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Rita
Farinha (Agosto 2012)
Porto: Typ. de A. J. da
Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME I
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OBRAS DO MESMO AUCTOR
| O Crime do Padre Amaro,
edição inteiramente refundida,
recomposta, e differente na fórma e na
acção
da edição primitiva. 1 grosso
vol. |
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| O Primo Bazilio.
3.ª
edição. 1 grosso
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2.ª
edição. 1
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| A Reliquia.
1 grosso
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1$000 |
OS MAIAS
VOLUME I
OS MAIAS
I
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa,
no outono de 1875, era conhecida na visinhança da
rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro
das Janellas Verdes, pela
casa do
Ramalhete ou simplesmente
o
Ramalhete. Apesar d'este fresco
nome
de vivenda campestre, o
Ramalhete,
sombrio casarão
de paredes severas, com um renque de estreitas varandas
de ferro no primeiro andar, e por cima uma
timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado,
tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica
que competia a uma edificação do reinado da sr.
a
D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo
assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome
de Ramalhete provinha de certo d'um revestimento
quadrado de azulejos fazendo painel no logar heraldico
do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser
collocado, e representando um grande ramo de girasoes
atado por uma fita onde se distinguiam letras
e numeros d'uma data.
Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado,
com teias d'aranha pelas grades dos postigos
terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em 1858
Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o
com idéa d'installar lá a Nunciatura, seduzido
pela gravidade clerical do edificio e pela paz dormente
do bairro: e o interior do casarão agradara-lhe
tambem, com a sua disposição
apalaçada, os tectos
apainelados, as paredes cobertas de
frescos onde já
desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos
Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os seus habitos de
rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os
arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete
possuia apenas, ao fundo d'um terraço de
tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás hervas
bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha
secca, um tanque entulhado, e uma estatua
de marmore (onde Monsenhor reconheceu logo Venus
Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade
das ramagens silvestres. Além d'isso, a renda
que pedio o velho Villaça, procurador dos Maias, pareceu
tão exagerada a Monsenhor, que lhe perguntou
sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de
Leão X. Villaça respondeu—que tambem a nobreza
não estava nos tempos do sr. D. João V. E o
Ramalhete
continuou deshabitado.
Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça
Junior, agora por morte de seu pae administrador
dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, para
lá se arrecadaram as mobilias e as louças
provenientes
do palacete de familia em Bemfica, morada quasi
historica, que, depois de andar annos em praça,
fôra
então comprada por um commendador brazileiro.
N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos
Maias, a
Tojeira; e algumas raras
pessoas que em Lisboa
ainda se lembravam dos Maias, e sabiam que desde
a Regeneração elles viviam retirados na sua
quinta
de Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado
a Villaça se essa gente estava atrapalhada.
—Ainda teem um pedaço de pão, disse
Villaça sorrindo,
e a manteiga para lhe barrar por cima.
Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre
pouco numerosa, sem linhas collateraes, sem parentellas—e
agora reduzida a dois varões, o senhor
da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado,
mais edoso que o seculo, e seu neto Carlos
que estudava medicina em Coimbra. Quando Affonso
se retirara definitivamente para Santa Olavia,
o rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados:
mas desde então tinham-se accumulado as
economias de vinte annos de aldêa; viera tambem a
herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia,
que
desde 1830 vivia em Napoles, só, occupando-se de
numismatica;—e o procurador podia certamente
sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da
sua fatia de pão.
A venda da
Tojeira fôra
realmente aconselhada
por Villaça: mas nunca elle approvara que Affonso
se desfizesse de Bemfica—só pela rasão
d'aquelles
muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso,
como dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O
resultado era que os Maias, com o Ramalhete inhabitavel,
não possuiam agora uma casa em Lisboa; e
se Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa
Olavia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava
as ferias em Paris e Londres, não quereria,
depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do
Douro. E com effeito, mezes antes de elle deixar
Coimbra, Affonso assombrou Villaça annunciando-lhe
que decidira vir habitar o Ramalhete! O procurador
compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes
do casarão: o maior era necessitar tantas
obras e tantas despezas; depois, a falta d'um jardim
devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos
de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma
lenda, segundo a qual eram sempre fataes aos Maias
as paredes do Ramalhete, «ainda que (acrescentava
elle n'uma phrase meditada) até me envergonho de
mencionar taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot
e outros philosophos liberaes...»
