Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Após o ataque da artilharia de Queluz, as forças revolucionarias installadas na Rotunda ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, não tanto com o proposito de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de 4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa espectativa. Os commentarios da opinião teem incidido frequentemente sobre o procedimento d'essas forças. Sabia-se que entre ellas se encontravam officiaes dedicados á ideia republicana, como o tenente Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de estimulo ás forças da Rotunda.
Na manhã de 4, ainda o capitão Sá Cardoso tentou realisar a approximação dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das metralhadoras de caçadores 5, d'um esquadrão da municipal e d'uma outra companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para então fazer com elles causa commum.
Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite, caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva, pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica; na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente—passados os primeiros instantes de desanimo—tratavam de incommodar as forças monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:
«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados. Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano, metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio. Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel, d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas, interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto, respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para esses lados.
«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos, convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido, tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não ter dado preoccupava-me immenso.
«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal, principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual, depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha já achado o commandante abalado.»
Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.
Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na obscuridade.
E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne da proclamação da Republica.
Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que até então haviam tentado, na redacção da Lucta, reatar as ligações entre os revoltosos—interrompidas pela debacle do balneario de S. Paulo.
«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite, um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e 30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina sahiu do Hotel Europa a colher informações.
«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada artilharia civil, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»
Ás 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manhã collocasse algumas das suas peças em posição conveniente para incommodar as forças installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do Thorel. Antes, a força disponivel de cavallaria 4 e um esquadrão da guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas calçadas do Garcia e de San'Anna. Ás 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas peças na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim do palacete do sr. Manuel de Castro Guimarães.
Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo iam a bordo do S. Rafael communicar ao tenente Parreira que Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O tenente Parreira, n'essa occasião, já havia ordenado o desembarque d'um grande nucleo de civis, que sob o commando do capitão Nascimento, da administração militar, devia impôr a rendição ás praças monarchicas que guarneciam o Museu de Artilharia. O S. Rafael suspendera para proteger esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Paço, bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra, constituida pelo maximo das forças disponiveis dos trez cruzadores revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do medico Vasconcellos e Sá, que se offerecera para commandar um pelotão.
A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas Augusta e do Ouro, de que ia começar o bombardeamento, e o mesmo emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda a proxima juncção das forças revolucionarias. Pinto de Lima desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto é, da prevenção do bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direcção á Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena distancia do quartel general, um troço de tropas monarchicas e disse-lhe o que se ia em breve passar.
—O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos? Diga isso ali ao coronel.
Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou não menos surpreza que o outro official:
—Mas eu já adheri!... Para bordo já foi um official de caçadores!...
E logo a seguir, como quem toma uma resolução energica:
—É preciso mandar outro official ao S. Raphael... O senhor acompanha-o n'essa missão?...
Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento, dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que determinara a démarche d'esse official revolucionario junto do tenente Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:
«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes. Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.
«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se passava e dirigi-me a bordo do S. Raphael, aonde participei aos tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser conhecido de um d'elles como official implicado no movimento, exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel general.
«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada pela rua de S. Domingos...»
Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.
Pouco antes das 7 da manhã, o encarregado dos negocios da Allemanha procurou o general Gorjão e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente ao denodado republicano sr. Rodrigues Simões, figurou no Museu Revolucionario:
Lisboa, 5 de outubro de 1910.
a) Manuel Rafael Gorjão.
Assim que o diplomata allemão sahiu do quartel general em direcção á Rotunda, escoltado por uma ordenança de cavallaria que desfraldava uma bandeira branca, o povo, que se amontoava nas immediações, julgando que se tratava da rendição das forças monarchicas, prorompeu em applausos enthusiasticos. Era no momento em que o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins se faziam annunciar ao general Gorjão. Este recebeu-os e Marianno Martins explicou-lhe:
—O official que me acompanha foi a bordo do S. Rafael participar que infantaria 5 e caçadores 5 se negam a fazer fogo sobre os marinheiros. Desejo, portanto, saber em que condições v. ex.ª acceita a paz para eu as transmittir ao meu commandante.
