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Rita
Farinha (Fev. 2009)
Obras completas de A. F. de Castilho
XIX
O Presbyterio
da Montanha
VOLUME I
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905
OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
VOLUME 19.º
VOLUMES PUBLICADOS:
| I |
— |
Amor
e melancolia. |
| II |
— |
A
chave do enigma. |
| III |
— |
Cartas
de Ecco e Narciso. |
| IV |
— |
Felicidade
pela agricultura
(1.º v.) |
| V |
— |
Felicidade
pela agricultura
(2.º v.) |
| VI |
— |
A primavera
(1.º
vol.) |
| VII |
— |
A primavera
(2.º
vol.) |
| VIII |
— |
Vivos e
mortos—Apreciações moraes,
litterarias, e artisticas. |
| IX |
— |
Vivos
e mortos (2.º
vol.) |
| X |
— |
Vivos e mortos
(3.º
vol.) |
| XI |
— |
Vivos e mortos
(4.º
vol.) |
| XII |
— |
Vivos e mortos
(5.º vol.) |
| XIII |
— |
Vivos
e mortos (6.º
vol.) |
| XIV |
— |
Vivos e mortos
(7.º vol.) |
| XV |
— |
Vivos e
mortos (8.º
vol.) |
| XVI |
— |
Excavações
poeticas (1.º vol.) |
| XVII |
— |
Excavações
poeticas (2.º vol.) |
| XVIII |
— |
Excavações
poeticas (3.º vol.) |
| XIX |
— |
O Presbyterio da
montanha
(1.º v.) |
NO PRÈLO:
| XX |
— |
O
Presbyterio da montanha
(2.º v.) |
OBRAS COMPLETAS DE A.
F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
XIX
O Presbyterio
da
Montanha
VOLUME I
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade Editora
| LIVRARIA MODERNA |
|
TYPOGRAPHIA |
| Rua
Augusta, 95 |
45, Rua Ivens, 47 |
1905
Advertencia dos Editores
Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos
antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa
solidão de mais de sete annos de homisio na serra
do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo de
O
Presbyterio da montanha, escreveu um prologo extenso,
descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos de
distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as
saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o
já então fallecido Abbade de S. Mamede da
Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se,
imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a
publicar-se.
O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes
da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,
fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer
como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo,
são hoje considerados espe
O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes
da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,
fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer
como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo,
são hoje considerados especies bibliographicas de primeira
raridade.
Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional
de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador,
bibliógrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz,
outro; a fallecida snr.
a D. Maria Peregrina de
Sousa, poetisa
portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no
Tomo I do Supplemento do seu immortal
Diccionario,
não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.
Quanto á parte poetica do livro projectado, essa,
não impressa, desappareceu em parte. Só algumas
poucas peças
encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiaes
truncados da collecção. Salvando esses versos,
cumprimos um dever moral, e outro literario.
O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico
de um edificio ainda em
construcção, e já em ruinas;
é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e
instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a
lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o
folk-lore,
d'aquella
região alpestre, tão portugueza, mas
tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor,
com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta.
Appareceu tambem uma
Introducção em
verso sôlto a certo poema intitulado
O
Sepulcro, historia de uma noite de S. João,
projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito
phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos
intercalar essa curiosa Introducção, no seu logar
chronologico, por varios motivos: dá-nos
Castilho sob uma
feição poetica diversa da sua habitual, e
pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia
soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. O
Sepulcro
é
pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e
fôra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do
borrão original, que possuimos pela letra do amoravel
secretario Augusto Frederico, para esta licção
actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em
1864.
Além do
Sepulcro, outras
peças, portuguezas e latinas, já impressas nas
Excavações, teriam logar
aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor
preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil é ao leitor
intelligente o procural-as.
Á MEMORIA
DO
EXEMPLAR DE IRMÃOS
AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO
PRIOR DE
S. Mamede da Castanheira do Vouga
Em testemunho publico e perenne
DE
AFFECTO E GRATIDÃO
Offerece
Antonio Feliciano de Castilho
PREAMBULO
I
O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o
classifical-o podesse por alguma via valer a pena.
Não é historico, nem ficticio; não
é didactico, philosophico, nem descriptivo; não
é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de
tudo isso, de tudo isso participa.
Nem sequer é um livro; é uma congérie
de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quasi todas
desconnexas, e de pensamentos não procurados, se
não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem
determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles
banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que
ha em casa,
...dapibus
mensas oneramus
inemptis,
para hospedar a
cortesãos que lhe passaram pela porta. Não
procura enganal os: com mãos limpas e
coração lavado lhes
põe diante o que só para si tinha tratado na sua
horta, ceifado no seu chão, cevado no seu pateo, ou colhido
do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem; algumas
flores, já pode ser que as apresentará em vasos
de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possue,
não se vos alardeia de abastado, nem se compara com os
visinhos de casas altas e balcões envidraçados.
