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Eurico, o presbytero cover

Eurico, o presbytero

Chapter 44: Ibidem.
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About This Book

Um romance histórico situado na época visigótica examina as tormentas íntimas geradas pelo celibato clerical imposto e a degradação social que acompanha a decadência política. Por meio de um misto de crónica, meditação poética e fragmentos de manuscrito reconstruídos, acompanha um personagem sacerdotal cuja solidão revela a tensão entre ideais espirituais e afetos humanos. Os episódios variam do palácio aos mosteiros e tabernas, expondo corrupção moral, declínio político e o sofrimento silenciado dos religiosos. A obra alterna reflexão histórica, descrição evocativa e passagens narrativas para sondar a fé, o desejo e o preço que as exigências institucionais impõem à consciência individual.

Da morte ás trévas,
Immortal, te diriges!

Merobaude: Poema de Christo.


A ventura das armas mosselemanas tinha chegado ao apogeu, e a sua declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Hespanha era como uma ara immensa, onde as chammas das cidades incendiadas serviam de fogo sagrado para consummir aos milhares as victimas humanas. O silencio do desalento reinava por toda a parte, e os christãos viam com apparente indifferença os seus vencedores polluirem as ultimas cousas que, até sem esperança, ainda defende uma nação conquistada—as mulheres e os templos. Theodemiro pagava bem caro o procedimento que o desejo de salvar os seus subditos o movera a seguir. O pacto feito por elle com os arabes não tardou a ser por mil modos violado, e o illustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade. Fora isto o que Pelagio preferira, e a victoria coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.

Os que tem lido a historia daquella epocha sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro élo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quasi oito seculos, fez recuar o koran para as praias d'Africa e restituiu ao evangelho esta boa terra d'Hespanha, terra, mais que nenhuma, de martyres. Na batalha de juncto do Auseba foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Chryssus; porque mais de vinte mil sarracenos viram pela ultima vez a luz do sol naquellas tristes solidões. Mas, nesse dia da punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam vendido a patria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gosavam nas brenhas intractaveis das Asturias.

O ardil de Pelagio para resistir com vantagem aos mosselemanos, cem vezes mais numerosos que os christãos, surtira o desejado effeito. Ainda que muito a custo, os cavalleiros enviados em cilada para a floresta á esquerda das gargantas de Covadonga poderam chegar ahi sem serem sentidos dos arabes, que se haviam approximado mais cedo do que o fizera crer a narração do velho Vellido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sitio em que rompia do valle, e os seus almogaures tinham ousado penetrar ávante. Os cavalleiros da cilada, que a pouca distancia passavam manso e manso, ouviram distinctamente o tropeiar dos ginetes inimigos.

Mas, quando, ao primeiro alvor da manhan, Pelagio se encaminhava com o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os arabes rompiam por ella e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo de leito apertado, se dilata pela campina. Os christãos recuaram, e os infiéis, attribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se após elles. Pouco a pouco, o duque de Cantabria attrahiu-os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado alli, pondo á boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Immediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inaccessiveis, cubriram-se de fundibularios e frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. Vacillaram; mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se, esquadrões após esquadrões, á entrada da caverna, onde, finalmente, encontravam desesperada resistencia. Então, como se despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre elles dos cimos do precipicio que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisiveis os impelliam. Cada rocha traçava no meio daquelle vulto informe que oscillava, naquella vasta planicie de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura mancha, semelhante a chaga horrivel. Eram dez ou vinte guerreiros, cujos membros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho!—porque a esse espectaculo se ajunctava o grito de raiva e desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só comparavel ao bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem, na ausencia dellas, roubado os seus cachorrinhos.

Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exercito dos arabes alguns milhares de cavalleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Asturias, que os perseguiam incansaveis além de Cangas de Onis.

Fora no momento em que Pelagio penetrava, na sua fingida fuga, sob o vasto portal da gruta que o cavalleiro negro saía. O joven guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pallido e transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquillidade que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam a entrada elle esteve quedo, como indifferente ao combate; mas, logo que os arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelagio pôde combater na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho com o frankisk, desappareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantabria o buscou: nem elle, nem ninguem mais o viu.

Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa epocha denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dous rochedos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara celtica. Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da Gallecia. Quatro cavalleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquelle apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se que eram tres christãos e um sarraceno. Chegados á clareira, este parou de repente e, voltando-se com aspecto carregado para um dos tres, disse-lhe:

«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se te seguissemos: fiámo-nos em ti, porque não precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos dos soldados de Pelagio, e foi a um aceno teu que elles cessaram de perseguir-nos. Porém o silencio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria arabe, Juliano, o conde de Septum e Oppas, o bispo d'Hispalis.»

«Sabía-o:—respondeu o cavalleiro—por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote do Christo!»

«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando os olhos em roda. Para que fim?»

«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido lealmente comnosco, inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes, porque nos venceste com esforço e á luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te conduza em salvo ás tendas dos teus soldados. É por alli!... A estes, que venderam a terra da patria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganharam nas trevas a victoria maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseraveis, segui-o!»

E quasi a um tempo dous pesados golpes de frankisk assignalaram profundamente os elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento mais tres ferros reluziram.

Um contra tres!—Era um combate calado e temeroso. O cavalleiro da cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dous godos. Primeiro o velho Oppas, depois Juliano cahiram.

Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:

«Meu Deus! Meu Deus!—Possa o sangue do martyr remir o crime do Presbytero!»

E, largando o frankisk, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si.

Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada: o craneo do seu adversario rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

Como tomba o abeto solitario da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro mysterioso do Chryssus cahia para não mais se erguer!...

Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranquilla, o mancebo adormeceu, tambem, perto della, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhan, acordou ao som de cantico suavissimo. Era sua irman que cantava um dos hymnos sagrados que muitas vezes elle ouvira entoar na cathedral de Tárraco. Dizia-se que seu auctor fora um Presbytero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.

Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os cabellos, tão tristes, soturnas e dolorosas são ellas: tão completamente exprimem irremediavel alienação d'espirito.

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.



NOTAS



Pag. X




Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me afflige demasiado. Sem ambicionar para elle a qualificação de poema em prosa—que não o é por certo—tambem vejo, como todos hão-de ver, que não é um romance historico, ao menos conforme o creou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo fixar a acção que imaginei n'uma epocha de transição—a da morte do imperio gothico, e do nascimento das sociedades modernas da Peninsula, tive de luctar com a difficuldade de descrever successos e de retratar homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da Hespanha tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia, precediam immediatamente, por outro, a epocha a que, em rigor, podemos chamar historica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a ultima pagina do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa traçada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes, outros, que não eu, o dirão.

Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica melhor que a d'Oviedo e Leão, que a do nosso Portugal no primeiro periodo da sua existencia como individuo politico. Sabemos melhor quaes foram as instituições dos godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilisação intellectual e material, do que sabemos o que era isso tudo em seculos mais proximos de nós. O esplendor dos paços, as formulas dos tribunaes, os ritos dos templos, a administração, a milicia, a propriedade, as relações civís são menos nebulosas e incertas para nós nas eras gothicas que durante o longo periodo da restauração christan. E, comtudo, o reproduzir a vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as fórmas do verdadeiro romance historico temo-lo por impossivel, ao passo que o representar a existencia dos homens do undecimo ou dos seguintes seculos será para o que os tiver estudado, não digo facil, mas, sem duvida, possivel.

Qual é a causa d'isto?

É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos e não a sua vida íntima, emquanto os seculos da Hespanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos restam-nos codigos, historia, litteratura, monumentos escriptos de todo o genero, mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano, e a historia desconhece o povo. O gothicismo hespanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se. Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria, immovel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete sellos do Apocalypse: são a campa da familia. A familia goda é para nós como se nunca existira.

Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei quê de magestade esculptural que conserva sempre a raça wisigothica, por mais que tentemos galvanisá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante a reacção contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando lhes applicamos a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da imaginação, vai despertar os tempos que foram do seu calado sepulchro.

Desta differença, que é mais facil sentir que definir, nasce a necessidade de estabelecer uma distincção nas fórmas litterarias applicadas ás diversas epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica, e a moderna.

O periodo wisigothico deve ser para nós como os tempos homericos da Peninsula. Nos cantos do Presbytero tentei achar o pensamento e a cor que convem a semelhante assumpto, e em que cumpre predominem o estylo e fórmas da Biblia e do Edda—as tradições christans, e as tradições gothicas, que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se e completar-se, em relação á poesia da vída humana, no extremo occidente da Europa.

O romance historico, como o concebeu Walter Scott, só é possivel áquem do oitavo—talvez só áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa data a vida da familia, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado para apparecer na praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando. As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos seriam, desde então, absurdos e, parece-me, até, que ridiculos.

A Hespanha romano-germanica transformou-se na Hespanha rigorosamente moderna no terrivel cadinho da conquista arabe. A obra litteraria (novella ou poema—verso ou prosa—que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas—indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik ou de Leuwighild será o ascendente do Cid ou do lidador; que o heroe se vai transformar em cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguez.

E a fórma e o estylo devem approximar-se mais ou menos d'um ou d'outro extremo, conforme a epocha em que lançamos a nossa concepção está mais vizinha ou mais remota da que vai deixando d'existir ou da que vem surgindo. A difficultosa mistura dessas cores na palheta do artista nenhuma doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha o instincto.

Tive eu esse instincto?—É mais provavel o não que o sim.—Se a arte fora facil para todos os que tentam possuí-la, não nos faltariam artistas!


Pag. 2.




Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos nomes proprios, quer de pessoas quer de logares, como as successivas alterações da linguagem na Hespanha os foram transformando, a ponto de muitos delles se acharem hoje totalmente diversos do que eram na sua origem. Destas mudanças, aquellas que apenas consistiam no augmento ou diminuição de uma letra, ou na diversidade das desinencias, podiam, talvez, ser admittidas sem darem um aspecto anachronico ao livro. Outros nomes, porém, havia, sobretudo nas designações corographicas, tão completamente alterados, que me repugnava o substituir o moderno ao antigo. Assim Toletum, Emérita seriam sem difficuldade representados por Toledo e Mérida; mas, como substituir, sem anachronismo na expressão, Sevilha a Hispalis, Leão a Legio, Guadalete a Chryssus e, finalmente, Burgos a Augustobriga, quando, como neste caso, até a situação da moderna cidade não é exactamente a da antiga povoação? Preferi, portanto, conservar os nomes primitivos, os quaes, não influindo de modo algum na ordem e clareza da narrativa, podem facilmente encontrar-se em qualquer diccionario ou tractado de geographia antiga.

Aos nomes individuaes dos primeiros wisigodos procurei conservar, quando alludi a elles, os vestigios da origem gothica: aos dos personagens do meu livro conservei as fórmas alatinadas que se encontram nos monumentos contemporaneos, porque, segundo todas as probabilidades, já nesta epocha o elemento romano de todo havia triumphado na lingua.


Pag. 9.




Uma das cousas mais disputadas na historia das instituições gothicas é a natureza dessa classe de individuos, que tantas vezes figuram nos monumentos daquellas epochas, chamados gardingos (gardigg em lingua gothica). Masdeu e com elle Romey, que o traduz quasi sempre ácerca da historia dos wisigodos, postoque não o cite senão neste logar, são de parecer que o gardingato não era um titulo de nobreza, mas do cargo de substituto do duque (governador de provincia) como o vicarius o era do conde (governador de cidade). Aschbach deriva a palavra de Gards, que significa solar com terras adjacentes, e parece querer confirmar assim a opinião de Vossio, que pretendia fossem os administradores ou almoxarifes dos palacios reaes, opinião que sería mui difficil de sustentar á vista de varios monumentos hispano-gothicos. Segui o parecer de Grimm e Lembke, que suppõem formarem os gardiggos uma classe de curiales (cortesãos) ou nobres. Neste caso não serviria a etymologia gards para indicar no gardingato uma nobreza estribada sobre certa extensão e importancia de propriedade territorial, formando a terceira classe de nobreza depois dos duces e comites? Rosseeuw-Saint-Hilaire pensa-o assim e faz o gardingo synonimo de Procer. Procer, todavia, não indicava em especial o gardingo, mas era denominação generica da nobreza.

Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve saber-se que o exercito godo se dividia em corpos de mil homens, e estes em companhias e esquadras de cem e de dez. Abaixo do tiuphado (thiud ou theod povo e fath conduzir, ou, segundo outra derivação, taihunda mil e fath) que, tambem, se chamava millenario (da etymologia latina mille) estava o quingentario, segundo uns, capitão de quinhentos homens, especie de major dos regimentos modernos, e, segundo outros, substituto do tiuphado ou semelhante aos nossos tenentes-coroneis. A companhia de cem homens (centuria) era regida por um centenario, e a de dez (decania) por um decano.


Pag. 13.




O vestido civil dos wisigodos era uma especie de tunica chamada Stringe ou Strigio, já d'antes conhecida pelos romanos. O clero usava deste trajo como os seculares, com a differença de ser branco ou d'outra cor modesta, porque o havia, até, cor de purpura, o uso da qual era severamente prohibido aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. d'Esp. T. 11, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier ás palavras Stringes, Strigio.


Pag. 16.




A igreja goda empregava oito ministros na celebração do culto: 1.º o Ostiario, que abria e fechava o templo, cuidava da conservação dos objetos do culto e vigiava que não assistissem ao sacrificio herejes ou excommungados: 2.º o Acolito, que illuminava os altares e tinha na mão um candelabro emquanto se lia o evangelho: 3.º o Exorcista, a quem incumbia o expulsar o demonio dos possessos: 4.º o Psalmista, que levantava no coro as antiphonas, psalmos e hymnos: 5.º o Leitor, que lia em alta voz as prophecias do Antigo Testamento e as Epistolas e as explicava ao povo: 6.º o Subdiacono, que recebia as oblações dos fiéis e dispunha as vestiduras e vasos sagrados para a missa: 7.º o Diacono, que ajudava a esta e dava a communhão: 8.º o Presbytero, que sacrificava, prégava e dava a benção ao povo.


Pag. 17.




Poetas celebres hispano-godos do seculo V.—De Draconcio resta-nos o Carmen de Deo e uma epistola dirigida a Gunth-rik rei dos vandalos. De Merobaude subsiste um fragmento do Poema de Christo. D'Orencio, tão elogiado pelo poeta Fortunato e por Sidonio Apollinario, apenas resta uma pequena poesia na Bibliotheca Veterum Patrum.


Pag. 26.




A raça dos godos, asiatica na origem e germanica na lingua, que, antes de occupar uma parte do territorio romano, habitava ao norte do Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas grandes familias, cujas denominações provieram da sua situação relativa. Os que estanceiavam ao oriente chamavam-se ost-goths (godos de leste) e depois, corruptamente, ostrogodos; os que demoravam ao occidente eram os west-goths (godos de oeste) ou wisigodos, que, depois de ora servirem o imperio como alliados, ora assolarem-no como inimigos, vieram fazer assento no sul das Gallias e na Peninsula, estabelecendo, a final, em Toledo o centro do seu imperio.


Ibidem.




A celebre batalha dada por Theoderik, rei dos wisigodos, e pelo general romano Aecio, seu alliado, ao feroz Attila nos campi catalaunici (planicies de Chalons-sur-Marne) é o mais celebre entre os terriveis combates que custou á Europa no V seculo a dissolução do grande cadaver romano. Podem-se ver em Jornandes e no Panegyrico de Avito por Sidonio Apollinario as particularidades deste successo.


Pag. 42.




Algeziras. Este nome foi posto pelos arabes ao logar onde Tarik veio aportar, saindo de Ceuta para a conquista d'Hespanha. O ilheu, hoje chamado das Pombas, fica a um tiro d'espingarda daquella povoação, á qual passou o nome que os arabes tinham dado á ilhota, vendo-a verdejar ao longe:—Djezirat-al-Hadra (ilha-verde). Ignorando-lhe o nome antigo, suppuz que essa denominação de origem arabica era anterior e que já os godos lh'a attribuiam. O anachronismo é, a meu ver, assás desculpavel.


Pag. 46.




O amiculo, que entre os romanos era proprio das mulheres de baixa esphera, tornou-se em Hespanha trajo commum das mais honestas e nobres: era uma especie de manto, com que cubriam as vestiduras inferiores: Os cabellos encerravam-nos n'uma como coifa, denominada retíolo. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 6.


Pag. 55.




Os wisigodos tinham dado em especial o nome de Campi gothici ás planicies de Leão e da Extremadura Hespanhola. D'ahi, contrahida a menor territorio, veio a denominação da terra de Campos.


Pag. 67.




«Wali: Prefeito, caudilho principal, governador de provincia, general d'exercito:» Conde, Declar. de alg. nom. arabes. Juliano era, segundo parece, o governador da provincia gothica d'além do Estreito, chamada Transfretana; cabia-lhe por isso entre os arabes o titulo de Wali. Sebta é a corrupção arabica do nome de Septum, corrupção d'onde os nossos antigos formaram Cepta e, depois, Ceuta.


Pag. 70.




O frankisk ou frankiska era uma especie de machadinha de dous gumes, usada pelos frankos, de quem os godos a tomaram. Consulte-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 52—e Ducange, verb. Francisca. A Cateia, de que adiante se ha-de falar, era uma lança curta ou dardo, a origem, talvez, da azcuma dos tempos posteriores.


Pag. 82.




Sevilha no tempo dos romanos tinha dous nomes—Romula e Hispalis. Este ultimo veio a prevalecer, emfim. Veja-se Flores, Esp. Sagr. T. 9, p. 87.


Pag. 85.




Mohammed era natural de Medina. Esta cidade chamava-se Yatrib. Foi elle quem lhe poz o nome de Medina-al-Nabi—Cidade do Propheta.


Pag. 87.




Os arabes, tendo desembarcado nas costas d'Hespanha e vendo que a montanha do Calpe era um logar grandemente defensavel, fortificaram-se ahi, porventura emquanto esperavam o resto do exercito que passava d'Africa. A montanha recebeu então o nome de Geb-al-Tarik (monte de Tarik) e, tambem, o de Gel-al-Fetah (monte da Entrada). Da palavra Geb-al-Tarik se formou depois a de Gibraltar.


Pag. 89.




Islam em arabe, o islamismo ou religião do koran. Significa, propriamente, esta palavra resignação; resignação em Deus.


Pag. 90.




Esculcas eram, nos tempos barbaros, chamadas as rondas ou sentinellas nocturnas dos arraiaes. Esta palavra encontra-se nos escriptores do VI seculo e dos seguintes, como em S. Gregorio Magno; sculcas quos mittitis sollicitè requirant: Epist. 12—23.—A fórma pura do vocabulo, Exculcatores, apparece já em Vegecio: depois, por abbreviatura, Exculcae e Sculcae. Sculcas são contrapostos aos atalaias nas leis das Partidas. P. 2. tit 26, onde estes significam guardas de dia.


Ibidem.





Os arabes designavam os christãos ou, antes, em geral, qualquer europeu pelo nome de al-rumi, o romano, quer fosse grego, franko ou hespanhol. Aquelles mesmos que abraçavam o islamismo conservavam este appellido. Tal era o amir ou general da cavallaria, Mugueiz, um dos mais famosos companheiros de Tarik. Quando, em especial, os pretendiam designar, não pela differença de raça, mas pela de crença, denominavam-nos Nassrani (nazarenos).


Pag. 99.




Deus só é grande! era para os arabes a voz de accommetter, como, depois, foi para os christãos o grito de Sanctiago!


Pag. 109.




A ephippia era uma especie de sella de lan que os godos haviam imitado da cavallaria romana.


Pag. 117.




«As armas delles (dos berebéres e arabes africanos) quasi se limitam a páus compridos a que se prendem pequenos tóros atados pelo meio, que no combate descarregam sobre os inimigos com ambas as mãos:» Alkhathib, Pleni-Lunii Splendor, em Casiri, T. 2, p. 258.


Pag. 153.




Como a palavra latina senior (o mais velho) veio a significar no latim barbaro e no romance ou linguas vulgares das nações modernas, o principal, o senhor, assim a palavra arabe Cheik, Chek, Xeque, isto é, o ancião, tomou entre os sarracenos a significação de senhor ou chefe de uma tribu.


Pag. 157.




No imperio godo os buccellarios vinham a ser o mesmo que os clientes dos romanos, homens livres addictos ás familias poderosas, por quem eram patrocinados e, talvez, sustentados, se, como pretende Masdeu e o seu, nesta parte, quasi traductor Romey, o nome buccellarius lhes provinha de buccella (migalha de pão). O Codigo Wisigothico (Liv. 5. tit. 3.º) estabelece os deveres e relações destes homens com seus amos e patronos. A obrigação mais importante do buccellario parece ter consistido no serviço militar: Si ei... arma dederit. É por isso que se me affigura mais provavel a etymologia que a semelhante denominação attribue com preferencia o erudito Canciani (Barbar. Leg. Ant. Vol. 4, p. 117) derivando-a da palavra scandinava buklar (o escudo), transformada no idioma germanico em buckel e nas linguas modernas em buckler, bouclier, broquel. Neste caso o buccellario corresponderia ao armigero ou escudeiro do seculo 12 e 13, que, significando na sua origem o que trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo, veio a tomar-se por um homem d'armas de certa distincção, a quem, todavia, faltava o grau de cavalleiro.


Pag. 164.




O facto narrado neste capitulo é historico. O logar da scena e a epocha é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Valle, juncto d'Écija, que, em tempos posteriores, practicaram este feito heroico, para se esquivarem á sensualidade brutal dos arabes. Parece que o procedimento das freiras d'Écija foi imitado em muitas outras partes. Consulte-se Berganza, Antiguedades de España, T. 1, pag. 139; e Morales, Cron. Gener. T. 3, pag. 105.


Pag. 197.




Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho de Ibn-Said e de Ahmed-Al-makkari, os arabes conheciam a Hespanha, antes da conquista, pelo nome de Andalós ou Andalús, nome que, depois, applicaram em especial ao territorio entre o Wadi-Al-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir e Guadiana), isto é, á moderna Andalusia. O nome de Al-Gharb (o occidente) que, igualmente, deram á Peninsula para a distinguir da Mauritania (Al-Moghreb) veio, tambem, a contrahir-se á nossa provincia do Algarve.


Pag. 197.