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Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos cover

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Chapter 55: CAPITULO XXVI
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About This Book

A group of artillery enthusiasts conceives sending a projectile to the Moon by means of a gigantic cannon, and the story traces their scientific planning, engineering design, fundraising and construction of the launch apparatus. The narrative follows technical debates, competing personalities, and public spectacle as calculations of trajectory and escape are worked out with enthusiastic rigor. A daring volunteer insists on joining the voyage, and after elaborate preparations the colossal gun is fired toward lunar space, leaving the result suspended in uncertainty. The work examines technological ambition, the interplay of mathematics and invention, and a wry perspective on scientific grandiosity.


Desde pela manhã uma multidão... (pag. 236).


--Certamente, respondeu J.-T. Maston.

--Como se entende isso? perguntou Nicholl.



Fogo! (pag. 241).


--Muito simplesmente, respondeu Ardan. Porventura não continua a Columbiada a estar no mesmo logar? Pois então! não poderão mandar-nos obuzes carregados de viveres que nós esperaremos em dias prefixos, por exemplo, todas as vezes que a Lua se apresentar em condições favoraves de zenith, senão de perigeo, isto é, quasi uma vez por anno?

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston como quem lá tinha a sua idéa; isso é que é bem dito! De certo, estimaveis amigos, de certo que vos não havemos de esquecer!

--Conto com isso!

«E assim teremos, como acabaes de ver, e com toda a regularidade novidades do globo, e pela nossa parte tambem, só se formos muito pouco habilidosos é que não havemos de conseguir pôr-nos em communicação com os nossos bons amigos da Terra!»

Respirava n'estas palavras tão grande confiança, que Miguel Ardan com o seu ar resoluto e soberbo denodo teria levado atrás de si o Gun-Club inteiro. Tudo quanto Ardan dizia parecia simples, elementar, facil, de bom exito seguro; era preciso que alguem estivesse na realidade agarrado com muito apoucamento a este miseravel globo terraqueo, para que ouvindo-o se não promptificasse a ser companheiro dos tres viajantes na sua expedição lunar.

Logoque ficaram collocados e arrumados no projectil os diversos objectos, introduziu-se entre os respectivos tabiques a agua destinada a amortecer a repercussão, e no recipiente proprio o gaz de illuminação. De chlorato de potassa e de potassa caustica mettêra Barbicane, que se arreceiava das demoras imprevistas no caminho, no projectil, quantidade tal d'estas substancias que chegava para renovar o oxygenio e absorver o acido carbonico por espaço de dois mezes. A restituição ao ar das suas qualidades vivificadoras e a purificação completa d'elle, estavam a cargo de um apparelho extremamente engenhoso, que funccionava automaticamente. Conseguintemente estava prompto o projectil, e nada mais restava a fazer senão po-lo no fundo da Columbiada, operação aliás cheia de difficuldades e de perigos.

Conduziram o enorme obuz ao cume de Stone's-Hill, onde ficou seguro e suspenso de possantes guindastes por cima do poço de metal.

Aquelle momento foi palpitante! Se succedesse quebrarem-se as cadeias com o enorme peso, a quéda de similhante massa seguramente teria produzido instantanea inflammação do algodão polvora. Felizmente não succedeu assim, e algumas horas depois, o wagon-projectil que descêra lentamente pela alma do canhão, descansava em cima da sua cama de pyroxylo, verdadeiro édredon fulminante. O unico resultado que veio da pressão do projectil foi ficar mais atacada a carga da Columbiada.

«Perdi», disse o capitão, entregando ao presidente Barbicane a quantia de tres mil dollars.

Barbicane não queria receber dinheiro de um companheiro de viagem; teve porém que ceder perante a obstinação de Nicholl, que tinha empenho em satisfazer quantos compromissos contrahíra, antes de deixar a Terra.

«Á vista d'isso, disse Miguel Ardan, só uma cousa tenho a desejar-vos, meu estimavel capitão.

