador
da Italia. O auctor d'este livro admirou esta
soberba cupula, que produz espanto pela perfeição
da
construcção arrojada, tão excellente
que resistiu á
acção de dezenove seculos, porque foi edificada
no
imperio de Augusto. Se a cupula de Santa Sophia
admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon
causa assombro porque a excede em grandeza. É toda
de pedra talhada e tem 43 metros de diametro; no
alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande abertura
por onde o templo recebe a luz.
CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia
CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia
Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos
que não ignoram o principio da
evolução da arte e da
sciencia de construir, que uma maravilha d'estas não
póde constituir um producto esporadico n'uma
civilisação.
Roma conhecia este systema de construcção,
porque o empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia.
É regra logica e segura. Verdade seja que o Pantheon
é um templo circular, precedido de um simples portico
de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda
sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se
sobre quatro pilares, com auxilio dos
pendentes.
Eis a caracteristica differença.
D'esta fórma especial de construcção,
que provavelmente
foi empregada nos tempos mais remotos em
Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou n'outro
ponto preferida por condições locaes,
é que não se
encontraram, até hoje, vestigios no classico romano
e no hellenico. A
cupula de
pendentes é, pois, um dos
caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino, herdado
de estylos antiquissimos.
Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na
Egreja do Sagrado Coração de Jesus, vulgarmente
denominada
da Estrella. A cobertura interior do cruzeiro,
quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é
uma cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos.
A unica differença, aliás secundaria, consiste em
que a cupula repousa sobre um corpo cylindrico, entreposto
entre ella e os arcos, em cuja superficie se
abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas
repousavam directamente sobre os arcos sem
interposição
do tambor cylindrico; dizemos em geral, porque
nos pareceu que esta interposição, embora pouco
accentuada,
se dá na egreja de S. Marcos de Veneza,
sem, todavia, o podermos affirmar com plena
convicção.
A ornamentação de Santa Sophia era tambem
caracteristica.
A vontade omnipotente do Imperador, secundada
pelo espirito respeitoso—iamos a escrever
servil—dos funccionarios das suas vastas provincias,
fez saquear os templos pagãos do oriente, como tambem
se praticára no occidente, para enriquecer o novo
templo, o emulo do antigo templo de Salomão. A historia
relata a este respeito espantosos factos de
espoliação
e destruição dos antigos templos classicos de
Palmyra, Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades.
Ora, as depredações n'este caso exerceram-se nos
thesouros immensos da arte hellenica e oriental; emquanto,
no occidente, o Christianismo encontrou a
mais modesta arte do classico romano. Comprehende-se,
pois, a enorme differença da
ornamentação das
egrejas nos primeiros estylos christãos.
Os mais ricos materiaes foram empregados com
profusão. Marmores rarissimos e finos, o porphyro,
o granito e a malachite constituiam as columnas e
forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse
luxo asiatico, em que a prata, o
ouro e até as pedras
preciosas se revesavam com os grandes mosaicos orientaes
de fundo dourado ou de azul escuro, revestindo
as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo
passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas
reaes e symbolismos diversos, onde as figuras
appareciam com desenho incorrecto, sem vida e movimento,
em grupos symetricos, expressões hieraticas
de uma arte crystallisada, que perdera as
tradições
do grande estylo e não estudava a natureza.
A magnificencia dos objectos do culto attingiu
proporções
phantasticas em Santa Sophia.
Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar
era feito de uma singular liga de ouro, prata e perolas
e pedras preciosas reduzidas a pó. As suas quatro faces,
cobertas de baixos relevos byzantinos, brilhavam
rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas
de todas as especies.
Este altar era coberto pelo
ciborio
em fórma de
torre, cujo docel de ouro massiço repousava sobre
quatro columnas tambem de ouro e prata, entre as
quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro
com a cruz grega. No interior do ciborio, pendente
do docel e como pairando sobre o altar, uma pomba de
ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia,
onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este
conjunto refulgia de perolas e gemmas preciosas.
O
sanctuario fôra separado
do corpo da egreja por
uma alta divisoria de prata, sustentada por doze columnas
de ouro. Nas grandes superficies de prata
d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras
de santos e lavores de caracter byzantino.
Quasi no centro da nave central, em frente do altar,
um enorme
ambon de fórma
circular, em recinto
vedado, servia de côro para as dignidades ecclesiasticas
e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto
por um docel de metaes preciosos, encimado de uma
grande cruz de ouro, recamada de granadas e perolas;
este docel firmava-se sobre oito columnas de marmore.
De marmore e recamadas de ouro eram tambem as
escadas de accesso do ambon.
Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se
prodigalisado a prata, o marmore, o marfim e o cedro.
