Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de
eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo
de
Mr. Arago, dá bem a
conhecer o caracter do nosso heroe.
[27]
Eis como elle o pinta.
—Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.
[28]
Dir-te-hei o modo porque
fomos hospedados. Ás
protestações de amisade cheias de
franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, é
difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos.
Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou á
nossa meza, com profusão, os manjares mais delicados. Queria
mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos
maiores sabios do mundo.
Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do
paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a
galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas,
que voam nas azas do prazer.
O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua
generosa affeição: fez
acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não lhes dar
valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto
Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de
conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para
Timor, pelo que nos
deu a entender, procedeu de causas politicas.
[29] Ocupou-se com desvelo
em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua
administração é doce. Os Rajaz
não são aviltados
pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo
contratrio são tratados com amor.—
Já, em outras éras, menores virtudes de outro
Souza foram assim cantadas.
Le
généreux Souza, qui sut
domter l'amour
Dans ces climats ardens oú son feu nous
dévore,
Et q'aprés Scipion la vertu
nomme encore.
No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito
cidadão José Baptista de Miranda e Lima as
virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte:
Á sombra de frondifera
oliveira,
Por ti, ha
tanto tempo, desejada,
(Graças ao creador Omnipotente.)
Te
vejo, cara patria
[1]
reclinada.
No pelago espaçoso, que te
cerca,
Ja
não vês tremular hostis pendões
[2].
Não ouves rebombar os horisontes
[3]
Com horrorosos tiros de
canhões
[4].
De salitroso
pó
[5]
que antes servia
Para ao longe mandar lethaes pelouros
Se ferreos tubos hoje tu carregas
[6],
É só por
festejar c'os seus estouros.
Centenares de
Taós
[7]
prenhes de tygres,
Que ao pé de ti
rasgavam cruelmente
[8]
Meninas e donzelas delicadas
A teu Pai
sujeitou
[9]
o Eterno Ente.
Teu benefico Pai, o Arriaga
[10]
Estes tygres de Hyrcania domou
E a frondente oliveira, que te cobre,
Cortando mil obstaculos, plantou.
Jámais pois
riscarão da fantasia
[11]
O nome deste Heroe da lusa gente:
E
agora, que celebras seu triumfo,
De verde palma vai cingir-lhe a
frente.
Da victoria este emblema para ornares,
Lindas flores
procura designantes
D'aquelles predicados appreciaveis,
Neste filho de
Lisia mui brilhantes.
O louro girasol, que sempre segue
O
planeta, que os outros illumina
[12]
Designa a bem notoria lealdade
Do
nosso Heroe á prole Bragantina.
Os rubros
amaranthos, que resistem
Ao vento, á calma, ao gelo,
symbolisam
A intrepida constancia nas empresas
[13],
Que o nome de
Arriaga immortalizam.
A candida açucena, que
dispende
Liberalmente o corceo, de
que gosa
É symbolo do seu singello peito
[14],
Emblema da sua
alma generosa.
O Lirio, que nascendo d'alta vara,
Sendo rei
da florida monarquia
Para baixo a sublime frente inclina,
Sua clemencia
designa, e cortezia
[15].
Das mais virtudes symbolos procura
N'outros lindos matizes dos jardins;
Não te
esqueças das rosas rubicundas,
Dos junquilhos, dos cravos,
dos Jasmins.
De ti receba agora esta
corôa
Bem que inferior ao seu merecimento;
Em quanto outra
melhor se lhe prepara
No reino superior ao firmamento.
Notas de
Antonio Francisco de Miranda e Sousa,
Deão da Sé de Macáo.
1.ª A
patria é
a cidade de Macáo.
2.ª As
bandeiras
vermelhas e pretas das duas columnas
inimigas.
3.ª
?
4.ª Mil e
oitocentas bombardas de diversos calibres entregou
Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.
5.ª
Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em
Macáo em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.
6.ª
Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se
celebrava o
triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus
contornos, a melhor parte do povo da cidade.
7.ª
Embarcações de guerra. Cam-pau-sai
entregou
3800 homens, Apautai 2000.
8.ª
Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000
pessoas.
9.ª
Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel
de
Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China.
10.ª
Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de
Macáo.
11.ª O
nome de Miguel de Arriaga será lembrado
não só na ilha de Macáo mas tambem no
imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em seus
annaes para haver delle eterna memoria.
12.ª
Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para
dirigir
o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes
não arrebatarem esta cidade á
nação portugueza.
13.ª
Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns
que
mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a
victoria.
14.ª A
candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao
Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar
amizade entre aquelles desavindos.
15.ª
Despresando difficuldades tratou sempre em
Macáo os
máos, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e
tudo isso nascia da sua nobreza de coração e das
altas e perfeitas
virtudes que
possuia.
Em recompensa de tão relevantes serviços o
conservou El-Rei D. João VI, na ouvidoria de
Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi
nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura.
Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais
subida era a do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e
Sousa: Capitão de artilheria. Em verdade para obrar grandes
cousas não são precisos gráos
elevados. No tempo dos
Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de
crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que
sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!
Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que
fizeram acções extremadas. Se mencionasse
todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram
cousas uteis,
faria mui grosso
o volume; porque muitos foram elles, e
todos merecem elogio.
Quando os governos não excitam os homens á
gloria, os concidadãos tem em pouco a
estimação
publica. A maior parte dos homens são como o negociante
avaro: se armam não é com
esperança de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao
ganho temem, que o navio se afaste do caminho já sulcado;
por este sabem elles não haverem novas terras para
descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal
for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a
explore nem reconheça os
habitantes:
tome agoa e largue as
velas ao seu
destino sem lhe importar descobertas
[30]
. Já não
ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos
de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de
explorar a naturesa
[31]
. Todavia o governo de Macáo provou o
muito que tinha excitado os seus concidadãos á
gloria.
Estes para merecela, não receberam pensões,
arriscaram a vida e prestaram a fazenda.
Graças
aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que
mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.
SEGUNDA PARTE.
INVASÃO DAS TROPAS INGLEZAS
EM MACÁO
E SUA
RETIRADA.
PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.