Affonso riu muito da phrase, e respondeu que
aquellas razões eram excellentes—mas elle desejava
habitar sob tectos tradiccionalmente seus; se eram
necessarias obras, que se fizessem e largamente;
e emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par
em par as janellas e deixar entrar o sol.
S. ex.
a mandava:—e, como esse inverno ia secco,
as obras começaram logo, sob a
direcção d'um Esteves,
architecto, politico, e compadre de Villaça. Este
artista enthusiasmára o procurador com um projecto
de escada apparatosa, flanqueada por duas figuras
symbolisando as conquistas da Guiné e da India.
E estava ideando tambem uma cascata de louça
na sala de jantar—quando, inesperadamente, Carlos
appareceu em Lisboa com um architecto-decorador
de Londres, e, depois de estudar com elle á pressa
algumas ornamentações e alguns tons de estofos,
entregou-lhe
as quatro paredes do Ramalhete, para elle
ali crear, exercendo o seu gosto, um interior confortavel,
de luxo intelligente e sobrio.
Villaça resentiu amargamente esta
desconsideração
pelo artista nacional; Esteves foi berrar ao seu Centro
politico que isto era um paiz perdido. E Affonso
lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves,
exigiu mesmo que o encarregassem da construcção
das cocheiras. O artista ia acceitar—quando foi nomeado
governador civil.
Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera
frequentemente a Lisboa collaborar nos trabalhos,
«dar os seus retoques estheticos»—do antigo
Ramalhete
só restava a fachada tristonha, que Affonso não
quizera alterada por constituir a phisionomia da
casa. E Villaça não duvidou declarar que Jones
Bule
(como elle chamava ao inglez) sem despender despropositadamente,
aproveitando até as antigualhas de
Bemfica, fizera do Ramalhete «um museu.»
O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão
lobrego, nú, lageado de pedregulho—agora resplandecente,
com um pavimento quadrilhado de marmores
brancos e vermelhos, plantas decorativas,
vazos de Quimper, e dois longos bancos feudaes que
Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados em talha,
solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara,
revestida como uma tenda de estofos do
Oriente, todo o rumor de passos morria: e ornavam-n'a
divans cobertos de tapetes persas, largos
pratos mouriscos com reflexos metalicos de cobre,
uma harmonia de tons severos, onde destacava,
na brancura immaculada do marmore, uma figura de
rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o
pésinho n'agoa. D'ahi partia um amplo corredor, ornado
com as peças ricas de Bemfica, arcas gothicas,
jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores
salas do Ramalhete abriam para essa galeria.
No salão nobre, raramente usado, todo em brocados
de velludo côr de musgo d'outono, havia uma bella
téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a
condessa de Runa, de tricorne de plumas e vestido
escarlate de caçadora ingleza, sobre um fundo de
paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,
onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII
com seus moveis enramelhetados d'ouro, as suas
sedas de ramagens brilhantes: duas tapeçarias de
Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as
paredes de pastores e d'arvoredos.
Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno
trazido por Jones Bule, onde, por entre a desordem de
ramagens verde-garrafa, esvoaçavam cegonhas prateadas.
E, ao lado, achava-se o
fumoir, a
sala mais
commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa
vastidão de leitos; e o conchego quente, e um pouco
sombrio dos estofos escarlates e pretos era alegrado
pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas.
Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso,
revestido de damascos vermelhos como uma
velha camara de prelado. A macissa meza de pau
preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne
luxo das encadernações, tudo tinha ali uma
feição
austera de paz estudiosa—realçada ainda por um
quadro attribuido a Rubens, antiga reliquia da casa,
um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de
athleta sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao
lado do fogão Carlos arranjara um canto para o avô
com um biombo japonez bordado a ouro, uma pelle
d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços,
cuja tapeçaria mostrava ainda as armas dos Maias
no desmaio da trama de sêda.