O general Gorjão encolerisou-se e, voltando-se para o alferes Gomes da Silva, perguntou-lhe:
—Quem foi que lhe deu auctorisação para ir a bordo dizer tal coisa?
—Ninguem, explicou o official interpellado; fui a bordo, por minha livre vontade, transmittir a resolução dos soldados de infantaria 5 e caçadores 5.
O general tornou a vociferar furioso, exclamando que o alferes Gomes da Silva fizera uma salsada, uma burla, que o havia desgraçado, pois concedera apenas um armisticio para dar tempo a que os subditos allemães embarcassem, e concluiu d'este modo:
—Não me rendo!... Ainda disponho de muitos soldados!...
O alferes interveiu logo:
—V. ex.ª tem essa impressão... mas eu affianço-lhe que já não tem soldados!...
O general fitou-o demoradamente e depois, attentando no numero do bonet de Gomes da Silva, insistiu:
—Demais, caçadores 5 tem sido fiel, continuará a ser fiel e com soldados assim não me rendo!...
Nova replica do alferes, affirmando-lhe sob sua palavra de honra que n'aquelle batalhão o general não dispunha d'uma unica praça. Para terminar a discussão, Marianno Martins interveiu marcando o praso d'uma hora para a rendição do quartel general. Findo elle, o S. Rafael varreria as ruas Augusta e do Ouro com as suas peças.
—Façam o que entenderem, retorquiu o general, não me rendo... Ainda tenho muita gente.
Cá fóra, o povo, enthusiasmado, continuava a dar vivas delirantes á Republica e ao exercito, confraternisando com os soldados, que disparavam as armas para o ar, evidenciando uma alegria doida. Cessara o tiroteio entre os combatentes. O general, observando isto, reuniu o conselho de officiaes, chamando para essa reunião todos os commandantes de unidades, e falou-lhes n'estes termos:
—Tendo de tomar resoluções, convoquei os senhores. As circumstancias são as seguintes: ordenou hontem este Quartel General ás forças que guarneciam as Necessidades que se approximassem d'este local, e que, ou por S. Roque ou por onde entendessem conveniente, tentassem obstar á descida da artilharia revoltosa para S. Pedro de Alcantara, d'onde constava que ella procuraria bombardear o Rocio. Apezar de repetidas vezes transmittida, esta ordem não foi cumprida até agora. As baterias de artilharia 3 encontraram cortada a ponte de Sacavem e não podemos por conseguinte contar com ellas.
«O sr. general Sequeira informa-me que as munições de artilharia armazenadas em Beirolas não podem d'ahi obter-se, porque o impedem barricadas com fortes guarnições de paisanos armados. Não temos por isso possibilidade de remuniciar a bateria a cavallo de Queluz, á qual apenas resta um pequeno numero de tiros. Os srs. commandantes das forças de infantaria do Rocio fizeram-me constar a fadiga das suas praças; e mais tarde, sabendo-se que os marinheiros, senhores do Arsenal, procediam ao desembarque para investir o Rocio, os mesmos srs. commandantes informaram-me das más disposições dos seus soldados para fazerem fogo contra os ditos marinheiros.
«Finalmente, ha cêrca de meia hora, apresentou-se me um representante da Allemanha pedindo auctorisação para tratar com os revoltosos no sentido de obter um armisticio, afim de que os seus nacionaes pudessem sahir a salvo. Entendendo que não devia recusar, forneci para o effeito um parlamentario com bandeira branca. Mas mal a bandeira branca sahiu o portão d'este edificio, isso foi como que um signal de destroçar, sahindo todas as praças das fileiras e misturando-se com os magotes de povo que, a agitar bandeiras brancas, surgia pelas embocaduras das diversas ruas. N'estas circumstancias...»
N'esta altura, Paiva Couceiro, que tambem assistia ao conselho, levantou-se e interrompeu o general:
—N'estas circumstancias, disse elle, vista a exposição de V. Ex.ª, e visto o espectaculo da quebra dos laços de disciplina que por esta janella se avista concluo que V. Ex.ª já não tem soldados. Eu não o abandono; mas V. Ex.ª é que já não precisa de mim. Sigo, pois, o meu destino.