A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos
de fazer mal; não privar pessoa alguma das vantagens que
desfructa; dar a cada um o que é devido; e promover a
felicidade dos outros em geral. O homem só merece o nome de
virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da
sociedade.
A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode
considerar-se o centro comum de todas as outras. Ella dá aos
entes da especie humana direitos sobre o nosso
coração.
Sim ella tem por base a sensibilidade, e esse sentimento
dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as nossas
faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor,
a
beneficencia, a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.
Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o
amor da patria; isto é, produz a necessaria
affeição
nacional.
A força deve só respeitar-se como virtude; quando
defende a sociedade em que vivemos, quando se acha acompanhada de
grandeza d'alma, valor, e moderação. A actividade
tambem deve entrar na ordem das virtudes sociaes;
as
que tem por
objecto o bem da sociedade devem ser efficazes e não inertes
como outras quimericas e falsas, introduzidas pela impostura, ou
fanatismo. A sociedade só agradece
acções proveitosas: só essas
merecem a sua estimação e
reconhecimento.
A justiça é o vinculo da união social;
sustenta a balança em equilibrio entre os membros da
sociedade; remedeia os males que resultam da differença que
a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma desigualdade ao
bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e
sábia distribuição do
premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e chama
á ordem os que são tentados a obrar contra os
entes da sua especie.
Taes são as disposições que a
sociedade deve exigir dos seus membros; tudo nos mostra a sua
utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem por
fundamento a natureza
e as
precisões constantes da especie humana. Faltando a
justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o
estado social torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem.
É melhor viver só do que rodeado de homens
injustos.
A temprança é igualmente necessaria: a prudencia
nasce da razão ou da experiencia das cousas. A
razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a
estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a
razão compara os objectos, e despoja-os de apparencias
falsas; e aproveita-se do preterito, e do futuro para não
saír da meta conveniente na
occasião opportuna.
Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da
sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os
cidadãos, em paz e socego, o fructo dos seus trabalhos;
conservalos exemptos dos vicios internos, e das invasões
externas. O Senado de Macáo firme nestes principios, e
sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam aquelle nosso
estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam esbulha-lo
da
sua pósse, ou perturbar
o socego publico.
Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador
de Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda
que elles diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o
Senado desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.
Assim firme em sua resolução, sustentou entre os
Chinezes e os britanicos a seguinte correspondencia.
SEGUNDA PARTE
Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma
intimação de Lord
Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)
[32] e mandou
Robert, (primeiro sobrecarga da companhia) em
deputação ao
Governador. Robert fallou neste espirito.
[33]
—Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu
intento
é empregar as forças do seu commando na defeza de
Macáo, contra os francezes! A
explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord
Minto dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico
assim procede.
O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do
desembarque das tropas: com tudo é preciso que o Senado
esteja tambem disposto a cooperar com os inglezes para a
segurança desta cidade e do commercio; se o
plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o
Almirante, a seu pesar; terá conducta opposta.
Setembro 11
É para notar o ameaço que faz o sobre carga na
primeira entre vista!
É grato ao meu coração, tornou
Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais em defender as
possessões
lusitanas: com tudo pela intima alliança dos nossos
monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos
tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no
desembarque das vossas tropas, sem ordem superior.
Septembro
12
Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da
convicção em que estais da intimidade dos nossos
monarcas: sou sensivel á situação em
que vos achaes:
comtudo previno-vos, que pela grande distancia do logar donde podeis
receber ordem superior, não a tereis tão
cêdo, como
é de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord
Minto. Para a conclusão deste negocio desejo ter uma
conferencia com vosco.
Septembro 13
Não só na primeira
participação, mas tambem na primeira replica teve
o Senado
motivo bastante para
desconfiar das intenções britannicas; por tanto
officiou ao Almirante pelo modo seguinte:
[34]
Suppondo-vos certo da razão que me assiste para
não alterar as ordens que tenho; devo lisongiarme da vossa
persuasão tanto da lealdade no desempenho dos meus deveres,
como da certeza em que estou da intima alliança dos nossos
monarcas: assim espero que modifiqueis as
instruções de Lord Minto, em quanto
não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu tambem demorarei
a participação das vossas
intenções ao Governo Chinez:
intenções de dificil compreensão a
povos altivos e desconfiados.
Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos
consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a
satisfação de aprender com vosco o modo de tirar
a estes povos o receio, que lhe ficou em 1802, e agora renovado pela
vossa pretenção.
[35]
O Imperio da China
é o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais
é preciso para sua
defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e
conhecendo vós a nossa razão, espero que se
houver máo resultado na vossa empreza, não o
imputareis ao governo de Macáo.
Setembro 14
Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o
Senado intimou um protesto aos sobrecargas, e disse mais:
Será infalivel a
complicação dos negocios britanicos, se o vosso
Almirante tentar contra os ajustes feitos em 1802 pelo Senado com o
Governo Chinez, para não admittir auxilio extrangeiro.
Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte
nesta empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso
não esperado, de continuarem as mesmas instancias para a
admissão das
vossas tropas
nesta cidade, farei
pôr em execução o que no protesto junto
declaro. É repugnante o vosso procedimento contra povos
fieis e amigos da Caza de Bragança desde a sua
restauração. Exijo que o protesto junto com a
copia desta carta seja remettido ao Almirante.
Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado
enviou a participação seguinte
ao mandarim de Hiang-san.
A dez de Setembro surgiram em frente desta cidade, uma náo,
uma fragata, e um brigue da nação ingleza, sendo
chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma carta de
Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado do
nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma
invasão franceza. O Almirante assegura não
exceder os limites de defesa; porém como o seu desembarque
nesta cidade, quebra os tractados deste governo com a celestial
dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim de o levares ao
Suntó, em virtude dos mesmos tractados.
O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as
relações politicas e commerciaes, que tem ligado
esta cidade com os Chinezes, e varias nações da
Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer na
opinião das nações, propria e
extrangeiras, a consideração de leal e honrado,
titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer ao
publico a succinta e franca exposição dos factos
acontecidos desde a chegada do Almirante Drury a este porto
até hoje, no protesto seguinte.
A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota
commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto,
onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso
Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e
China; e que sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia
ser guarnecida com as suas tropas. Para esse fim mandava um
destacamento a esta cidade, e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a
sua admissão e necessario arranjo.
No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida
não deviam obrar de modo, que destruissem a independencia,
que deviam querer segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que
não devo.
Esperava desta resposta alguma moderação, e mais
por saberem, que os chinezes não admittem novidades com que
possam julgar menos segura a sua independencia. Com tudo reagiram,
mandando intimar pelo chefe da companhia, que se não fossem
admittidas as tropas, seria differente o seu procedimento.
Firme nos meus principios, e na minha
primeira resolução, assegurei-lhe a
immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que
jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por
uma nação, que se dizia alliada: porém
que a ter logar aquella intimação
ameaçadora, eu me defenderia
conforme o direito natural, e os limites desta praça, que
sempre fora respeitada por todas as nações
costumadas a
descançar á sombra da bandeira portugueza.
Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os
esforços da mais estudada prudencia; querendo salvar a
honra, e a paz constrangida pelo nosso mais antigo alliado;
não devo demorar por mais tempo a necessaria
participação ao governo chinez. Este como
protector da cidade fundada por sua concessão em seus
dominios, da qual recebe foro a seu contento; prestará com
brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a participar-lhe todas as
circunstancias, não obstante saber
quão
tristes se tornarão as suas
providencias, se o almirante não cessar da sua contumacia.
O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim
desembarcar tropas
inglezas nesta cidade; declara que se defenderá
até o ultimo extremo. Protesta contra taes procedimentos: a
responsabilidade recaírá sobre os aggressores. A
razão anima os habitantes desta cidade, que tanta honra e
gloria tem dado á nação portugueza em
sua não interrompida posse.
Setembro
16
Quem não esperaria
moderação nos
britannicos, pela leitura daquelle protesto?
Retorquiram!—Sendo os
offerecimentos liberaes de Lord Minto rejeitados pela desleal conducta
do governo macaense
[36],
e os esforços da nossa parte a fim
de livrar esta cidade da invasão franceza, e querendo
nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a
nação britannica: somos arrastados pela
inexperada conducta dos macaenses a tomar medidas, que
podem offender os chinezes; mas o senado responderá por
tudo.
Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve
os soldados inglezes occuparão Maçáo.
A nossa tenção,
quando chegar esse momento, é desembarcar
tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á ponta de
bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como
rebelião
directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos,
deve o Senado admittir já as tropas britannicas.
Setembro 19
Foi recebida esta intimação, quando chegava outra
dos mandarins do destricto, para não deixar o Senado,
desembarcar as tropas inglezas. O governador remetteu-a por copia ao
almirante, com a seguinte carta.
Agora me foi presente a vossa intimação! Com
pesar vejo nella,
tratada de
infiel a conducta do governo desta
cidade por não admittir, contra o seu dever,
guarnição ingleza! E que tomareis como acto
hostil qualquer resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a
tantos males, introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as
rasões que vos expuz; extranho caracterisares este governo
de mal intencionado no cumprimento dos seus deveres. Confesso que da
minha parte os tenho modificado, julgando continuar assim a distincta
amizade dos respectivos monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa
intimação: sendo
bem examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso
rigor, admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis
isso sem nos dar motivo para desconfiar das
intenções britannicas; e sem que os chinezes se
offendam de tão escandaloso procedimento. Posso
assegurar-vos, que elle não só ha de ser
prejudicial a
Macáo: a companhia ingleza soffrerá tambem os
seus effeitos.
No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e
Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.—O protesto
de Vossa
Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a
intimação dos mandarins. Nós sabemos o
que elles são: o almirante não fará
caso delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o
Suntó.
É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de
1808. Achavam-se ás mãos com os piratas da China,
e ameaçados, pelo almirante inglez, de serem atacados
á bayoneta. Mas quanto maiores eram as adversidades, mais se
engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se publicou no Senado
a injusta, cruel, e atroz
intimação da força ingleza, gritaram
todos:—Só depois de morrermos na defesa destes
muros
levantados por nossos maiores, poderão entrar esses
barbaros, que não podendo tomar nossas casas pela
hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O capitão
mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas
de amor patriotico, disse para o governador;—Irei para o
logar mais
arriscado, lá darei a vida na defesa do meu
posto—Bernardo
Aleixo, consummado em prudencia, não soffreu ser vencido em
valor. Dirigio-se ao
Ministro
Arriaga, dizendo:—Honrado collega, com
taes companheiros não serão arrebatados
os lares
macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com
homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha
residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do
monte, confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico;
e fiquem todos na intelligencia, que ella não se
renderá em quanto eu existir.
Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo,
desenvolvidos pelo magnanimo
Arriaga
neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que tinha accendido
nos
peitos macaenses,
e persuadilos,
que não se
offendia em cousa
alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com
permissão do Senado; e
talvez isso
desse novo realce á gloria dos portuguezes;
afiançou não
ser longa a demora dos inglezes em
Macáo. Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto
estava ao seu alcance para livrar a cidade da invasão
ingleza; mas que em todo esse andamento haviam chegado os negocios a
tal extremo, que a julgava necessaria para ensinar os britanicos, pela
experiencia, que os macaenses não toleram invasores.
Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o
desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de
confiança. O Governador foi para a do monte: e o
Capitão mór para a de S.
Francisco.
Commandava então a
guarnição da praça, o Senhor
José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu
elogios do Governo por saber conciliar as qualidades militares com as
virtudes civicas.
No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães
Robertson, e Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o
Governo de Macáo, ácerca do desembarque da tropa;
e levaram a Bernardo Aleixo a carta seguinte.
Tive a honra de receber a vossa participação, diz
o Almirante, em que me informais da sabia e leal
determinação do Senado, em adimittir um
destacamento inglez na defesa desta cidade. É
grande o meu prazer entrar em Macáo como sincero amigo, e
sem
quebrar-se a antiga
amizade dos nossos monarcas.
Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, obediencia e
respeito.
Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em
quanto os macaenses não cederam á tenacidade
britanica, éram infieis; agora que pareciam afrouxar na
defesa dos seus direitos, são leaes e sabios! Ver-se-ha
mudarem de linguagem em pouco tempo.
No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo
Aleixo, e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.
1.º As leis do paiz regerão com toda a sua
plenitude.
2.º Os crimes contra os Chinezes, seguirão o
julgado
estabelecido.
3.º O destacamento inglez será subordinado ao
governo desta
cidade, combinando com o Capitão Robertson, em casos
extraordinarios.
4.º Nenhuma outra bandeira será arvorada em
Macáo, além da portugueza.
5.º As munições do destacamento
entrarão nos armazens publicos, ás ordens do
governo desta cidade. Os inglezes terão permissão
para beneficialas.
6.º Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste
porto
não serão
interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios inglezes
ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta
convenção.
Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar
complicação com o governo chinez. O governo de S.
M. Britanica fica responsavel ao Sr. D. João VI, pelas
consequencias deste tractado.
Desembarcaram as tropas sem tumulto;
aquartelaram-se na feitoria de Bernardo Gomes de Lemos, e nas
fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O Almirante requereu estes dois
ultimos quarteis, para não haverem disturbios.
Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e
respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de
lingoagem: temeu logo que os britanicos insultassem os
Chinezes. A intenção dos sobrecargas e do
Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa da
amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que o
Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo
aquillo procedia da intima alliança entre as duas
Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha.
No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença
para enviar ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de
entrarem as tropas inglezas em
Macáo.
Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo
quanto se tinha feito em Macáo.
No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir
queixas ao governador, pelos
insultos,
que faziam os chinezes aos britannicos; e dirigiram-lhe a
participação seguinte.—Somos obrigados,
com
pezar nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso
destacamento na fortaleza de monte, a fim de evitar a
communicação com os chinezes; por
quanto já espancaram alguns
officiaes, e esta manhãa insultaram
outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do
quartel, haveria grande desordem. Se o destacamento se
estabelecer na
fortaleza do
monte, acabar-se-ha a idéa de
perigo. Asseguramos-vos a repugnancia com que fazemos esta
applicação, mas somos a isso obrigados para
evitar males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes,
de quem temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos
de guerra. Seria bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para
receber o nosso destacamento, fizesseis o mesmo á
proclamação do vice-rei de Goa.
Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que
os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo
Aleixo não possuia o talento e virtudes exaradas
por aquelle celebre navegador nas paginas
da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão
em que estavam.
Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a
fortalesa do monte: sendo necessaria para defeza contra os
francezes, está nos termos da ordem que recebi de Goa
[37]:
porém sendo o motivo dessa exigencia evitar a
communicação e disputa com os chinezes, estou
certo de que na feitoria, onde se acha aquartelada, observada a
disciplina que hade usar na fortaleza, conseguirá o mesmo
fim sem dar logar a ciumes da parte dos chinezes; causa sem duvida de
males maiores do que pretendeis evitar: e de mais, isso não
é conforme com o tractado, que fizemos.
—A desconfiança do governo chinez tem augmentado
pela
occupação das fortalezas da Guia, e Bom-parto com
tropas britanicas. Assim acrescerá mais em prejuizo do
commercio das duas nações, que na
união, com os chinezes tem igual parte nesta cidade. A
nação britanica não
consentirá em plano algum,
que destrua esta união: e
a mim
não é permittido admittir defeza opposta
á lealdade, que este governo tem á
constituição do
imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama
parte do mesmo imperio.
Ainda que é forte a
razão que me
assiste, maior será o meu pesar, quando pareça
falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer os
serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João
VI. Elles exigem, que espereis a resposta do governo chinez, aos
artigos da nossa convenção, que não
pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer outra
participação. Sería
agora passo arriscado, pelo escrupulo dos Chinezes ácerca
das intenções britanicas. O
Senado já mais deixará de cooperar no que for
util á nação britanica. Agora mesmo
acaba de pedir aos mandarins do districto, providencias para evitar,
que os chinezes insultem os vossos officiaes.
Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de
Goa. Tambem fiz publica
Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de
Goa. Tambem fiz publicar a proclamação segundo o
costume deste governo. Vivei na intelligencia, que não
esconderei
o que vos possa
interessar, não offendendo o decóro desta cidade.
De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de
Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros,
respondeu neste espirito.—Eu o procurador da Cidade de
Macáo, mandarim de Hao-king, remetto-vos toda a nossa
correspondencia com os inglezes, a fim de conheceres a verdade. O
Senado remetteu ao Almirante todas as vossas chapas, (avisos) nestas
circunstancias é o que podemos fazer.—
O mandarim respondeu:—Pelo que respeita ás cartas
do
Almirante, ainda que as tenho feito interpretar, não posso
entender o seu verdadeiro sentido: espero que o declarareis ao portador
desta para minha intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa
não prevalece contra os tractados existentes do Governo
celestial com o vosso Rei. Em quanto ao desasocego dos moradores
chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com que
os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em
perfeita quietação.—
Outubro.
No dia 16 remetteu outro aviso.
—Sei que fôra apresentada a minha carta aos
inglezes para
saírem de Macáo, e que
responderam
terem vindo para defenderem Macáo dos francezes, visto
não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para
saírem precisam que venham soldados portuguezes!
É inegavel ser Macáo territorio da China, assim
como ter-vo-lo
concedido a
celestial dynastia, attendendo a
virdes
de tão longe, e
quererdes repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos,
não só vos tracta sem differença de
seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de beneficios.
[38] Os
francezes não costumam insultar as terras deste imperio:
quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes
deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso
exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao
Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que
embarquem o seu destacamento sem demora.—
No dia 17 sabendo o mesmo mandarim,
que os Chinezes emigravam de
Macáo assustados pelo ameaço da guerra, mandou
outra chapa ao procurador, offerecendo-lhe tropas para auxiliar os
portuguezes, e animar os Chinezes a fazerem o trato do costume, para
não soffrerem os habitantes da cidade por falta de
alimentos.
(18 de
Outubro.)—Mostrei a vossa chapa de hontem ao
Almirante
(tornou o
procurador
ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio
com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento
para com elle, visto ir encarregado de negocio tão
importante.
No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos
sobrecargas).—Capacitesse V. Exc.
a da
grande
importancia, que
é para as duas nações Portugueza e
ingleza, accommodar em breve a desintelligencia, que reina entre
nós e os Chinezes. A viagem do Almirante a
Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que
os seus intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó.
Só
o padre Rodrigo o pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc.
faculdade para elle acompanhar
o
Almirante. O Governador concedeu a licença pedida.
Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as
calamidades, augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta
seguinte: basta meditala com reflexão para se conhecerem as
intenções britanicas.
—Soubemos esta manhãa—ter
chegado de Bombaim outro destacamento. O Almirante ordena que
desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que mande fazer os
arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes
vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas
mandadas pelo vosso Rei; e que desembarcadas estas
embarcarão as que se acham em terra. Para dar mais
força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar
os navios com bandeira portugueza. As objecções
dos chinezes são de pouca entidade. Para este segundo
desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos licença
para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns
macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos
mandarins representações desfavoraveis
aos britanicos. Da sua má conducta
nascem os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não
dá remedio a tam grande mal, o Almirante enviará
para o Brazil as pessoas suspeitas.
[39]
Esta carta demonstra bem a
protecção levada pelos inglezes a
Macáo. 1.º soberba, 2.º falsidades,
3.º arrogancia
fraudulenta, 4º
calumnias, 5.º
despotismo da
sua consumada prudencia,
respondeu nestes termos.
(Outubro 21.)—Dizeis
ter
ordem do
Almirante para desambarcar
tropas novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender
aos chinezes, virem da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma
duvida teria no seu desembarque, se as circunstancias decorridas depois
que desembarcaram as primeiras não tivessem de dia em dia
complicado mais este negocio com os mandarins. Effeituando-se este
segundo desembarque antes de conferir o Almirante com o
Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao
commercio, já suspenso em Cantão. Accresce ter eu
agora recebido, ácerca dessa tropa, protesto, que devo tomar
em
muita
consideração. Esta cidade tem soffrido muito com
a vossa expedição; e a meu cargo está
vigiar por seus interesses. Não me consta haver aqui morador
algum infiel á Caza de Bragança, apesar de ser
dever
meu cuidar nessa indagação.
(Outubro 21.)—No
mesmo
dia,
escreveu o mandarin de Hiang-san, ao procurador de Macáo,
neste espirito.—Consta-me chegarem ahi mais tropas inglezas;
jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito
dos seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó,
de que faltais ao vosso dever.
(Outubro.)—De 21
a 28
houveram
disturbios entre os inglezes e os chinezes. O procurador representou
aos mandarins, que não tinha leis por onde castigasse os
chinezes em casos taes; e que para isso exigia
providencias.—Aquelles
tornaram. Não são precisas leis para castigar
crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os
inglezes, tudo fica remediado.—Não davam resposta,
á exigencia de providencias.
(Outubro.)—Em 29
escreveram os
sobrecargas ao Governador:—Sabemos com certeza
não serem as
partecipações de V.
Exc. (ácerca do auxilio britanico) expostas ao
Suntó como deviam; antes sim pelo contrario. Rogamos a V.
Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, e que esta
declaração seja remettida ao Almirante para elle
mesmo a entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V.
Exc. em seguir o exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar
os portuguezes contra os nossos inimigos. Se os moradores desta cidade
fossem assim admoestados, desejariam o nosso auxilio em logar de o
aborrecer.—
(Outubro 30.)—Entre
as
difficuldades, que vos apresentei, tornou Bernardo Aleixo,
foi uma
a complicação com os chinezes. Tenho
conhecimento
do systema do seu governo por longa experiencia adquirida na pratica;
sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ o
máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui
considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado
desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao
exercicio do meu emprego) ser qual quer opposição
do
governo chinez,
desembaraçada pelo Almirante com o Suntó; agora
vejo depender deste governo a ultimação do
negocio.
O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os
fins da vossa expedição: se tem havido
desconfiança nos mandarins, não é
motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua
correspondencia entre vós e os chinezes.
Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um
só deixa de respeitar a caza de Bragança,
costumada a encher esta cidade de beneficios em honra do seu governo, e
gloria de seus moradores. Porém como não lhe seja
vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não deve
extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar
da causa, aborrece os effeitos.
Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das
amas chinezas—que se retiram. Os infelizes que tem na
labutação diaria o seu recurso, lastimam-se pela
escacez e carestia dos generos alimentares. Os mais abastados
lastimam-se por ver chegar o tempo de fazerem suas
negociações, e terem
ainda as mercadorias empatadas por falta de
gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão
ainda por fabricar á mingua de artifices, que tambem
fugiram. Os empregados publicos vendo parar o commercio, lastimam-se
por saberem, que delle tira o estado rendimento para pagar-lhes. Os
mesmos habitantes chinezes, dados ao commercio, tem emigrado e levado
até o mais inferior dos seus trastes. Isto era de esperar de
homens pacificos ao verem apparatos de guerra. Além disso
ameaçados pelos mandarins, que julgam a
constituição do imperio atacada pela vossa
imprudencia.
Á vista do exposto não admira haverem
descontentes, que deplorem a sua desgraça, e aspirem ao
socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 annos tem sempre
respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este quadro se um tal
povo necessita de proclamações para ser fiel ao
Rei a quem adora?
Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que
exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o
que fez pelo modo seguinte.—O
chefe da companhia
ingleza accusa-vos de não teres enviado as minhas chapas ao
Suntó, ou que mandando-as lhes viciastes o texto.
Não posso crer teres procedimento alheio do vosso emprego e
caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes ao
Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir
com elle, e ficar desse
modo illesa a vossa reputação.
Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo
seguinte:—A vossa carta encheu de magoa os nossos
corações pelas
circunstancias em que se acham os habitantes de Macáo; tudo
nasceu da conducta do Senado: se adoptasse o nosso systema,
não teria agora de vêr essas lastimas. Os
macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa
expedição; e fizeram repetidas instancias ao
governo chinez, pedindo soccorro contra os hostis procedimentos
britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o manejo do Senado
motivaram todos os males.—Em verdade dissemos, que o
almirante
removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria
se o governo de Macáo se unisse cordialmente
com o almirante
.
