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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Chapter 29: INDICE
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About This Book

A obra apresenta diálogos e pequenas cenas de convívio numa aldeia transformada em corte durante noites de inverno, em que um anfitrião, um letrado, um fidalgo, um estudante e um velho criado conversam, jogam e contam anedotas. Entre comentários sobre livros de cavalaria, a arte de escrever cartas, cortesia e hábitos sociais, surgem reflexões sobre linguagem, moderação e amizades, compondo um retrato sereno e às vezes irónico das maneiras e ocupações da vida rural cultivada.

DIALOGO VIII


DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR



Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e entre outras disse Feliciano:—Por todas as razões se devia desejar a conversação de tão discreto, e douto cortezão, como é o prior, em todo o tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e auctorisar o que diz com o fundamento das lettras e curiosidade que tem, é muito composto e engraçado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade nas historias.—Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos parecerá melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia muito bem nos de côrte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar lições d'ella a muitos de capa e espada.—Parte é o falar bem (accudiu D. Julio) que leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões discretas e palavras escolhidas, senão no bom modo e graça de as dizer: o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa aformosea, e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim desconcerta, empeça, e afeia as razões, sendo todas umas: e não faltarão mui perto exemplos d'esta verdade.—Fujamos das comparações para a doutrina (disse Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se gastára este serão.—Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos adeantaes da companhia: porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de ir aos mais.—Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos abrir o caminho.—Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os frades menores nas procissões; quero-os tambem imitar na obediencia: porém lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. D. Julio, convém a saber, a graça, e composição do rosto e corpo no falar, e o concerto das palavras, e discrição das razões.—Essa divisão parece escusada (disse Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode alcançar por arte, pois é mero dom da natureza—Todas as cousas d'ella (tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram com a arte: e, para saberdes logo esta verdade, tomarei á minha conta o em que vos parece que ha menos que dizer; e fique á vossa a demazia.

Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou Marco Tullio eloquencia do corpo: e Quintiliano disse que com todas as partes d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que convinha então aos oradores, como agora aos prégadores, uns e outros praticam, e em todo o tempo é necessaria: e assim pintaram alguns o jeroglifico da rhetorica com uma mão aberta, outra cerrada.—Muito contraria me parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, onde é regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as mãos.—Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis que o que quero dizer é o mesmo, em que vos quereis anticipar. O primeiro instrumento da pratica é a voz: e, para essa ser engraçada no falar, ha de ter estas propriedades, Ser clara, branda, cheia, e compassada: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a acção do que fala; a muito apressada empeça e revolve as razões, que por si podem ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou para esta perfeição, como é a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas na do cortezão tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam com a voz tão mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os ouvintes ás escuras, que lhes é necessario estar espreitando o que lhes querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham as orelhas dos que escutam; e outros, que falam tão apressadamente, que parece que levam esporas na lingua.—Entre vozes (disse Solino) tambem eu hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, quizera saber a differença; porque eu tenho que ainda é peor a muito grossa que a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo, que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem com um rosto como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz de frauta muito exprimida.—O meio (respondeu o doutor) em todas as cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graça no falar. Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás palavras: e assim hão de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo; os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graça, parece que nas praticas graves, e de importancia, não hão de ser muito chocalheiros.—N'isso tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha homens. que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes das sobrancelhas.—Tambem a acção do falar toma muito d'ellas (tornou o doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas significam espanto; e levantadas alegria. E não menos convém a composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiança ou porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de ter tão levantado que faça soberba nas palavras, nem tão baixo, que pareça que não pode com a cabeça; a qual não ha de estar tão firme, que pareça que a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha de ser quieta quando fala, sem estar mordendo beiços, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as entorne pelos cantos; nem tão apertada, que offenda a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae mais á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas as nações orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes, Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a sua pronunciação; mas os que estão mais izentos d'ella são os Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversação se tocou. Além d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala nos contos, historias, graças ou galanterias, não representando o que diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem fazer badallos dos pés quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mãos, que ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as palavras que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando com alguma perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar, emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as graças, que ella lhe dotou: não tratando dos incuraveis, a que já não possam valer estes remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.—Parece que daes a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a tratar de fundamento, não é razão que fiquem de fora.—Para essas e para o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que são contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão as minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar nome de preceitos, posto que são fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram.



O primeiro é escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se contentar do que diz.

O segundo repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes, para que lh'o gabem.

O terceiro deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e compondo para as dizer.

O quarto ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam em tanto as palavras.

O quinto ir á mão ao que quer responder, por querer falar tudo.

O sexto bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos.

O setimo borrifar as palavras com o humidade da bôcca, por falar com vehemencia.



—Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a discrição, e cortezania, que não merecerá n'ella ter graça quem n'elles estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque receio que falaes de proposito contra alguem.—É tão má a vossa natureza (lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa tenção, e d'estes peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me porém ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os gregos chamaram Filaucia: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do descostume e falta de doutrina cortezã. Escutar-se um homem, quando fala, é de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural, tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro de si mesmo, e elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas como em espelho, conforme os proverbios antigos, que a cada um parece o seu formoso; e outro, que não ha melhor musico que cada um a si mesmo; e que a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem o seu suor.—Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos esses, porque os declara; e é que quem se contenta a si contenta a um grande nescio; que não pode deixar de o ser o que do seu engano se satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que não caia nos tres primeiros laços: porque são encadeados uns com outros: e em se escutando um homem a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas, enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as com muito cuidado.—D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que falavam empolas; é está muito bem o nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo vicio, que é da repetição, parece menor erro; porque o que é bem dito se pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e só será a culpa quando o dito não fôr acertado.—Essa estimação não ha de ser feita por seu dono (respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a suas palavras, cuidando que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa desculpa; e não se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a repetição do que disseram, estão puxando por vós a que lh'as gabeis, e vos contenteis á força da sua razão; e mettem de quando em quando um entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me declaro. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros nescios. E com este cahem logo no terceiro, que é deter-se muito em cada palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se não peguem: e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem; e até á mesma discrição fará importuna este mau uso d'ella. E mais é mui certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que não ha quem o leve. O quarto não entendo bem, porque não sei ao que chama bordão o doutor.—Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam bordões, e são de duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que são impertinencias nas acções do falar; e outros nas palavras: os primeiros são mais culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe praticar comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o cotão, e arrancando a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou travando-vos do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão desatinados, que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que, se deixam de entender com quem praticam, o hão comsigo, não estando quietos com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios semelhantes, que servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem as palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica com alguns, que em cada palavra d'ella mettem um diz, assim que digo, tal e qual, sim senhor, vae vem, então, senão quando, espere vossa mercê, assim que senhor, estaes commigo; e outros muitos, fora os que vós apontastes no vicio da repetição, que são bordões da primeira classe.—Certo (disse Feliciano) que tem muita razão o doutor em dizer que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta da doutrina cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um estudante, que na opinião dos mais não era tido por o que falava peior, que, por o grande odio, que tinha aos bordões, inventou um modo excellente para os desterrar da conversação dos amigos, com que tratava de ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que utilidade; e pelo exercicio d'elle se perdeu até a semente dos bordões entre aquelles amigos.—Não vos esqueçam (disse Leonardo) os termos de tão bom jogo, que já pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do que o remedio será necessario para os presentes, porque não são dos homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão n'ella mais bordões, do que tem de palavras.—O quinto vicio (proseguiu o doutor) é incomportavel; porque ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que atalham as palavras ao que lhes começa a responder, querendo anticipar com o seu entendimento a tenção alheia.—Esses taes (disse Solino) falam a duas mãos, porque querem que vá tudo por elles. E como me acho entre esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, deixo o feito sem parte; e como ficam falando á reveria, desfaço as suas sentenças com uma bochecha de agua.—Esses faladores são como cigarras, que atrôam, e não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada entre cortezãos que tres cousas não ha de haver entre elles demasiadas, sobeja parola, comprida porfia, e grande rizada; porque quem muito fala d'elle damna (como diz o rifão) e com quem aporfia não disputes; e onde ha muito riso ha pouco siso; que todos estes pertencem á conversação.—Essa terceira parte (proseguiu o doutor) é do sexto vicio, que é bracejar quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; e se acharem um pulpito deante, o farão em pedaços, como se a policia podéra soffrer o desassocego e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de arguirem falta de entendimento, são mais impertinentes quando um homem festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os engraçados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse nome, sabiam festejar moderadamente as graças alheias, e dissimular o riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.—Duas cousas (disse D. Julio) se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira, que moderação se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou graça do que falla deante d'elle?—Os homens (respondeu o doutor) não hão de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, Anaxagoras, e Sócrates: nem como Marco Crasso, que rio uma só vez na vida; pois é definição e differença do homem ser animal racional, e a sua propria paixão é ser rizivel: porém não menos se ha de guardar de ser desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderação politica, lhe buscaram os antigos muitas differenças: e deixando o riso Jonio, Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos, e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não ha de rir o homem com a bôcca aberta que dá grande tom ao riso, nem com os beiços apertados, como costumam os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando os dentes, que a estes chamaram os latinos riso de cavalgaduras; nem com um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a segunda pergunta.—Ainda que as minhas (tornou elle) não fôssem muito a proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como será esta: Se na graça, que outrem conta, em que eu a não acho, sou obrigado em primor cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão (respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e não o poderia ser quando seccasse o riso na occasião, em que outrem mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em desconfiança.—Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me parece; que nao é mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e ás vezes a quem os escuta.—Não cuido eu (disse Feliciano) que são esses os de que trata o proverbio, que falam fontes de prata.—Antes (tornou Solino) lhes chamara eu homens que falam frescos que nem uma manhã de abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que os estão ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrição um Almotacé da limpeza.—Desterrados pois (continuou o doutor) da conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um homem cortezão aos que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrição seja natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte, da continuação e dos costumes.—Muito depressa vos quereis desobrigar (respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta, dando algum toque na murmuração, como déstes no riso: que tambem estes preceitos são fóra das palavras.—O riso sim (lhe tornou elle), mas não o murmurar; que é culpa que não se attribue á pratica, posto que alguns digam que sem esse sal a mais discreta é pouco saborosa: e é porque ha muitas cousas, que não queremos dizer, e folgamos em extremo de as ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de gente ociosa, com risco proprio. Porém, por fazer as pazes comvosco, entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmuração engraçada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentença excellente, que diz que dos animaes bravos a peior mordedura é a do praguento; e dos mansos a do lisongeiro. O praguejar é maldade, o lisongear traição, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de morder, nem lamber; porém picar levemente, e com arte, é graça da conversação. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e cousas infinitas, que poderão levar grande tempo: o cortezão, quando arguir para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente desconfie: o segundo por não motejar com quem não saiba pesar e conhecer as galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, algum dos ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graça pesada, perderia o nome. Não falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes não fazem fastio, tão pouco aos offendidos causam queixume.—Lembra-me (disse Pindaro) que no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e não déstes regra aos que falam pouco.—Seria (respondeu o doutor) por me conformar com uma sentença, que diz: Aos que pouco falam, poucas leis lhes bastam. Além d'isto até agora não tratei dos louvores do silencio, nem da verdade d'aquelle dito: Assás sabe o que não sabe; se calar sabe. E o outro, que: O nescio calando, parece-se com o discreto. Falo sómente da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras não tem mais que estas duas medidas, que são falar a tempo, e a proposito: a tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que é bem dito.

Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e offendam ao gôsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre enojados não dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, que causem temor ou desconfiança em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vão parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que sonharam; e pela deleitação, que tomam de contar coisas proprias, perdem o decóro, com que hão de escutar as alheias, e o tento do que elles mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que não são minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este discurso.—Vós dizeis tudo tão bem (tornou Leonardo) que se perde pouco no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata não se tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar no que hei de dizer, por não cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com o vagar que enfastia.—Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a cêa; e em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, nem de palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes, varreu-lhes toda a prégação da memoria, e vão com a pratica em muletas até tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.—Hora, não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o não deixemos dormir, pois ámanhã o havemos de despertar; que as duas noites passadas foram de hospede, e a conversação dos que são de mais gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso, sempre faz falta,

Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em pé dizendo:—O senhor D. Julio em tudo tem tenção de me fazer mercês; porém esta não é das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se é verdade que na conversação de tão bons amigos só se vive, qual posso eu ter melhor, que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que sentença é antiga, que o tempo, em que dormimos, perdemos da vida: pelo que chamaram ao somno imagem da morte.



DIALOGO IX


DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS



Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de tão proveitosa conversação, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias, que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos, e exemplos, com que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porém da pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor lhe cortara a urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia, e com ella os companheiros mui alvoroçados; aos quaes elle festejou com a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de falar verdade, eu estou tão carregado com o officio que de novo me déstes, que me não atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que fiz para me dispôr a isso, me sahiram erradas: e me parece tão difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o maior de todos foi darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o tomava para me prevenir.—Em vós (disse D. Julio) é gentileza esse receio; e ainda que fôsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de falar bem, pois ensinaes aos discretos a não falarem com sobeja confiança; e pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, o que tendes por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos ouve, que para mestre dos que não podem comprehender a vossa doutrina.—Se com titulo de me fazerdes mercê (respondeu elle) quereis que desconfie, mais facil vos será isso, que a mim o acertar: mas, para que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem, mormente entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá dar preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinião, faço-o para com as razões dos que a contradisserem aprender a acertar.—Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os discretos são essas primeiras, receio, e humildade. E passando adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á lingua portugueza.—Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em preceitos, e limites, que á força se hão-de misturar com os da latina; e por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua portugueza, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias:

Falar vulgarmente, com propriedade.
Fugir da prolixidade.
Não confundir as razões com a brevidade.
Não enfeitar com curiosidade as palavras.
Não descuidar com a confiança.

—Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que podia servir a todas as linguas: porque a confusão dos muitos preceitos e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrição, podia chamar a estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como entendeis falar vulgarmente com propriedade, que em parte me parece que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito ao proprio? —Falar vulgarmente (respondeu Leonardo é qual os melhores falem, e todos entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem antigos, e desusados: senão communs, e correntes, sem respeitar origens, derivações, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto que ellas saibam pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas missivas; o que não será necessario repetir agora de novo, mas sómente dar mostra de que estes dois termos se não encontram: que se o falar proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para ornamento d'ellas; e não usar dos tropos de allegorias, metaforas, translações, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as palavras proprias, pois sómente algumas translações, antonomazias, e ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraçar com estas três figuras. Translação é figura quando passamos as palavras de uma cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos uma fonte de sabedoria, um pôço de lettras, um rio de ouro, um thesouro de partes, ou de graças. Esta figura se costuma usar para um de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para abreviar razões compridas, ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui necessario, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que sôam mal por o seu nome proprio, como dizer: uma mulher que usa mal de sua formosura; que se vende a preço; que se entrega a Venus; que serve o seu gôsto. Um homem affeiçoado a ramos; perdido por Bacco; esquecido de si. Tambem, para abreviar razões, é de muita utilidade na pratica, como quando dizemos, ficou em secco, deitou azar, torceu a orelha, deu cinco. Os outros dois modos me parecem na pratica sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque não faltam na lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convém dizer. A figura da Antonomazia se usa algumas vezes na conversação: posto que só nas pessoas, ou partes do mesmo reino será mais aceite. Entre nós, quando nomeamos o Poeta, se entenderá Luiz de Camões, o Historiador, João de Barros: o Duque, o de Bragança: o Marquez, o de Villa Real: a Cidade, a de Lisboa: a Coutada, a de Almeirim; e outras semelhantes cousas, ás quaes a grandeza deu superioridade das outras do mesmo nome. A Ironia, mais que todas, é propria na conversação, pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação do que fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira tirando a propriedade ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás razões; uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira, quando do fraco dizemos que é um Hercules: do louco, que é um Catão: do miseravel, que é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma Helena. A segunda, como se disseramos: Nunca lhe cahiu a lança da mão ao que a não tomou n'ella: não lhe chegou ninguem com a espada, falando do que fugiu: nunca pediu nada, falando do que furta: paga mais do que deve, entendendo o que paga por justiça. No que pertence ás figuras me parece que basta esta lembrança. E as palavras, que se devem escusar para falar vulgarmente, não hão de ser estrangeiras, nem esquisitas, nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse já o uso d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que introduziram as latinas na conversação, fazendo a linguagem de misturas.—Essa culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar a experiencia, cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa accentos de musica, ou medidas de poesia.—Muitos lettrados sei eu (disse Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, que falam uma linguagem como sereia, mulher até aos peitos, e ametade peixe; e são homens, a que não escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde muito de seus quilates.—Não tenho por grande erro (acudiu Pindaro) quando a conversação é entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em portuguez: antes creio que, se isto se fôra introduzindo, viera a nossa lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar tão polida, e apurada como a toscana.—E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores bôrra da lingua latina?—O caso é (disse Solino) que vós devieis ser affeiçoado á phrase de um cirurgião de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez famoso, que disse á moça de um ferido, a quem curava: Traga-me um panno corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice. E a um rustico, que vinha esmechado, respondeu que não tinha mais lesa que a superficie da fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho raiva, sabendo que a lingua portugueza não é manca, nem aleijada, vêr que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar melhor.—Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a um barbeiro disse, que lhe rubricára a parede com a sangria.—Alguns (disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar, que por taes eram reprovados: porém o uso das palavras innovadas não achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas em outro tempo, e desterradas, sem razão, na nossa edade.—Não faltam (respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasião, disso: É necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle. E outro disse de um navegante, que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da viagem. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo fôssem boas, não o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas; pois, como já disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e assim, não diremos leixou, trouve, dixe, ca, sicais, acram, leidisse, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de cujos escriptos podemos aprender a perfeição da lingua portugueza. E bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora escrevem, e falam bem.—Com uma só razão (accudiu Solino) condemnára eu a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que é lanço muito certo, que os que se contentáram com saber pouco do latim, falam mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta classe, ponde-lhe abrolho, que o não tirareis com vinte galgos á estrada do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos não entendereis com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o não consentira, senão em homens de barba larga, penteada sobre os peitos, com carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora, e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco, palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra côr.


FIM DO 1.º VOLUME





INDICE




Advertencia 5
Dialogo I—Argumento de toda a obra 7
Dialogo II—Da policia e estylo das cartas missivas 22
Dialogo III—Da maneira de escrever, e da differença das cartas missivas 35
Dialogo IV—Dos recados, embaixadas e visitas 54
Dialogo V—Dos encarecimentos 70
Dialogo VI—Da differença do amor e da cobiça 81
Dialogo VII—Dos poderes do ouro e do interesse 95
Dialogo VIII—Dos movimentos e decoro no praticar 110
Dialogo IX—Da pratica e disposição das palavras 121





Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


Original Correcção
#pág. 67 os proprio filhos ... os proprios filhos
#pág. 91 totos ... todos
#pág. 118 descuido) ... descuido