Planta da SÉ DE LISBOA—Estado actual
Planta da SÉ DE LISBOA—Estado actual
Occupando os espaços onde hoje estão as capellas
do Santissimo e a de S. Vicente, que abrem para os
dois extremos do transepto, existiam provavelmente
a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia
a planta da Sé primitiva, porque o claustro e todos
os edificios annexos são de
construcção posterior.
Escusado será observar que a
supposição da existencia
de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro
grosseiro de tomar certos edificios annexos, de que
falaremos mais tarde, por naves extremas, hypothese
que a simples inspecção da planta não
admittiria com
a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas
janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada
lateral-norte não fosse indiscutivel prova de que a
egreja nunca teve mais de tres naves.
A fachada primitiva era formada, como a actual,
por duas torres quadradas, massiças e revestidas de
fortes botareos. Entre estas torres corria a parte da
fachada, correspondente ao côro. A
disposição das linhas
geraes não foi, pois, alterada pelas
restaurações,
que aliás estragaram o estylo; com effeito, as torres
foram, sem duvida, coroadas de agulhas e as horriveis
janelas quadradas n'ellas abertas substituiram, não se
póde bem avaliar por que razões, as bellas
janelas geminadas
romanicas, que ultimamente foram restauradas
na torre-norte. As agulhas ou corucheus primitivos,
em nossa opinião, não tiveram a detestavel
fórma,
com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores
ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum
terramoto—talvez o de 1384—foram restauradas
sob a fórma de elevadas torres quadradas, de muito
menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas
por telhados vulgares de quatro aguas!
A parte central da fachada, comprehendida entre
as duas torres, tambem não podia ser em nada parecida
com a existente. A rosacea devia existir, bem
como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja;
mas toda esta parte actual é de
construcção posterior
e do frio e decadente Estylo da Renascença, no seu
peor periodo.
Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada,
a mesquinha rosacea e o bruto e feio arco do vestibulo
á grande restauração, depois do
terramoto de
1755; é um erro. Uma gravura franceza do tempo,
mostrando o estado das ruinas da egreja depois do
terramoto, prova que tudo isto existia antes d'esta
catastrophe. Assim, nós suppomos, com o maior fundamento,
que todos estes absurdos elementos, bem
como o ridiculo coroamento das torres são obras
coévas
da sacristia, encostada á fachada lateral-sul da
primitiva egreja, datando tudo dos começos do seculo
XVIII, talvez do reinado de D. João V.
Ruinas da SÉ de LISBOA—Terramoto de 1755
Ruinas da SÉ de LISBOA—Terramoto de 1755
Alem d'isso, as torres soffreram restaurações em
differentes epocas; a do norte no periodo ogival e depois
na renascença manuelina; a do sul foi quasi toda
reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e
n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas
em sineiras, fim que primitivamente não tiveram,
porque os sinos occupavam uma elevada torre,
construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo
terremoto de 1755.
Fundados n'estes raciocinios, elaborámos o projeto
de restauração da fachada, que melhor nos parece
traduzir a physionomia especial do Estylo Romanico
da velha egreja. Embora essa fachada não seja grandiosa
em dimensões e rica em ornamentação,
julgamos
traduzir a severa solemnidade do estylo e o aspecto
de força, que nunca perderam as grandes e
massiças torres da Sé, apesar de torturadas por
absurdas
restaurações e coroadas por platibandas
ridiculas,
repousando sobre cornijas classicas.
O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva
planta, esclarecendo-a com algumas observações,
colhidas em investigações directas e sondagens
feitas no actual edificio.
A nave central, a capella mór e o transepto, offerecendo
quasi a mesma largura, eram cobertas por
abobada de volta inteira, nascendo a egual altura; nos
quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre
quadrada no exterior, que se elevava muito para cima
d'estas abobadas. No interior da egreja esta torre tomava
a fórma de um octogono regular, firmando-se em
pendentes as paredes, correspondendo aos angulos
biselados do quadrado exterior. Em cada uma das
faces d'este octogono, rasgava-se uma janela muito
alta e estreita, que illuminava a cupula coberta por
abobada, gerada pela intersecção de quatro
semi-cylindros,
lançados entre as faces oppostas do prisma
octogonal, isto é, por uma abobada de oito arestas.
Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento
da torre, que para cima offerecia no exterior
duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em cada
ordem e em cada face. Segundo a nossa opinião, esta
torre não tinha senão um andar, a que fazia
pavimento
a abobada da cupula. Não nos parece que a espessura
dos muros, ainda existentes na base, permittisse
a sobreposição de tres abobadas, sendo possivel
até que a cobertura da torre fosse de madeira revestida
de telhado.
Voltando ao interior da egreja, observaremos que
esta disposição particular da cupula octogonal
devia
ser de excellente effeito architectonico. As naves lateraes
tinham as abobadas muito menos elevadas do
que a da nave central; mas esta disposição
não permittiu
o rasgamento de janelas, que directamente illuminassem
esta nave, porque por cima das segundas
naves foram construidas galerias de egual largura,
cujas abobadas em pouco ficavam inferiores á da nave
central, não deixando espaço para rasgamento de
janelas
do
clerestory.
Nas paredes da nave central, por cima dos arcos
que dividiam as naves, e nas do transepto, corria ao
longo da egreja, com excepção da capella
mór, um
estreito triforio, em communicação directa com as
galerias,
que acabamos de apontar.
SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada principal
SÉ PATRIARCHAL DE
LISBOA—Restauração
da fachada principal
Todas estas disposições foram depois mais ou
menos
alteradas; assim, por exemplo, no triforio a
restauração
não só modificou as dimensões como
empregou
columnas com galba e capiteis classicos! As paredes
cobertas por estuques horriveis, fingindo marmore de
varias côres, subsistem na actual egreja.
Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam
os arcos de volta inteira, que dividem as tres naves;
mas toda esta parte do edificio está
excellentemente
mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis
de madeira, fustes de gêsso e bases de marmore verdadeiro
combinado com madeira, tudo, excepto os
marmores, imitando tambem marmore! Assim, é impossivel
fazer hoje clara idéa d'estes elementos, que o
maior idiotismo imaginavel de restauradores em cidade
civilisada conseguiu estragar, com grande perda
de tempo e dispendio de dinheiro!
A primitiva capella-mór era mais pequena do que
a actual de construcção mais moderna, como o
indica
o tom mais leve da planta; devia ser formada de grandes
arcos de volta inteira, repousando sobre fortes
columnas romanicas e abrindo na charola.
Apesar da tradição corrente e escripta, que
affirma
haver na Sé de Lisboa grandes subterraneos, não
deparámos
ainda com elles nas sondagens e investigações
realisadas. Até podemos quasi concluir que, pelo
menos, nem existe uma crypta importante; reduzindo-se
tudo a pequenas capellas sepulcraes subterraneas, ou
carneiros escavados muito depois da data da
construcção
do edificio
[2].
A illuminação do primitivo templo foi
assás perfeita.
A nave central recebia luz da rosacea da fachada
principal; as segundas naves de janelas e portas
abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever;
o transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos,
não existindo, é claro, as feias janelas
rectangulares,
que actualmente por baixo d'estas rosaceas
abrem para o triforio; finalmente, a capella-mór era
illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente
por outras superiores ao terraço da mesma
charola. Alem d'isso, a cupula central com as suas
oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar
bastante claridade no interior do templo.
Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes
coloridos?
Não nos parece. Na epoca da
construcção, os verdadeiros
vitraes coloridos eram muito raros, nem ella
foi rica e cuidada. Vê-se que D. Affonso Henriques
tinha mais fé religiosa do que dinheiro. No periodo do
maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV,
não é muito provavel que o gosto artistico
nacional
exigisse este complemento esthetico. Haja vista os martyrios,
que inflingiram ao pobre edificio romanico!
As fachadas lateraes eram muito simples. A partir
das torres, acima descriptas, a muralha, tendo a altura
das naves lateraes e das galerias sobrepostas a
estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco
salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas
todas de volta inteira; as mais baixas e proximas do
solo eram grandes, alargando para dentro; por cima
d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi
em estreita fresta.
Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em
terceira linha superior seis janelas abriam para as
galerias, sobrepostas ás naves lateraes. No terceiro
vão entre os botareos, a contar da torre, pelo menos
na fachada-norte, a janela inferior era substituida por
uma porta, que foi nos primitivos tempos resguardada
por um vasto alpendre, coberto por telhado. Esta
porta foi ultimamente restaurada. É muito provavel
que na fachada lateral-sul se désse egual
disposição;
mas essa porta, se existiu, foi inutilisada pela
construcção
da nova sacristia. Nos lados do transepto viam-se
apenas as janelas superiores.
