Vós, que sois do amavel
sexo
ardentes adoradores,
que
girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,
que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis
de ternura
não poder-vos saciar,
mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas
não choreis as que á sombra
repoisar das aras
veem.
Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da
piedade?
poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha
mão.
Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;
os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade
vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;
¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem
murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas
pombas desertar,
poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.
Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro
asylo.
Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.
Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um
ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.
Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.
Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis
corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.
Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden
recatado ao mundo
no seio d'este deserto.
Modestas virgens o habitam,
que só não teem
liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.
Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos,
ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.
¿Não vêdes sobre os altares
com
graça engrupadas flores
lançar torrentes de
aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?
N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e
zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.
Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas
prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins,
são jardineiras.
Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e
sedas matizado
com vistosa bordadura.
Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes
jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são
já de seus jardins.
Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.
Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida
ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.
¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios
taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.
Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos
divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.
Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os
sentidos
infunde n'alma ternura.
Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o
objecto.
O pensamento que as ouve,
sai da térrea
habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,
vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á
humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.
Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos
virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.
Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas
a cantos diversos
estas formosas cantoras.
Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois
das Musas entram
os aprasiveis recreios.
Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes
vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da
piedade?
Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da
piedade,
os praseres da innocencia.
A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á
soledade?
Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do
Ceo.
Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo
vos baste,
como lhes basta um altar.
Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois
ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?
¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos
incertos,
e essa eterna agitação?
¿Não virá talvez um dia,
em que,
mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor
d'entre as mortaes?
¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?
Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em
pensardes que a virtude
que não tendes, não
existe.
Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros
que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.
Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,
viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve
tornar a vida
risonha, pura, e contente.
Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um
Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.
Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em
graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.
Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,
mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde
murcho cederia
a influxos de infestos ares,
se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde
vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;
ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;
de extranhos somente é visto;
tem louvor; é
cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não
é jamais despojado.
¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da
verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da
sociedade!
Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais
fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.
Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de
vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.
Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o
enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.
Coimbra—1826 (?)
XI
SANTA MARIA EGYPCÍACA
(Fragmento de um poema)
...........................................................
Prostrada aos
pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios
descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,
*
¿Tão nova, e
isenta? ¡Oh!
não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a
dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em
vida, e em morte havel-os.
*
Té aqui, pela alma escura
só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas
veias.
*
Brilhou no mundo como a flor de um
dia.
Os soes vivos, os ventos
importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da
belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva,
e a transplantou no ermo.
*
No mundo, sobre o abysmo, hontem
folgava
impróvida e
leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a
espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a
chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro
que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!
*
Em viço de annos,
e mais bella que as flores todas
juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam
festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas
roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o
alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...
*
Ella, entretanto,
co'os mimosos pés
nús calcando
areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida,
envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes
á avesinha se compára,
sem família,
sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a
paz que é de
ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e
agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára,
esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.
*
Ai coração
tão amplo, onde estuava
mar
de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher?
¡em solidão
tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o
enche o que enche
tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos
aquilões, anima os troncos.
*
Só conversa com Deus, e a
Deus só ouve.
Este
seio, estas tranças desatadas,
são brinco
só do vento do deserto.
Esta mão, tão
mimosa e tão querida,
só procura, excavando a
terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar
agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de
joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o
chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos
exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira
não treme; ora, e descança.
*
Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol
já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea
mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!
*
—«Além—dizia—além,
n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou,
que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião,
Judêa...»
*
E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe
adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda
ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo
alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros
esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha
vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando
se á terra, e sôlta em
chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.
*
Taes se lhe vão no ermo
deslizando
dias e annos, sem ver na
areia impressos
mais vestigios que os seus.
*
De tempo em tempo,
só vê talvez, ou
ver presume ao
longe,
do horisonte nas
sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa
caravana,
que vai de Alépo á Méka em
certa
estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota
fanática impiedade.
*
Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e
se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem
dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas
exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um
coração de amor não
farto.
*
Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil
Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas,
sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no
exemplo.
*
Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao
fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo,
como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe
oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê
perdão e paz de um Deus em nome.
*
Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
—«¿Trareis,—lhe disse—
á pobre
peccadora o manjar de Anjos?»
—«Sim.»
E partiu.
Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo
o dia; ¡e este é tão
longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...
*
Passou-se
um anno inteiro. É elle
agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a
calva, e as faces penitentes...
*
Chega; clama; a caverna
não responde;
grita, e só
ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia
escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:
Bom Zózimo, por santa
caridade
enterra o corpo da infeliz
Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a
Deus, e Deus t'o pague.
..................................................................