--Qual? perguntou Nicholl.

--Que vos dêem igual proveito as outras duas apostas. Se assim succeder, estaremos seguros de não nos ficarmos no caminho.


CAPITULO XXVI

FOGO!


Chegára o primeiro dia de dezembro, dia fatal, porque se a partida do projectil se não effeituasse n'aquella mesma noite ás dez horas quarenta e seis minutos e quarenta segundos da tarde, mais de dezoito annos haviam de decorrer antes que a Lua volvesse
a apresentar-se nas mesmas condições simultaneas de zenith e perigeo.

O tempo estava magnifico; apesar da proximidade do inverno, o sol resplandecia e banhava com seus radiantes effluvios aquella mesma Terra que tres dos habitantes d'ella íam abandonar em troca de um mundo novo.

Quanta gente mal dormiu durante a noite que precedeu aquelle dia com tanta impaciencia desejado! Quantos peitos opprimidos pelo pesado fardo da anciedade! Todos os corações palpitaram de inquietação, excepto o coração de Miguel Ardan. Este personagem impassivel andava de cá para lá com o seu ar habitual de quem tem muitos affazeres, mas nada denunciava n'elle preoccupação insolita. Dormira a somno solto, como dormia Turenne antes da batalha, encostado ao reparo de um canhão. Desde pela manhã innumeravel multidão cobria as planicies que se estendem a perder de vista em torno de Stone's-Hill.

De quarto em quarto de hora chegava pela via ferrea de Tampa-Town um comboio carregado de novos curiosos; em breve espaço assumiu aquella emigração proporções fabulosas; segundo a estatistica do Tampa-Town Observer, pisaram, n'aquelle dia memoravel, o solo da Florida cinco milhões de espectadores.

Havia já um mez que a maior parte d'aquella multidão acampava em volta do recinto, dando começo á fundação de uma cidade que depois se chamou Ardan's-Town. A planicie estava coberta de abarracamentos, cabanas, choupanas e tendas, habitações ephemeras que davam guarida a uma população bastantemente numerosa para causar inveja ás maiores cidades da Europa.

Ali tinham representantes todos os povos da Terra, fallavam-se ali a um tempo todos os dialectos do mundo. Dir-se-ía que reinava lá a confusão das linguas como nos tempos biblicos da torre de Babel. Ali se confundiam em absoluta igualdade as diversas classes da sociedade americana. Banqueiros, lavradores, maritimos, moços de recados, corretores, cultivadores de algodão, negociantes, barqueiros, magistrados, tudo ali se acotovelava com sem cerimonia primitiva. Fraternisavam os creoulos da Luiziania com os fazendeiros da Indiana; os gentlemen do Kentucky e do Tenessee, os virginienses elegantes e altivos mettiam conversa com os caçadores semi-selvagens dos Lagos, e com os contratadores de gado de Cincinnati. Usavam na cabeça chapéu de castor branco de aba larga ou o classico panamá, vestiam calça de guinguamp azul, das fabricas de Opelousas, envolviam o corpo nas dobras de elegantes blusas de cotim cru, e os pés em botins de cores brilhantes, trazendo em exposição extravagantes bofes de fina cambraia, e fazendo scintillar nos peitos das camisas, nos punhos, nas gravatas, nos dez dedos, e até nas orelhas, um sortimento completo de anneis, cadeias, argolas e breloques, cujo mau gosto corria parelhas com o subido preço. Outras tantas mulheres, creanças e creados, em trajes não menos opulentos acompanhavam, seguiam, precediam ou rodeiavam aquelles maridos, paes ou amos, que mais pareciam chefes de tribu cercados das innumeraveis familias. Era cousa digna de ver-se aquella gente toda ás horas de refeição deitar-se ás iguarias peculiares dos Estados Unidos e devorar, com appetite ameaçador para o abastecimento de viveres da Florida, alimentos que causariam repugnância a qualquer estomago europeu, taes como rãs de fricassé, macacos estufados, fish-chowder[95], sariguêa assada, opossum ainda em sangue, ou racoon na grelha.