Em face da fachada principal, e terminando em
frente das portas lateraes, devia existir um adro, cujos
tijolos podémos ainda ver em
escavações praticadas
junto do monumento.
Eis a descripção summaria da antiga Sé
de D. Affonso
Henriques. Não era de certo nem grande nem
rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia manifestar
os caracteres do Estylo Romanico, a força e a
severidade, sem excluir certa elegancia, que ainda hoje
se póde notar nos elementos primitivos, embora suffocados
e esmagados por estuques, construcções absurdas,
umas já desapparecidas, outras que será
impossivel
eliminar.
Oxalá os restauradores de todos os tempos tivessem
procurado conservar ao edificio as feições
primitivas,
porque n'esse caso Lisboa teria um monumento
de Estylo Romanico secundario de certo valor.
Assim, nós, as gerações actuaes, temos
obrigação de
fazer desapparecer pelo menos as vergonhosas excrescencias,
restaurando a parte restauravel do edificio,
como adeante explicaremos.
Bem cedo começaram as construcções
annexas a prejudicar a esthetica do primitivo templo. Vamos
seguir as principaes por ordem de relativa antiguidade.
Logo pouco depois da egreja ter sido terminada,
foi
no rigor da palavra encostada no
angulo formado
pela fachada lateral-norte e pelo transepto a primeira
d'estas construcções, consistindo n'um recinto
coberto
por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas
inferiores da nave. Este recinto, cujo terraço ficava
inferior ás mais elevadas janelas da fachada, abria para
o exterior em toda a dimensão da sua
secção; não
tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas
observações podem ser ainda verificadas em
elementos
existentes.
Qual seria o fim d'este annexo?
Difficil será descobril-o. É possivel que fosse
um
narthex, ou galilé
lateral, aberto mais tarde, talvez
um logar de refugio para peregrinos ou viandantes.
Sobre este ponto poderá, apenas, fazer-se alguma luz,
quando a eliminação dos estuques, que revestem
interiormente
este recinto e a parte correspondente da
egreja, deixar ver se existem alguns vestigios de antigas
portas para o transepto ou para a nave lateral-norte.
Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente
descripto, levantou-se uma grande sala abobadada,
em que a ogiva se accentua ja bem claramente. Esta
sala, não tendo egualmente janelas na sua frente-norte,
era illuminada por uma grande janela ogival, em parte
cega, rasgada na parede, que repousa sobre o grande
arco do supposto
narthex. As duas
janelas mais elevadas
do edificio principal, que ficaram inutilisadas por
esta construcção, acham-se tapadas por tal
fórma que,
segundo pensamos, não póde existir a menor duvida
em
não haverem jámais dado
communicação da primitiva
Sé para a referida sala; apenas se póde admittir,
embora
a achassemos tambem murada, que esta communicação
se fazia por uma janela do transepto, transformada
em porta para o triforio. Estas disposições,
tanto a do recinto inferior como a da sala sobreposta,
comprehender-se-ão claramente, notando na planta a
segunda intensidade do tom escuro.
Assim, temos uma sala de importantes dimensões
apenas ligada com o interior da egreja pela acanhada
galeria do triforio, que a seu turno é servido por uma
pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada
no botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?
O problema, porém, complica-se ainda mais. Uma
terceira construcção, tendo dois andares
correspondentes
aos dois pavimentos existentes, veiu encostar-se ás
duas precedentes. Devemos observar que propositadamente
temos escripto a palavra
encostar,
porque na
realidade os successivos constructores nem se deram
ao trabalho de travar reciprocamente os edificios; encostando-os,
apenas, uns aos outros, o que permitte
que em determinados casos seja possivel ver claridade
atravez das separações.
O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de
certo ligação com a egreja, havendo sido
transformada
a janela da nave em porta, que ainda actualmente
existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se
por fórma differente. A janela ogival da sala
anteriormente descripta foi transformada em porta, que
serve os dois compartimentos; porém, a janela da
Sé,
inutilisada pela nova construcção, essa,
encontramo-la
nós murada como as duas outras precedentes; e quando
a abrimos, por necessidades de serviço e aproveitamento
de local, ficámos convencidos, pela
perfeição do
espesso massiço de silharia e de alvenaria, de que o
tapamento era, sem duvida, antiquissimo, se não
contemporaneo
d'esta inexplicavel construcção.
Assim, como ainda se póde ver, existem duas salas,
illuminadas por duas altas frestas, que apenas communicavam
com o interior da egreja por duas estreitas
escadas de caracol: a primeira, já indicada, a do
triforio, a segunda encastrada n'uma especie de botareo,
que faz parte da ultima construcção.
Que fins podia ter esta disposição mysteriosa dos
dois importantes recintos?
Debalde temos pensado no problema e investigado
as pedras, a fim de ver se nos revelam o segredo;
em vão temos consultado os eruditos. Apenas, alguem
suggeriu a idéa de que, tendo as antigas cathedraes
o
direito de asylo, isto
é, de tornar inviolaveis os perseguidos
pelas justiças ordinarias, talvez as salas, tão
bem defendidas e mysteriosas, se podessem relacionar
com esse direito de protecção. Ahi deixamos posto
o
problema, que talvez investigações e sondagens
mais
completas possam mais tarde resolver.
Das tres construcções, que acabamos de descrever
e apreciar, a primeira deve datar dos fins do seculo XII
e a ultima dos fins do seculo XIII. Eis tudo quanto nos
parece ser licito affirmar ácerca da edade d'estes
edificios,
annexados á primitiva Sé.
Como se deprehende da planta, estas construcções
approximaram-se successivamente da porta lateral-norte,
que ainda nos fins do seculo XIII abria directamente
para a rua, ou terrado d'este lado da Sé. Que
esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de
telhado, provam-n'o os vestigios, ainda existentes na
fachada do ultimo dos mencionados annexos.
No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu
Joannes, rico mercador de fidalga linhagem franceza,
como parece demonstrarem-n'o os brazões e as flores de
liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial
para ser erecta na Sé de Lisboa uma capella,
onde jazessem os seus restos mortaes e os das pessoas,
que por elle fossem indicadas. Esta disposição
testamentaria
originou uma quarta construcção, a de uma
elegante capella do Estylo Ogival francez, que foi
encostada á fachada lateral-norte, occupando o
espaço
de duas janelas a partir da torre.
N'estas condições, a porta lateral ficaria
encravada,
entre as construcções primitivas e a da nova
capella; por isso, substituindo o antigo alpendre, o
espaço da porta foi coberto por uma abobada. Esta
especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande
arco ogival.
Taes são os edificios, que em successivos seculos
foram encostados á fachada lateral-norte da primitiva
Sé, mascarando-a por completo.
É claro que em qualquer projecto de
restauração
ninguem poderá pensar sequer em repôr o edificio
nas condições primitivas; muito embora todos
estejamos
de accordo em que teria sido muito preferivel
ter evitado estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram
a unidade do estylo. Além d'isso, a capella
de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez, é um
excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no
projecto de restauração d'esta fachada,
attendemos
a todos os edificios, aproveitando-os o melhor possivel.
Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto
destruiu ou pelo menos arruinou a primitiva capella-mór
romanica. A reconstrucção realisou-se, alterando
as dimensões d'esta parte da egreja e empregando o
Estylo Ogival. As capellas, que guarnecem a nova
charola, e o claustro, que não existiam anteriormente,
datam da mesma reconstrucção.
Depois, entre esta grande restauração e a que
resultou
do terremoto de 1755, devem ter-se realisado
muitas outras de secundaria importancia e principalmente
as obras, que estragaram o edificio. Assim, por
exemplo, as janelas quadradas das torres, substituindo
as lindas janelas geminadas primitivas, a rosacea, as
sacadas e o arco do frontispicio, bem como o edificio
da sacristia e da sala capitular, que mascarou grande
parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos começos
do seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo,
portanto, anteriores ao terremoto de 1755, como o
prova a gravura das ruinas, a que já nos referimos.
Devem pertencer tambem a este periodo as
construcções
dos vergonhosos pardieiros de todas as ordens,
especies e fins, que mascaravam completamente a fachada
lateral-norte, subindo até elevada altura entre
os botareos da respectiva torre, e a inutilisação
da
bella porta lateral e do respectivo vestibulo, substituidos
por uma horrivel porta, rasgada na capella de
Bartholomeu Joannes.
O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente,
produziu profundas ruinas na egreja e no claustro da
Sé. Metade da torre do sul desabou, bem como a torre
sineira que veiu esmagar a abobada da nave central
e a da capella-mór. A memoria da parte principal
d'estas ruinas foi conservada n'uma gravura franceza
do tempo, que nos pareceu interessante reproduzir.
Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no
meio da cidade, até que em 1767 começaram as
grandes
obras de reconstrucção.
