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Os Pobres / Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro cover

Os Pobres / Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Chapter 33: INDICE
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About This Book

The work assembles impressionistic sketches and meditative scenes that portray material deprivation alongside interior experience. Through lyrical, often visionary prose it interweaves portraits of humble lives with philosophical reflections on nature, suffering and the human soul. Structurally it favors vignette-like narratives, lyrical digressions and autobiographical reverie rather than a conventional plot, privileging psychological and sensory impressions. The tone shifts between anguished interrogation and reverent awe, probing moral unease and spiritual longing while attending closely to earthly hardship and metaphysical wonder.

Se vires a mulher perdida...


--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu fado.

--Á noite a minha mãe aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é creada para uma vida! Quem adivinha?

--Calla-te!

--Eu era o miminho de todos, eu...

--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguem se importa! Acabou-se!


Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada, parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.


Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam friorentos em torno d'um lume que não aquece; natal dos sêres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jámais se apaga:--Ámanhã! ámanhã!...


Que poesia tão triste não vae cahindo como um chôro sobre aquellas almas de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão nú que não sabe exprimir o que sente.

Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera se um clarão. Tal o espanto enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar flôr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o calhao, que a trouxe no meu ventre.

Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:

--Ambos somos desgraçados e sósinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lh'o com um pedaço de pão. Ella olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguem que a amasse?...

--Bebe.

--É tão bom a gente estar junta.

--Não se tem frio.

--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ella me engeitou?

Fóra choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôz fóra da porta e que chora e pensa:

--E se eu me deitasse afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:

--Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.


Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessario? Torrentes de chuva, oceanos d'agua. Eis a vida... Para que do que é materia algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlantico de lagrimas.

Da materia tem nascido á custa de gritos, de fibras torcidas, o immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dôr veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dôr é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte ha sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrellas e os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? D'estes pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--humus, amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos. Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dôr que se sustenta Deus.

Maio de 1899--Janeiro de 1900.




INDICE


Carta-Prefacio V
I. -- O enxurro 1
II. -- O Gebo 9
III. -- As mulheres 15
IV. -- O Gabiru 25
V. -- Historia do Gebo 35
VI. -- Philosophia do Gabiru 43
VII. -- Primavera 47
VIII. -- Memorias de Luiza 57
IX. -- Philosophia do Gabiru 63
X. -- Historia do Gebo 69
XI. -- Luiza e o morto 75
XII. -- Philosophia do Gabiru 81
XIII. -- Essa rapariguinha 87
XIV. -- O escarneo 95
XV. -- Fala 105
XVI. -- Historia do Gebo 109
XVII. -- O que é a vida? 113
XVIII. -- Historia do Gebo 137
XIX. -- O Gabiru treslê 143
XX. -- A mouca 149
XXI. -- Ahi tém os senhores a natureza 155
XXII. -- Philosophia do Gabiru 161
XXIII. -- A outra primavera 167
XXIV. -- A morte 173
XXV. -- A arvore 179
XXVI. -- Natal dos pobres 185



Notas:

[1] Estes pedaços são arrancados ás reflexões philosophicas do Gabiru, a que elle chamou A Arvore. A Arvore porquê? Porque com ella germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas. A Arvore sustentou-se de desgraça. As suas raizes alimentaram-se d'este humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns pedaços do livro, o necessario apenas para se vêr a transformação do Gabiru, pelo contacto com os sêres humildes e a dôr, promettendo publical-o mais tarde com a sua conclusão.