No corredor do segundo andar, guarnecido com
retratos de familia, estavam os quartos de Affonso.
Carlos despozera os seus, n'um angulo da casa, com
uma entrada particular, e janellas sobre o jardim:
eram tres gabinetes a seguir, sem portas, unidos
pelo mesmo tapete: e, os recostos acolchoados, a
sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao
Villaça
que aquillo não eram aposentos de medico—mas
de dançarina!
A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto
Carlos, já formado, fazia uma longa viagem pela Europa;—e
foi só nas vesperas da sua chegada, n'esse
lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim
a deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete.
Havia vinte e cinco annos que elle não via Lisboa;
e, ao fim de alguns curtos dias, confessou ao
Villaça que estava suspirando outra vez pelas suas
sombras de Santa Olavia. Mas, que remedio! Não
queria viver muito separado do neto; e Carlos agora,
com idéas sérias de carreira activa, devia
necessariamente
habitar Lisboa... De resto, não desgostava
do Ramalhete, apezar de Carlos, com o seu
fervor pelo luxo dos climas frios, ter prodigalisado
de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e os
velludos.
Agradava-lhe tambem muito a visinhança,
aquella dôce quietação de suburbio
adormecido ao
sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era de
certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar
sympathico, com os seus girasoes perfilados ao pé
dos degraus do terraço, o cypreste e o cedro envelhecendo
juntos como dois amigos tristes, e a Venus
Cytherêa parecendo agora, no seu tom claro de
estatua de parque, ter chegado de Versalhes, do fundo
do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a
cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas,
com os seus tres pedregulhos arranjados em
despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle fundo
de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica,
esfiado gota a gota na bacia de marmore.
O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a
vista do terraço—d'onde outr'ora, de certo, se abrangia
até ao mar. Mas as casas edificadas em redor,
nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte explendido.
Agora, uma estreita tira de agoa e monte
que se avistava entre dois predios de cinco andares,
separados por um córte de rua, formava toda a paizagem
defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso
terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era
como uma téla marinha, encaixilhada em cantarias
brancas, suspensa do céu azul em face do terraço,
mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os
episodios fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes
uma véla de barco da Trafaria fugindo airosamente
á
bolina; outras vezes uma galera toda em panno,
entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho
da tarde; ou então a melancolia d'um grande paquete,
descendo, fechado e preparado para a vaga,
entrevisto um momento, desapparecendo logo, como
já devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias,
no pó d'ouro das sestas silenciosas, o vulto negro de
um couraçado inglez... E sempre ao fundo o pedaço
de monte verde-negro, com um moinho parado
no alto, e duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias
de expressão—ora faiscantes e despedindo raios das
vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de
tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros
de poente, quasi similhantes a um rubor humano;
e d'uma tristeza arripiada nos dias de chuva, tão
sós,
tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
O terraço communicava por tres portas
envidraçadas
com o escriptorio—e foi n'essa bella camara
de prelado que Affonso se acostumou logo a passar
os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe
preparara ternamente, ao lado do fogão. A sua longa
residencia em Inglaterra dera-lhe o amor dos suaves
vagares junto do lume. Em Santa Olavia as chaminés
ficavam accezas até Abril; depois ornavam-se de
braçadas
de flôres, como um altar domestico; e era ainda
ahi, n'esse aroma e n'essa frescura, que elle gozava
melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu querido
Rabelais.
Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia,
de ser um velho borralheiro. N'aquella edade, de
verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a
pé,
sahindo logo para a quinta, depois da sua boa
oração
da manhã que era um grande mergulho na agoa
fria. Sempre tivera o amor supersticioso da agoa; e
costumava dizer que nada havia melhor para o homem—que
sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa.
O que o prendera mais a Santa Olavia fôra a sua
grande riqueza d'agoas vivas, nascentes, repuxos,
tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio
de agoas regantes... E a esta viva tonificação da
agoa attribuia elle o ter vindo assim, desde o começo
do seculo, sem uma dôr e sem uma doença, mantendo
a rica tradição de saude da sua familia, duro,
resistente aos desgostos e annos—que passavam por
elle, tão em vão, como passavam em
vão, pelos seus
robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros
quadrados e fortes: e com a sua face larga de
nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha, o cabello
branco todo cortado á escovinha, e a barba de
neve aguda e longa—lembrava, como dizia Carlos,
um varão esforçado das edades heroicas, um D.