Emfim, todos os restantes objectos do culto, por mais
secundarios que fossem, manifestavam riqueza deslumbrante,
accusando a tendencia oriental de carregar
as linhas e as fórmas estheticas com pesados ornamentos,
encrustados de gemmas e metaes preciosos.
Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo
isto: columnas e paredes de finissimos marmores polidos,
mosaicos de fundo de ouro revestindo as abobadas
das cupulas e das absides, espalhando-se pelos
pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros,
os altares, o ambon e os objectos do culto divino
recamados de pedrarias, as grades e divisorias de
prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental,
rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de
metaes preciosos ricamente cinzelados!
Esta impressão extraordinaria, embora não
comparavel,
sentiu-a um dia o auctor d'este livro ao entrar
n'uma festa religiosa, em S. Marcos de Veneza; occorrendo-lhe,
n'esse momento, a bella e rigorosa phrase
de Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta
em tudo do que o foi a de Santa Sophia, tinha
reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse uma
grande
caverna de ouro!
Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a
Egreja de Santa Sophia de Constantinopla, ainda hoje
rica e soberba apesar de saqueada pelos turcos de Mahomet
II, se não pelo proprio Mahomet; egreja, transformada
em mesquita, que os dignos descendentes dos
conquistadores cobriram de estuques com arabescos
orientaes e versiculos do Alcorão!
D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se
os caracteres, ou melhor as feições do Estylo
Byzantino;
devemos, porém, entrar ainda n'este ponto em
alguns pormenores.
A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes
disposições. Démos a de Santa Sophia,
falaremos
ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna, edificio
coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de
um octogono regular; a grande cupula central repousa
sobre oito pilares internos, dispostos nos angulos do
polygono, deixando entre si e as paredes da egreja
uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos
eixos principaes dos dois corpos da egreja, o que termina
na abside e o que ao meio lhe fica perpendicular.
É claro que n'este caso os pendentes são pequenos
e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos
fossem os lados do polygono.
Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla,
a nave principal, tendo em comprimento
o triplo da largura, é cortada ao meio por um transepto
perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas
de pendentes eguaes cobrem esta superficie,
representando uma verdadeira cruz grega. S. Marcos
de Veneza é uma imitação d'esta
egreja. Sem multiplicarmos
os exemplos, poderemos estabelecer como
tendencia geral a maior ou menor approximação da
cruz de braços eguaes, a do estylo grego.
No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se
pesados, austeros e simples, pelo menos nos tempos primitivos.
A cupula principal eleva-se e predomina sobre
as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo
na tendencia horisontal das outras coberturas.
A construcção respira estabilidade e solidez. As
janelas são pequenas, segundo o uso oriental, muito
numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo
ás vezes a fórma de ferradura tão
usada no Estylo
Arabe, que afinal teve tambem muitas das origens
do byzantino no mundo oriental.
O interior respira a riqueza, que manifestou em
grande escala a egreja de Santa Sophia. A
ornamentação
é caracteristica; mas, na
realidade, são as
cupulas
de pendentes, os
mosaicos orientaes, as
arcadas
sobre columnas, os
capiteis, e os
arcos geminados, que
melhor definem o Estylo Byzantino, alem de outros
que já descrevemos e vamos enumerar. Observaremos
que um grande numero d'estes elementos, não todos,
serão empregados depois nos Estylos Romanico
e Ogival.
Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito
vivo, representam em grandes quadros, principalmente
nas cupulas, nos pendentes e nas abobadas das
absides, motivos sagrados ou profanos em que entram
poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é,
porém, hierarchica, secca e fria. Em geral, o desenho
manifesta singulares intenções de symetria. As
personagens
não têem vida e movimento; parecem, se nos
consentem a expressão, multidões de manequins,
dispostos
em maus quadros scenicos. Este espirito byzantino
da arte influiu, de certo, nos pintores e nos esculptores
occidentaes, nos periodos romanico e ogival.
A ornamentação profusa inspira-se nas artes do
Oriente, offerecendo fórmas curiosas e originaes. Os
capiteis, por exemplo, são de extrema diversidade.
Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos:
cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas
de arestas salientes, ás vezes dois sobrepostos,
como succede na egreja de Ravenna. A sua
ornamentação
manifesta, tambem, caracteres diversos, em que
predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados
de folhas phantasticas, graciosos lavores abertos que
parecem ornados de pedrarias. Ás vezes, aves e animaes
de singulares aspectos, vasos e cestos, completam
esta profusa ornamentação, em que foram
abandonados
e esquecidos o gosto e as proporções classicas.
No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a
pintura, apresentam-se decadentes, padecem quasi de
eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem os
córtes
largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras
e saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas
byzantinos lavravam frouxamente a pedra. Parecia
empregarem mais o buril do que o escopro;
foram mais gravadores de metaes do que esculptores
de pedra.
