O observatorio de
Cambridge (pag. 35).
Passados alguns dias depois da famosa sessão do Gun-Club,
annunciou, no theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza
a representação de
Much
ado about nothing[21].
Ora a
população da cidade, que viu no
titulo da comedia
uma allusão offensiva aos projectos do presidente Barbicane,
invadiu a sala, escangalhou os bancos, e obrigou o
desgraçado do director a alterar o cartaz. O director, que
era homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu
a desventurada comedia por
As you like it[22]. O
resultado
foi ter, durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.
Movimentos de
translação da Lua
(pag. 43).
CAPITULO IV
RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE
Barbicane, apesar de todas as ovações de que era
alvo, não desperdiçou um só instante.
A primeira cousa de
que tratou foi de reunir os collegas da mesa nas salas de
commissão do
Gun-Club, onde, com previa discussão, se accordou que fossem
consultados os astronomos ácerca da parte astronomica do
projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes, se discutissem
então os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para
tornar seguro o exito da grande experiencia.
Redigiu-se por consequencia uma
nota
extremamente precisa, contendo perguntas especiaes, que foi dirigida ao
observatorio de Cambridge, no Massachussets. A cidade de Cambridge,
onde foi fundada a primeira universidade dos Estados Unidos,
é
justamente nomeada pelo seu observatorio astronomico, onde se encontram
reunidos homens de sciencia do mais elevado merecimento. É
ali que funcciona o potente telescopio, com o qual Bond
conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke descobrir o
satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este
estabelecimento celebre justificavam portanto a confiança do
Gun-Club.
E com effeito, dois dias depois, chegava ás mãos
do presidente Barbicane a resposta tão impacientemente
esperada.
Era concebida nos seguintes termos:
«Do director do observatorio de Cambridge para o presidente
do Gun-Club, em Baltimore.
«Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do
corrente, endereçada ao observatorio de Cambridge em nome
dos socios do Gun-Club, de Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico
d'este
estabelecimento, e houve por conveniente
[23]
responder como se segue:
«As perguntas que lhe foram feitas são as
seguintes:
«1.º Será possivel enviar um projectil
até á Lua?
«2.º Qual é a distancia exacta que ha
entre a
Terra e o seu satellite?
«3.º Quanto tempo durará o trajecto do
projectil
ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por
consequencia, em que momento deverá ser arremessado para que
encontre a Lua n'um ponto determinado?
«4.º Em que momento prefixo estará a Lua
na
posição mais favoravel para ser
alcançada pelo projectil?
«5.º A que ponto do céu deve fazer-se a
pontaria
com o canhão destinado a lançar o projectil?
«6.º Que logar ha de occupar a Lua no
céu, no
momento da partida do projectil?
«Em relação á primeira
pergunta: Será possivel enviar um projectil até
á Lua?
«Sim, é possivel alcançar a Lua com um
projectil, comtanto que se consiga animar esse projectil de uma
velocidade inicial de 12:000
jardas por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade é
bastante.
«Á medida que nos afastâmos da terra, a
acção da gravidade diminue na rasão
inversa do quadrado das distancias, isto
é, por exemplo, para uma distancia tres vezes maior,
torna-se nove vezes menor. Por consequencia o peso da bala ha de
decrescer rapidamente, até chegar a ser completamente nullo,
o que ha de succeder no momento em que a
attracção da Lua
fizer equilibrio á da Terra, isto é, quando tiver
percorrido
47⁄52
avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil não
terá peso algum, e
se passar alem d'esse ponto ha de caír
para a Lua só por effeito
da attracção lunar. Fica portanto
irrecusavelmente demonstrada a possibilidade theorica da experiencia;
emquanto ao seu bom exito, esse depende unicamente da potencia do
machinismo que se empregar.
«Com respeito á segunda pergunta: Qual
é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?
«A Lua não descreve em torno da terra uma
circumferencia de circulo, mas sim uma ellipse, n'um dos focos da qual
está
situado o nosso globo; d'ahi vem por consequencia que a Lua
está,
ora mais proxima, ora mais afastada da terra, ou em termos
astronomicos, agora no apogeo, logo no perigeo; e a
differença entre a maior e a menor distancia é
relativamente bastante
consideravel para que não devamos despreza-la. Com effeito,
no apogeo
está a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4 kilometros)
e no perigeo a 218:657 milhas sómente (88:010 leguas) da
Terra, o
que dá uma differença de 28:895 milhas (11:630
leguas), que é mais da nona parte do percurso total.