Como quer que vós d'elle o fiqueis, não
ficará elle descontente de si mesmo á despedida.
*
Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de
carreira, parte apenas esboçado ou apontado, ha hoje doze,
treze, quatorze, quinze, e dezasseis annos, sem pensar no Publico; para
mero desenfadamento de horas abhorrecidas; para ajudar a correr mais
depressa, em sitios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito
tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito
desconfortados de esperanças.
Como todo o meu fim em fazer versos não era outro
senão o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem.
Não tinham de apparecer entre gente; não os
educava; não os corrigia; não lhes punha galas e
arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.
Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que
não tornasse; achei-os
os mesmos que os tinha deixado:
sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram
por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por
fora o mesmo que por dentro faz a consciencia.
Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram
filhos; contavam já annos: recordavam-me tempo de saudades;
eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o
meu nome; com elle os apresento.
II
Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu
que
se
compõem para o Publico; e, bem hajam elles!:
não levam á praça senão o
que teem averiguado que por lá se deseja e se procura;
põem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao
interesse ou gosto alheio.
Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.
Não sou eu que vou para os leitores; são os
leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler.
Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas
occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela
minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da
sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte
desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só
vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela
andorinha cujo ventre branco
ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar
desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por
divida que eu não contraio), que a unica
deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar
alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no
interior da casa alheia, e nos segredos do visinho.
É o que faz com que, por mais futeis que pareçam
as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias
epistolares, quando por acaso vão dar ao prelo sem terem
sido ordenadas para elle, commummente são lidas com
interesse.
É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as
achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma
antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e
utensís do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia
os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve.
Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o
ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos
banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas
ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos;
confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas,
de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e
virações do ceo, do sussurro das plantas, dos
sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu,
deixando de si menos v
Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o
ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos
banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas
ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos;
confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas,
de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e
virações do ceo, do sussurro das plantas, dos
sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu,
deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a
lampada que allumiou
calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.
Os monumentos são artificiaes, e artificiosos;
são estudados, e emphaticos; a historia que elles resam
é fria. Mas cá, o romance que engenhamos,
ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado,
é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.
*
As
impressões de viagens
estão sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui
usado e mui querido.
Não admira: para os autores é facil; para os
leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que
todos temos muito ou pouco; sem cançasso nem más
poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por aguas do mar;
sem desabrimento de estações; sem saudades do que
lá
fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que
é repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a
pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando
aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não
ouve pelas ruas palavra nem som da sua creação.
A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos
atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam,
com a nossa casa e familia, sem até nos demovermos do nosso
quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os
regalos da vida o de ler deitado.
*
Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o
gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são
extranhos, e não medir as distancias que nol os apartam, que
esse, pelo contrario, é o maior desconto do peregrinar,
¿por que se apeteceriam mais as viagens á
França, á
Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás
margens do Rheno,
á Russia, ao Egypto, á China, ou ainda
á Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra,
só conhecido de seus moradores e visinhos?
¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em
cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do
Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e
taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca
depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.
Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar
montanhezes, agrestes porém bons; e tão bons,
que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos
seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e
pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios,
entalados nos córregos, ou inclinados a scismar tristezas
sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a
vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.
Estes, com falarem portuguez, são para vós
estrangeiros, ou quasi. Como taes, não vos despraza
conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles
demorou annos, e de boa-mente lá iria
agora enterrar os restos cançados
da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe lá
ficou em quieto desterro para todo sempre.
[1]
III
A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região
o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade
minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a
sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel.
Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais
florídos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa
infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do
mundo em que eu estivesse; e não houvera eu
valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que
então cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos
elle e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados
com o nosso futuro, já palpado e colhido ás
mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os
outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias,
mais amenas ou mais vívidas,
por aquellas gentilezas
incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva.
*
Passámos n'uma
bateirinha remada por uma velha moleira da
margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje
corrupto, segundo a tradição, o
bom
fiar de certa moça mui santa, que junto d'elle
vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o
trabalho da sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros
lhe viesse o appellido, significando
pepinal, ou
rio das terras dos pepinos; pacifico rio, que
então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas
altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de
se deter enlevado na amenidade de tal painel.
Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para
um e outro cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes,
só de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e
mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago,
que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto.
São já fronteiras do Caramulo.
IV
A freguezia de S. Mamede não se vê em parte
alguma; é dispersa, e emboscada. A magreza da terra
não dá para grandes espessuras de
povoação.