É evidente que todos estes caracteres byzantinos
tiveram profunda influencia sobre os dos Estylo Romanico
e Ogival, onde muitos apparecem, mas já tratados
com outro vigor e largueza.
Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo
Byzantino, que o calor do Christianismo fez brotar
vigoroso e esplendido do fertil solo da arte hellenica
e oriental.
CAPITULO
TERCEIRO
ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS
CHRISTÃOS PRIMITIVOS
Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as
energias quasi moribundas da arte grega e oriental, e
da romana, creára dois formosos estylos; correspondendo,
na realidade, a expressões definidas do bello
nas duas maiores civilisações, em que
então se dividia
a Humanidade.
O Estylo Latino nascera primeiro, começando a
constituir-se logo após a saída do Christianismo
das
Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino levou-o
comsigo e implantou-o na sua nova capital,
Constantinopla, que teve, pois, como o occidente, as
suas basilicas, entre as mais importantes a dos Santos
Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de Santa
Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou
no grande templo byzantino, descripto no capitulo
anterior.
No periodo de formação do Imperio do Oriente,
isto
é, desde Constantino até Theodosio, o Estylo
Latino
desenvolveu-se com maior ou menor intensidade, salvo
n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo
vencido, que se encarnou no imperador Juliano.
O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades
exigidas pelo
meio grego e oriental,
nem as basilicas
classicas, de que elle derivava, eram muito vulgares
no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio
clima não aconselhava coberturas de madeira, que
o doce e temperado clima da Italia e a tradição
conservaram
no primitivo estylo. Como as plantas exoticas
teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo Latino,
nascido no occidente, não encontrando no oriente
condições favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco
e por
fim desappareceu sob a influencia de elementos architectonicos
mais poderosos, porque eram harmonicos
com o
meio natural e social, para
onde o Estylo Latino
fôra transplantado.
Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se
em harmonia com esse
meio natural e
social, não podia
repudiar os elementos architectonicos fundamentaes
do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos
com os seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades
e exigencias do espirito christão, que, sendo origem
commum de ambos, imprimira á Arte novas
feições
em situações differentes.
De facto, não é difficil observar que o Estylo
Byzantino,
apesar da sua originalidade, se apropriou de
alguns caracte
De facto, não é difficil observar que o Estylo
Byzantino,
apesar da sua originalidade, se apropriou de
alguns caracteres fundamentaes do Latino; muito embora,
como em breve diremos, a fusão d'estes estylos
se devesse realisar mais tarde sob a acção do
elemento
barbaro, que não podia deixar de manifestar profunda
influencia sobre a architectura christã, visto que a
teve decisiva e innegavel na constituição das
sociedades
medievaes.
Uma observação interessante na
formação do Estylo
Byzantino consiste em que a sua maior obra,
nunca depois excedida nem até egualada, Santa Sophia
de Constantinopla, parece ter apparecido como
um facto esporadico e uma creação inspirada dos
architectos
gregos; a verdade é, porém, que o Estylo
Byzantino não fugiu á lei de todas as
producções humanas,
tendo uma formação lenta e evolutiva. Existem
e existiram edificios, que constituem verdadeiros
marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos
constructores
de Santa Sophia, apenas a precipitou,
dando-lhe
a apparencia de uma verdadeira revolução nos
estylos
architectonicos.
É logico suppôr que o periodo de verdadeira
constituição
do Estylo Byzantino deve ter começado quando
Constantinopla foi declarada capital do Imperio. O
desenvolvimento de uma nova phase da arte exige
sempre elementos de actividade social e de riqueza,
que só poderam reunir-se quando a
administração geral
do Imperio concentrou no oriente todas as forças
creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.
Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido,
offerecendo a sua mais perfeita expressão no
templo de Justiniano.
O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra
de arte tão perfeita e rica do Estylo Byzantino tinha
de exercer forçosamente profunda influencia sobre a
arte occidental. Não só as egrejas e as
construcções
byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos
dominios do Estylo Latino e a invadir a Italia, na
parte que então constituia um Exarchado do Imperio
do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo
estylo, principalmente no sul da Europa.
Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta
dispersão, que reinou na Italia, no sul da França
e
chegou até á Allemanha, as duas
nações que mais
tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e
ogivaes. As relações de todas as ordens, entre o
occidente
e o oriente, eram activas n'esses seculos.
Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes
caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar
mercadorias, atravessavam a extensa zona, onde florescia
o Estylo Byzantino, tendo um dos seus grandes
caravansarás em
Constantinopla.
Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento
dos peregrinos occidentaes para os logares santos
na Palestina, onde florescia o Estylo Byzantino,
até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem,
que serviu depois de exemplar a tantos outros.
As descripções, sempre um pouco imaginosas dos
viajantes,
adornavam o novo estylo de magnificencias
e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.
