Se vires a mulher perdida...
--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu fado.
--Á noite a minha mãe aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é creada para uma vida! Quem adivinha?
--Calla-te!
--Eu era o miminho de todos, eu...
--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguem se importa! Acabou-se!
Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada, parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.
Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam friorentos em torno d'um lume que não aquece; natal dos sêres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jámais se apaga:--Ámanhã! ámanhã!...
Que poesia tão triste não vae cahindo como um chôro sobre aquellas almas de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!
N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão nú que não sabe exprimir o que sente.
Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera se um clarão. Tal o espanto enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar flôr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o calhao, que a trouxe no meu ventre.
Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:
--Ambos somos desgraçados e sósinhos.
O vinho que havia aquecido dá-lh'o com um pedaço de pão. Ella olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguem que a amasse?...
--Bebe.
--É tão bom a gente estar junta.
--Não se tem frio.
--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ella me engeitou?
Fóra choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôz fóra da porta e que chora e pensa:
--E se eu me deitasse afogar?
Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:
--Deus te crie para boa sorte...
Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.
Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessario? Torrentes de chuva, oceanos d'agua. Eis a vida... Para que do que é materia algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlantico de lagrimas.
Da materia tem nascido á custa de gritos, de fibras torcidas, o immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dôr veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dôr é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte ha sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrellas e os seres humildes.
Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? D'estes pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--humus, amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos. Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dôr que se sustenta Deus.
Maio de 1899--Janeiro de 1900.
INDICE
| Carta-Prefacio | V | ||
| I. | -- | O enxurro | 1 |
| II. | -- | O Gebo | 9 |
| III. | -- | As mulheres | 15 |
| IV. | -- | O Gabiru | 25 |
| V. | -- | Historia do Gebo | 35 |
| VI. | -- | Philosophia do Gabiru | 43 |
| VII. | -- | Primavera | 47 |
| VIII. | -- | Memorias de Luiza | 57 |
| IX. | -- | Philosophia do Gabiru | 63 |
| X. | -- | Historia do Gebo | 69 |
| XI. | -- | Luiza e o morto | 75 |
| XII. | -- | Philosophia do Gabiru | 81 |
| XIII. | -- | Essa rapariguinha | 87 |
| XIV. | -- | O escarneo | 95 |
| XV. | -- | Fala | 105 |
| XVI. | -- | Historia do Gebo | 109 |
| XVII. | -- | O que é a vida? | 113 |
| XVIII. | -- | Historia do Gebo | 137 |
| XIX. | -- | O Gabiru treslê | 143 |
| XX. | -- | A mouca | 149 |
| XXI. | -- | Ahi tém os senhores a natureza | 155 |
| XXII. | -- | Philosophia do Gabiru | 161 |
| XXIII. | -- | A outra primavera | 167 |
| XXIV. | -- | A morte | 173 |
| XXV. | -- | A arvore | 179 |
| XXVI. | -- | Natal dos pobres | 185 |
Notas:
[1] Estes pedaços são arrancados ás reflexões philosophicas do Gabiru, a que elle chamou A Arvore. A Arvore porquê? Porque com ella germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas. A Arvore sustentou-se de desgraça. As suas raizes alimentaram-se d'este humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns pedaços do livro, o necessario apenas para se vêr a transformação do Gabiru, pelo contacto com os sêres humildes e a dôr, promettendo publical-o mais tarde com a sua conclusão.