Portanto a distancia perigea da Lua é que deve servir de
base aos calculos.
«Ácerca da terceira pergunta: Qual será
a duração do trajecto do projectil ao qual tenha
sido imprimida a velocidade inicial
bastante, e consequentemente em que momento deverá ser
lançado para que vá encontrar a Lua em um
determinado ponto?
«Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial
de 12 jardas por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da
partida, gastaria apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu
destino; mas como a velocidade inicial ha de ir
continuamente decrescendo, deduz-se, feitos os calculos, que o
projectil ha de empregar 300:000 segundos ou 83 horas e 20 minutos para
chegar ao ponto onde as attracções terrestre
e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie
da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem
pois lançar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20
segundos antes do momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.
«Em relação á quarta
pergunta: Em que instante prefixo estará a Lua na
posição mais favoravel para ser
alcançada pelo projectil?
«Em consequencia do que deixâmos dito, deve, em
primeiro logar, escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e
simultaneamente o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que
ha de diminuir ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao
raio da terra, isto é, de 3:919 milhas, vindo por esta
fórma a ser o trajecto definitivo de 214:976 milhas
(86:410 leguas). Porém a Lua, que passa todos os mezes pelo
seu
perigeo, nem sempre se encontra no zenith no mesmo instante, e
só a
largos intervallos satisfaz simultaneamente a estas duas
condições. Necessario é portanto
esperar a coincidencia da passagem
pelo perigeo com a passagem pelo zenith.
«Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua
ha de preencher as duas condições indicadas:
á meia noite estará no perigeo, isto
é, no ponto da sua orbita d'onde
é mais curta a distancia á Terra, e
passará no mesmo instante
pelo zenith.
«Em relação á quinta
pergunta: A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o
canhão destinado a lançar o
projectil?
«Suppondo admittidas as considerações
que precedem, o canhão deve ser dirigido para o zenith
[24] do
logar, por maneira que o tiro venha a ser perpendicular ao plano do
horisonte e o projectil fuja assim mais rapidamente aos effeitos da
attracção
terrestre. Mas para que a Lua passe pelo zenith de um logar terrestre,
é
necessario que este logar não tenha latitude maior do que a
declinação do astro, por outra que o logar esteja
comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle
28°
para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia
necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da
experiencia.
«A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua
no céu, no instante da partida do projectil?
«No momento em que o projectil for lançado ao
espaço, a Lua que avança em cada dia 13°,
10' e
35", deve estar afastada
do ponto zenithal quatro vezes esta grandeza, isto é,
52°,
42'
e 20", espaço que corresponde ao caminho que ha de andar
durante o percurso do projectil. Mas como se deve tambem attender ao
desvio que ha de vir ao projectil do movimento de
rotação da Terra, e como, quando a bala chegar
á Lua, este desvio deve ter
attingido uma grandeza igual a dezeseis raios terrestres, que contados
sobre a superficie da Lua, dão proximamente 11°,
devem
juntar-se estes 11° aos já mencionados, que exprimem
o
atrazo da Lua,
o que dá 64° em numeros redondos.
«Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no
momento do tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de
64°.
«Taes são as respostas ás perguntas
feitas pelos socios do Gun-Club ao observatorio de Cambridge.
«Em resumo:
«1.º O canhão deve ser collocado n'uma
região situada entre o equador e os parallelos de 28 graus
de latitude norte ou sul.
«2.º Deve ser dirigido para o zenith do logar.
«3.º O projectil deve ir animado de uma velocidade
inicial
de doze mil jardas por segundo.
«4.º Deve ser lançado no dia 1.º
de dezembro do
anno proximo, ás onze horas menos treze minutos e vinte
segundos.
«5.º O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias
depois
da partida, no dia 4 de dezembro á meia noite exacta, no
momento em que o astro passa pelo zenith.