—Mas, observou o general Gorjão, ha de haver uma acta a assignar!...
—Acta?! exclamou Paiva Couceiro. Acta?! Isso é com V. Ex.ª. Comigo, não. Combati hontem. Combati hoje. Estou prompto a combater ainda. Com actas não tenho nada. E, com licença de V. Ex.ª, sigo, repito, o meu destino para o Norte.
E Paiva Couceiro, cumprimentando, sahiu da sala. Cá em baixo, esperava-o o tenente Rocha com a sua peça.
—Vamos para Queluz, disse-lhe Paiva Couceiro. E, com effeito, chamadas as outras peças dos postos que occupavam, a bateria pôz-se a caminho.
Ás 8 e 30 da manhã, Machado Santos, avisado da concessão do armisticio, recebia no acampamento da Rotunda o encarregado dos negocios da Allemanha. Ás primeiras palavras trocadas, Machado Santos recusou o pedido de treguas, allegando que a força estava do seu lado e que ao general da 1.ª divisão é que pertencia render-se. O diplomata replicou dizendo que nada tinha com as razões d'uma ou d'outra parte e insistindo pelo armisticio ameaçou fazer intervir o governo do seu paiz no caso de lh'o não concederem. Machado Santos limitou-se então a sorrir para o engenheiro Antonio Maria da Silva que tambem se encontrava n'essa occasião na Rotunda e disse-lhe:
—Ó Silva, faze de ministro dos estrangeiros da Avenida... Tomo absoluta responsabilidade.
O diplomata allemão pedia uma hora para poder embarcar os seus compatriotas. Foi-lhe concedida (das 8 e 45 ás 9 e 45 da manhã) mas com a condição de não poderem as tropas inimigas retomar posições de que tivessem sido desalojadas e não impedirem a adhesão das que quizessem entrar no acampamento da Rotunda. Dada a resposta ao encarregado de negocios, o engenheiro Silva convidou a ordenança de cavallaria que o acompanhava a ficar com os revolucionarios e substituiu-a por uma escolta da sua confiança.
A derrota da monarchia era um facto indestructivel. No Rocio e nos outros pontos, onde momentos antes se combatia ardorosamente, chorava-se de alegria. O espectaculo era de enternecer. O povo, longe de procurar n'esse instante de predominio absoluto desforçar-se no inimigo, perdoava-lhe generosamente as longas horas de angustia e de hostilidade e confundia n'um abraço de sincero enthusiasmo vencedores e vencidos. Poder-se-ha talvez suppôr que a circumstancia de apparecerem n'esse momento entre as forças que acabavam de render-se á Republica officiaes que se tinham compromettido a preparar-lhe o advento é indicação ou de defecção ou de traição. Não é tal: surprehendidos, horas antes de se iniciar o movimento, com umas medidas de prevenção com que não contavam, esses officiaes sahiram dos quarteis, acompanhando, é certo, os seus camaradas monarchicos, mas dispostos a evitar que as tropas do seu commando chacinassem os revolucionarios.
E foi o que succedeu. Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como o tenente Valdez, Gomes da Silva e Carvalhal Correia Henriques, apesar de expostos no Rocio a um ataque vivissimo dos populares, conservaram sempre uma attitude de disciplinada obediencia á Republica e impediram por todos os meios ao seu alcance que infantaria e caçadores massacrassem os elementos revolucionarios da classe civil. O general Encarnação Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto com diversos d'esses officiaes que elle conhecia das reuniões dos conspiradores, assegurara-se plenamente d'essa attitude. O mesmo fizera Pinto de Lima em especial junto dos elementos de infantaria 5, considerados, como antes da revolução, republicanos. A organisação revolucionaria não teve deserções. Os officiaes que não sahiram desde logo a combater contra o regimen mantiveram até final da lucta uma attitude que favorecia inteiramente a victoria da boa causa.
Dos outros, dos monarchicos, é egualmente justo consignar que á hora de abaterem bandeiras ante a Republica triumphante não foram avaros em reconhecer a magnanimidade do povo que com tanta rudeza haviam hostilisado. Um d'elles confessou lealmente, minutos depois da rendição:
—Não sou republicano, mas agradeço a forma como os senhores me trataram, permittindo-me que após a derrota eu regresse intacto para junto dos meus. São muito generosos para com os vencidos! Obrigado!...
Uma revoada de enthusiastico applauso apagou as ultimas syllabas d'esta declaração espontanea e honrada.
Machado Santos, entretanto, avistando do acampamento da Rotunda uma grande multidão que subia a Avenida, calculou que era tempo de avançar sobre o quartel general, deixando o entricheiramento sufficientemente guarnecido. Á frente d'um batalhão de populares armados desceu até ao Rocio e entrou no quartel general. Já lá estava José Barbosa que, em nome do Directorio, apoiou a entrega do commando da divisão ao general Carvalhal, antigo republicano, que Candido dos Reis indicara muitas vezes como o successor logico do sr. Raphael Gorjão. O resto que se seguiu é por demais conhecido para que nos detenhamos a narral-o.
Arvorou-se a bandeira republicana no quartel do Carmo; João Borges, Estevão Pimentel e Manoel Bravo occuparam o telegrapho; duzentos civis desembarcados dos navios de guerra tomaram o Museu d'Artilharia (que fôra defendido por forças de engenharia e guarda-fiscal) e o Arsenal de Exercito e marcharam depois para a Rotunda a juntar-se aos heroicos revolucionarios ali installados; e cêrca das 9 horas da manhã, da varanda da Camara Municipal soltavam-se aos quatro cantos do paiz a proclamação solemne da Republica e a constituição do governo provisorio.
No governo civil, de que Celestino Steffanina e José Barbosa se apossaram quasi sem esforço, não tardava a concentrar-se um nucleo de forças republicanas para occorrer aos casos mais urgentes. O edificio tinha até outro aspecto. Perdera n'esse momento o ar inquisitorial que caracterisava a antiga Parreirinha. Tanto assim que um combatente da Revolução, um sexagenario vigoroso, ao entrar d'ahi a horas no gabinete do dr. Eusebio Leão, não se conteve e exclamou fremente de enthusiasmo:
—Agora, sim... já se respira á vontade!
As sombras negras dos policias, essas sombras que durante annos os governos monarchicos tinham utilisado não para garantir a segurança do cidadão, para auxiliar, para o coadjuvar, mas para o amachucar, para o ferir nos dias de protesto ou de desespero, essas sombras execradas pelo povo haviam desapparecido, haviam-se sumido como por encanto, ao estridor do triumpho, ao soar o primeiro grito festivo consagrando a conquista da Liberdade. Voltaram mais tarde, é certo; mas voltaram com o accrescimo d'esses ornamentos vermelhos, que nos evocam a cada momento esses longos minutos de lucta, strenua e heroica em que o sangue de uma centena de sacrificados escreveu pelas ruas de Lisboa a pagina mais brilhante da historia democratica.
Ao findar estas narrativas cabe-nos o dever de registar que do lado dos elementos monarchicos houve a espaços, durante o periodo revolucionario, o fulgurar de actos nobres, dignos, reveladores de verdadeira energia. Não foram em quantidade sufficiente para que a balança pendesse decisivamente em favor do antigo regimen. Mas bastaram para accentuar que o sr. D. Manuel de Bragança, entre a enorme côrte que o servia e que quasi por completo o abandonou no momento da derrota, ainda contava uma boa meia duzia de dedicações sinceras. Um d'esses monarchicos liquidou, no cano de um revolver, a carreira que abraçara e a existencia que lhe sorria feliz; foi o tenente de marinha Frederico Pinheiro Chagas.
Ao lado, porém, d'esses homens que até á ultima deram provas de não ser injustificada a confiança que o antigo regimen n'elles depositava, surgem em destaque lamentável outras figuras, que, por medo, por pusillanimidade, ou se retractaram no periodo da Revolução ou se apressaram a bajular a Republica, logo que a Republica triumphou. D'um monarchico sabemos nós que, occupando na monarchia um cargo proeminente, cargo que lhe concitára as antipathias da população democratica, mal defrontou na manhã de 5 de outubro um dos vultos preponderantes do partido republicano, se apressou a affirmar que fôra sempre um apologista da Ideia e que os incidentes desgraçados em que o antigo regimen, para se defender, envolvera o seu nome, não tinham occorrido sem o seu vehemente protesto.