Mas em compensação tambem, que variada serie de licores e de bebidas para facilitar a digestão d'aquelles indigestos alimentos! Que gritos excitantes, que vociferações convidativas echoavam nos bar-rooms ou nas casas de pasto profusamente adornadas de copos, cangirões, frascos, garrafas brancas e pretas de fórmas inverosimeis, de almofarizes para pisar o assucar, e de mólhos de palha!

«Aqui ha o julepe de hortelã!» gritava o dono de um estabelecimento em tom retumbante.

--Prompta! a sangaree de vinho de Bordéus! replicava outro em voz de pipia.

--E o gin-sling, repetia o segundo.

--E o cocktail! e brandy-smash! gritava o primeiro.

--«Quem quer provar do verdadeiro mint-julep, á ultima moda?» gritavam alguns destros vendedores, fazendo passar com rapidez de um para outro copo, como qualquer prestidigitador faria a uma noz muscada, o assucar, o limão, a hortelã verde, o gêlo partido, a agua, o cognac e o ananás de que se compõe aquelle refresco.

Habitualmente, repetiam-se e cruzavam-se no ar, produzindo infernal barulho, aquelles incitamentos dirigidos ás guellas seccas pela acção abrasadora das especiarias. Mas n'aquelle dia, no primeiro de dezembro, eram raros os gritos. Tambem bem poderiam os vendedores enrouquecer a provocar os freguezes, que todos os seus esforços seriam baldados. Ninguem pensava em comer nem beber; quantos espectadores circulavam por entre a multidão, que ás quatro horas da tarde ainda nem tinham comido o seu lunch do costume! Symptoma ainda mais significativo, a paixão violenta dos americanos pelo jogo fôra vencida pela emoção. Quem visse os paulitos do tempins deitados no chão, os dados do creps a dormir nos copos, a roleta immovel, o cribbage abandonado, as cartas do whist, do vinte e um, do rouge et noire, do monte e do faro socegadamente fechadas em seus envolucros intactos, logo comprehendia que o acontecimento do dia absorvêra qualquer outra necessidade, e não deixára logar para distracções.

Até á noite correu pela multidão anhelante uma agitação surda, sem clamores, como a que precede as grandes catastrophes. Dominava os espiritos uma ancia indescriptivel, um torpor pesado, um sentimento indefinivel que opprimia o coração. O que todos desejavam era que «já estivesse tudo acabado».

Entretanto, por volta das sete horas, dissipou-se repentinamente aquelle pesado silencio. Nascia então a Lua no horisonte, e muitos milhões de hurrahs lhe saudaram a apparição. Era exacta ao rendez-vous.

Subiram os clamores até aos céus, rebentaram applausos de todos os lados, e a loura Phoebéa brilhava serena no céu admiravel acariciando com os mais affectuosos de seus raios a multidão innebriada.

N'aquelle momento appareceram os tres intrepidos viajantes. Ao vê-los, redobraram em intensidade os clamores. Unanimemente, instantaneamente, soltou-se de todos aquelles peitos anhelantes a canção nacional dos Estados Unidos, e o Yankee doodle, repetido em côro por cinco milhões de cantores, ergueu-se como uma tempestade sonora até ao extremo limite da atmosphera.

Depois, passado aquelle primeiro e irresistivel arranco de enthusiasmo, emmudeceu o hymno, extinguiram-se pouco e pouco as derradeiras harmonias, os echos perderam-se no espaço, e vagueou por sobre a multidão tão fundamente impressionada um rumorejar silencioso. No entretanto, o francez e os dois companheiros tinham transposto o recinto reservado em torno do qual se apertava a multidão immensa. Acompanhavam-nos os socios do Gun-Club e as deputações enviadas pelos differentes observatorios europeus.