XII
EPISTOLA
Ao
meu amigo o Desembargador
Manuel Venancio
Deslandes
(NO DIA DOS MEUS ANNOS)
FRAGMENTO
Em torno ao teu amigo
estão fervendo,
Deslandes meu, na hora
em que te escreve,
de uma festa caseira o reboliço.
*
Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido
suão de lá nos venha,
ninguem hoje de frio aqui
se queixa.
Não descança nem pé, nem
mão, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres
fógos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de
loiça e vidros alegrando.
*
Uma estuda em compôr as
sobremezas;
outra enrama de loiro
alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e
nus os braços,
com importancia e afan revira
espêtos;
aquella, anda
scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que
além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano,
além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e languidas,
não cria
com que se enflore a meza dos meus annos.
*
¿Porque é,
quando a sorrir divagam todos,
quando
só para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer até
fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
não ha um
coração que se
não abra...
¿por que se fecha o meu?
¿Dará
(não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
d'esta
patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo
azéda?...
..........................................................
26 de Janeiro
de 1833.
FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA
NOTAS DOS EDITORES
AO VOLUME I DO
PRESBYTERIO DA MONTANHA
Da villa da Castanheira—No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de
Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o
sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam
da Beira, a qual é tambem dos Condes da Feira, e n'ella
entra em correição o seu
Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja parochial da
invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da
Feira, que rende 600$000 réis, e tres ermidas. O seu termo
tem uma freguezia dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de
Aguadão, que consta de 100 visinhos. É curado
annexo á egreja de S. Mamede, que apresenta o seu Prior. Tem
este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que
fertilisam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes
de todo genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes
ordinarios, Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivão
da Camara, Juiz dos Orphãos
com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da
Ordenança.
(
Chorographia portugueza pelo Padre
Antonio Carvalho da Costa.—T. II, pag. 176—1708.)
Castanheira do Vouga—Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de
Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem
803 visinhos. Está
situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S.
Mamede. Tem quatro altares; e o maior é do orago; os outros
são do Santissimo, de Nossa Senhora da
Expectação, com sua irmandade, e outro de S.
Jorge. O Parocho é Prior, apresentação
da
casa do Infantado; tem de renda 400$000 reis. Tem tres ermidas, que
são: a do Espirito Santo, a de Nossa Senhora do
Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos d'esta terra
são milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa
um Juiz ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios
Aguedão, Alfusqueiro, e Agueda.
(
Diccionario geographico pelo Padre
Luiz Cardoso. 1751.)
*
Castanheira do Vouga.—Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago
S. Mamede; o Parocho é Prior da
apresentação da Casa do
Infantado; rende 480$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e
de Coimbra 7; tem 58 fogos.
Ágadão—Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por
Orago Santa Maria Magdalena; o Parocho é Cura da
apresentação do Prior da Castanheira; rende
40$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem
102 moradores
(
Portugal sacro-profano—por Paulo
Dias de Niza; cryptonimo do Padre Luiz
Cardoso—Lisboa—1767—8.º—2
vol)
*
Castanheira do Vouga.—Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do
Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140
fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto
administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da
Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada em um
monte proximo á serra do Caramulo. A Casa do Infantado
apresentava o Prior, que tinha
400$000 réis. É fertil em milho e centeio; produz
algum vinho, e do mais pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a
16 de Junho de 1514. Era cabeça do concelho do seu nome e
tinha Juiz ordinario, Camara, Escrivães, e mais
Justiças. Passam pela freguezia
os rios Agueda, Aguedão, e Alfusqueira.
(
Portugal antigo e moderno—por
Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal—Lisboa, 1874).
*
Dapibus mensas oneramus
inemptis
Oneramos as mezas com iguarias não compradas; isto
é, vivemos, sem comprar, das nossas lavras proprias.
Citação de Virgilio
(
Georgicas, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina
variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:
....Sero que revertens
nocte domum, dapibus mensas
onerabat
inemptis.
Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que
vamos ouvir
na traducção de Castilho:
......Alembra-me
que
outr'ora,
lá por onde o Galeso
arrasta a veia escura
por
entre loiros chãos de cereal cultura,
junto á
Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em
annos já maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O
pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto
para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pães,
escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no
sarçal, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e
estudo,
tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
com
seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de
prato.
Não trocára co'os Reis seu parco haver
tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e,
¡que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe
a meza!
Passámos n'uma bateirinha,
remada por uma velha moleira da
margem, o
víçoso rio de Bolfiar.
Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O
caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos
modernos, deram cabo da antiga viagem tão pittoresca.
Uma especie de zimborio
de doze palmos de altura.
Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que
primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação
do Reino.
Uma desconforme loisa
inteiriça horizontalmente aguentada
nos ares por esteios de pedra.
Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em
muitas partes das Hespanhas, e acham-se estudados á luz da
sciencia moderna.
A Linguagem é ali, como os
ares, de uma admiravel pureza e
lucídez.
O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho
o seu constante amor á vernaculidade. Veja-se nas
Excavações
poeticas o que elle diz do velho camponez Francisco Gomes,
creado da casa, e «um dos mais chapados classicos»
que elle jamais encontrou.
Lia, Rachel e Rebecca
Lia era filha primogenita de Labão, e irman de Rachel.
Achando-se Rachel ajustada para casar com Jacob, teve Labão
astucia de lhe substituir Lia, apesar de menos formosa. Foi
mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá,
Issachar, Zabulon, e Dina.
Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve
José, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que
ainda se conserva e mostra o seu tumulo.
Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de
Abrahão, e teve por filhos Ezaú e Jacob.
Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan,
são encantadoras de singeleza e graça nas
descripções que d'ellas nos
deixaram os Livros santos.
Uma pobre mocinha
ovelheira
Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era
Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta
na sua
Chave do enigma.
Filinto e o entrudo
Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom
Francisco Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da
velha Lisboa.
¡Viva o meu Portugal!
¡viva a laranja
que
derruba o chapeo!
exclamava elle em París, ao lembrar-se das
grosseiras costumagens dos Portuguezes, felizmente meio
polídas já hoje.
Citações
latinas
Essas duas são de Virgilio
(
Eneida, Livro I)
Fronte sub adversa scopulis
pendentibus antrum;
intus
aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus.
Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um
antro; e lá dentro correm aguas doces, e apparecem assentos
como que talhados na rocha viva; verdadeira
habitação de nymphas.
As
rogações de Maio
Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado,
fallecido no anno 475.
O ubi campi!
Recordação de palavras de Virgilio ao Livro II
das
Georgicas:
Rura mihi et rigui placeant
in vallibus amnes;
flumina
amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus
bacchata Lacaems
Taygeta!......
Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles;
encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou.
¿Onde estais, campinas? ¿onde estás,
rio Sperchio, e tu, monte Taygéte, habitado pelas alegres
virgens espartanas?
Castilho traduziu assim este trecho:
Então amar só
quero os rios e arvoredos,
de
glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras
do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
das virgens de
Lacónia ás órgias
predilecto,
¿onde, onde me estais vós?....
Parve, nec invideo, sine
me, liber, ibis in urbem
Verso de Ovidio, logo no começo da elegia I do Livro I das
Tristezas.
Dirigindo-se
ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no desterro, entre os
gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno livro; has-de entrar
sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.
Parte, ó meu pobre livro;
irás sem mim,
sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho
traduziu alguem
Zimmermann
João Jorge Zimmermann, nascido em Brug, cantão de
Berne, a 8 de Dezembro de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi
abalisado sabio. Nomeou-o medico da sua camara em 1768 el-Rei de
Inglaterra; el Rei de Prussia Frederico, o grande, foi tratado por elle
na sua ultima doença, e deveu allivios aos seus cuidados
intelligentes. O Principe russo Orloff foi de proposito com sua mulher
consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se a S. Petersburgo falou
d'elle com enthusiasmo á Imperatriz Catherina, que em 1784
procurou attrahir á sua côrte aquelle
luminar da sciencia. Elle pediu excusa, porque a vida mundana
não condizia com os habitos que tinha creado o seu espirito;
não se ofendeu a eminente Princeza, e conferiu-lhe a ordem
de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu morrer-lhe entre os
braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho.
Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Além de
outras obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa,
publicou em 1756 o seu
Tratado da Solidão,
onde todas as vantagens moraes do isolamento são defendidas
com eloquencia e convicção, e sem mysanthropia
exagerada.
O Passeio publico e o
Marrare
Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico,
riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas
Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar
os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos
Restauradores até á
extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No
sitio exacto do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande
tanque redondo (hoje no jardim da Graça).
O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no
Chiado.
ADDITAMENTO
Visto ser esta obra de Castilho dedicada á memoria de seu
bom irmão, pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres
sermões que ainda restam d'este. As suas obras ineditas
mandou o proprio Doutor Augusto Frederico de Castilho que lh'as
queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as seguintes:
| I |
— |
O sermão de S.
Pedro, ou da Fé; |
| II |
— |
O
sermão da esmola, ou da Caridade; |
| III |
— |
O sermão
nas exequias do senhor D. Pedro IV; |
| IV |
— |
A pastoral dedicada ao seu
rebanho episcopal de Beja; |
| V |
— |
Uns versos na Primavera
de
Antonio Feliciano. |