«Devem portanto os socios do Gun-Club dar começo
sem demora aos trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento
de tal ordem, e prepararem-se para a execução no
momento determinado, porque se deixarem passar a data indicada de 4 de
dezembro, só dezoito annos e onze dias depois
volverá a Lua a entrar nas mesmas
condições em
relação ao zenith e ao perigeo.
«O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica
inteiramente á disposição do Gun-Club
para todos os
assumptos de astronomia theorica, e aproveita a occasião da
presente para
juntar as suas felicitações ás da
America
inteira.
«Pelo pessoal scientifico do
estabelecimento.
--J.
M. Belfast, director do
observatorio de Cambridge.»
CAPITULO V
O ROMANCE DA LUA
Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no
centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo,
teria visto, na epocha cahotica do universo, o
espaço cheio de myriades de atomos. Mas pouco e pouco, com o
volver dos seculos produziu-se uma mudança; manifestou-se
uma lei
de attracção, á qual obedeceram os
atomos
outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo
suas affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados
nebulosos de que estão semeadas as profundezas do
céu.
Animaram-se então estes aggregados de um movimento de
rotação em volta do seu ponto central, e este
centro formado de moleculas vagas poz-se tambem a girar sobre si mesmo,
ao passo que se ia progressivamente condensando. Segundo as leis
immutaveis da mechanica, á medida que se lhe minguava o
volume pela condensação, ia-se-lhe accelerando o
movimento de
rotação e, persistindo estes dois effeitos, de
cada centro, resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado
nebuloso.
Se o observador olhasse então attentamente, teria visto
succeder com as outras moleculas do aggregado, o mesmo que
succedêra com a estrella central: condensaram-se adquirindo
simultaneamente um movimento de rotação
progressivamente
accelerado, e gravitaram em torno da central, transformadas em outras
tantas estrellas. E assim ficava formada uma nebulosa
[25].
Não menos
de cinco mil nebulosas
conhecem, na actualidade, os astronomos.
Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via
lactea
[26],
e que contém dezoito milhões de
estrellas, cada uma das quaes se transformou em centro de um mundo
solar.
Se o observador, rodeado por estes dezoito milhões de
astros, volvesse especialmente a attenção para um
dos
mais modestos e menos brilhantes
[27],
para uma estrella de quarta ordem,
que
orgulhosamente appellidâmos
o Sol,
debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os phenomenos a que
é devida a
formação do universo.
Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto
de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o
trabalho de concentração, e
este movimento, subordinado ás leis da mechanica, havia
accelerar-se com a
diminuição do volume, e um instante havia de
chegar em que a força centrifuga venceria a força
centripeta, que attrahe as
moleculas para o centro.
Outro phenomeno então havia de realisar-se diante dos olhos
do observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se
como a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir
formar, em volta do Sol, anneis concentricos como
o de Saturno. A estes anneis de
materia cosmica, animados de movimento de rotação
em volta da massa central, chegaria
depois a vez de partir-se e decompor-se em nebulosidades secundarias, o
que vale o mesmo que dizer, em planetas.
Concentrada então toda a attenção do
observador sobre os planetas havia de ver realisarem-se n'elles os
mesmos phenomenos que observára no Sol. De cada um d'elles
dimana um ou mais
anneis cosmicos, origens dos astros de ordem inferior a que
chamâmos
satellites.
Subindo assim do atomo á molecula, da molecula ao aggregado
nebuloso, do aggregado nebuloso á nebulosa, da nebulosa
á estrella principal, da estrella principal ao Sol, do Sol
ao planeta, do planeta ao satellite, examinâmos a serie
inteira de
transformações por que passaram os corpos
celestes desde os primeiros dias do mundo.
O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar,
está todavia ligado pelas ultimas theorias da sciencia
á nebulosa chamada via lactea. Ainda que no meio das
regiões ethereas
nos pareça pequeno, é todavia o centro de um
mundo, e
é enorme, poisque o seu volume é igual a mil e
quatrocentas vezes o
volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito planetas, que nos
primeiros tempos da creação lhe
sairam das
proprias entranhas. São estes planetas, progredindo do mais
proximo até ao mais
remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e
Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter,
outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de
algum astro quebrado em milhares de pedaços; d'estes conta o
telescopio não menos de noventa e sete
[28]. Alguns
d'estes servidores que o Sol mantém nas respectivas orbitas
ellipticas por
força da grande lei da gravitação,
tambem têem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito,
Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra só um; este,
que é um dos menos
importantes do mundo solar, chama-se Lua, e é o que o
engenho audaz dos
americanos pretendia conquistar.