O aspecto do paiz, para quem só o atravessa
é de inhospedeiro. Mas que
se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea
e desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em
todos os
corações. É porque a
solidão é de si mais
affectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado.
Esta differença e vantagem que os moradores levam
á sua terra, experimentámol-as nós
ainda antes de chegarmos á egreja e
residencia, sahindo a receber o seu Pastor novo não
só os maioraes, se não quasi todo
o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras
e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde
áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas
brancas.
A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para
o seu adro muito verde, apresenta-se solitaria. Das
povoações em que a freguezia se divide, nenhuma
lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia
parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de
traz, como serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por
entre os plátanos, que o portal do seu pateo toucado e
semi-velado das mais espêssas, crespas, e lustrosas heras,
onde jámais se esconderam e cantaram melros.
Ambos os edificios ficam no meio do
passal, antiga quinta «das
Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do
sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes,
que ali teem o seu foco espiritual.
Um grande silencio rodeia largamente a
casa da oração. O presbyterio não lh'o
quebra.
Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo
rustico mas espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da
sua frontaria principal unicamente para o ceo, e para umas formosas e
corpolentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle
clausuradas, o modesto domicilio, proporcionado pelo que sempre
deverá ser o pastor de tal rebanho, não se
retrahiu para mais longe, por traz da sombra do santuario, porque
não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez mais
precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa
para
além a esconcear,
descer, e
afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e
espumifero rio de S. Mamede.
Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a
grande altura, por cima das aguas escuras e raro alcançadas
do sol, communica esta com a ribanceira ulterior, não menos
carrancuda, fragosa, arripiada, e a pique.
Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até
ao moirisco logar de Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da
penedia d'alem-rio, entremeia apenas distancia, que, pela calada das
noites, deixa ouvir de parte a parte os ladridos dos cães de
gado, as cantigas do serão, e os alertas dos gallos a
deshoras. E comtudo, aquelle
quasi-nada para os ouvidos e olhos, é
para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem
perigos.
As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte,
giram enleadas e perplexas,
torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a esquerda, como
espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a
subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.
Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres,
são os unicos entes vivos, que por ali se affoitam a tomar
pé. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lh'os despega
maduros, vão sumir-se entre as espumas arrebatadas.
Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes
escarpas, com poucas braças de ceo por cima, e por baixo de
si o rugir de tantas aguas, dá as
sensações de um
bello horror.
Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas
esquecidas para aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas
vezes ahi me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido
sobre as táboas, gastadas e rôtas da humidade, me
gosava da viração transpirada pela corrente.
¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma
inspiração de religiosa poesia no fundador, a que
fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço,
como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja?
¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão
escura, tão angustiada, tão clamorosa, e com
tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras
inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo
ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre,
tão aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos,
tão gorgeada a ambas suas portas
de passarinhos, tão garrida de
espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares
tão ridente de flores silvestres, symbolo da alma refugida
das tormentas do mundo para o ineffavel asylo da Fé e das
Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e
transição dos dois extremos, a casinha do Pastor,
alva como a confiança, verdejante e florida como as
promessas, recatada como a esmola, inexhaurivel no seu celleiro como a
Providencia, tácita como a meditação,
com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a
torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores de
Deus para o firmamento.....
O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a
torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou
Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na
Capadócia, e do qual toda a Egreja do Oriente
pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou
martyr, por volta do anno 274 da nossa era.
O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o
vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres
e pacificos arredores, para o Menino, já moço na
valentia, ou para o moço, ainda menino na innocencia.
Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos
concertou.
V
Era a residencia, quando a ella chegámos,
decrépita e caduca: apparencia de choça fabricada
de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior; por fora
negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e
desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia
em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.
A transformação foi rapida e completa. Os
alpendres desappareceram. Na casa remoçada entrou por
vidraças abundancia de luz. O pateo desafrontado foi
revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida,
logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro n'elle
plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que
n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já
não existe na terra, o outro declina para o occaso, elle,
medrando ainda, é já, como lh'o eu
augurára nos
meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu tronco cinco
palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.
[2]
O novo Prior, o Rev.
do snr. Padre Antonio
José Rodrigues
de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho,
varão de virtude, e espirito cultivado
por Letras, filho d'aquellas boas
terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do
nosso nome, conserva e zéla tudo aquillo com amor.
É para mim delicia o considerar, que á sombra
grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino
de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá
talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em
que deposíto o seu nome mollemente reclinado entre tantas
outras saudades minhas.
VI
Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me
escondeu sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de
1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o vôo
que hoje abrem para o mundo, estas poesias montesinhas.
Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo
esboçado, peço-lhes ainda um pouco de
indulgencia, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores.