Barbicane ia frio e sereno e dava tranquillamente as ultimas ordens. Nicholl, de beiços apertados e mãos encruzadas atrás das costas, caminhava com passo firme e pausado.

Miguel Ardan, sempre despreoccupado, em traje de perfeito viajante, polainas de coiro nos pés, bolsa de viagem a tiracolo, mochilla ás costas, a nadar dentro do amplo fato de velludo castanho, de charuto na bôca, distribuia na passagem cordeaes apertos de mão com prodigalidade de principe. Prosa e alegria nunca lhe faltavam; ria, chalaceava e fazia ao digno J.-T. Maston partidas de garoto, n'uma palavra mostrava-se «francez», e, o que peior é, «parisiense» até ao ultimo segundo.

Soaram dez horas. Era chegado o momento de tomar logar dentro do projectil, porque a manobra necessaria para descer, o aparafusar da chapa-tampa, e a safa dos guindastes e andaimes que pendiam dentro das fauces da Columbiada, sempre haviam de levar ainda algum tempo. Barbicane regulára o seu chronometro, com erro inferior a um decimo de segundo, pelo do engenheiro Murchison, encarregado de dar fogo á polvora, por meio da faísca electrica; d'esta maneira os viajantes podiam, encerrados dentro do projectil, seguir com os olhos o ponteiro impassivel que havia de marcar o instante exacto da partida.

Chegára o momento das despedidas. Foi uma scena tocante. Miguel Ardan, apesar de toda a sua febril alegria, sentiu-se commovido. J.-T. Maston lográra encontrar sob as aridas palpebras uma velha lagrima que estava como de reserva para aquella occasião, e que o bom do secretario verteu na fronte do seu caro e estimavel presidente.

«E se eu tambem fosse? disse elle, ainda estâmos a tempo!

--É impossível, meu velho Maston», respondeu Barbicane.

Poucos instantes depois, estavam os três companheiros de viagem installados no projectil, cuja chapa-porta tinham aparafusado pela parte de dentro, e abria-se livremente para o céu, inteiramente desembaraçada a bôca da Columbiada.

Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan estavam definitivamente entaipados no wagon de metal.

Quem poderia pintar a anciedade universal, que então attingíra ao seu paroxysmo?

A Lua ía caminhando n'um firmamento de limpida pureza, e apagando na passagem os lumes scintillantes das estrellas; percorriam aquelle momento a constellação dos Gemeos e estava a igual distancia do horisonte e do zenith. Para todos era facil de comprehender que a pontaria era feita adiante do alvo, como a faz o caçador que aponta adiante da lebre que quer ferir.

Pesava por sobre aquella scena toda um silencio atterrador. Nem um sopro de vento na terra! Nem um suspiro de tanto peito. Nem os corações ousavam palpitar. Os olhos fixavam-se todos como que assustados nas fauces abertas da Columbiada. Murchison seguia com os olhos o ponteiro do chronometro. Faltavam apenas quarenta segundos para soar o instante da partida. Cada segundo parecia um seculo.

Ao bater do vigesimo segundo tudo estremeceu; é que accudíra ao pensamento d'aquella multidão que tambem os audaciosos viajantes encerrados no projectil contavam aquelles segundos terriveis! Soltaram-se então gritos isolados que diziam:

«Trinta e cinco! trinta e seis! trinta e sete! trinta e oito! trinta e nove! quarenta! Fogo!!!»

No mesmo instante, Murchison, carregando com o dedo no interruptor do apparelho, restabeleceu a corrente electrica e lançou a faísca para o fundo da Columbiada.

Instantaneamente produziu-se uma detonação horrorosa, inaudita, sobrehumana, de que cousa alguma poderia dar idéa, nem o ribombar do trovão, nem o estampido das erupções. Das entranhas do solo, como de uma cratera, surgiu um jacto immenso de fogo. A terra tremeu e abriu-se, e apenas um ou outro espectador pôde por instantes entrever o projectil que fendia victoriosamente os ares envolto em chammejantes vapores.