Outro, um magistrado retintamente monarchico, servidor incondicional do governo do sr. Teixeira de Sousa, perseguidor feroz dos republicanos, que, porventura, cahiam na sua alçada, encontrámol-o dias depois de proclamada a Republica na sala de visitas d'um venerando causidico democrata, o dr. Manuel de Arriaga, asseverando-lhe que nunca defendera outros principios que não fossem os do partido do povo. E accrescentava, n'uma voz meliflua, implorador:
—Você sabe... accusam-me de ter procurado, no exercicio da minha missão, aggravar intransigentemente a pleiade de homens honrados em que você enfileira... É falso! Não sou monarchico e desgostar-me-hia bastante o soffrer agora as consequencias d'uma accusação infundada.
O seu interlocutor sorriu ao ouvir estas palavras de subserviencia e n'esse sorriso lia-se claramente a bondade de um coração diamantino que se apiedava do terror cobarde do magistrado em questão...
E outros ainda, que ao perceberem que após trinta e seis horas de lucta o antigo regimen se afundara definitivamente, compozeram uma attitude de artificioso contentamento, exclamando ao mesmo passo:
—Até que emfim!... Ha quantos annos suspirava por este dia!...
Os mais apressados no reconhecimento da nova fórma de governo, esses, então, como o momento era azado para distinguir ao primeiro golpe de vista os adherentes dos não adherentes, não duvidaram pregar na lapella do casaco uns laçarotes vermelhos, para que a rajada revolucionaria—caso ella se manifestasse—os não subvertesse, os não liquidasse.
Nas horas do combate encolheram-se a tiritar, calculando que a Revolução os arrastaria pelos cabellos a uma chacina purificadora ou os penduraria n'um candieiro. E, afinal, a Revolução não fez nada d'isso. A Revolução, assim como teve um curto periodo de tiroteio sangrento, tambem se caracterisou por diminutos instantes de delirio enthusiastico, mas delirio inoffensivo, expansão de alegria desinteressada e generosa. Ninguem assassinou, ninguem saqueou. A propria artilharia civil, dispondo d'uma poderosa força destruidora, não commetteu excessos, não praticou represalias. Applicou-se exclusivamente a atacar as forças do antigo regimen, lançando as suas granadas de mão sobre os cavalleiros monarchicos, dispersando-os, derrotando-os mais pelo panico produzido pelo ruido da explosão do que pelos effeitos contundentes da metralha.
Um episodio succedido na tarde do dia 4 de outubro dá bem a medida do espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram então á rua a combater contra a monarchia:
N'uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas, á hora em que a artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros certeiros... Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de uma casa rica é abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe uma porção de leite. O aspecto do revolucionario é de metter pavor: na face ennegrecida lampeja uma decisão inquebrantavel; n'uma das mãos agita uma pistola de grandes dimensões. O leiteiro estaca a tremer, disposto já a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se dispõe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro observa-lhe que a policia não consente tal coisa, que isso é... contra a postura.
—A policia... Mas onde está ella? replica o revolucionario n'uma gargalhada escarninha.
E d'um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe restituem a medida de lata, prepara-se para uma correria desenfreada. É de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas com o dispendio d'uns decilitros de leite... Mas o revolucionario não o consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaçador, obriga-o a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem não fazia a Revolução para perpetuar os crimes da monarchia.
Quantos dos servidores do antigo regimen não procederam de modo diverso? Quantos não beberam o leite, não o pagaram e até metteram na cadeia os respectivos vendedores só pelo facto de lhes exigirem o pagamento? Quantos?...
DO TEXTO
DAS GRAVURAS
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VOLUMES PUBLICADOS
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Pedidos a
1Em 1891, por occasião da revolta do Porto, não succedeu assim. «Para o paço de Belem havia desde manhã cedo enorme affluencia de personagens officiaes»—dissemol-o no 31 de Janeiro.—«Todos á porfia accorriam á regia morada». Quasi vinte annos depois, no instante do perigo, fugiam d'ella...