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A Morte Vence cover

A Morte Vence

Chapter 16: Lista de erros corrigidos
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About This Book

The narrative presents a sunlit domestic scene in which a young mother contemplates her sleeping infant while the father shares tender admiration, with rich sensory detail of the child's fragility and the parents' physical intimacy. It follows their mutual idealization of the newborn as an emblem of shared love and future continuity, imagining inherited beliefs and virtues. Close interior description and devotional imagery alternate with moments that reveal underlying anxieties about death and abandonment, producing a tension between joy and vulnerability. The work focuses on parental devotion, everyday rituals, and the fragile hopes and fears surrounding new family life.



Na manhã seguinte, Nuno, que passara a noite inquieto por aquela súbita fuga do amigo, não sabendo a que atribuí-la, recebia uma carta.

Reconhecendo no enveloppe a letra do Frederico, abriu-a nervosamente. Que teria acontecido, para êle escrever em vez de voltar, como prometera? Leu, apavorado, estas palavras sombrias, gravadas numa letra firme:

—«Nuno:—Vou matar-me, em plena consciência, e foi justamente para isso que deixei a tua companhia, a tua afeição, a tua nobre e grande alma. Nem a paz, a consolação imensa do teu lar tam belo, puderam reter-me por mais tempo num mundo em que sou um intruso. Não posso viver mais. A vida para mim é um suplício e por isso me liberto dela. O homem dispõe da força augusta que lhe permite aniquilar a obra de Deus.

Porque me mato? Porque há, realmente, na minha existência um segrêdo terrível, o segrêdo de que um dia suspeitaste e que te não posso dizer, porque me não pertence inteiramente. Oh! não faças suposições inconsideradas! Julga-me com equidade. Não penses por um momento só que deixei, por um crime atroz e sem perdão, de ser digno do teu afecto. Morro em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me sem repouso e é-me impossível sofrer mais. Para que prolongar uma dôr incurável? Sou só, o meu acto, longamente meditado, não terá conseqùências e apenas fará padecer as poucas criaturas devotadas que me estimaram e que hão de curvar-se, em lágrimas, sôbre o meu túmulo.

Sê tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre à volta da tua vida tam pura e da tua bondade tam comovida, pousem a graça, o encanto e a doçura! Pensa em mim com um pouco de carinho e de mágoa. Afinal, amei-te e desapareço inteiramente merecedor da tua afeição—inteiramente merecedor dela, ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua mulher—um beijo de irmão, o  beijo dum cadáver. Adeus!—Frederico!».

Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, no jardim, alheado de tudo, como se a inteligência inesperadamente lhe fugisse e êle se encontrasse num logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe. Tinha a carta entre as mãos, e os seus olhos, por uma alucinação dos sentidos, viam nela manchas sangrentas... Depois, fundos soluços abalaram-no, chorou com desespêro, correndo para casa. Abriu nervosamente a porta do quarto. Júlia ainda estava no leito, com o filho que ria e galrava.

—Tu queres saber?—exclamou êle. Uma desgraça horrível, um pavor!

—Que foi, santo nome de Jesus?—exclamou Júlia, sentando-se na cama.

—Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico matou-se, ontem, no Pôrto.

—Matou-se?...—perguntou, num grito.

—Sim, matou! Aqui está a carta dêle, anunciando-me a sua resolução, a sua loucura. Pobre amigo! Antes de morrer, pensou em mim, pensou em nós!

—Oh! meu Deus!—murmurou ela, levando as mãos fechadas á cabeça. E porque foi, porque foi?...

—Não o diz... Olha! Lê tu! Eu nem serenidade tenho para nada.

Júlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela carta para ela reveladora—só para ela!... Uma dúvida que por muito tempo a sobressaltou, esclareceu-se-lhe de repente no espírito. Admirou a grandeza de alma de Frederico—uma grandeza que se denunciava ainda no beijo supremo e sublimado que o seu cadáver lhe mandava da beira da sepultura. Mudamente entregou a carta a Nuno, e as lágrimas correram-lhe em fio dos olhos.

—E então? Que te parece? Que julgas?...

—Era um nobre coração!—exclamou ela, chorando sempre.

Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Pôrto, a assistir ao entêrro do homem que, diante da traição, optou pela morte, para não deixar de ser leal aos outros e a si próprio.


Miramar, 9 de novembro de 1916.





Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


Original Correcção
#pág. 53 pefil ... perfil
#pág. 56 Fredrico ... Frederico
#pág. 63 docorreu ... decorreu
#pág. 67 diza ... dizia
#pág. 67 fertiliade ... fertilidade
#pág. 76 apressadamnte ... apressadamente
#pág. 79 mulidão ... multidão
#pág. 81 ferragns ... ferragens
#pág. 81 pincípio ... princípio
#pág. 104 refractário e um desejo ... refractário a um desejo
#pág. 107 se se isso ... se isso
#pág. 112 miaginação ... imaginação
#pág. 141 vingindade ... virgindade
#pág. 143 picacado ... picado
#pág. 145 Nes e momento ... Nesse momento
#pág. 153 iutermináveis ... intermináveis
#pág. 155 Fredico ... Frederico
#pág. 156 stuação ... situação
#pág. 157 bejou-a ... beijou-a
#pág. 158 subtituía ... substituía
#pág. 159 tran formam ... transformam
#pág. 170 borrocais ... barrocais
#pág. 171 Beetheven ... Beethoven
#pág. 171 capazas ... capazes
#pág. 181 e de medicina ... o de medicina
#pág. 232 Bernado ... Bernardo
#pág. 232 uam ... uma
#pág. 232 irrmediáveis ... irremediáveis
#pág. 236 rapares ... repares
#pág. 238 úni- pessoa ... única pessoa
#pág. 241 rua a ... a rua
#pág. 244 No poderia ... Não poderia
#pág. 257 Banca ... Branca
#pág. 272 compaínha ... campaínha


A acentuação foi mantida de acordo com o original.