Duarte
de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto
fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando,
quanto as apparencias illudem!
Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas
um antepassado bonacheirão que amava os seus livros,
o conchego da sua poltrona, o seu
whist ao
canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era
simplesmente um egoista:—mas nunca, como agora
na velhice, as generosidades do seu coração
tinham
sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento
ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade
enternecida. Cada vez amava mais o que é
pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as
creanças
corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador
e paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:—e
era dos que não pisam um formigueiro, e se compadece
da sêde
d'uma planta.
Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre
o que se conta dos patriarchas, quando o vinha encontrar
ao canto da chaminé, na sua coçada quinzena
de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão,
o seu velho gato aos pés. Este pesado e enorme
angorá, branco com malhas louras, era agora (desde
a morte de
Tobias, o soberbo
cão de S. Bernardo)
o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em
Santa Olavia, e recebera então o nome de Bonifacio:
depois, ao chegar á edade do amor e da caça,
fora-lhe
dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio
de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara
definitivamente no remanso das dignidades ecclesiasticas,
e era o Reverendo Bonifacio...
Esta existencia nem sempre assim correra com a
tranquillidade larga e clara d'um bello rio de verão.
O antepassado, cujos olhos se enchiam agora d'uma
luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto
do lume relia com gosto o seu Guisot, fôra, na
opinião
de seu pae, algum tempo, o mais feroz Jacobino
de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do pobre moço
consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius,
e a Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas
á Constituição; e ir, de chapeu
á liberal e alta
gravata azul, recitando pelas lojas maçonicas Odes
abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto,
porém, bastára para indignar o pae. Caetano da
Maia
era um portuguez antigo e fiel que se benzia ao
nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo
beato e doente, tinha só um sentimento vivo—o
horror, o odio ao Jacobino, aquem attribuia todos
os males, os da patria e os seus, desde a perda
das colonias até ás crises da sua gota. Para
extirpar
da nação o Jacobino, déra elle o seu
amor ao sr. infante
D. Miguel, Messias forte e Restaurador providencial...
E ter justamente por filho um Jacobino,
parecia-lhe uma provação comparavel só
ás de Job!
Ao principio, na esperança que o menino se emendasse,
contentou-se em lhe mostrar um carão severo
e chamar-lhe com
sarcasmo—
cidadão!
Mas
quando
soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á
turba que, n'uma noite de festa civica e de luminarias,
tinha apedrejado as vidraças apagadas do sr. Legado
d'Áustria, enviado da Santa Alliança—considerou
o
rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar
o mação, com a sua bengala da India, á
lei de
bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o de sua
casa, sem mezada e sem benção, renegado como um
bastardo! Que aquelle pedreiro livre não podia ser
do seu sangue!
As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo
as razões d'uma cunhada de sua mulher, que vivia
com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta
instrucção,
Minerva respeitada e tutelar, que ensinara
inglez ao menino e o adorava como um bébé.
Caetano
da Maia limitou-se a desterrar o filho para a
quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no
seio dos padres, que vinham a Bemfica, a desgraça da
sua casa. E esses santos lá o consolavam, affirmando-lhe
que Deus, o velho Deus d'Ourique, não permittiria
jámais que um Maia pactuasse com Belzebut e
com a Revolução! E, á falta de Deus
Padre, lá estava
Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha
do menino, para fazer o bom milagre.
E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o
Marat, voltava de Santa Olavia um pouco contricto,
enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde os
chás do
brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço
das primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e
alguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse paiz
de vivos prados e de cabellos d'ouro de que lhe fallara
tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas,
accedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a
evidente, a gloriosa intercessão de Nossa Senhora da
Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição
seu confessor, declarou este
milagre—não inferior
ao de Carnaxide.
