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O presbyterio da montanha

Chapter 92: EPISTOLA
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About This Book

The author assembles a miscellaneous collection of poems, sketches, and fragments born of long solitude in a mountain region, blending prosaic notes, folkloric lore, landscape description, local history, and personal reminiscence. A vivid prologue evokes topography, fauna, legends, and customs with archaeological-poetic attention; several poems and an unfinished narrative about a midsummer night appear alongside Portuguese and Latin pieces. Many items remain fragmentary or previously unpublished, presented as sincere, semi-wild glimpses into rural life, memory, and the author's creative process.

Vós, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,

que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,

mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas não choreis as que á sombra
repoisar das aras veem.

Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?

poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha mão.

Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;

os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;

¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas pombas desertar,

poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.

Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro asylo.

Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.

Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.

Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.

Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.

Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.

Modestas virgens o habitam,
que só não teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.

Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.

¿Não vêdes sobre os altares
com graça engrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?

N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.

Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, são jardineiras.

Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.

Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são já de seus jardins.

Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.

Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.

¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.

Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.

Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.

Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.

O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,

vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.

Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.

Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.

Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.

Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?

Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.

A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á soledade?

Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Ceo.

Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.

Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?

¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?

¿Não virá talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor d'entre as mortaes?

¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?

Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.

Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.

Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,

viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.

Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.

Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.

Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,

mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,

se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;

ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;

de extranhos somente é visto;
tem louvor; é cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.

¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da sociedade!

Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.

Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.

Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.

Coimbra—1826 (?)



XI


SANTA MARIA EGYPCÍACA

(Fragmento de um poema)



...........................................................
Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,


*

¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.


*

Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas veias.


*

Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.


*

No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!


*

Em viço de annos,
e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...


*

Ella, entretanto,
co'os mimosos pés nús calcando areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes á avesinha se compára,
sem família, sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.


*

Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.


*

Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descança.


*

Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!


*

—«Além—dizia—além, n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»


*

E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.


*

Taes se lhe vão no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.


*

De tempo em tempo,
só vê talvez, ou ver presume ao longe,
do horisonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa caravana,
que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.


*

Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.


*

Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.


*

Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo, como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.



*

Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
—«¿Trareis,—lhe disse—
á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
—«Sim.»
E partiu.
Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...


*

Passou-se
um anno inteiro. É elle agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...


*

Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:

Bom Zózimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.

..................................................................



XII


EPISTOLA


Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio
Deslandes

(NO DIA DOS MEUS ANNOS)

FRAGMENTO



Em torno ao teu amigo estão fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o reboliço.


*

Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido suão de lá nos venha,
ninguem hoje de frio aqui se queixa.
Não descança nem pé, nem mão, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres fógos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de loiça e vidros alegrando.


*

Uma estuda em compôr as sobremezas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e nus os braços,
com importancia e afan revira espêtos;
aquella, anda scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e languidas, não cria
com que se enflore a meza dos meus annos.


*

¿Porque é, quando a sorrir divagam todos,
quando só para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer até fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
não ha um coração que se não abra...
¿por que se fecha o meu? ¿Dará (não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azéda?...
..........................................................


26 de Janeiro
de 1833.


FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA






NOTAS DOS EDITORES

AO VOLUME I DO

PRESBYTERIO DA MONTANHA





Da villa da Castanheira—No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam da Beira, a qual é tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em correição o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja parochial da invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que rende 600$000 réis, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguadão, que consta de 100 visinhos. É curado annexo á egreja de S. Mamede, que apresenta o seu Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que fertilisam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes de todo genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios, Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivão da Camara, Juiz dos Orphãos com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenança.

(Chorographia portugueza pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.—T. II, pag. 176—1708.)


Castanheira do Vouga—Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem 803 visinhos. Está situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S. Mamede. Tem quatro altares; e o maior é do orago; os outros são do Santissimo, de Nossa Senhora da Expectação, com sua irmandade, e outro de S. Jorge. O Parocho é Prior, apresentação da casa do Infantado; tem de renda 400$000 reis. Tem tres ermidas, que são: a do Espirito Santo, a de Nossa Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos d'esta terra são milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedão, Alfusqueiro, e Agueda.

(Diccionario geographico pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)


*

Castanheira do Vouga.—Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S. Mamede; o Parocho é Prior da apresentação da Casa do Infantado; rende 480$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.

Ágadão—Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria Magdalena; o Parocho é Cura da apresentação do Prior da Castanheira; rende 40$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102 moradores

(Portugal sacro-profano—por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre Luiz Cardoso—Lisboa—1767—8.º—2 vol)


*

Castanheira do Vouga.—Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140 fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo á serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha 400$000 réis. É fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era cabeça do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara, Escrivães, e mais Justiças. Passam pela freguezia os rios Agueda, Aguedão, e Alfusqueira.