Estas causas, só por si explicam a influencia da
ornamentação
oriental sobre a arte do occidente; a acção,
porém, tinha de ser mais completa. Assim, ainda
durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico,
no curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo
Byzantino começou a invadir a Italia. A Egreja
de S. Vital de Ravenna, capital do reino godo, foi
erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos
de Santa Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima
da costa oriental do Adriatico, seguiu-se-lhe em
540. Como era natural, a invasão fez-se primeiro pelas
grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes
relações
com o mundo oriental.
O facto historico culminante, que facilitou a dispersão
do Estylo Byzantino, foi todavia a constituição
do Exarchado em Italia. Por morte de Theodorico,
sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do
filho Athalarico. Esta princeza herdára algumas das
grandes qualidades de seu pae e entre ellas accentuadas
tendencias para a civilisação classica,
então representada
pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro
da corôa entregou-lhe a herança paterna, que
a nova imperatriz partilhou com Theodato, seu primo,
transigindo assim com a surda irritação dos
guerreiros
ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado
da transigencia. Então, a desordem e a
dissolução apoderaram-se
dos estados de Theodorico.
Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar
o antigo Imperio de Constantino. Belisario conquistou
o sul da Italia e avançou até Ravenna, que
por momentos pertenceu á corôa do oriente. As
constantes
intrigas da côrte byzantina sacrificaram em
parte a obra do heroico general de Justiniano, que
então incumbiu o persa Narsés de
recomeçar a conquista.
O famoso eunucho, valido do imperador, em
victoriosas companhas contra os godos conseguiu vencel-os,
constituindo o ducado de Italia, reduzida a provincia
do Imperio Byzantino.
A morte de Justiniano levou ao throno Justino II,
espirito fraco, dominado pela imperatriz Sophia, que
odiava o heroico eunucho Narsés. Na côrte de
Constantinopla
ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra
o duque de Italia, a quem a propria imperatriz
não poupava desgostos e motejos, não se atrevendo
a
atacar de face o poderoso exarcha e habil administrador.
Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança
de Narsés. Dissera a imperatriz, referindo-se
ironicamente ás desgraçadas qualidades physicas
do
duque de Italia, que
elle era um homem digno de fazer
parte de um grupo de fiandeiras. A resposta do
eunucho
não se fez esperar. Sentindo a morte proxima,
Narsés, incitou entre os lombardos, poderosa e guerreira
nação germanica que habitava a Pannonia, a
idéa
da conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando
os Alpes, precipitaram-se sobre a peninsula,
conquistando em poucos annos parte importante da
região septentrional, que ainda hoje conserva o nome
de Lombardia.
O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes
e profundamente corroido por vicios e intrigas, conseguiu
apenas detel-os na marcha para o sul; ficando
a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao
norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado
de Ravenna, que durou até meiados do seculo VIII,
em que foi, emfim, destruido e englobado no novo
reino germanico. Assim, durante dois seculos, a
civilisação
e a arte byzantinas estiveram em contacto
directo e intimo com uma das mais intelligentes
nações
barbaras, das que invadiram o solo da peninsula
italica.
As relações entre os Chefes dos Estados tambem
eram frequentes. O Imperio do Oriente tinha para os
reis semi-barbaros singular prestigio, pelas
tradições
como legitimo representante do grande poderio romano,
que aliás os seus antecessores haviam destruido,
pela civilisação relativa e, emfim, pelas
immensas
riquezas e pelo luxo asiatico da côrte byzantina.
As tradições gloriosas e as riquezas foram e
hão
de ser em todos os tempos motivos de admiração,
de
respeito e até de culto para os espiritos inferiores. Assim,
muitos chefes barbaros solicitavam a nomeação
de
patricios romanos, ou
acceitavam-n'a como grande
honra; com effeito, foram
patricios
Theodorico, rei da
Italia, e Clovis, rei de França. Estas
relações diplomaticas
do tempo não deviam contribuir pouco para
a propagação da influencia da arte byzantina, nas
nações occidentaes da Europa.
O movimento logico do ardente mysticismo christão
facilitou, ainda, esta propagação em grande
escala.
Desde os primeiros tempos do Christianismo os
seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam
considerar a representação material das
idéas
sagradas, de Deus principalmente, quasi uma verdadeira
profanação. Era a consequencia logica de
doutrinas
muito
espiritualistas na
essencia.
Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo
hebreu, Moysés entre outros, haviam mais de uma
vez destruido os idolos, deante dos quaes se prostrava
o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de
forte essencia espiritual, não admittiram nunca a
representação
material da divindade. No rigor da logica o
Christianismo devia chegar, e chegou de facto, a identicas
conclusões.