Teria sido esta a occasião azada para a
restauração
completa da Sé, não na sua fórma
primitiva, que já
não seria possivel renovar; ao menos, porém, nos
Estylos
Romanico e Ogival que se ligaram intimamente
em varios pontos do edificio. As tendencias da epoca,
que já começavam a condemnar estes bellos estylos
como
barbaros e
gothicos, a insciencia dos
restauradores,
a pressa e talvez a carencia de dinheiro deram os
resultados, que ainda podemos ver.
A abobada da nave central foi simulada em madeira
e estuque, abrindo se-lhe medonhos oculos para melhor
illuminar a egreja. Na capella-mór procedeu-se
por fórma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta
de espessas camadas de estuque pintado, mascarando
os velhos elementos romanicos e ogivaes com
elementos classicos absurdos e desordenados. Assim,
se o edificio da Sé, olhado exteriormente, causava a
impressão, principalmente na fachada lateral-norte, de
uma sobreposição de casebres, visto no interior,
produz
a desagradavel surpreza de uma miseria, que pretende
ostentar riqueza, e de um cahos de fórmas disparatadas
e deselegantes, que resultam da desharmonica
combinação das linhas principaes dos estylos
christãos
mais perfeitos com elementos classicos, exigindo
linhas geraes differentes
[3].
Depois de termos dado succinta idéa, porque outra
não comportam os quadros d'este livro, do primitivo
estylo da Sé Patriarchal de Lisboa e das
modificações
mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos
sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos
as nossas opiniões ácerca da respectiva
restauração,
de que ultimamente fomos incumbidos e tentamos
executar com os melhores criterios estheticos.
Embora a Sé de Lisboa, nem pelas suas dimensões
nem pela grandeza do estylo, possa ser considerada
importante monumento romanico, no estado primitivo,
como acabamos de observar, não deixava de manifestar
algum valor architectonico.
Restaurações successivas e barbaridades de
construcção
em seculos differentes reduziram-n'o ao estado
lastimoso, em que se conservou por longos annos e
em parte se encontra ainda n'este momento. A
reconstrucção
e restauração mais ou menos radical do
antigo monumento é, portanto, quasi um dever de
patriotismo.
Pensar em lhe dar a feição primitiva, apurando o
Estylo Romanico secundario em que foi construido,
seria uma verdadeira loucura; no conjunto do edificio
os elementos ogivaes são mais importantes do que os
romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de
conservação.
A restauração, a nosso ver, deve
começar pelas
fachadas. A principal póde, sem duvida, assumir novamente
a sua expressão romanica, manifestando certa
grandeza, se as suas torres forem convenientemente
coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre
as duas torres. Esta obra é indispensavel e uma
das primeiras que deve ser realisada.
SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada lateral-norte
SÉ PATRIARCHAL DE
LISBOA—Restauração
da fachada lateral-norte
A fachada lateral-norte ficará sempre uma
juxtaposição
de edificios; mas a indiscutivel belleza da Capella
de Bartholomeu Joannes desculpará até certo
ponto esta agglomeração de estylos. Pelo que
respeita
á fachada-sul, não haverá remedio
senão conservar
o annexo onde estão a sacristia e a sala
capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da
Renascença.
O claustro e as respectivas capellas são obras de
restauração facil, embora dispendiosa, attendendo
ao estado
de profunda ruina em que se encontram. O claustro
não tem, na realidade, grande valor architectonico;
mas para elle abre uma vasta sala de elevada
abobada artezonada, que primitivamente devia ser
muito bella. Diz-se que n'esta sala foi instituida a primeira
Misericordia nacional. Mais tarde, talvez em
principios do seculo XVIII, foi transformada em capella
no Estylo da Renascença, onde abundavam os mosaicos
florentinos no arco, nas paredes da abside e no altar.
Suppomos que esta capella foi primitivamente a
sala
capitular.
Realisadas todas estas restaurações, a parte
interior
da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se
apenas as fundações dos pilares das arcarias
das naves e as paredes exteriores. Não só as
abobadas
da nave central e da capella-mór não existem,
sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios
pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas
estão fendidos por tal fórma que não
suppo
Realisadas todas estas restaurações, a parte
interior
da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se
apenas as fundações dos pilares das arcarias
das naves e as paredes exteriores. Não só as
abobadas
da nave central e da capella-mór não existem,
sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios
pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas
estão fendidos por tal fórma que não
supportariam
o peso de verdadeiras abobadas. Além d'isso,
as abobadas das naves lateraes são de tijolo e provavelmente
substituiram as primitivas de silharia.
É natural que a restauração exterior
do templo leve,
mais cedo ou mais tarde, a esta importante obra de
reedificação interna da egreja, porque outra
não se
deve tentar, por improficua e dispendiosissima.
Em todo o caso já seria um adeantado passo acabar
a restauração externa da velha egreja de D.
Affonso
Henriques, que deve considerar-se um verdadeiro
monumento da epoca, recordando a constituição
e a independencia da Nação Portuguesa.
CAPITULO
QUARTO
SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII
Traçar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira
expressão social, scientifica e esthetica, é
materia
difficil, principalmente nos limites estreitos d'este
livro; todavia, por nos parecer indispensavel, conforme
o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas
proporções.
O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante
da Edade-Media; concentra e dá unidade, por
assim dizer, aos trabalhos do pensamento humano,
realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros
de sciencia e de philosophia, que produziram a renascença
artistica e litteraria do seculo XVI, a philosophica
do seculo XVII e, emfim, os grandes movimentos
sociaes e politicos dos seculos seguintes.
A organisação das monarchias feudaes, como a
tentámos
descrever n'outros capitulos, estava completa
no começo do seculo XIII; em verdade, até
começava
a resvalar para a dissolução, que se operou no
fim
do seculo XV e de que foram principaes agentes em
França Luiz XI, em Inglaterra Henrique VII, o fundador
da dynastia dos Tudors.
As grandes guerras religiosas para libertação do
solo sagrado de Jerusalem, que aliás nunca foi perfeitamente
livre e christão, foram a grande obra das
monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do
seculo XIII. Este grande esforço do feudalismo accumulou
as causas da propria decadencia; como as
organisações
vigorosas se enfraquecem pelo excesso de trabalho.
Prégadas pelos proprios Papas ou animadas por
elles, as Cruzadas tinham levado ao oriente, durante
dois seculos, milhões de homens das
nações occidentaes.
A melhor cavallaria feudal, durante este longo
periodo, havia deixado no caminho de Jerusalem
parte das riquezas, e as vidas nos campos das batalhas
ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo
de homens ligara intimamente as relações entre
os dois extremos da Europa, trazendo para o occidente
novos elementos de uma civilisação mais
adeantada,
novas idéas e processos; activando, emfim, as reciprocas
transacções commerciaes, de que foram poderosos
centros Genova, Marselha e Veneza.
Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando
longinquo e dispendioso estado de guerra, emquanto
a burguezia se enriquecia no commercio pacifico e as
classes populares repousavam e trabalhavam, livres
de grande numero dos pequenos tyrannos. A
exaltação
do espirito religioso, excitado pelas santas Cruzadas,
approximara as nações e dentro d'ellas as
respectivas
classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava
vigor na vida local das communas, cujas revoltas
eram mais faceis e mais baratas as compras de
direitos civicos a senhores, que careciam de dinheiro
para as enormes despezas da guerra e satisfação
de
um luxo exagerado, que traziam sempre inveterado
nos costumes, quantos tocavam sequer de leve as
civilisações
orientaes. Assim, no seculo XIII baixava o
sol do feudalismo e começava a raiar a aurora d'essa
energica vida communal, que nas mãos de suzeranos
habeis devia servir mais tarde de poderoso instrumento
para reduzir os barões feudaes, livres e turbulentos, a
vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco
a simples cortezãos, servis e lisonjeiros, que apenas
ostentavam nas antecamaras reaes honorificos titulos
de antigos apanagios e nomes de gloriosos antecessores.
No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia
sobre o orbe christão, a Europa. Pela
religião e pelo respeito tradicional, o Papado impozera-se
aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo
entre os principes, perseguia-os como revoltosos
e criminosos sobre os proprios thronos e, sendo
preciso, separava-os do povo pela interdicção dos
Estados,
ou pela excommunhão dos rebeldes.
Desde os fins do seculo XI, o poder temporal do Papa
tornara-se um facto consummado. O antigo bispo de
Roma já usava em volta da tiára a primeira
corôa da
soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis
christãos, cuja consciencia elle dominava pelo espirito
da religião. Senhor quasi absoluto, depois da
querela
das investiduras, d'essa machina immensa que se chama
hierarchia ecclesiastica, levando a acção
poderosa até
ás consciencias mais humildes e obscuras, no seculo
XIII, o Papa era o primeiro poder da Europa.