*
O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo
por traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno,
a escoar-se cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.
Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e
erma de Falgozelhe, se boleiam
melancolica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua
fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras, que
até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois
de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada
horizontal, por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar,
até ir bater, lá ao longe, na
capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe servem de
limite.
Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias
folgavam de avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades
protectoras da Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo
agricola como este, do que achar a casa do
Creador,
e a do seu
dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal
a com a invocação de um
Pastorinho santo?
O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S.
Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o
meu passal até ao adro; costeia a egreja e a casa pela
direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando
para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte
sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar
de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com
um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troço
de lança enferrujado de musgo.
VII
Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé
d'este altar, onde já ninguem ajoelha, sobre sepulturas que
hoje são tremoços, e recordemos a obscura
historia d'este sitio.
¿Por que razão só as grandes ruinas se
hão-de haver por merecedoras de
attenção? Todo o passado é poetico;
todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é
proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como
esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde
hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de
ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos
bons, e até festas.
Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da
Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela
margem de cá ás aguas do S. João do
Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um
moço por nome Jorge, humilde de
geração como tudo quanto por ali nasce e se cria,
mas de coração alto e espiritos levantados.
Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal
uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido
não sabia de quem)... mas emfim, namorára-se, que
o sabia ella, de certa moça de alem-rio, guardadora de
cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau
de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da
sua vivenda entre penedos, levava, os dias
com os olhos sempre içados aos cabeços de
Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de
serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo
malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes
côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do
precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que
obedeciam á sua voz melodiosa.
A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a
esperdiçava cantando n'aquellas solidões,
parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a estava captando com
ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as
nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a
interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para
o seu coração.
Vel-a á sua vontade, não a via se não
aos domingos na egreja; e nem então, que para esses dias
tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e
tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe
que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a
fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das
aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que
prestem para communicar dois estados tão diversos.
*
Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é
poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se
a medo á sua formosa; não foi repellido.
Affoitou-se a mais:
ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confissão. O
que
entre elles se passou, não se sabe; taboas de confessionario
não são carvalhos dodónios que
chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça
não tornou
a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a
terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem
dizer nada a ninguem, e não levando senão o
fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo
dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.
Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el
Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus
para onde, e para quê.....
No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento,
assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida,
apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse
com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria,
uma capella da sua invocação com duas Missas por
semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu
coração, por cima da Talhada, onde tinha os
irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o
baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos.....
Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria
muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes
montanhas tão altas e escarpadas, porém mais
temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos
visos, elle variára a sua infancia.
Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.
Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em
Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e
nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar.
Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que
ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi
demolido, para ir servir como materiaes na
edificação de parte da residencia, e da egreja
nova, que já sabeis lhe estão visinhas.
*
—¿Mas o fim de seus amores?—me perguntareis
vós.
Memoria é essa que eu tambem procurei, porém
não consegui desencantal-a.
O que só pude desenterrar da tradição,
foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um
filho nascido na póvoa da Talhada; que este se
ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e
arribára a
Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada
da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito
amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com
braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas
pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma
corôa de espinhos.
Vê se, venera-se, e
commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede do
arco cruzeiro da banda direita; e
affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecêra com egual
honra em quanto ella durou.
Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma
póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro
velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um
pequeno moinho, rôto por todos os lados aos ventos e chuvas,
foi, ou não, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e
seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não
alcancei; e não quero
invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha
velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei
da constancia no bem querer dos moradores da minha serra.
A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a
Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna
entulhára com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge,
que não é Santo para meias victorias, havia
forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.
Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de
pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome
ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os
recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e
beber á saúde da futura
geração algumas malgas de vinho verde na sua casa
da Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do
Monte.
VIII
A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o
antigo oratorio dos Condes da Feira; e a residencia, já
depois duas vezes transformada, albergue do feitor que elles ahi tinham
para lhes receber os fóros, e lhes tratar d'aquella sua
quinta, chamada, como já tocámos, «das
Limeiras».
Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto,
havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão,
do Bispado de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de
distancia da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para
Alcafaz, pertencente agora á freguezia de Agadão,
sitio ainda desfavoravel pelo estirado
e descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem
ermida, casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a
sustentação de Parochia sobre si.
N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos
hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus
amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a
espessura das moitas então creava, segundo parece, como
ainda hoje cria lobos. Folga a phantasia comparando e contrapondo
aquelles tempos a estes, e reanimando o actual silencio com um reflexo
e ecco da vida estrepitosa de outra edade.
IX
Explorámos as convisinhanças do templo e
residencia. Estendâmos agora os olhos até
ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico
senhorio.