D'aqui proveiu a famosa seita dos
Iconoclastas, no
fim do seculo V já tão poderosa que teve por
chefe
ou adepto, pelo menos, o Imperador Zenon. Estes
destruidores
de imagens, que as perseguiam com o terrivel
furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos
no Oriente, chegando a invadir a propria Italia. No
seculo VIII estes verdadeiros barbaros eram poderosos.
Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos
por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no
seculo IX. N'este periodo extenso as artes byzantinas,
pelo menos a esculptura e a pintura, soffreram rudes
perseguições nas suas obras, o que promoveu um
exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde
a seita foi sempre menos poderosa e nociva.
Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram
para o Oriente centenas de milhares de homens de relativa
instrucção, que conhecendo apenas a modesta
arte occidental, se extasiavam deante dos primores e
da magnificencia, que iam encontrando no seu caminho,
desde Constantinopla até á Palestina.
Foram todas estas causas, que em varias epochas
facilitaram a dispersão da arte byzantina no occidente.
Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo VI começou
a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se
depois successivamente pela Lombardia.
A influencia da ornamentação byzantina em
mosaicos,
pinturas e esculpturas, que já anteriormente se
manifestára sobre o Estylo Latino e que os artistas,
emigrados do oriente pelas perseguições dos
iconoclastas,
haviam accentuado, achou-se agora fortalecida
pelos proprios edificios, cujos fundamentaes elementos
architectonicos eram bem superiores em majestade,
grandeza e duração aos correspondentes no
primitivo
estylo christão, nascido no occidente.
Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino
occidental offereceu resistencia, e não foi tão
facilmente
vencido como no oriente. Na Italia fôra creado
e se espalhára com profusão, correspondia ao
meio natural
e social; era, emfim, o producto do genio classico
romano e o representante de antigas tradições.
Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo
espirito classico romano, que por longos seculos
viveu sobre o solo da Italia, sem duvida conservado
pela hereditariedade do sangue e pelas tradições
vivas
dos antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico
não penetrou facilmente no sul de Italia e o Ogival,
cuja expansão foi enorme por toda a parte, se a invadiu,
teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias.
Entrou na Lombardia, elevando um dos melhores edificios
em Milão; mas, a partir de Florença, onde na
opinião dos proprios italianos começa a
verdadeira Italia,
o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu
com o espirito classico.
O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem
este facto, quando percorreu aquelle paiz. Alem d'isso,
o movimento artistico da Renascença terminado no
seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso
ás origens, isto é, ás
idéas e aos estylos classicos, foi
preparado e realisado em Italia, exclusivamente por
elementos italianos, quer fossem escriptores, quer amadores
ou artistas.
Assim, a grande vitalidade do espirito classico no
solo da Italia foi origem de muitos factos importantes
na Historia da Arte, sendo, segundo julgamos,
tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino
em face do poderoso invasor oriental.
Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão
da Italia, durante
o seculo VI,
elevando as suas construcções
ao lado das latinas, as leis historicas preparavam
as bases das futuras constituições sociaes.
O seculo V fôra o periodo das invasões na Italia,
nas
Gallias e na Iberia. Na Italia, que mais nos interessa
porque foi no occidente o fóco da arte, viu-se passarem
os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués,
os hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes
e barbaros conquistadores; mas as conquistas succediam-se,
deixando ruinas e miserias, sem crearem
organisações
sociaes estaveis. Como verdadeiras ondas
rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em
grandes côrsos, que tão rapidamente quasi se
retiravam,
como se haviam formado. Apenas, os herulos de
Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador
do occidente, por curtos annos formaram uma
vacillante monarchia, destruida no fim do seculo V
pelos ostrogodos de Theodorico.
O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera
duração.
O genio indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe,
segundo vimos, certa unidade e brilhante grandeza;
mas a fusão das raças não se
déra. O conquistador
era intelligente e humano, um espirito liberal e
justo, civilisado na côrte de Byzancio; mas bem na
essencia Theodorico ficára sempre um conquistador,
confiando mais na força das armas do que na
acção
lenta e segura da catechese politica. Por isso, conservára
os seus guerreiros isolados quanto possivel da
civilisação classica, constituindo uma verdadeira
casta.
A morte de Theodorico foi o signal da dissolução
dos
seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada
a Italia por Belisario e Narsés, os habeis generaes de
Justiniano.
No seculo VI começou na realidade a
constituição
de nacionalidades mais fortes e duradouras. Assim, ao
expirar do seculo V, organisou-se no occidente da Europa,
sob o energico governo de Clovis, convertido ao
Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do
Imperio de Carlos Magno e da actual França; e nos
meiados do seculo VI, como já vimos, a Italia achava-se
dividida em duas grandes nacionalidades, ao
norte a monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas
do Exarchado.
Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes
do que os godos de Theodorico; ou, pelo menos,
o chefe lombardo não possuia a malleabilidade do genio,
a illustração e a grandeza de caracter do
conquistador
godo. Os povos vencidos foram no principio
tratados com maior egoismo e crueldade. As
exacções
assumiram proporções violentas, porque o espirito
selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era
temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.
A estabilidade relativa da conquista lombarda, que
durou desde 568 até 774, anno em que foi destruida
por Carlos Magno, e sem duvida as qualidades intellectuaes
dos novos invasores permittiram a lenta fusão
da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos
da Lombardia foram de novo arroteados pelos
fortes e energicos homens do norte. A abjuração
do
arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo
orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações
sociaes. A combinação dos sangues creou a pouco e
pouco novas gerações, em que se casaram as
qualidades
animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos,
recebendo de uns o espirito da liberdade e o valor
guerreiro, que haviam perdido os romanos da decadencia,
de outros a cultura intellectual e moral, que
não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores
que fossem as suas tendencias e disposições. A
fusão
das raças produziu, assim, uma sociedade mais ou
menos homogenea, fundada na unidade da religião e
na constituição de uma lingua commum, primeiro
esboço
das futuras sociedades, que deviam resultar da
alliança dos tres espiritos creadores, o
christão, o classico
e o barbaro. A ordem e a sciencia, o commercio e
a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia,
apesar das continuas guerras que os seus habitantes
sustentavam, principalmente com o Exarchado, por
elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.
N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a
arte oriental e a occidental em contacto não podiam deixar
de produzir uma liga especial, sob o calor de novas
idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento
de uma importante fracção da Humanidade.
A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida
a estes factos historicos, embora n'outros pontos e
n'outros seculos se dessem circumstancias similhantes,
que facilitaram tambem a evolução e a
dispersão d'este
estylo. Assim, é certo que a
constituição da monarchia
franka se deve considerar no occidente o resultado
equivalente da acção das leis historicas, e
sabe-se que
durante a dynastia merovingiana, depois da conversão
de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas
os lombardos encontraram-se na posição singular e
favoravel de contacto com a arte byzantina, cujos edificios
e producções se elevavam nos seus proprios
Estados.
Esta situação especial envolve logicamente mais
directa e proficua influencia na formação de
novas
physionomias da arte.
Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre
bons architectos e excellentes constructores, quer o
fossem por disposições proprias de
raça ou herança do
sangue romano, quer o exemplo das construcções
existentes
lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades.
Assim, quando a monarchia lombarda foi destruida
por Carlos Magno e reduzida a provincia do
Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos
restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons
architectos e habeis constructores. Ainda hoje a expressão
Estylo Lombardo, applicada a uma feição do
romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas
n'este periodo da evolução da arte.
Difficil será, sem duvida, tentar a
fixação de datas,
embora seculares, para os factos da genese do Estylo
Romanico primario. N'estes remotos seculos por completo
fallecem os documentos e os melhores, os proprios
monumentos coévos, em grande parte desappareceram
pela acção de longa antiguidade e de muitas
e profundas catastrophes, offerecendo os que existem
duvidosa classificação. É
indiscutivel, todavia, que esse
periodo de transição existiu, porque entre o
Estylo
Latino primitivo e o Romanico secundario, constituido
no seculo XI, as differenças manifestam-se tão
radicaes
que só as pôde explicar uma longa
evolução.
O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se
mais do Romanico secundario em certos caracteres
fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas
physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem
um longo periodo intermedio de elaboração.
Como as transformações biologicas e ethnicas das
raças
animaes exigem gerações successivas e numerosas
de verdadeiros typos intermediarios, assim, entre
os estylos christãos primitivos e o Estylo Romanico
secundario é logica e necessaria a existencia de um
periodo de transição.
Alem d'isso, a comparação dos caracteres
architectonicos
demonstra que o Estylo Romanico secundario
comprehende os de ambos os seus antecessores, constituindo
não uma simples mistura de elementos diversos,
mas em verdade uma sabia e harmonica combinação,
que fixou uma feição especial da arte.
[1]
Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as
disposições geraes das fachadas e os narthexs, a
fórma
interior das egrejas nas naves, nos transeptos e nas
absides, os triforios, as cryptas, os altares, os ciborios,
as tribunas e outras disposições particulares
archictetonicas
e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e
as cupulas, os pilares massiços e as grossas columnas,
os pesados e variados capiteis, as arcadas de volta inteira,
os arcos geminados
e sobretudo a variedade e
riqueza da ornamentação.
Quando começou a manifestar-se essa
transformação,
que constitue o periodo do Estylo Latino de
transição, ou o Estylo Romanico primario?