Assim, o Papado fôra o espirito das Cruzadas e o feudalismo
o seu braço armado, que na lucta gastou as
forças e perdeu quasi os bens, herdados em grande
parte pela egreja, cujas enormes riquezas não satisfizeram
nunca as suas ambições colossaes.
A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se
formou no seculo XIII, deixára florescer, emfim, a cultura
das artes e da sciencia. Grandes discussões philosophicas
enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os
profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra
ás Ordens Religiosas, é certo; mas nos sombrios
claustros
penetrára a luz de fóra. A Escholastica n'esse
periodo
tomou uma feição nova e caracteristica, que
trazia
em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia
da Edade-Media offerece, com effeito, tres
periodos differentes; no primeiro, a theologia subordina
a sciencia; no segundo, estes dois principios caminham
a par, depois dividem-se, seguindo rumos
divergentes.
No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos
mais elevados e cultos travam renhidas luctas
de palavras e de escriptos, nem sempre incruentas;
uns são pelo
realismo de
Alberto, o grande doutor,
e do seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros
pelo
nominalismo de Duns Scott, o
doutor subtil. O
discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de Aquino
foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas
da egreja e preparou a constituição definitiva do
Catholicismo, no concilio de Trento.
O
nominalismo, fundado sobre as
doutrinas de Aristoteles,
desenvolvia as bases da sciencia; o methodo
da observação e da experiencia
recomeçava o seu caminho,
interrompido por longos seculos. No seculo XIII
viveu o franciscano Roger Bacon, que só por si define
uma eschola e illustra um seculo. Philosopho, astrologo
e alchimista, cujo saber immenso nas azas do genio
chega a saír fóra dos limites do seu tempo, Bacon
descobre, ou pelo menos prevê factos e verdades, que
hão de manifestar-se nos seculos seguintes.
Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo,
medico e alchimista, discute a metaphysica
escholastica e combate-a á luz dos principios da sciencia
ainda vacillante e incerta, mas procurando já firmar-se
nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa
critica não se atemorisa ante os perigos de
atacar os erros da eschola philosophica triumphante
nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas
do tempo. «Que importa, escreve o grande luctador,
que Alberto, o grande doutor, affirme que as folhas
de salva lançadas n'uma fonte fazem sobrevir a tempestade?
Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos
se a tempestade sobrevem».
A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo
da Escholastica orthodoxa, a essencia do methodo
experimental está claramente definida n'esta
ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova é um
precursor, como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios
nominalistas, d'esse methodo, que ha de
produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o espantoso
progresso do seculo XIX.
N'estes primeiros movimentos revolucionarios do
nominalismo sentem-se já
energicas aspirações da liberdade
do pensamento. As suas doutrinas são a semente,
que, ao calor do estudo, das luctas, e pela acção
do
tempo, ha de produzir, por ininterrupta evolução,
a
reforma religiosa do seculo XVI e a philosophia do seculo
seguinte. Os adeptos do
nominalismo
são perseguidos
e as doutrinas consideradas heterodoxas; mas,
como correspondem a necessidades organicas do espirito
humano, se os martyres ficam desconhecidos, as
suas idéas preparam o futuro. Os primeiros luctadores
contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia, discipulo
de Abelard o
nominalista, em Italia,
Pedro de Vaux
em França, Lollard e Wiclef em Inglaterra, são os
precursores de João Huss e depois de Luthero, Melancton,
Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores victoriosos
da
reforma religiosa do seculo XVI.
No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem,
uma acção profunda. Um dos maiores genios, de
entre
os que têem engrandecido a Humanidade, o florentino
Dante Allighieri, cujas feições energicas e
tragicas
nos conservou o pincel de Giotto, aperfeiçoa,
se não cria litterariamente a primeira e mais bella das
linguas latinas, a italiana, em que teve como discipulos
e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal,
fortalecido por sciencia profunda e inspirado
por grandes sentimentos, attingindo a febre da paixão,
Dante revoluciona a poesia e quebra os velhos moldes
dos poetas da decadencia.
A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde
a sublime epopeia até ao delicado lyrismo, produz o
mais gigantesco poema, creado pela intelligencia humana,
a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio,
theologo, historiador do seu tempo, ás vezes apaixonado
e injusto, se quizerem, mas sempre supremo
artista. Dante, talvez a figura principal do seculo XIII,
a quem os seculos seguintes não fizeram perder ainda
na poesia a posição culminante, é a
mais pura e clara
expressão d'esse espirito classico, sempre vivo no solo
da grande Italia. A liberdade do pensamento, como
nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido espirito,
impellindo-o para fóra da esphera humana e levando-o
a procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso,
symbolos da metaphysica theologica, um campo
infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e phantasia
tão excepcionaes.
As outras bellas-artes, excepto a musica para a
qual não chegára ainda o momento historico, bem
mais tarde manifestado, principalmente em fins do
seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico
movimento correspondente.
Até ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino
mantivera-se preponderante, sobretudo na pintura
e na esculptura, aliás ainda subordinadas á
architectura,
de que constituiam artes auxiliares e complementares.
Ora, as artes do oriente, como vimos,
haviam ficado estacionarias, crystallisando em fórmas
hieraticas e convencionaes. A inspiração e a
liberdade
dos pintores e dos esculptores foram esterilisadas por
esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas
copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando
amoldar a espontaneidade do proprio talento a antigas
e consagradas formulas, a que as tradições
religiosas
contribuiam para dar quasi força de dogmas.
Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo
essa lethargia; foi ainda o espirito classico,
reanimado pela liberdade do pensamento, que despedaçou
a rede dos formalismos tradicionaes e da ignorancia
technica, que envolvia e suffocava a inspiração
dos pintores e esculptores.
Esta reacção inicia-a Cimabué,
libertando-se dos
liames das escolas byzantinas. Giotto, seu discipulo,
pintor, esculptor e architecto, segundo o uso e as necessidades
do tempo, opéra a revolução. A
correcção
do desenho e o rigor do colorido, a expressão e a vida,
isto é, a verdade na arte que só nasce do estudo
da
natureza, são o resultado d'essa outra victoria do espirito
humano. Os dois primeiros mestres italianos do
seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da
grande arte da renascença, poderoso movimento que
tambem a Italia quasi exclusivamente realisará nos
fins do seculo XV e durante o seculo XVI, no grande
periodo em que floresceram homens como Leonardo
de Vinci, Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.
A architectura e as artes secundarias annexas saem
dos conventos, vindo expor novos productos e novas
creações á luz da liberdade nascente.
Já não são as
grandes communidades religiosas, que monopolisam
as construcções, crystallisando-as um pouco e
enviando
de convento para convento os architectos mais
famosos e os planos mais completos. A esthetica, como
a sciencia, manifesta energica expansão. A arte
revoluciona-se
e liberta-se.
Nas communas constituem-se grandes corporações
de artes e officios. As associações de
architectos e de
operarios de todas as ordens, que nos seculos precedentes
trabalhavam sob a direcção monastica, esse resto
dos gremios romanos, ou formados á sua imagem,
emancipam-se, libertam-se do jugo ecclesiastico nas
producções artisticas, tomando definitivo
caracter civil,
embora subordinadas e protegidas pelo espirito
religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.
São, com effeito, as corporações
franco-maçonicas
que vão construir muitos, se não todos os
edificios ogivaes
mais grandiosos e celebres. Houve-as em Inglaterra,
tendo um dos centros principaes em York.
Foram incontestavelmente os
free-stones-masons, que
elevaram um dos grandes monumentos ogivaes inglezes,
a cathedral de York. Teve-as a Allemanha, com
o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach
construiu a grande e formosa cathedral, um dos
primeiros monumentos do Estylo Ogival, que serviu
de exemplo a tantos outros e cuja fama deu á loja-mestra
a supremacia sobre quasi todos os centros
principaes allemães e ao seu presidente o
grão-mestrado
supremo. Existiram em França, onde predominou
a loja-mestra de Paris, construindo as grandes
cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e
a Saint-Chapelle em Paris. Encontravam-se, emfim, na
propria Italia, onde aliás o Estylo Ogival experimentou
energicas reacções classicas, principalmente ao
sul.
Foram os
magistri comacini, que, sem
a menor duvida,
construiram o colosso ogival, a cathedral de Milão.
Como estas associações tiveram grande influencia
sobre a formação e a dispersão do
Estylo Ogival, parece-nos
conveniente entrar em alguns pormenores
ácerca da sua organisação no seculo
XIII, visto que das
respectivas origens provaveis e evolução
constituinte
já falámos em precedentes capitulos.
Não póde existir, a nosso ver, a menor duvida em
que
estas corporações
franco-maçonicas,
que se estendiam
pela França, Allemanha e Inglaterra, chegando pelo
menos ao norte da Italia, tinham entre si intimas
relações,
offerecendo um caracter internacional bem definido.