O astro das noites, já pela proximidade relativa a que
está, já por virtude do espectaculo rapidamente
renovado das diversas phases que apresenta, partilhou sempre com o Sol
a
attenção dos habitantes da Terra; mas o olhar
para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar forçam os
contempladores d'este astro a baixar os olhos.
A loura Phoeba é mais humana, e cheia de modesta
graça deixa-se ver com complacencia; é suave para
a vista, pouco ambiciosa,
e comtudo toma ás vezes a liberdade de eclipsar seu
irmão, o radiante Apollo, sem que nunca fosse eclipsada por
este.
Comprehenderam os mahometanos a gratidão que era devida
á fiel amiga da Terra; por isso regularam pela
revolução
d'ella a contagem dos mezes
[29].
Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa.
Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos
adoraram-n'a sob o nome de Ph[oe]ba, como filha de Jupiter e de Latona,
e explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello
Endymião.
Diz-nos a lenda mythologica, que o leão de Nemea, antes de
apparecer na Terra, percorrêra as campinas da Lua, e o poeta
Agesianax, citado por Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o
encantador nariz e a bôca amavel, que figuram as partes
luminosas da adoravel Seléné.
Porém se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter,
o temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista
mythologico, não é menos verdade, que os
mais sabedores d'elles eram extremamente ignorantes pelo que diz
respeito a selenographia.
Barbicane
levanta-se
para fallar (
pag. 58).
Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram
algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e
se os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em
epocha em que ainda não existia a Lua, se
Simplicius a julgou immovel e ligada á abobada de crystal,
se Tatius a considerou
como um fragmento
destacado do disco solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia
d'ella um espelho polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se
outros finalmente a consideraram como um aggregado de vapores exhalados
pela Terra, ou um globo, metade de fogo, metade de gêlo, que
girava sobre si
mesmo, alguns sabios por meio de observações
sagazes, e postoque desajudados de instrumentos de optica, suspeitaram
pelo menos a existencia da maior parte das leis que regem o astro das
noites.
Assim é que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus
Christo, opinou que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos
deu verdadeira explicação das phases. Cleomene
ensinou que o brilho do disco lunar vinha de luz reflexa. Berosio o
chaldaico descobriu que a duração de uma
rotação da Lua era igual á da sua
revolução, e explicou por
esta fórma o facto da Lua ser vista da Terra sempre pela
mesma face. Finalmente Hipparco, duzentos annos antes da era
christã, reconheceu a existencia de
desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra.
Estas differentes observações foram confirmadas
no decorrer dos tempos e serviram de proveito aos astronomos mais
modernos. Ptolomeu no seculo XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X
completaram as indicações feitas por Hipparco
ácerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua na
linha ondulada, que tem por orbita, sob a acção
do Sol.
Mais proximos de nós, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe
no seculo XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que
desempenha a Lua no conjuncto dos corpos celestes.
N'esta epocha ficaram, com muita approximação,
determinados todos os movimentos lunares, mas da
constituição
physica do astro pouca cousa era conhecida.
Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos
que succediam em algumas phases,
pela existencia de montanhas lunares, a que attribuiu uma altura media
de 4:500 toezas.
Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo
baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade
é que Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta
apreciação, elevando-as a 7:000 toezas.
Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de
poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes,
attribuindo ás montanhas mais altas a
elevação de 1:900 toezas, e abaixando a media das
differentes alturas a 400 toezas, não mais.
Mas tambem Herschell se enganava, e só pelas
observações de Shroeter, Louville, Halley,
Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e principalmente
pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu resolver
definitivamente o problema.
Graças a estes homens de sciencia é hoje
perfeitamente conhecida a elevação das montanhas
da Lua.
Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da
Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada
observação a natureza vulcanica
d'elle. Concluiu-se da ausencia de refracção nos
raios
dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi absoluta de atmosphera
n'este astro.
Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou
portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em
taes condições, possuir
organisação especial e notavelmente differente da
dos habitantes da Terra.