Em geral, as maiores creações do espirito humano,
coincidem com os grandes movimentos historicos. O
marasmo politico suffoca a actividade intellectual e
entibia a energia da alma; escravisa e annulla o pensamento,
estancando-lhe as forças creadoras; substitue
os grandes ideaes pelos pequenos interesses, as nobres
ambições pelo sordido egoismo; emfim, reduz o
animal humano a um automato, que apenas
sente a
necessidade e o prazer de uma vida de sensações
faceis
e vulgares. Assim, vivem os chinezes ha milhares
de annos, adormecidos dentro de uma formula social
crystallisada na sciencia, na moral e na arte.
A constituição do extenso e poderoso Imperio
franko
de Carlos Magno, em meiados do seculo VIII, principalmente
depois da conquista do Reino Lombardo,
póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico
primario. Este grande facto politico, um dos
maiores da Historia, deu, como é sabido, profundo impulso
á civilisação, e sob o aspecto da arte
disseminou-a
pelas vastas provincias de um vasto Imperio,
habil e energicamente governado por um dos maiores
espiritos, com que até hoje se inflorou a Humanidade.
Foi então que os architectos e constructores lombardos,
espalhando-se no occidente e no centro da Europa,
encontraram, sem duvida, excellente atmosphera para
desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a
profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos
e novas combinações architectonicas, que
prepararam
o Estylo Romanico secundario, a phase pura
e perfeita d'este estylo.
Esta revolução na esthetica nasceu
indiscutivelmente
da acção de um novo espirito creador, sem a
influencia do qual a arte no occidente teria crystallisado,
permanecendo quasi invariavel por longos seculos,
como succedeu no oriente ao Estylo Byzantino,
que apenas gerou o Estylo Russo, cuja physionomia
actual conserva ainda accentuados e caracteristicos os
traços, embora orientalisados, do seu antecessor. Esse
espirito innovador, que modificou a politica e a moral
das antigas sociedades, esse forte e benefico movimento,
que agitou e saneou o pantano do mundo classico,
esse espirito revolucionario, que das montanhas
da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar
poderosos mananciaes de novas idéas e de novas
fórmas, foi o elemento barbaro.
A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do
pensamento, foi o sangue forte e generoso, que veiu
dar calor e vida á cançada e anemica
compleição classica.
Na arte o seu trabalho de regeneração,
atravessando
as phases do periodo romanico, devia produzir
a definitiva e magnifica concepção do mais
perfeito
estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.
PARTE TERCEIRA
OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS
XI SECULO AO XV SECULO
CAPITULO
PRIMEIRO
SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII
Quando no anno de 814 da era de Christo morreu
Carlos Magno, o seu vasto Imperio, abrangendo a
França, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a
Hespanha até ao Ebro e a Italia quasi toda até ao
Volturno,
entrou em dissolução, tendo o destino fatal de
todas as tentativas de restauração do antigo
poder romano.
A unidade apparente, que reinava entre raças e
nações
differentes, proviera do prestigio pessoal de Carlos
Magno, do seu talento administrativo, da bondade
do seu caracter, em summa da elevação
intellectual e
moral de um homem, que imprimiu ao movimento do
espirito humano, tão abatido n'aquelles tempos, um
vigoroso impulso, afrouxado nos seculos seguintes,
mas, ainda assim, não perdido para a Humanidade.
As antigas e inuteis discussões byzantinas tomaram,
com effeito, novo caracter especial, constituindo
a philosophia da Edade-Media, a Escholastica, que na
realidade nasceu nas academias e nas escolas, creadas
por Carlos Magno. Este movimento intellectual é
interessantissimo,
principalmente nas duas primitivas
phases: a primeira sob a influencia do idealismo de
Platão, subordinando a philosophia, isto é, a
sciencia,
á theologia; a segunda, sob a acção do
realismo de
Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham
a par.
O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais
activa entre
realistas e
nominalistas, entre as influencias
de Aristoteles e de Platão, lucta formidavel, nem
sempre incruenta porque teve perseguidoras e martyres,
sendo uma das origens da reforma religiosa do
seculo XVI e do movimento philosophico e positivo das
sciencias nos seculos seguintes.
O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo
curto e brilhante depois d'esse espaço obscuro
e terrivel das invasões, em que tantos povos de origem
differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo
mundo romano.
Sob a acção poderosa de Carlos Magno, a unidade
administrativa do Imperio podia considerar-se completa.
Os delegados do poder central, duques, condes,
vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos
Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome
do imperador, em quem residia o poder supremo indiscutivel
e respeitado. Já no tempo de Carlos Magno,
comtudo, o espirito de rebellião lavrava entre estes
funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente,
altivo e ambicioso do poder, os levava
a pensar na hereditariedade dos cargos e na permanencia
das funcções. O prestigio pessoal do imperador
contrariára-lhes os designios, que tomaram vulto
e animo depois da sua morte. Estas tendencias definem
a origem e são a causa da organisação
do
feudalismo,
constituido no seculo XIII, em que tambem se
manifesta o primeiro periodo do Estylo Ogival.