Esta affirmação resulta não
só da propria natureza
das associações de mutuo auxilio e de defeza
dos interesses dos respectivos associados; mas é, ainda,
demonstrada pela essencia e tradição das
associações
franco-maçonicas
politicas, em que as primeiras se transformaram,
durante os seculos XVI e XVII.
A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida
dispersão nas zonas, aliás extensas, em que
floresceu,
devem ser attribuidas em grande parte ás
relações
muito apertadas entre as
corporações maçonicas
do mesmo paiz e assás intimas entre as de
nações differentes.
Em 1459, por exemplo, a assembléa capitular
de muitas lojas allemãs, reunida em Strasburgo,
reconheceu como grão-mestre o presidente da loja-mestra
d'esta cidade. Mais do que provavel nos parece
que em França e em Inglaterra se procedesse por identica
fórma; é a consequencia logica dos fins d'estas
associações de trabalho e de soccorro mutuo.
Alem d'isso, as deslocações dos associados de uns
para outros paizes, em procura de trabalho ou por outras
quaesquer causas, só por si constituiriam, n'esse
tempo de construcções muito activas, constantes
relações
internacionaes, quando não existissem outras officiaes
e regulares, como é assás provavel. O operario
associado em viagem encontrava, naturalmente, a
protecção
e o apoio das associações do mesmo genero,
formadas em outros paizes. Este facto dava-se com
as associações romanas e corresponde á
tendencia internacional
das poderosas associações operarias. Assim,
na Edade-Media o trabalho teve uma organisação
muita extensa e protectora, que a moderna Internacional
tentou debalde realisar no ultimo quartel do
seculo XIX.
A constituição interna d'estas sociedades
franco-maçonicas
é, como a sua historia, assás obscura. Visto
que fixavam os proprios salarios dos differentes trabalhadores,
parece-nos logico que estas associações
se ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura
em muitos casos por contractos de empreitadas
parciaes ou geraes, como se pratica nos modernos
tempos. Evidentemente, estas presumpções
fundam-se apenas na logica e no principio de que
em todas as epocas a eguaes necessidades corresponderam,
sempre, instituições e processos analogos ou
equivalentes.
Deve notar-se que estas associações foram muito
protegidas durante a Edade-Media. Altas personagens
civis e ecclesiasticas faziam d'ellas parte como
socios
honorarios, no periodo da sua maior grandeza. Foi
até a existencia numerosa d'estes elementos
estranhos
ao trabalho, que, depois da decadencia e
transformação
do Estylo Ogival, facilitou a conversão das
associações
primitivas em corporações politicas, conservando
os symbolismos dos officios, os provaveis
signaes de reconhecimento, as praticas secretas e o
espirito internacional, protector e caridoso, da maçonaria
moderna, que foi nos ultimos seculos um instrumento
poderoso de movimentos sociaes.
É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras
de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera
de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do
seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram
grande
incremento.
Sendo assim, a elaboração dos planos seria
a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por
logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam
ao pessoal technico, que por ordem hierarchica
se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo
merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito
disciplin
É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras
de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera
de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do
seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram
grande
incremento.
Sendo assim, a elaboração dos planos seria
a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por
logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam
ao pessoal technico, que por ordem hierarchica
se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo
merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito
disciplinado
e methodico, que constitue a melhor garantia
de producções completas e perfeitas em obras
collossaes.
Esta divisão do trabalho devia chegar ao ultimo
extremo. Assim, sabe-se que as construcções eram
dirigidas
por um mestre ou architecto, escolhido provavelmente
em harmonia com a grandeza da obra, sob
cujas ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos
a seu turno por um mestre pedreiro. Esta
organisação
explica a grandeza da concepção dos planos,
a analogia, quasi similhança, que manifestam muitos
dos seus elementos e, emfim, a extrema diversidade da
ornamentação no mesmo edificio. Póde
notar-se, por
exemplo, que as altas agulhas de Zurich, Vienna, Colonia
e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas
das de Strasburgo.
A extrema variedade de ornamentação, a
diversidade
dos capiteis, no mesmo edificio numerosissimos
e poucas vezes repetidos, esses symbolismos grotescos
uns, pornographicos outros, espalhados nos capiteis e
constituindo algumas gargulas, não podem ser explicados
senão pela extrema liberdade de acção
dos esculptores
e lavrantes de pedra, mais numerosos e
inferiores. Este uso caracteristico, já mencionado no
Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes,
como o nosso, onde a
franco-maçonaria teve,
quando
muito, residencia accidental.
Isto exposto, o perfil do seculo XIII póde desenhar-se
em poucas palavras. O pensamento humano, activo e
energico, procura conquistar a liberdade na esphera
moral e politica. O feudalismo perde lentamente as
forças e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride,
accumula riquezas pelo commercio e pela industria,
e trabalha. As communas multiplicam-se e
florescem. N'este estado social, um poder predomina,
o Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia
e illustração, pelo prestigio da
religião sobre as
consciencias e pelo poderio de riquezas immensas. As
futuras reacções da
reforma estão ainda
embryonarias
e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia
e da metaphysica, approximando-se lentamente
do methodo experimental, que ha de ser o poderoso
instrumento da rapida e prodigiosa evolução
social e
scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte,
conforme a propria essencia,
observa
e
experimenta,
retemperando-se no estudo da Natureza.
Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda;
mas os tenues raios de luz são sufficientes para dissipar
as sombras medievaes, deixando ver o caminho
do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos
a synthese do brilhante seculo XIII.
CAPITULO
QUINTO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO OGIVAL
A formação do Estylo Ogival resulta logicamente
do
meio social do seculo XIII. A
phase da evolução da
arte corresponde-lhe com rigor. É o espirito do seculo
que toma fórma nas pedras dos monumentos,
descobrindo novas combinações de antigos
elementos,
empregando-os com mais arrojo e inspiração
esthetica,
mais sciencia e experiencia de construcção.
Assim,
na realidade o Estylo Ogival é a
floração esplendida
do romanico, aberta á luz e ao calor do sol nascente
da liberdade do pensamento.
Onde se manifestou primeiro o Estylo Ogival? É
impossivel fixal-o. Os seus productos, mais ou menos
originaes, elevam-se por toda a parte, onde o
meio foi
identico; como certas plantas nascem em sólos afastados,
quando são de natureza similhante. É certo,
todavia, que se desenvolve e progride com maior rapidez,
principalmente entre as nações onde teve mais
tarde maior preponderancia a
reforma
religiosa, vencedora
na Allemanha e em Inglaterra, em França
vencida após longas e tenazes luctas: mas deixando
sempre um permanente fermento religioso. Na Hespanha,
em Portugal e na Italia, onde a Inquisição e a
Companhia de Jesus esmagaram a
reforma logo á
nascença, o caminho do novo estylo manifesta-se, pelo
contrario, mais penoso e lento.
N'aquelles paizes, que hão de ser o foco das futuras
luctas da religião, entre o dogma e a disciplina de
um lado e do outro a liberdade do pensamento e da
interpretração da Biblia, a dispersão
do ogival foi rapida
e fecunda. Os reis, os pequenos senhores feudaes
seculares e ecclesiasticos, as communas e as ordens
religiosas, numerosas e ricas depois das Cruzadas, rivalisavam
em construcções grandiosas, espalhavam-n'as
por toda a parte com piedade religiosa, onde havia
tambem muita emulação humana. Assim, por exemplo,
resolvendo a construcção da grande Cathedral
de Sevilha, o respectivo Cabido escrevia: «construamos
obra tão grandiosa e magnifica que os vindouros
possam dizer que estavamos loucos».
As associações
franco-maçonicas,
fornecendo um
exercito de constructores desde os architectos até aos
mais simples operarios, facilitavam este grande movimento,
imprimindo-lhe a rapidez e a unidade de feições,
que anteriormente notámos.
Recordando n'este ponto o que escrevemos ácerca
da abobada e das consequencias logicas do respectivo
emprego, bem como as doutrinas expostas no mesmo
sentido sobre o arco ogival, procuremos agora definir
os caracteres do Estylo Ogival, que aliás se ligam
intimamente
com os do romanico terciario. O arco em
ogiva, diminuindo muito os impulsos horisontaes sobre
os supportes, permittia dar-lhes menos espessura, fossem
pilares ou paredes. A elevação dos edificios,
dando-lhes
incontestavelmente elegancia e nobreza, foi a
consequencia necessaria do emprego d'este arco. Os
architectos ogivaes aperfeiçoaram o systema, empregando
as
abobadas artezonadas, ou de
nervuras, d'onde
decorreram modificações importantes na arte da
construcção
dos edificios. É este, sem duvida, o caracter
mais importante do Estylo Ogival.