Finalmente, graças aos methodos novos, empregaram-se em
constantes inquirições ácerca da Lua
instrumentos mais perfeitos; não deixaram os astronomos por
explorar nem um só
ponto da sua face visivel, devendo notar-se que o diametro lunar mede
2:150 milhas
[30];
a superficie é
1⁄13
avos da superficie do
nosso globo
[31],
o volume é
1⁄49
avos do volume do espheroide
terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se aos olhos
dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda mais
longe nas prodigiosas observações que
relatâmos.
Por esta fórma notaram os observadores, que na epocha da lua
cheia apparecia o disco do astro, em algumas regiões, raiado
por linhas brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas
negras. Estudando com mais attenção o phenomeno,
conseguiram perceber exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram
sulcos compridos e estreitos, cavados entre margens parallelas e que em
geral iam terminar nos contornos de crateras.
O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e
a largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o
nome de
ranhuras;
mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O problema de saber se
estas ranhuras eram ou não leitos seccos de antigos rios
não
poderam resolve-lo completamente. Os americanos já concebiam
a
esperança de que, mais dia menos dia, haviam de determinar
com exactidão
aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria
fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas
descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de
Munich, que as reputa um systema de
fortificações levantadas pelos engenheiros
selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente muitos
outros, nunca poderão ser definitivamente
regulados, sem que se estabeleça primeiro
communicação directa com a Lua.
Em relação á luz lunar nada havia
já que aprender: era sabido que era trezentas mil vezes mais
fraca que a do Sol, e que o calor que a acompanha não tem
acção
apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da luz cendrada esse
explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol reflectidos na
Terra, e que depois da reflexão se dirigem para a Lua.
Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas
epochas da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a
fórma de um crescente.
O que deixâmos dito representava o peculio de conhecimentos
adquiridos, em relação ao satellite da Terra,
peculio que o Gun-Club tentava acrescentar sob todos os pontos de vista
cosmographicos, geologicos, politicos e moraes.
CAPITULO VI
O QUE NÃO É POSSÍVEL IGNORAR E O QUE
JÁ NÃO É PERMITTIDO ACREDITAR NOS
ESTADOS UNIDOS
A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela
da discussão todos os factos astronomicos,
relativos ao astro das noites. Todos se empenharam em estuda-lo com
assiduidade. Parecia que a Lua apparecêra pela vez primeira
acima do horisonte, e que ninguem ainda a tinha visto nos
céus.
Tornou-se o astro da moda; foi durante algum tempo a
leôa do dia, sem que por isso parecesse
menos modesta, e tomou logar entre as
estrellas,
sem que d'ahi lhe viesse
maior altivez. Os jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que
desempenhava papel o
sol dos lobos: trouxeram
á memoria do publico as influencias que attribuiu
á Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a
emfim em todos os
tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito chistoso. A
America inteira foi atacada de selenomania.
As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto;
mas, tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao
projecto do Gun-Club, deram publicidade á
carta do observatorio de Cambridge, commentando-a e approvando-a sem
restricções.
Por encurtar diremos que não foi desde então
permittido, nem ao mais illetrado de todos os yankees, ignorar um unico
facto relativo ao nosso satellite, nem á mais crendeira de
todas
as velhas matronas americanas, continuar agarrada aos erros
supersticiosos, que lhe dizem respeito. Entrava-lhes a sciencia em casa
sob todas as fórmas; penetrava-lhes pelos olhos e pelos
ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos astronomicos.
Até então muitas pessoas ignoravam como
podéra calcular-se a distancia que ha entre a Terra e Lua.
Aproveitou-se a
occasião para lhes ensinar que esta distancia se avaliava
pela medida da parallaxe lunar. E a quem a palavra parallaxe causava
estranheza dizia-se, que significava o angulo formado por duas linhas
rectas tiradas de cada uma das extremidades do raio terrestre para a
Lua.
A quem punha em duvida a perfeição do methodo,
provava-se, sem detença, que não
sómente a
distancia da Terra á Lua era na realidade de duzentas e
trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330 leguas),
mas tambem que os astronomos não erravam n'esta
avaliação nem
setenta milhas (30 leguas).
Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua,
demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois
movimentos distinctos, o primeiro chamado de
rotação, em torno de um eixo; o segundo
chamado de revolução,
em volta da Terra, que ambos se completam
em tempos iguaes, isto é, em vinte e sete dias e um
terço
[32].
O movimento de rotação é o que
dá origem aos dias e ás noites na superficie da
Lua, devendo notar-se que não ha
senão um dia e uma noite por mez lunar, e que cada dia ou
cada noite dura trezentas e cincoenta e quatro horas e um
terço. Mas, por
felicidade da Lua, a sua face, que está voltada para o globo
terrestre,
é illuminada por este com a intensidade luminosa de quatorze
luas. A outra face, que é sempre invisivel, tem por isso
mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de noite absoluta, apenas
temperada pela
pallida claridade que dimana das
estrellas. Este phenomeno provém unicamente da
particularidade já
citada, de que os movimentos de rotação e de
revolução se completam em tempos rigorosamente
iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e Herschell, nos satellites
de Jupiter, e provavelmente em todos os demais.
Em certas cabeças bem dispostas, mas um tanto duras, custava
a entrar, á primeira, que a Lua voltava invariavelmente a
mesma face para a terra, durante a sua revolução,
pela
rasão de que no mesmo lapso de tempo fazia um giro completo
em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: «Entrae na vossa
casa de jantar,
e dae uma volta completa á roda da mesa, olhando sempre para
o
centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio circular,
tereis feito um giro perfeito sobre vós mesmos, visto como o
vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da
sala. Ora pois! a sala é o céu, a mesa
é a Terra, e a Lua sois vós!» E
íam-se satisfeitissimos
com a comparação.
Como acabâmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma
face á Terra; todavia, para fallar com rigor, devemos
acrescentar,
que, em virtude
de um certo movimento de
oscillação de norte para sul e de oeste para
leste, chamado
libração, podemos ver um pouco mais de metade da
superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente.
Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de
rotação da Lua, tanto como o director do
observatorio de Cambridge, começou a inquietar-lhes o
espirito o
movimento de revolução do satellite em volta da
Terra, mas
em curto espaço acabaram de os instruir vinte e tantas
revistas scientificas.
Aprenderam então que o firmamento, com a sua infinidade de
estrellas, póde ser considerado como um immenso
mostrador, por sobre o qual passeia a Lua, indicando a hora verdadeira
a todos os habitantes da Terra, e que é n'este movimento que
o astro
das noites apresenta as suas differentes phases. Mais, que é
Lua cheia, quando está em opposição
com o
Sol, isto é, quando estão os tres astros na mesma
linha recta, estando a Terra no meio; que a Lua é nova,
quando está em
conjuncção com o Sol, isto é, quando
está entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no
quarto primeiro ou no ultimo, quando está no vertice de um
angulo
recto, formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e
para o Sol.
Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que não
podia haver eclipses senão nas epochas de
conjuncção e de opposição,
e não deduziam mal. Na conjuncção a
Lua póde eclipsar o Sol, e na
opposição é a Terra que
póde eclipsar a Lua, e se em cada
revolução lunar não ha dois eclipses,
é porque o plano, segundo o qual se move a Lua, é
inclinado sobre a ecliptica, por
outra, sobre o plano no qual se move a Terra.
Em relação á altura a que o astro das
noites póde subir acima do horisonte estava tudo dito na
carta do observatorio de Cambridge.
Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do
logar de observação, e que as
unicas zonas do
globo nas quaes a Lua passa pelo zenith, isto é, vem
collocar-se directamente
por cima da cabeça dos que a contemplam, estão
forçosamente comprehendidas entre os parallelos de
28° e o
equador. D'ahi vinha a importante recommendação
de tentar a
experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o
projectil podesse ser lançado verticalmente, e escapar-se
por isso mais
depressa á acção da gravidade. Era
esta
condição essencial para o bom exito da empreza, e
não deixava de preoccupar vivamente a
opinião.
Ácerca da linha seguida pela Lua na sua
revolução em volta da Terra, tinha o observatorio
de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes, para que os ignorantes
de todos os paizes ficassem sabendo que esta linha é uma
curva reentrante,
não um circulo, mas uma ellipse, n'um dos focos da qual
está
situada a Terra.