Affonso partiu. Era na primavera—e a Inglaterra
toda verde, os seus parques de luxo, os copiosos
confortos, a harmonia penetrante dos seus nobres costumes,
aquella raça tão séria e
tão forte—encantaram-n'o.
Bem depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos
padres da Congregação, as horas ardentes
passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau,
e a Republica que quizera fundar, classica e voltarianna,
com um triumvirato de Scipiões e festas ao
Ente Supremo. Durante os dias da
Abrilada estava
elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de
posta, com um grande nariz postiço, dando
hurrahs
medonhos-bem indifferente aos seus irmãos de
Maçonaria, que a essas horas o sr. infante
espicaçava
a chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no seu
rijo cavallo d'Alter.
Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar
a Lisboa. Foi então que conheceu D. Maria Eduarda
Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena,
mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou
com ella. Teve um filho, desejou outros; e começou
logo, com bellas idéas de patriarcha moço, a
fazer
obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor
arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia
amada que lhe encantaria a velhice.
Mas não esquecia a Inglaterra:—e tornava-lh'a
mais appetecida essa Lisboa miguelista que elle via,
desordenada como uma Tunis barbaresca; essa rude
conjuração apostolica de frades e bolieiros,
atroando
tavernas e capellas; essa plebe beata, suja e feroz,
rolando do
lausperenne para o curro,
e anciando tumultuosamente
pelo principe que lhe encarnava tão
bem os vicios e as paixões...
Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas
vezes, na paz do serão, entre amigos, com o pequeno
nos joelhos, exprimiu a indignação da sua alma
honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz,
uma
Lisboa de Catões e de Mucios-Scevolas. Já
admittia
mesmo o esforço d'uma nobreza para manter o seu
privilegio historico; mas então queria uma nobreza
intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o
seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealisar), dando
em tudo a direcção moral, formando os costumes e
inspirando a litteratura, vivendo com fausto e fallando
com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras
patricias... O que não tolerava era o mundo
de Queluz, bestial e sordido.
Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E
quando se reuniram as côrtes geraes, a policia invadiu
Bemfica, «a procurar papeis e armas escondidas.»
Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a
mulher tremendo ao lado—viu, impassivelmente e
sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas
pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim
rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz
de fóra não descobriu nada: acceitou mesmo na
copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo
«que os tempos iam bem duros...» Desde essa
manhã
as janellas do palacete conservaram-se cerradas;
não se abriu mais o portão nobre para sahir o
coche
da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com
o filho, Affonso da Maia partia para Inglaterra e para
o exilio.
Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora,
nos arredores de Londres, junto a Richmond,
ao fundo d'um parque, entre as suaves e calmas paisagens
de Surrey.
Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa,
antigo mimoso de D. Carlota Joaquina, hoje conselheiro
rispido do sr. D. Miguel, não tinham sido confiscados;
e Affonso da Maia podia viver largamente.
Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a
gente do
Belfast, ainda o vieram
desassocegar e consumir.
A sua alma recta não tardou a protestar
vendo a separação de castas, de gerarchias,
mantidas
ali na terra estranha entre os vencidos da mesma
idéa—os fidalgos e os desembargadores vivendo no
luxo de Londres á forra, e a plebe, o exercito, depois
dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á
fome, á vermina, á febre nos barracões
de Plymouth.
Teve logo conflictos com os chefes liberaes; foi accusado
de vintista e demagogo; descreu por fim do
liberalismo. Isolou-se então—sem fechar todavia a
sua bolsa, d'onde sahiam ás cincoenta, ás cem
moedas...
Mas quando a primeira expedição partiu, e
pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,
respirou emfim—e, como elle disse, pela
primeira vez lhe soube bem o ar d'Inglaterra!
Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria
d'uma apoplexia: e a tia Fanny veiu para Richmond
completar a felicidade d'Affonso, com o seu
claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos
de discreta Minerva. Alli estava elle pois no
seu sonho, n'uma digna residencia ingleza, entre
arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas
dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo
em torno de si tudo são, forte, livre e solido,—como
o amava o seu coração.
Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura
ingleza; interessou-se, como convinha a um fidalgo
em Inglaterra, pela cultura, pela cria dos cavallos,
pela pratica da caridade;—e pensava com prazer
em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella
ordem.
Sómente Affonso sentia que sua mulher não era
feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas.
Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava
calada...
Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella,
das egrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina
e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente,
tinha vivido desde que chegara n'um odio
surdo áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro:
sempre arripiada, abafada em pelles, olhando
com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o
seu coração não estivera nunca alli,
mas longe, em
Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua
devoção (a devoção dos
Runas!) sempre grande,
exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade ambiente
que ella sentia em redor contra os «papistas».
E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no
sotão com as creadas portuguezas, para resar o
terço
agachada n'uma esteira—gosando ali, n'esse murmurio
d'ave-marias em paiz protestante, o
encanto de
uma conjuração catholica!
Odiando tudo o que era inglez, não consentira que
seu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao collegio de
Richmond. Debalde Affonso lhe provou que era um
collegio catholico. Não queria: aquelle catholicismo
sem romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens
do Senhor dos Passos, sem frades nas ruas—não
lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho
não abandonaria ella á heresia;—e para o educar
mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capellão
do Conde de Runa.
O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas,
sobretudo
a cartilha: e a face d'Affonso da Maia cobria-se
de tristeza, quando ao voltar d'alguma caçada
ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da
vida livre—ouvia no quarto dos estudos a voz dormente
do reverendo, perguntando como do fundo
d'uma treva:
—Quantos são os inimigos da alma?
E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:
—Tres. Mundo, Diabo e Carne...
Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli
o reverendo Vasques, obeso e sordido, arrotando do
fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé sobre
o
joelho...
Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia
a doutrina, agarrava a mão do Pedrinho—para
o levar, correr com elle sob as arvores do Tamisa,
dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume
crasso da cartilha. Mas a mamã accudia de dentro,
em terror, a abafal-o n'uma grande manta: depois
lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas
e
aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores:
e pouco a pouco, n'um passo desconsolado,
os dois iam pisando em silencio as folhas seccas—o
filho todo acobardado das sombras do bosque vivo,
o pae vergando os hombros pensativo, triste d'aquella
fraqueza do filho...
Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz
áquelles braços de mãe que o
amolleciam, áquella cartilha
mortal do padre Vasques—trazia logo á delicada
senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia
já
a contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o
amava tanto! Ia então lamentar-se para o pé da
tia
Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos entre as
folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de
Pope, e encolhia melancolicamente os hombros. Que
podia ella fazer!...
Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando—como
a tristeza das suas palavras. Já fallava da
«sua ambição derradeira», que
era ver o sol uma vez
mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar,
agora que o sr. Infante estava tambem desterrado
e que havia uma grande paz? Mas a isso Affonso
não cedeu: não queria ver outra vez as suas
gavetas
arrombadas a coronhadas—e os soldados do sr.
D. Pedro não lhe davam mais garantias que os malsins
do sr. D. Miguel.
Por esse tempo veio um grave desgosto á casa:
a tia Fanny morreu, d'uma pneumonia, nos frios de
março; e isto ennegreceu mais a melancolia de Maria
Eduarda, que a amava muito tambem—por ser irlandeza
e catholica.
Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para
uma deliciosa
villa ao pé
de Roma. Ahi não lhe faltava
o sol: tinha-o ponctual e generoso todas as manhãs,
banhando largamente os terraços, dourando
loureiraes e myrtos. E depois, lá em baixo, entre
marmores, estava a coisa preciosa e santa, o Papa!
Mas a triste senhora continuava a choramigar.
O que realmente appetecia era Lisboa, as suas novenas,
os santos devotos do seu bairro, as procissões
passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por
tardes de sol e de poeira...
Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda
definhava lentamente, todos os dias mais pallida, levando
semanas immovel sobre um canapé, com as
mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas
pelles d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se
d'aquella alma aterrada para quem Deus era um amo
feroz, tornára-se o grande homem da casa. De resto
Affonso encontrava a cada momento pelos corredores
outras figuras canonicas, de capote e solideo,
em que reconhecia antigos franciscanos, ou algum
magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha
um bafio de sachristia; e dos quartos da senhora
vinha constantemente, dolente e vago, um rumor de
ladainha.
Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o
seu vinho do Porto na copa. As contas do administrador
appareciam sobrecarregadas com as mesadas
piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe
duzentas missas de cruzado por alma do Sr.
D. José I...
Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso
n'um atheismo rancoroso: quereria as egrejas fechadas
como os mosteiros, as imagens escavacadas a machado,
uma matança de reverendos... Quando sentia
na casa a voz de resas, fugia, ia para o fundo da
quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu Voltaire:
ou então partia a desabafar com o seu velho
amigo, o coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a
Queluz.
O Pedrinho no entanto estava quasi um homem.
Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda,
tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua
linda
face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos
e irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se,
faziam-n'o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se
lentamente, sem curiosidades, indifferente
a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum
desejo forte parecera jámais vibrar n'aquella
alma meia adormecida e passiva: só ás vezes dizia
que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára
birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe.
Era em tudo um fraco; e esse abatimento
continuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços
em crises de melancolia negra, que o traziam dias e
dias mudo, murcho, amarello, com as olheiras fundas
e já velho. O seu unico sentimento vivo, intenso,
até
ahi, fôra a paixão pela mãe.
Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á
idéa de se separar do seu Pedro, a pobre senhora
cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas
mãos supplicantes, essas lagrimas que cahiam
quatro a quatro pela pobre face de cera. O menino
continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios
a cavallo, de creado de farda atraz, começando
já a ir beber a sua genebra aos botequins de
Lisboa... Depois foi despontando n'aquella
organisação
uma grande tendencia amorosa: aos dezenove
annos teve o seu bastardosinho.
Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar
de tão desgraçados mimos, não faltavam
ao rapaz
qualidades: era muito esperto, são, e, como todos os
Maias, valente: não havia muito que elle só, com
um
chicote, dispersara na estrada tres saloios de varapau
que lhe tinham chamado
palmito.
Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de
devota, debatendo-se dias nos pavores do inferno,
Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma loucura.
Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse,
de dormir durante um anno sobre as lageas do pateo:
e levado o caixão, sahidos os padres, cahio n'uma
angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que não
queria emergir, estirado de bruços sobre a cama
n'uma obstinação de penitente. Muitos mezes ainda
não o deixou uma tristeza vaga: e Affonso da Maia
já se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho
e seu herdeiro, sahir todos os dias a passos de
monge, lugubre no seu luto pesado, para ir visitar a
sepultura da mamã...
Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e
succedeu-lhe, quasi sem transição, um periodo de
vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, em que
Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava
affogar em lupanares e botequins as saudades da
mamã. Mas essa exhuberancia anciosa que se desencadeara
tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua
natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas
nas esperas de toiros, de cavallos esfalfados,
de pateadas em S. Carlos, começaram a reapparecer
as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam
esses dias taciturnos, longos como desertos, passados
em casa a bocejar pelas salas, ou sob alguma
arvore da quinta todo estirado de bruços, como despenhado
n'um fundo de amargura. N'esses periodos
tornava-se tambem devoto: lia Vidas de Santos, visitava
o Lausperenne: eram d'esses bruscos abatimentos
d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber
que elle recolhera de Lisboa, de madrugada, exhausto
e bebedo,—do que vel-o, de ripanço debaixo do
braço, com um ar velho, marchando para a Egreja
de Bemfica.
E havia agora uma idéa que, a seu pesar, às vezes
o torturava: descobrira a grande parecença de
Pedro com um avô de sua mulher, um Runa, de quem
existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,
com que na casa se mettia medo ás creanças,
enlouquecera—e julgando-se Judas enforcara-se
n'uma figueira...
Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da
Maia amava! Era um amor á Romeu, vindo de repente
n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
uma d'essas paixões que assaltam uma existencia,
a assolam como um furacão, arrancando a vontade,
a rasão, os respeitos humanos e empurrando-os de
roldão aos abysmos.
N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte,
á porta de M.
me Levaillant, uma
caleche azul
onde vinha um velho de chapéo branco, e uma senhora
loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.