Figuremos por um instante que da abobada da nave
central da Egreja da Batalha, bem conhecida de todos,
tiravamos a silharia encastrada entre os artezões,
como o parenchyma das folhas vegetaes enche os
meandros das nervuras salientes. Da folha ficaria
uma fina renda de estreitas malhas, da abobada um
grande arcabouço de arcos ogivaes parallelos sobre
pilares correspondentes, formando successivos tramos
quadrados eguaes. Outros arcos em ogiva, perpendiculares
entre si e cortando-se nos fechos, ligariam de
angulo para angulo os quatro pilares do tramo. Emfim,
uma nervura recta ao longo do eixo da nave
pareceria dar rigidez e estabilidade ao systema, encadeando
os vertices dos arcos parallelos e perpendiculares.
Se a figura foi exposta com alguma clareza,
comprehender-se-á
com pequeno esforço de intelligencia
o systema das abobadas ogivaes. Tudo consiste, em
summa, no artificio de descarregar, o mais possivel,
as pressões verticaes e os impulsos horisontaes da
abobada sobre os pilares. Em theoria tambem a silharia
entre os pilares poderia desapparecer, deixando
um pavilhão aberto, uma especie de esqueleto formado
pelos pilares, reforçados por arcobotantes, e pelos arcos,
constituindo as nervuras ou artesões das abobadas.
As conclusões logicas d'este systema de
construcção
são de extrema evidencia. As pressões verticaes
e os impulsos horisontaes dos arcos determinam certa
espessura aos pilares. As primeiras não podéram
ser
supprimidas; mas os impulsos horisontaes foram diminuidos
pela fórma ogival da curva e podem ainda, ser,
contrariados pelo lado de fóra por botareos salientes,
e pela ligação d'estes botareos a outros
exteriores
por meio de arcobotantes. Assim por este modo, um
edificio ogival pode ser
theoricamente reduzido a um
esqueleto de pedra, como as casas de Lisboa representam
um esqueleto de madeira, antes de preenchidos
os intervallos com a alvenaria das paredes e de
fechada a cobertura dos tectos.
É evidente que este systema da
construcção ogival
permitte o facil rasgamento de grandes vãos abertos,
portas, janelas e rosaceas, entre os intervallos dos
botareos e dos arcobotantes; por isso, ao contrario do
romanico, o Estylo Ogival abunda n'estes elementos,
multiplicando as janelas e as rosaceas para illuminar
as grandes naves e os transeptos, que attingem alturas
muito elevadas em relação á respectiva
largura,
ás vezes, alturas relativas enormes, como succede na
Egreja da Batalha. Pretender dar mais clareza a uma
exposição d'esta ordem, sem desenhos ou modelos,
seria caír em diffusão de palavras, que mais
complicaria
ainda o assumpto. É, pois, contraproducente
tental-o. A imaginação do leitor, impellida por
estes
traços, preencherá as lacunas.
Expostas estas generalidades, inutil será entrar em
divagações sobre o emprego da ogiva, o que
aliás já
fizemos succintamente no segundo periodo do Estylo
Romanico. A ogiva foi conhecida e empregada muito
antes do estylo a que deu o nome, é facto incontestavel.
Não conhecido nem empregado era o systema
das abobadas, tal como o havemos descripto. Eis qual
foi a verdadeira creação dos architectos ogivaes.
Em verdade, este systema ainda póde considerar-se
a conclusão logica e scientifica do emprego da ogiva
e das suas respectivas qualidades estheticas e mechanicas.
O arco de volta inteira podia, com effeito, ter
sido applicado ao systema com alguns resultados, sómente
implicando grande sacrificio da elegancia e da
majestade do edificio. Parece-nos, pois, um verdadeiro
circulo vicioso investigar, se o arco em ogiva deu
origem ao novo systema de abobadas, se este systema
exigiu a fórma quebrada do arco. Emquanto a nós,
se houvesse vantagem em fixar opinião sobre este
ponto, admittiriamos, como mais natural e logica, a
primeira hypothese.
O Estylo Ogival manifesta uma duração de tres
seculos. Vimol-o nascer com o feudalismo na decadencia,
durará durante a agonia d'esta
instituição e
desapparecerá com ella, transformando-se em novo
estylo. Está definitivamente formado a partir dos
meiados do seculo XIII, constituindo o primeiro periodo.
As construcções d'este periodo são
harmonicas
e regulares, mas a sua feição é ainda
um pouco fria
e severa.
No seculo XIV adquire feições mais elegantes e
distinctas.
N'este segundo periodo, que os architectos
denominaram
radiante, devido a
disposições caracteristicas
de certos elementos de construcção e
ornamentação,
os edificios são mais puros e alegres, mais
elevados e finos, emfim mais ideaes, d'esse espirito
que principiou a manifestar-se no seculo anterior.
No seculo XV e nos começos do XVI o Estylo Ogival
attinge elevado grau de elegancia, ás vezes exagerada.
N'este terceiro periodo, os elementos verticaes
tendem a tomar grandes proporções, a
ornamentação
manifesta-se riquissima e caprichosa, os coroamentos
enchem-se de agulhas e de pinaculos, uma floresta de
corocheos elevados e ponteagudos dá aos edificios
phantastico aspecto, causando a impressão caracteristica
de chammas, principalmente quando illuminados
pelos raios do sol poente. D'esta impressão proveiu,
de certo, o ser conhecido este periodo pela
designação
de Estylo Ogival
flammejante, ou
florido.
Taes são os periodos, que offerece a
evolução do
novo estylo; devendo, porém, notar-se n'este ponto o
que dissemos ácerca da classificação
um pouco empirica
por seculos. A passagem dos estylos faz-se sempre
evolutivamente, sendo impossivel marcar-lhes limites
rigorosos e bem definidos.
No interior as egrejas ogivaes manifestam excepcional
grandeza e elegancia, provindo da elevação dos
pilares polystilos e da profundidade das abobadas, ricamente
artezonadas, com fechos ornados de bocetes.
Numerosas janelas e rosaceas, tendo vitraes polychromicos,
inundam o templo de luz doce e poetica.
O mysticismo sombrio e severo das egrejas romanicas,
a profunda melancholia que produzem no espirito,
transforma-se nas ogivaes em alegre e suave sentimento
religioso.
A egreja romanica traduz a profunda tristeza e o
desalento da Edade-Media, principalmente nos primeiros
seculos; a sua expressão é lugubre, quasi
sinistra,
como a do espirito monastico que lhe deu origem. Ha
n'ella a impressão desoladora de uma vida rude e cruel,
d'onde a alma procura fugir para o socego eterno. A
egreja ogival produz sensações differentes.
Respira-se ali
a vida livre e activa, supremo bem sobre a terra, seguida
depois pela felicidade eterna, cuja esperança irisada
illumina o espirito, como os raios do sol, atravessando
as grandes vidraças coloridas, inudam de luz
suave e avelludada as naves do templo.
Nas disposições internas a egreja ogival soffreu
algumas
modificações importantes. A cruz latina
já havia
sido por vezes abandonada ou alterada no Estylo
Romanico, muito embora, tanto n'este estylo como
no ogival, deva ser considerada fórma fundamental e
preferida. Pelas necessidades do culto, sempre crescente
em riqueza, os coros ogivaes tomaram
proporções
maiores em relação ás naves. A
charola, quando
existe, é ornada de capellas, a correspondente ao eixo
central da egreja mais elevada e comprida, dedicada
ao culto da Virgem. As capellas ao longo das naves
lateraes não se encontram ainda no primeiro periodo
ogival; mas apparecem no fim do segundo, no seculo
XIV. Em algumas egrejas observa-se a inclinação
do eixo do côro em relação ao da nave
principal, desvio
que citámos e apreciámos no Estylo Romanico de
transição.
A planta circular e a polygonal manifestam-se, tambem,
como no estylo precedente. Em certas egrejas
as absides são prismaticas ou desappareccm, sendo
substituidas por paredes planas em que se abrem
grandes janelas. É evidente ser impossivel abranger
em curta synthese as disposições, variaveis em
muitos
elementos, das plantas das egrejas ogivaes, que
se contam por centenas, se não por milhares em todo
o orbe christão. Uma idéa geral, embora, pouco
caracteristica,
é o mais a que se póde chegar n'este momento;
todavia, não devemos deixar de especificar a
elegante planta da egreja da Batalha, que descreveremos
n'outra parte d'este livro.
Uma disposição particular muito constante das
egrejas ogivaes parece-nos ser a maior elevação
da
nave central sobre as colateraes. Nas paredes d'esta
nave, exteriormente fortalecidas por arcobotantes,
abrem-se as grandes janelas do
clerestory. Ás vezes,
desapparecendo o
triforio, estas
janelas assumem enormes
proporções, prestando-se então
admiravelmente
aos magnificos quadros dos vitraes polychromicos.