Os filhos e netos de Carlos Magno não lhe haviam
herdado nem o prestigio nem as qualidades pessoal. Tibios
e ambiciosos, em continuas guerras, enfraqueciam-se
mutuamente, deixando engrossar a idéa de
independencia, que sempre germinára entre os delegados
imperiaes. Assim, o fraco Carlos-o-Calvo, rei
de França, reconheceu aos senhores, que o eram já
de facto, o direito da hereditariedade e certa independencia,
na
Capitularia de 877, anno da sua
morte,
que define historicamente o começo do feudalismo.
Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores,
constituidas principalmente pelos vencidos e pelos pobres
e trabalhadores, lavrava tambem o espirito da liberdade,
animado pelo Christianismo e pelas tradições
das antigas instituições romanas. A Republica
excitára
sempre a vida local. O Imperio, depois, restringira-a
successivamente; conservando-lhe, apenas, as
funcções
indispensaveis para facilitar o exercicio do poder central.
Esta acção, a decadencia dos costumes dos
cidadãos
dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes
dos municipios romanos, fizeram decaír as
curias da
sua primitiva grandeza.
É sabido que nos ultimos tempos do Imperio as
funcções municipaes, consideradas de perigo e
onerosas,
não eram disputadas, como outr'ora; para obter
os
curiales, os imperadores viram-se
forçados a obrigar
os cidadãos a desempenharem estes cargos, com penas
e multas correspondentes. O espirito communal,
todavia, não se extinguira de todo nem com a
depravação
dos costumes romanos, nem com a conquista
dos barbaros. No sul da França, por exemplo, mais
livre das invasões, os antigos municipios romanos haviam-se
conservado com maior ou menor pureza.
Além d'isso, a tradição d'estas
instituições locaes
mantinha-se, e os seus principios existiam vivos, com
o brilho das legislações theoricas, no antigo
direito
romano. É muito provavel, tambem, que o espirito de
fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas,
como as dos artifices e dos operarios, tivesse
atravessado o longo collapso do V ao X seculo. Pelo
menos parece serem d'isto exemplo as associações
franco-maçonicas
constructoras, que tanta influencia tiveram
na arte ogival e, a nosso ver, se não se filiam
nas similares romanas, pelo menos derivam d'ellas,
como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este
livro.
Seja como for, julgamos que os dois principios, o
feudalismo, nascido do espirito
barbaro, e o movimento
das
communas, insufflado
pelo espirito christão, sem
duvida os agentes principaes da civilisação dos
seculos
XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de
evolução entre o Imperio de Carlos Magno e os
começos
do seculo XI, no qual na realidade começa a
Renascença, que se operou
durante um longo periodo,
com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo
sob o aspecto da arte.
De facto, a Edade-Media parece dividida em dois
periodos distinctos: o primeiro do seculo V ao seculo X,
o das terriveis luctas entre os tres principios, o classico,
o christão e o barbaro; o segundo periodo do seculo
XI ao seculo XV, o da lenta combinação e
fusão
d'estes principios. No seculo V, a luz já quasi crepuscular
do grandioso mundo classico perde-se na noute,
longa e tempestuosa noute d'alguns seculos. A pallida
aurora do mundo moderno começa a despontar a partir
do seculo XI.
Estes dois periodos são definidos por um facto historico
interessante e de alguma importancia. O espirito
mystico do Christianismo e as profundas miserias,
soffridas pelo mundo romano logo após a victoria d'esta
religião, geraram a lenda do
millenio periodo de mil
annos durante o qual a humanidade dos vivos e os
martyres e adeptos do Christianismo resuscitados gosariam,
sob o proprio reinado de Jesus Christo, todas
as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O principio
d'estes seculos de Justiça implicava logicamente
o fim de um mundo cheio de dores e flagellos, que assim
foi prefixado para o ultimo dia do seculo X.
A superstição teve sempre grande presa sobre os
espiritos
ignorantes e fracos; julgue-se, pois, da influencia
na Edade-Media d'esta prophecia, fundada em
textos sagrados, tendo uma longa tradição e
admittida
por homens superiores, até por alguns papas. Nos fins
do seculo X, a approximação d'este dia tremendo
amortecera todas as expansões da actividade humana.
Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir,
construir, fazer esforços, quando estava prestes
o fim d'este mundo e o principio d'aquelle em que
todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre a terra
a justiça e a felicidade sob o sceptro do proprio
Christo?!
Por isso, a historia descreve o collapso profundo e
crescente, que se apoderou do mundo christão, quando
se avisinhava esse dia de Juizo, tão admiravelmente
traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um
dos mais bellos canticos da egreja: