Um nome inscripto no céo
Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma porta.
--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»
--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.
O linho
O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»
--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
E rangendo lastimosamente, cantaram:
--Cric, crac! cric, crac! crac!
--Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
--Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e florir. Sou muitissimo feliz.»
Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»
Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a transformal-o n'uma peça de panno.
--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva. Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»
Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não se fazem impossiveis.»
E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnifico.
--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, immensamente feliz!»
Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.
O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho semilhante.
Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.
--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.
As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:
Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.
FIM.
INDICE
| Pag. | |
| A mãe | 3 |
| O ouro | 12 |
| Doçura e bondade | 13 |
| O malmequer | 14 |
| Não quero | 20 |
| Piloto | 21 |
| O rico e o pobre | 23 |
| Como um camponez aprendeu o Padre Nosso | 26 |
| O talisman | 28 |
| A alma | 30 |
| Alberto | 31 |
| A canção da cerejeira | 33 |
| Os gigantes da montanha e os anões da planície | 35 |
| A creança, o anjo e flôr | 37 |
| Presente por presente | 41 |
| O pinheiro ambicioso | 44 |
| Perfeição das obras de Deus | 46 |
| João e os seus camaradas | 52 |
| O rabequista | 60 |
| Os pecegos | 62 |
| A urna das lagrimas | 64 |
| Reconhecimento e ingratidão | 65 |
| O fato novo do sultão | 68 |
| Boa sentença | 74 |
| Os animaes agradecidos | 76 |
| O ermitão | 83 |
| Carlos Magno e o abade de S. Gall | 85 |
| A boneca | 88 |
| Inconveniente de riqueza | 99 |
| Querer é poder | 102 |
| Qual será rei? | 104 |
| Os três véos de Maria | 106 |
| Os pequenos no bosque | 107 |
| O chapellinho encarnado | 109 |
| Os cinco sonhos | 113 |
| A egreja do rei | 115 |
| O valente soldado de chumbo | 117 |
| João Pateta | 123 |
| Branca de Neve | 126 |
| A rapariguinha e os phosphoros | 134 |
| O primeiro peccado de Margarida | 138 |
| Um nome inscripto no céo | 141 |
| O linho | 142 |
[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.]