Esta disposição, que dá extrema
belleza ás naves centraes,
é a da Egreja da Batalha.
N'algumas egrejas, os ambons primitivos—as tribunas
onde era lido o Evangelho—foram substituidos
por galerias elevadas, lançadas entre a nave central
e o côro, com accesso pelos dois lados. Estas galerias,
profusa e ricamente ornamentadas, repousam
sobre grandes arcos, por baixo dos quaes fica livre
e desembaraçada a ligação do corpo da
egreja com o
côro. D'esta construcção,
aliás pouco vulgar e não existente
entre nós, ha exemplos elegantissimos e muito
ricos.
Pelo que respeita ás fachadas, a diversidade é
maravilhosa;
todavia, de um grande numero de edificios
póde deduzir-se um schema de certa importancia e clareza.
Tomaremos, para exemplo, um monumento bem
conhecido, a Cathedral de Notre Dame de Paris. A
fachada é dividida em trez partes verticaes—em
geral
ha tantas partes definidas, quantas são as naves
interiores da egreja—a do centro comprehende a
porta principal, sobrepujada pela rosacea; as lateraes,
correspondendo ás torres, conteem as portas secundarias
e por cima as respectivas janelas ou rosaceas,
que illuminam as naves correspondentes. A fachada
offerece, tambem, tres divisões horisontaes bem distinctas,
a primeira envolve as tres portas, a segunda
a rosacea e as janelas ou rosaceas lateraes, a terceira
começa na nascença das torres.
Nas fachadas sem torres, como as das Cathedraes
de Milão e de Sevilha, de cinco grandes naves, e na da
Egreja da Batalha de tres, as divisões verticaes
são
muito evidentes, accusando, sempre por fórma bem
marcada, o numero e a disposição decrescente das
naves
interiores.
Este schema parece-nos apenas interessante; porque
seria impossivel abranger a variedade infinita
das fachadas ogivaes em curtas regras e poucos principios.
Diremos mais: é quasi impossivel descrever a
mais modesta só com simples palavras oraes ou escriptas.
As torres ogivaes são caracteristicas, de extrema
elegancia, principalmente quando coroadas de elevadas,
finas e rendilhadas agulhas. Offerecem a impressão
de força e grandeza, sem duvida; mas a profusa
ornamentação
e as grandes janelas, onde reina a ogiva,
dão-lhes um aspecto especial de leveza e elegancia,
que não possuem as romanicas. Algumas vezes as
torres da fachada apresentam-se deseguaes; accusando,
assim, a secundaria importancia da egreja na hierarchia
ecclesiastica.
Estes e outros caracteres dos templos ogivaes manifestam-se
tão salientes, impressionam tão profundamente
a intelligencia e a memoria, que os menos
entendidos e versados na architectura podem distinguil-os,
classificando com relativa facilidade edificios
bem definidos.
A ornamentação ogival é em extremo
complexa;
mas tão harmonica e bem combinada, que produz a
sensação de grande simplicidade. Para bem a
apreciar
seria indispensavel estudar elemento a elemento as
differentes partes de um edificio, o que não podemos
fazer.
Na ornamentação mural do seculo XIII predomina
o reino vegetal; na Cathedral de Reims, por exemplo,
contaram-se mais de trinta especies vegetaes differentes,
espalhadas pelos varios pontos do edificio. Os
ornamentos mais usados são os trifolios, os quadrifolios,
as violetas, as crossas ou arpões, orlando os angulos
das pyramides e as linhas dos frontões e das
cornijas, os pinaculos, rematando as cabeças dos botareos,
os nichos com doceis mais ou menos pyramidaes
e rendilhados, zig-zags, cabeças de pregos e
algumas outras molduras romanicas. A antiga
ornamentação
byzantina, que floresceu ainda no Estylo Romanico,
tende a desapparecer. O trabalho é fino e perfeito;
procura-se imitar a natureza, sem a copiar, com
extrema liberdade de concepção e firmeza de
execução.
No seculo XIV esta ornamentação subsiste. Os
doceis
dos nichos tomam fórmas mais elevadas e pyramidaes.
Os triforios obscuros tornam-se transparentes,
illuminados por janelas. As arcaturas teem n'este periodo
uso mais geral.
No seculo XV, domina nas molduras a secção
prismatica.
Os doceis dos nichos accentuam-se em elevação
e em caprichosos e ricos ornamentos. Os caixilhos,
ou almofadas, constituem decorações muito
vulgares,
que mascaram a nudez das paredes. A ornamentação
do seculo XV acompanha, como é natural, a
evolução do
estylo, é grandiosa e complexa, approximando-se das
fórmas da renascença.
A esculptura no seculo XIII começa a perder as
fórmas
tradicionaes e byzantinas dos seculos anteriores.
Tem mais grandeza e naturalidade, sem prejudicar a
uncção religiosa. A architectura emancipou-se da
influencia
monastica, a esculptura seguiu-lhe o exemplo.
É o elemento profano que vae preparando successivamente
o movimento artistico da renascença, pelo
estudo da natureza e da antiguidade classica.
No seculo XIV apparecem as creações grotescas,
algumas
assás livres, e as satyras da vida monastica,
de que entre nós existem exemplos. Na Egreja da Batalha,
alguns capiteis mais elevados, segundo nos disseram
operarios que os restauraram, descrevem scenas
equivocas, ou pelo menos pouco edificantes. Não
pudémos
verifical-o, attendendo a enorme altura dos capiteis
e á pouca claridade do templo. Algumas gárgulas
offerecem disposições parecidas; uma parece
symbolisar
accentuadamente o classico deus Priappo.
No antigo Convento da Conceição em Evora,
mosteiro
de freiras, uma gárgula representa uma freira,
dando á luz uma creança. Na egreja matriz de
Caminha,
outra gárgula figura um homem, voltando as
costas para Hespanha em posição assás
equivoca.
Estas e outras anomalias, aliás vulgares e caracteristicas
n'este estylo, procurámos explical-as, tratando da
organisação das associações
franco-maçonicas. Em
qualquer
caso, são o producto do trabalho independente da
acção monastica, talvez uma
manifestação deploravel
da liberdade de pensamento, que foi a aspiração
do
segundo periodo da Edade-Media.
No seculo XV a esculptura e a pintura libertam-se.
A verdade da natureza traduz-se nas posições e
nos
actos. Sente-se bem que a Renascença está
á distancia
de um seculo. Os esculptores e os pintores teem individualidade
propria, as suas escolas e os seus discipulos;
não se apresentam simples decoradores, manifestando
já a dignidade de artistas, que professam artes
independentes.
A pintura mural foi muito usada no Estylo Ogival.
No interior, as abobadas eram, ás vezes, pintadas
de azul e constelladas de ouro e prata. A côr verde
applicava-se aos capiteis, a encarnada aos fustes das
columnas. Nas paredes desenhavam-se varios ornamentos,
em alguns casos simulando elementos architectonicos
que melhor pertencem á esculptura. No exterior,
a pintura cobria tambem os portaes, as arcaturas
e os pontos principaes do edificio. As folhagens offereciam
a côr verde e as figuras dos porticos eram recamadas
de ouro.
A pintura mural rivalisava com a dos grandes vitraes.
O tempo fel-a, porém, desapparecer quasi por
completo, habituando a esthetica moderna a não comprehender
nem admirar a polychromia dos edificios,
aliás tambem muito empregada nos Estylos Classicos.
A Sainte Chapelle de Paris, modernamente restaurada,
offerece no interior um excellente exemplo da pintura
mural. É, todavia, mais do que provavel que este uso
não fosse geral, pelo menos nas egrejas de menor
importancia.
Segundo a nossa opinião, devemos confessal-o,
as velhas cathedraes devem aos seculos o grande
beneficio de lhes haverem substituido o effeito garrido
da pintura exterior pela côr sombria e solemne, que
provém da acção do tempo.
Um dos mais bellos ornamentos do Estylo Ogival
consiste, sem a menor duvida, nos vitraes. As vidraças
multicolores, rutilantes á luz do sol, como se fossem de
pedrarias, coando serena claridade pelas grandes superficies
irisadas, onde se desenham, envoltos em caprichosa
ornamentação, complexas scenas, paisagens,
episodios guerreiros ou religiosos, nichos rendilhados
com grandes figuras asceticas, produzem effeitos de
luz surprehendentes e de extrema belleza esthetica.
Estes vitraes polychromicos causam uma impressão
profunda e indelevel, em que se mistura a poesia da
alma com a musica das côres. Sem elles as mais bellas
cathedraes perderiam grande parte do espirito mystico
e do seu finissimo caracter artistico.
