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Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro cover

Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro

Chapter 50: INDICE
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About This Book

A compilation of short tales selected for young readers that combines folklore, moral fables, and imaginative episodes. Narratives range from a grieving mother who pursues Death through symbolic landscapes to reclaim her child—encountering personified forces and tests of sacrifice—to a youngster who leaves home in search of fortune and meets helpful and obstructive creatures. The pieces vary in tone from darkly cautionary to humorous and instructive, often using vivid imagery, talking plants and animals, and simple moral dilemmas to illustrate themes of parental love, perseverance, and the consequences of choices. Stories are arranged for oral or early reading, with episodic plots and clear resolutions.

Um nome inscripto no céo


Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»

E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma porta.

--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»

--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.

E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»

Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.



O linho


O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.

--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»

--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»

E rangendo lastimosamente, cantaram:

--Cric, crac! cric, crac! crac!
--Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e florir. Sou muitissimo feliz.»

Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!

--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»

Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.

--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»

E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a transformal-o n'uma peça de panno.

--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:

Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva. Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»

Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.

--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!

O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.

--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não se fazem impossiveis.»

E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnifico.

--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»

E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.

--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, immensamente feliz!»

Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.

--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.

O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.

--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»

Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho semilhante.

Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.

--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.

As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:

Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»

As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.

FIM.




INDICE


Pag.
A mãe 3
O ouro 12
Doçura e bondade 13
O malmequer 14
Não quero 20
Piloto 21
O rico e o pobre 23
Como um camponez aprendeu o Padre Nosso 26
O talisman 28
A alma 30
Alberto 31
A canção da cerejeira 33
Os gigantes da montanha e os anões da planície 35
A creança, o anjo e flôr 37
Presente por presente 41
O pinheiro ambicioso 44
Perfeição das obras de Deus 46
João e os seus camaradas 52
O rabequista 60
Os pecegos 62
A urna das lagrimas 64
Reconhecimento e ingratidão 65
O fato novo do sultão 68
Boa sentença 74
Os animaes agradecidos 76
O ermitão 83
Carlos Magno e o abade de S. Gall 85
A boneca 88
Inconveniente de riqueza 99
Querer é poder 102
Qual será rei? 104
Os três véos de Maria 106
Os pequenos no bosque 107
O chapellinho encarnado 109
Os cinco sonhos 113
A egreja do rei 115
O valente soldado de chumbo 117
João Pateta 123
Branca de Neve 126
A rapariguinha e os phosphoros 134
O primeiro peccado de Margarida 138
Um nome inscripto no céo 141
O linho 142



[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.]