O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha
talhada por baixo do queixo, uma face tisnada
d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu todo
encostado
ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse,
entrou arrastando a perna o portal da modista;
e ella voltando de vagar a cabeça olhou um
momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto
os cabellos loiros, d'um oiro fulvo, ondeavam de leve
sobre a testa curta e classica: os olhos maravilhosos
illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida
a carnação de marmore: e com o seu perfil
grave de estatua, o modelado nobre dos hombros e
dos braços que o chale cingia—pareceu a Pedro
n'esse
instante alguma cousa d'immortal e superior á terra.
Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de
bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado
á outra hombreira, n'uma
pose de tedio—vendo
o violento interesse de Pedro, o olhar acceso
e perturbado com que seguia a caleche trotando
Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço, murmurou-lhe
junto á face na sua voz grossa e lenta:
—Queres que te diga o nome, meu Pedro? O
nome, as origens, as datas e os feitos principaes?
E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar,
uma garrafa de Champagne?
Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar
os dedos magros pelos anneis da cabelleira e pelas
pontas do bigode, começou, todo recostado e dando
um puchão aos punhos:
—Por uma dourada tarde d'outomno...
—André, gritou Pedro ao creado, martellando o
marmore da mesa, retira o Champagne!
O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
—O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...
Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar,
esquecendo que era o poeta das
Vozes
d'Aurora,
explicaria aquella gente da caleche azul n'uma linguagem
christã e pratica!...
—Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera
a mamã, aquelle velho, o papá Monforte, uma
manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade
de Lisboa n'aquella mesma caleche com
essa bella filha ao seu lado. Ninguem os conhecia.
Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no
palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer
em S. Carlos, fazendo uma impressão—uma
impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar!
Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se
no deslumbramento de auréola que vinha
d'aquella magnifica creatura, arrastando com um
passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada
como em noites de gala, e apesar de solteira
resplandecente de joias. O papá nunca lhe dava o
braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais
embarcadiço na claridade loira que sahia da filha,
encolhido e quasi apavorado, trazendo nas mãos o oculo,
o
libretto, um saco de
bonbons, o leque e o seu
proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando
a luz cahia sobre o seu collo eburneo e as suas tranças
de oiro, que ella offerecia verdadeiramente a
encarnação
d'um ideal da Renascença, um modelo de
Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que
a vira, exclamara, mostrando-a a ella e ás outras,
ás trigueirotas da assignatura:
—Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre
velhos patacos do tempo do Sr. D. João VI!
O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um
folhetim do
Portuguez. Mas o dito
era d'elle, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar
o palacete de Arroios. Mas nunca n'aquella casa
se abria uma janella. Os criados interrogados disseram
apenas que a menina se chamava Maria, e que
o senhor se chamava Manoel. Emfim uma creada,
amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era
taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma
rêde; a senhora, essa, vivia n'um ninho de sedas
todo azul-ferrête, e passava o seu dia a ler novellas.
Isto não podia satisfazer a sofreguidão de
Lisboa.
Fez-se uma devassa methodica, habil, paciente...
Elle, Alencar, pertencera á devassa.
E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos
Açores; muito moço, uma facada n'uma rixa, um
cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir
a bordo d'um brigue americano. Tempos depois um
certo Silva, procurador da casa de Taveira, que o
conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a
cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar
nas Ilhas encontrára lá o Monforte (que
verdadeiramente
se chamava Forte) rondando pelo caes, de
chinellas de esparto, á procura de embarque para a
Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do
Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor
n'uma plantação da Virginia... Emfim, quando
reappareceu
á face dos céos commandava o brigue
Nova
Linda, e levava cargas de pretos para o Brazil, para
a Havana e para a Nova Orleans.
Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma
fortuna da pelle do africano, e agora rico, homem
de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a S. Carlos.
Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar,
obscura e mal provada, claudicava aqui e além...
—E a filha? perguntou Pedro, que o escutara,
serio e pallido.
Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a
arranjara assim tão loira e bella? Quem fôra a
mamã?
Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
—Isso, meu Pedro, são