Vimos apparecer estes vitraes no ultimo periodo
romanico, pelo menos com mais importante
applicação;
vamos agora esboçar as transformações,
que soffreram
nos seculos seguintes.
No seculo XIII, as vidraças coloridas attingem grande
perfeição. A arte do vidreiro e a pintura
aperfeiçoaram-se.
Como se chegou a obter na mesma chapa de
vidro côres differentes e esbatidas, as malhas do tecido
de chumbo são maiores, não recortam tanto o
desenho, e os tons dos vitraes manifestam mais harmonia
e doçura. As figuras são mais elevadas, o que
provém
logicamente dos grandes vãos das janelas. Os
ornamentos, mais cuidados e ricos, harmonisam-se com
os do interior do templo.
São variadissimos os motivos; scenas do Novo e
Antigo Testamento, lendas do Christianismo, o florilegio
dos martyres, combinam-se com episodios do tempo
e representações de industrias coévas,
verdadeiros subsidios
de estudo. Retratos de personagens da epocha,
ecclesiasticas e civis, guerreiros com armaduras e bispos
paramentados, constituem recordações historicas
de piedade christã e de votos dos que offereceram estes
despendiosos ornamentos, que embellezam as antigas
cathedraes.
No seculo XIV o desenho dos vitraes é mais correcto
e as figuras vão sempre perdendo o caracter byzantino.
Os pintores começam a estudar mais a antiguidade
e a natureza, abandonando as fórmas tradicionaes
dos seculos anteriores. A esthetica consegue em bellos
effeitos o que perde em originalidade e espirito de
tradição, que aliás encerra sempre
manifestações de
belleza mais de accordo com a architectura dos templos.
As côres tornam-se menos vivas, prevalecem as
neutras pouco carregadas. As egrejas precisam de
luz, a fim de que os fieis possam ler nos breviarios
os exercicios divinos; as vidraças tornam-se, pois,
mais claras. A Imprensa, inventada no seculo XIV,
se esclareceu o mundo, sacrificou um pouco as velhas
cathedraes, desfazendo essa penumbra doce e encantadora
que era a expressão mais adequada ao mysticismo
religioso.
Uma ornamentação, embora accessoria, que
embelleza
as cathedraes ogivaes, é a rica obra da talha ou
a esculptura em madeira, principalmente nas cadeiras
dos córos, que nos estylos mais primitivos eram de pedra.
A perfeição d'este trabalho attinge
proporções admiraveis
no seculo XIV. N'este genero de coros, em que
a nossa pobreza é extrema, deve citar-se o da Sé
da
Guarda. Em Hespanha, pelo contrario, ha riquezas
immensas nos coros e nas respectivas obras de talha.
O mais rico, que temos visto é o da Cathedral de Sevilha,
collocado segundo o uso n'aquelle paiz na nave
principal, como no Estylo Latino. Este côro, admiravel
e riquissimo em todo o sentido, parece-nos que deve
datar dos meiados, se não dos fins do seculo XVI.
Antes de finalisar este capitulo, são indispensaveis
algumas considerações geraes de ordem mais ou
menos
technica, que somos forçados a desenvolver. Em
nenhuma das phases da evolução da arte se
manifesta
mais accentuada a influencia do
meio, do que no Estylo
Ogival. Provam esta asserção a unidade dos seus
caracteres geraes e tambem a sua rapida dispersão
nas zonas, onde esse
meio, como o
definimos na introducção
d'este livro, era mais ou menos identico;
todavia, a existencia de elementos e de condições
particulares
nos differentes paizes tinha de influir necessariamente
nos caracteres da arte.
As construcções ogivaes, obedecendo á
influencia
do
meio particular das
nações, entre as quaes se desenvolveram,
tomou feições proprias em cada uma,
muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres
geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo
Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos
talvez mais nitidamente as physionomias, do ogival
allemão, francez e inglez são por tal
fórma definidas,
que os grandes entendedores da arte as distinguem
com facilidade.
A evolução e a decadencia do estylo
não se manifestaram,
tambem, em identicos periodos: por exemplo,
a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom
estylo, não experimentando quasi o periodo de decadencia.
A Italia, principalmente ao sul, offereceu sempre
tenaz resistencia a todas as innovações
artisticas,
que mais se distanciavam do profundo espirito classico,
herdado no sangue das gerações successivas e
conservado
em numerosos restos dos antigos monumentos.
Ao Estylo Ogival aconteceu facto analogo: as suas
construcções appareceram primeiro nos pontos,
onde
menos abundavam as romanicas. Não falaremos na
Grecia e no Oriente, porque n'esses paizes o
meio social
conservou-se sempre differente.
A estas indicações se deve attender na historia
de
um estylo, sem perder, tambem, de vista que a unidade
e a harmonia dos edificios são sempre prejudicadas
pela demorada construcção. É sabido,
com effeito,
que alguns dos maiores monumentos ogivaes
levaram seculos a terminar, não falando, ainda, nas
successivas restaurações, que chegam a alterar a
unidade
e o caracter de um edificio.
Um facto, que parece caracteristico tanto no Estylo
Romanico como no Ogival, consiste no pequeno
numero de nomes dos grandes architectos, que nos
conservou a historia, emquanto são conhecidos muitos
dos classicos. Tem-se procurado, com excesso de paciencia
archeologica, explicar este facto pela humildade
christã dos frades architectos do Estylo Romanico e
pela organisação especial das
associações
franco-maçonicas,
principaes constructoras dos edificios ogivaes.
Talvez em parte fossem estas causas a origem do
silencio; não comparemos, porém, a
illustração e o gosto
artistico dos cidadãos livres da Grecia e de Roma
com a ignorancia dos barões feudaes e dos cavalleiros
medievaes, que timbravam em não saber ler e
escrever, sellando os documentos com os copos das
proprias espadas. Nem confundamos a plebe d'aquellas
florescentes republicas com a multidão desgraçada
e quasi selvagem da Edade-Media. Nos paizes classicos
a arte foi sempre considerada nobre e elevada
funcção;
na Edade-Media deve ter sido apenas olhada como
simples profissão. Assim, conservaram-se os nomes dos
fundadores dos templos e dos grandes e poderosos da
terra, para quem foi inventada a Historia; os dos pequenos
e humildes, embora geniaes e creadores, mergulharam
nas trevas do esquecimento e da ignorancia
medieval.
Alem d'isso, os architectos não punham em evidencia
os seus nomes. Aqui e além dão-se pequenas
excepções
a esta regra. Quando muito, empregavam signaes
caracteristicos e proprios em qualquer ponto evidente
da construcção. Assim, já o dissemos,
na pequena e
elegante capella do Estylo Ogival secundario, agora
em via de restauração na Sé de Lisboa,
a flor de lyz,
gravada na face de uma columna prismatica, póde
bem indicar a origem franceza do architecto.
Os signaes gravados nos silhares dos monumentos
ogivaes tambem são muito vulgares. Teem sido attribuidos
a simples marcas dos canteiros, que indicavam,
talvez para pagamento, as pedras feitas por cada um.
O facto de serem os signaes gravados na pedra e alguns
difficeis e complicados, como se póde verificar no Mosteiro
da Batalha, prejudica no nosso espirito esta hypothese.
Mais provavel nos parece que sejam signaes
particulares das differentes lojas maçonicas, ou
secções
d'ellas, a que pertenciam os differentes trabalhadores,
mestres e architectos. O assumpto não offerece,
aliás,
senão o simples valor de curiosidade.
Temos exposto, segundo nos parece, os caracteres
principaes do Estylo Ogival. O trabalho é incompleto,
nem podia deixar de o ser em assumpto tão vasto
e complexo, sobre o qual muito se tem escripto e
muito ha ainda para escrever. N'este estylo temos,
felizmente, um riquissimo exemplar no Mosteiro da
Batalha, cuja historia e descripção reservamos
para
uma parte especial d'este livro. Esta rapida monographia
completará a exposição feita, melhor
talvez do
que outros desenvolvimentos mais ou menos didacticos.
Na nossa opinião, o Estylo Ogival é a mais
elevada
expressão esthetica, até hoje revelada na
evolução da
architectura. Para o comprehender não é
necessario ser
artista, sabio ou crente; bastará, apenas, possuir algum
sentimento, firmado em instrucção vulgar, e
comparar
os movimentos do nosso espirito em face das
creações dos melhores estylos.
Nós vimos grandes templos, restos da antiguidade
classica, sumptuosas basilicas, magnificos exemplares
byzantinos e romanicos; encontrámol-os por muita
parte. Em longas horas de contemplação e de
estudo,
procurámos o espirito d'esses monumentos, transportando-nos
aos seculos, que lhes imprimiram physionomia.
As impressões mais perfeitas e harmonicas
foram-n'os dadas, sempre, pelas grandes cathedraes
do Estylo Ogival.