(Portugal antigo e moderno—por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal—Lisboa, 1874).


*

Pag. 11 lin. ultima


Dapibus mensas oneramus inemptis


Oneramos as mezas com iguarias não compradas; isto é, vivemos, sem comprar, das nossas lavras proprias.

Citação de Virgilio (Georgicas, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:


....Sero que revertens
nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis.


Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que vamos ouvir na traducção de Castilho:


......Alembra-me que outr'ora,
lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chãos de cereal cultura,
junto á Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em annos já maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pães, escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no sarçal, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
com seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
Não trocára co'os Reis seu parco haver tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e, ¡que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe a meza!


Pag. 18 lin. 3


Passámos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o víçoso rio de Bolfiar.


Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos modernos, deram cabo da antiga viagem tão pittoresca.

Pag. 36 lin. 20


Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.


Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação do Reino.

Pag. 37 lin. 3


Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra.


Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas partes das Hespanhas, e acham-se estudados á luz da sciencia moderna.

Pag. 42 lin. 6


A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucídez.


O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o seu constante amor á vernaculidade. Veja-se nas Excavações poeticas o que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e «um dos mais chapados classicos» que elle jamais encontrou.

Pag. 58 lin. 7


Lia, Rachel e Rebecca


Lia era filha primogenita de Labão, e irman de Rachel. Achando-se Rachel ajustada para casar com Jacob, teve Labão astucia de lhe substituir Lia, apesar de menos formosa. Foi mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issachar, Zabulon, e Dina.

Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve José, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se conserva e mostra o seu tumulo.

Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de Abrahão, e teve por filhos Ezaú e Jacob.

Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan, são encantadoras de singeleza e graça nas descripções que d'ellas nos deixaram os Livros santos.

Pag. 72 lin. 15


Uma pobre mocinha ovelheira


Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na sua Chave do enigma.

Pag. 80, lin. 9


Filinto e o entrudo


Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha Lisboa.

¡Viva o meu Portugal! ¡viva a laranja
que derruba o chapeo!

exclamava elle em París, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos Portuguezes, felizmente meio polídas já hoje.

Pag. 82 linhas 6 e 8


Citações latinas


Essas duas são de Virgilio (Eneida, Livro I)


Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus
.


Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e lá dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na rocha viva; verdadeira habitação de nymphas.

Pag. 87 lin. 21


As rogações de Maio


Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado, fallecido no anno 475.

Pagina 99 linha 23


O ubi campi!


Recordação de palavras de Virgilio ao Livro II das Georgicas:


Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
Taygeta!......


Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles; encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. ¿Onde estais, campinas? ¿onde estás, rio Sperchio, e tu, monte Taygéte, habitado pelas alegres virgens espartanas?

Castilho traduziu assim este trecho:


Então amar só quero os rios e arvoredos,
de glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
das virgens de Lacónia ás órgias predilecto,
¿onde, onde me estais vós?....

Pag. 102, lin. 10


Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem


Verso de Ovidio, logo no começo da elegia I do Livro I das Tristezas. Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.


Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho

traduziu alguem


Pag. 107, lin. 17


Zimmermann


João Jorge Zimmermann, nascido em Brug, cantão de Berne, a 8 de Dezembro de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doença, e deveu allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo á Imperatriz Catherina, que em 1784 procurou attrahir á sua côrte aquelle luminar da sciencia. Elle pediu excusa, porque a vida mundana não condizia com os habitos que tinha creado o seu espirito; não se ofendeu a eminente Princeza, e conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu morrer-lhe entre os braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho. Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Além de outras obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em 1756 o seu Tratado da Solidão, onde todas as vantagens moraes do isolamento são defendidas com eloquencia e convicção, e sem mysanthropia exagerada.

Pag. 108, lin. 6


O Passeio publico e o Marrare


Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico, riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos Restauradores até á extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo (hoje no jardim da Graça).

O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.








ADDITAMENTO





Visto ser esta obra de Castilho dedicada á memoria de seu bom irmão, pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermões que ainda restam d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as seguintes:


I O sermão de S. Pedro, ou da Fé;
II O sermão da esmola, ou da Caridade;
III O sermão nas exequias do senhor D. Pedro IV;
IV A pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja;
V Uns versos na Primavera de Antonio Feliciano.