Os esforços
que V. Ex.
a promette fazer em suas
applicações
ao governo chinez, são para nós de grande
importancia. Sabemos que hão-de produzir bom affeito.
Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo
pode remover as presentes difficuldades e miserias.
Grande documento é este para augmentar, se é
possivel, a honra dos macaenses, pelo valimento que tem com os
chinezes. No principio da carta, invectivam os sobrecargas aos
macaenses; no fim pedem-lhe misericordia! Era tal a
ambição, ou a impudencia daquelles
bretões, que diziam em face ao governo de Macáo
serem motivadas as calamidades daquella cidade pela ignorancia dos
chinezes, e manejo do Senado! Quem não vê provir
tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se daquelle
nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser
aquelle empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos
portuguezes? Em pouco sairá o almirante da
illusão em que o tinham os sobrecargas.
O ultimo paragrafo desta carta merece
particular attenção: O governador despresou as
argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.—Vejo a
necessidade que
tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O Senado
já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos
remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a
vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas
desconfianças.
Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até
agora equivoco) farei novas representações ao
governo chinez sempre que me indiqueis a forma de applacar a
tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos
mandarins superiores.
Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem
não esperaria
moderação nos sobrecargas? A carta seguinte
mostra o contrario!
(Novembro 3.)
—Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e
descarregando navios britannicos em Macáo.—Em
virtude de
ordens do almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.
a
que mande
apromptar armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas
embarcações.
Esta medida nasce da
oppoção
que os chinezes fazem ao auxilio dado por nós a esta cidade.
Esperamos que V. Ex.
a não recuse os
seus extremosos
esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do
governo de Macáo são bagatela em
comparação dos que temos soffrido pelo embargo do
commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a
generosidade de querermos dar segurança a esta cidade: Assim
esperamos a ordem para a descarga, sem dilação.
Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia
á vontade do almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo
sou forçado a dizer o que sendo publico, admira ser por
vós ignorado. As leis deste paiz só admittem
navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o direito
das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de
Cantão, até poderem seguir o seu destino.
Achando-se em iguaes circunstancias, qualquer navio da companhia,
não haverá duvida na sua admissão;
porém se a descarga, que se pertende fazer em
Macáo provem da opposição dos chinezes
ao commercio britannico, tenho
grande
embaraço no cumprimento do meu desejo.
Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem
só carregações neste
porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se o commercio
inglez está prohibido em Cantão, como o poderei
admittir em Macáo, sendo dominio chinez, sómente
aforado aos portuguezes debaixo de certas
condições, que vós, dizendo auxiliar,
pretendeis romper?
Accresce não haver logar para tão grandes
carregações: por falta de gyro, acham-se todos os
armazens cheios de generos vindos na monção
ultima. Dizeis que são
grandes os vossos sacrificios, e os nossos bagatela! Os sacrificios,
neste sentido, não devem considerar-se pelo valor das
riquezas: por perderes muito não se segue, que
não sejam maiores os nossos sacrificios perdendo tudo.
Lançais as culpas das vossas perdas sobre nós, e
que faremos a vosso respeito? O tempo fará
justiça ao nosso procedimento
[40].
Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo
em vos servir, que se
algum navio
se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga,
terá os soccorros necessarios como se pratica entre povos
civilisados; sem offensa dos laços domicilarios e
privativos, sustentados pelo esforço e gloria da
Nação
Portugueza.
Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os
britannicos: aquelles não só maltractavam estes,
encontrando-os nas ruas, mas tambem lhe apedrejavam as
janallas. Por mais que o procurador do Senado exigisse
providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a
mesma.—Sáiam os britannicos da cidade, e tudo
ficará em socego.—Quando os inglezes estavam mais
teimosos
em descarregar os seus navios em Macáo, baixou a seguinte
admoestação do Suntó aos sobre-cargas.
Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso
Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo:
considerando elle que os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito
tempo, obedientes e politicos, concedeu aos europeos licença
para negociar
em Cantão;
reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes
experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes
na China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados,
nem desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo
é cidade edificada em terreno chinez: a dynastia passada
concedeu aos portuguezes estabelecerem-se alli; a presente, em virtude
da sua antiga posse, deixou-os ficar como d'antes; porém
debaixo de certas condições. A nenhuns outros
europeos se concedeu privilegio semilhante! Como pertendeis
vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear
venham os francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a
pertubar as terras deste imperio: e quando venham com
muito socego os esperaremos; vindo desfalecidos, e sendo poucos contra
muitos, sem batalha ficarão vencidos. Terão a
sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser amigos dos
Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! Porque
não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou
porque não os esperais fora das ilhas da china para
os baterdes quando cheguem?
Não é justo estares em Macáo
quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo a união
mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo perdeis o
direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura
não sabeis o que vos é interessante? Podereis
existir sem commercio? Por certo não: pois quanto mais
depressa embarcardes os soldados, mais cedo se vos abrirão
as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis
communicação com a terra. Ponderai bem o que vos
proponho, e não me incommodeis com mais
peditorios.—
Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do
districto, que o ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes,
nas leis do imperio, a fim de não se irritar contra elles o
Suntó, chegou outra chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan,
em que dizia:—
Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi,
faço saber ao mandarin de Hiang-san, que da entrada dos
soldados inglezes em Macáo, são culpados os seus
moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas examinando o seu
antigo, e moderno
procedimento, achei
serem sempre gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo
toléro o erro commettido.
Ácerca dos navios inglezes, já consultei o
Kuam-pu, a fim de lhes permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que
pertence aos soldados, dei parte ao Imperador; eis a sua
resposta:—Se
os inglezes tiverem a ousadia de presistirem em sua
teima, lançaios fora com o nosso exercito.—Em
poucos dias
elle marchará sobre Macáo: no entanto recommendai
aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti
ao Procurador, que não se fie desses inglezes.
Como estes não fossem promptos na
execução das ordens do Suntó,
augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que
julgaram tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes.
Desembarcarem estes as tropas já não
éra a maior
offensa: o que mais ferio o orgulho chinez, foi não
obedecerem
logo ao mando do Imperador. Tomaram os mandarins calor tão
ardente, que não deixavam passar um dia sem repetirem
intimações para que os inglezes
saíssem de Macáo: eis o seu
espirito.
Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo
apossaram-se das igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão
vossas cazas possuidas ha seculos; depois tirar-vos-hão
mulheres e filhos: não podemos soffrer tam grande offensa.
Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa. (proximos
á cidade de Macáo) afim de os anniquilar.
Despresaram a graça feita pelo Suntó;
soffrerão o peso da força, que marcha contra
elles. Esses inglezes sendo homens não tem
coração humano; conhecem os males que tem feito,
e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e
somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só
inglez escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e
perguntai-lhe se ainda querem teimar contra a justiça, que
os ameaça.—O
procurador respondeu:—
—Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos
sobrecargas inglezes; não despresam as graças do
Suntó;
acham-se promptos para retirar-se; mas não o podem fazer de
repente. Os inglezes vieram com designio de nos auxiliar assim julgo
ser mal
fundada a vossa
desconfiança. Não precisamos do vosso exercito;
viria fazer maior damno á cidade. Sabeis quaes
são as leis que regem este nosso estabelecimento:
não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás
muralhas desta cidade tropa chineza, sem que a pessa, e é
cousa, que ainda me não veio á
lembrança. Não é
justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos auxiliar;
trouxeram-nos incommodos e perdas.—
É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense
para com os inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas!
Ao mesmo tempo enviaram os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta
seguinte,
—A situação em que nos achamos
é
triste: temos recommendação do Almirante para
evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa reconciliar-nos com os
chinezes. Se esta
recommendação for confirmada aos manderins, por
V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os
inglezes.
Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava
socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os
mandarins, sobre a retirada da
espedição britanica sem efusão de
sangue, donde resultou o tratado seguinte.
Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e
o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da
selecta companhia, desejando retirar o destacamento inglez,
decorosamente, ajustaram:
1.º O
Ministro Arriaga
tractará com
os mandarins ácerca da retirada das forças
britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se
achava, antes da sua entrada nesta cidade.
2.º Exigindo este negocio a cooperação
do
Almirante, Miguel de Arriaga irá a Wampo-o, para se concluir
alli do modo mais vantajoso ao vinculo das tres
nações.
3.º Concluido este negocio cessará a
prohibição de mantimentos para sustento dos
inglezes.
4.º Os mandarins farão suspender immediatamente a
marcha das tropas chinezas dirigidas a esta cidade.
(Dezembro 11.)
A presente convenção mostra a
confiança,
que o Ministro Arriaga
tinha em domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel,
que só a politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de
um homem pudesse conter a justiça chineza, sustentada por 80
mil homens! A carta seguinte dirigida a Bernardo Aleixo, dá
bem a conhecer o dominio que Arriaga tinha na vontade dos mandarins.
(Dezembro 11)—Depois
que
assignámos a convenção esta
manhã, fui ao pagode,
onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com
elles a fim de soltar difficuldades proprias a uma
nação escrupulosa e desconfiada; todavia
consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso
capaciteios das boas
intenções britannicas (apezar de terem sido
más para nós); naquella intelligencia
asseguraram-me ficar o commercio inglez no mesmo pé e
systema antigo—Despedidos os mandarins; tornou Arriaga
á
cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por
meios tão honrosos para a nação
portugueza, como lisongeiros para o negociador.
Sabendo o mandarin de Hiang-san, que
o
novo governador Lucas José de Alvarenga, instava pela posse
do seu emprego, remetteu ao procurador a chapa seguinte.
—Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo
governador
dirigido bem este negocio; agora constame, que o successor insta para
tomar posse e que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende
fazer: não é conveniente: os inglezes entraram no
tempo do seu governo, nelle devem saír. Sabemos que o novo
governador veio em navio inglez; quem nos assegura não ter
elle correspondencia com esses homens? Não é
justo nem conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos
extraordinarios nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando
os inglezes saírem de Macáo e ficarem todos em
socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os costumes.
(Dezembro 11 de 1808.)
No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para
Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da
náo se avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue.
Em 14 de Dezembro, já de volta fez Arriaga, a
participação seguinte
a Bernardo Aleixo.—Assim que cheguei
á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual era
a minha commissão: respondeu ter já ordenado o
embarque das tropas, e que desejava ser grato ás officiosas
declarações
anteriormente feitas pelo governo de Macáo; pois eram
veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a civilidade propria de sua
pessoa: disse que esperava do governo de
Mocáo o bom serviço de remover
qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. Despedi-mo-nos com as
mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle ceder veio
acompanhar-me ao portaló.
Logo que o ministro Arriaga concluio a sua
negociação com o almirante, dirigio-lhe o
governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta seguinte.
(Dezembro de 1808.)—Os
officios de
V. S., de 11 e 14, manifestam o grande trabalho, que teve na
conferencia com os mandarins: Pelo contexto dos mesmos se conhece a
excessiva applicação e desvelo com que V. S.,
além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com
heroico patriotismo, a cruel revolução que
ameaçava esta cidade.
Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais
importante serviço á patria. Á
força de tão efficazes e
singulares deligencias
devem os inglezesfazer
a sua retirada sem effusão de sangue, e os macaenses o
socego da cidade.
(Dezembro de 1808.)—No
dia 16
começou a retirar-se o destacamento britannico; depois de se
effeituar o embarque de tudo quanto lhe pertencia, cuidaram logo os
sobrecargas em obter licença para desembarcar as suas
mercadorias em Cantão. No 1.º de Janeiro expedio o
Suntó a chapa seguinte.
—Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de
Cantão, faz
saber a todos os europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em
Macáo jámais se lhes devia permittir commerciar
neste imperio. Com tudo lembrando-nos que o seu rei offerecera tributo
ao nosso imperador, relevamos a offensa, que nos fizeram pela sua
entrada em Macáo. Agora depois de enviarem os soldados
ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos,
perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir
commerciar neste imperio. Conhecendo a misericordía
do nosso imperador, cedi
ás suas repetidas supplicas, deixando que desembarquem as
mercadorias, e possam vendelas nesta cidade. Devem receber esta
graça como um beneficio extraordinario. Assim mostramos, que
as leis chinezas tem enfraquecido com o tempo: no futuro
haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante se algum
europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será
lançado fora para sempre.
Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam
antes de tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia
enormes sommas dispendidas naquella empreza.
Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram
della, farei ver agora o motivo porque atentaram.
A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D.
João VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez
julgar aos bretões, que Bonaparte se apossaria de Portugal,
assim como o tinha feito da maior parte da Europa.
Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe,
seu inimigo, seu inimigo, como
havia sido o antigo, praticaram a lição tomada
dos hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda
tinhamos no Oriente.
Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes,
não lhes convém possuilos outra
nação, que não seja a portugueza,
já pela sua antiga alliança, já por
não a temerem. Avisaram os agentes da companhia, para
guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte do mundo, a fim
de não serem tomadas pelos francezes; na
esperança de que voltando Portugal á sua
independencia, tudo ficaria como dantes; e se não podesse
livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos ainda no
Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e
Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.
Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os
sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam
desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os
britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos
espalharam dinheiro na feira de Cantão, esperando que
havendo alguma desintelligencia entre
os portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.
Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas
em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os
inglezes; por quanto estes não são menos
violentos em seculo mais illustrado. Veja-se no quadro seguinte a
differença de ambição e despotismo das
duas
nações.
—Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100
milhões
de homens de castas, côres, e raças differentes:
é a India
ingleza. A Soberania não pertence á
nação; exemplo unico na historia do mundo;
é propriedade de uma companhia de negociantes! Viram-se os
cartiginezes enriquecidos pelo commercio, conquistaram
a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o corpo inteiro da
nação, foi quem adquerio pelas armas importantes
possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza
adquirio grande esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da
Asia, eram armações fortificadas, e
não colonias.
A companhia ingleza sem perder o commercio
dos portos de mar, estendeu o seu dominio a mais de trezentas
leguas pelo interior das terras. As regiões mais ferteis e
mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de fazenda
amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados,
ostentam luxo asiatico, e reinam com orgulho.
Especulações mercantis elevaram este thesouro de
nova especie, que subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria
dos Principes, respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra
e consagra nefandas
usurpações.
As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que
são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em
tendo algumas livras e comprando acções da
companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas,
náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode
vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do
Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas
vezes o Sofi da Persia e Grande As authoridades de tão
grandes dominios, podem dizer-se, que
são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em
tendo algumas livras e comprando acções da
companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas,
náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode
vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do
Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas
vezes o Sofi da Persia e Grande Lama
[41]!
Os portuguezes combateram na India os
sectarios de Mafoma livrando
desse modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes
servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal
fadados bramas.
Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os
lusitanos obraram prodigios na India, vingando sobre os turcos os males
que lhe haviam soffrido em nossa terra, hoje não
desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por quanto o Suntó
disse:—Nenhuns outros europeos
alcançarão (por merito) os privilegios concedidos
aos portuguezes.—Os sobrecargas confessaram, que
só o
Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias
(que elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem
disse:—Estou
muito obrigado ao governo de Macáo pelas suas
declarações
anteriores; por quanto eram veridicas e justas.—Taes
declarações confirmam a dignidade do caracter
Luzitano, em todos os tempos e logares.
Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros
nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado
alli em 1808, e fallaram do que viram
praticar em 1809, pelo modo seguinte.—As patrioticas
applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram
a esta cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas
as nações commerciantes a liberdade dos mares da
China
[42].
Os povos chinezes congratulam-se com a
extincção do inimigo que por mais de 20 annos os
havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio
insufficientes para destruilo.—
Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever:
não foi menor a vantagem de Macáo e a gloria da
nação
portugueza, lançar fora daquella cidade as tropas inglezas,
que della se pertendiam apossar.
Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador
que fôra de Macáo, sou obrigado a contestala para
desagravar os macaenses das offensas que alli lhes derige aquella
triste e
miseravel jactancioso.
Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera
motivo a isso outra
impressa em Lisboa
em 1824; por se
achar nella o seu nome inglorio. Sendo eu quem a
escreveu, devo mostrar a razão de não fallar em
louvor do Sr. Lucas.
Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e
o Sr. Lucas entrou naquella cidade em Setembro do mesmo anno.
Tornei a Macáo em Novembro de 1810, já elle tinha
saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher factos sobre a
extincção dos piratas, a fim de completar o meu
opusculo, tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas
daquella cidade. Haviam em tão pouca conta este cavalheiro,
que não se atreveram a confiar-lhe o governo das armas
senão depois de fazerem retirar as tropas inglezas, como
fica demonstrado, no officio do mandarim de Hiang-san.
O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos
lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é,
1.º O zelo e a actividade do
o
Ministro
Arriaga;
2.º o valor das pessoas empregadas na esquadra; 3.º
a existencia dos
tractados; 4.º a entrega dos piratas 5.º a
invasão e a
retirada das tropas inglezas; mas offende-se do silencio guardado
a seu respeito; e julga
haver nesse procedimento algum misterio.
Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta
memoria por não fallar na sua entrada em Macáo,
no dia da sua saída, e talvez naquelle em que fôra
encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso
não ter fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um
escripto consagrado ás virtudes Luso-Macaenses, com a
irregular conducta de tal governador.
Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não
só pela sua conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr.
Lucas por fraco obstou ao mais glorioso triunfo que podiamos obter em
recompensa de tantas e tão longas fadigas: obstou que o
chefe dos piratas se entregasse com toda a sua esquadra no porto de
Macáo. Destas e outras
acções do Sr. Lucas devia eu fallar, se
escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me encarreguei
de levar á posteridade dois factos dessa historia, a
destruição dos piratas, e o desembarque e
retirada das tropas britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas
cousa boa
digna de
notar-se, julguei fazer
mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em
que alli se lançou.
Sendo este opusculo destinado a louvar as acções
dos Luso-Macaenses, não devia
apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario do
que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um governador,
cuja administração foi tempo de martyrio para os
macaenses, não só pela falta de caracter do Sr.
Lucas, mas tambem pela grande rapina do ouvidor Peixoto?