Esta especie de orbitas ellipticas é commum a todos os
planetas, assim como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na
mechanica racional que não podia succeder por outra
fórma. Bem entendido estava que a Lua no apogeo
está mais longe da
Terra, e no perigeo mais proxima.
Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e
o que ninguem decentemente podia ignorar.
Porém, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com
rapidez, muito mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e
illusorios temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem,
sustentavam que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua
orbita alongada em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra
que o retivera no seu circulo de
attracção. Pretendiam taes astronomos de sala
explicar por esta maneira o aspecto requeimado da Lua,
desgraça irreparavel de que
accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem
lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua
pouca ou nenhuma tem, tinham grande difficuldade em
responder.
Outros, que pertenciam á raça d'aquelles que por
tudo tremem e se arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito
da Lua; tinham ouvido dizer que desde as
observações
feitas no tempo dos Califas, o movimento de
revolução do astro se
ía accelerando em certa proporção;
d'aqui deduziam, é
verdade que com rigorosa logica, que á tal
acceleração no
movimento devia corresponder diminuição na
distancia dos dois astros, e que
prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a Lua havia de
acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia estes animos
timoratos, e deixaram de temer pela sorte das
gerações
futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre
mathematico francez Laplace, esta acceleração do
movimento
lunar está comprehendida entre estreitos limites, e que
não ha de tardar que lhe succeda uma proporcional
diminuição na
velocidade, e que por consequencia não poderá,
nos seculos futuros, ser
alterado o equilibrio do mundo solar.
Restava, por ultimo, a classe dos ignorantes supersticiosos, e estes
nunca se contentam em não saber; sabem até
o que não existe, e, a respeito da Lua, sabiam cousas por
ahi alem. Consideravam alguns o disco lunar como uma especie de espelho
polido, por intermedio do qual os homens se podiam ver uns aos outros e
communicarem-se reciprocamente os pensamentos, ainda que collocados em
differentes pontos da Terra; outros affirmavam que por cada milheiro de
Luas novas observadas, novecentas e cincoenta tinham trazido comsigo
notaveis acontecimentos, taes como cataclysmos,
revoluções, tremores de terra,
diluvios, etc.
Acreditavam por isso na influencia mysteriosa do astro das noites sobre
os destinos do homem; consideravam-no como
verdadeiro contrapeso da existencia; pensavam que
cada selenita
está ligado a um habitante da Terra por um vinculo
sympathico; sustentavam,
como
o dr. Mead, que o systema vital está
inteiramente dependente das influencias lunares, affirmando, sem
admittir replica, que os rapazes nascem quasi exclusivamente na Lua
nova, e as raparigas no quarto minguante, etc., etc. Mas por fim
não houve mais remedio senão renunciar
ás crendices e
erros vulgares, e contentar-se sómente com a verdade, e se a
Lua, despojada da sua influencia, perdeu a importancia para os
espiritos de alguns d'aquelles que são cortezãos
de todos os
poderes, se alguns lhe voltaram as costas, nem por isso deixou de ter
por si a manifestação de uma immensa maioria.
Consistiu
desde então a unica ambição de todos
os yankees em tomar posse
d'aquelle novo continente aerio e em arvorar no mais alto vertice
d'elle a bandeira estrellada dos Estados Unidos da America.
CAPITULO VII
O HYMNO DA BALA
O observatorio de Cambridge tinha estudado, na memoravel carta de 7 de
outubro, o assumpto pelo lado astronomico, mas estava ainda sem
solução o problema mechanico. As
difficuldades do caso pareceriam insuperaveis em qualquer outro paiz do
mundo, mas na America resolveu-se o negocio como de brincadeira.
O presidente Barbicane, sem perda de tempo, tinha escolhido entre os
socios do Gun-Club uma commissão executiva. A
commissão estava obrigada a elucidar, em tres
sessões, os tres grandes
problemas do canhão, do projectil e das polvoras;
compunha-se de quatro membros todos muito sabedores no assumpto,
Barbicane, com voto de desempate, o general Morgan, o major Elphiston,
e finalmente o inevitavel J.-T.
Maston, ao qual foram confiadas as importantes
funcções de secretario relator.