CAPITULO XXVII

CÉU ENCOBERTO


No momento em que se ergueu para os céus, até prodigiosa altura, o jacto incandescente, a effusão de labaredas illuminou a Florida inteira; por inapreciaveis instantes, tornou-se a noite em claro dia n'uma extensão consideravel de territorio. Aquelle immenso penacho de fogo viu-se a cem milhas de distancia no mar, tanto no Atlantico como no golpho, e mais de um capitão de navio notou no diario de bordo a apparição d'aquelle gigantesco meteoro.

A detonação da Columbiada foi acompanhada de um verdadeiro tremor de terra. A Florida sentiu-se abalada até ás entranhas. Os gazes da polvora, dilatados pelo calor, repelliram com violencia incomparavel as camadas atmosphericas, e aquelle furacão artificial, cem vezes mais rapido que o furacão das tempestades, passou como um cyclone através dos ares.

Nem um só espectador ficou de pé; homens, mulheres, creanças, todos foram deitados ao chão, como espigas pela borrasca; houve um inexprimivel tumulto, e grande numero de pessoas que ficaram gravemente feridas. J.-T. Maston, que de encontro a todos os dictames da prudencia estava perto de mais, foi arremessado a vinte toezas de distancia, e passou por sobre as cabeças dos seus concidadãos como uma bala.

Trezentas mil pessoas ficaram por alguns momentos surdas, e como que tocadas de estupor.

A corrente atmospherica depois de ter derrubado os abarracamentos, de ter virado de pernas ao ar cabanas, de ter desarreigado
arvores, n'um raio de vinte milhas, de ter impellido os comboios do caminho de ferro até Tampa, caiu sobre a cidade como uma avalanche, destruindo um cento de casas, entre outras a igreja de Saint-Mary, e o novo edificio da Bolsa, que abriu fendas em toda a sua extensão. Algumas das embarcações surtas no porto, abalroando umas de encontro ás outras, foram a pique, e uns dez navios fundeados no molhe foram até á costa, partidas as amarras como fios de algodão.

Mas o circulo das devastações estendeu-se muito mais ao largo, ainda alem dos limites dos Estados Unidos. O effeito da repercussão, auxiliado pelos ventos de oeste, fez-se sentir no Atlantico a mais de trezentas milhas das praias da America. Arremessou-se por sobre os navios com inaudita violencia uma tempestade artificial, uma tempestade inesperada, que nem o almirante Fitz-Roy podéra prever; muitas embarcações envolvidas n'aquelles horrorosos turbilhões, sem tempo sequer para colher panno, sossobraram a panno largo, entre outros o Childe-Harold, de Liverpool, catastrophe esta muito para lamentar, que deu origem a recriminações violentas por parte da Inglaterra.

Finalmente, para tudo relatar, aindaque o facto não offereça maior garantia do que a affirmação de alguns indigenas, asseguram os habitantes da Goréa e de Serra Leôa ter ouvido, meia hora depois da partida do projectil, um abalo surdo, derradeiro fremito das ondas sonoras, que depois de terem atravessado o Atlantico, vinham morrer nas plagas africanas.

Mas volvâmos á Florida. Passados os primeiros instantes do tumulto despertaram os surdos, os feridos, emfim a multidão inteira, e ergueram-se até aos céus clamores freneticos de: hurrah por Ardan! hurrah por Barbicane! hurrah por Nicholl! Milhões de homens de ventas para o ar, armados de telescopios, de lunetas, de oculos de alcance, interrogavam o espaço, esquecidos de contusões e emoções, para se occuparem exclusivamente do projectil. Mas debalde pesquisavam, que o projectil já não podia ver-se, e força era resignar-se a esperar pelos telegrammas de Long's-Peak.



Effeito da detonação (pag. 243).


O director do observatorio de Cambridge[96] estava no seu posto, que a elle, astronomo habil e perseverante, é que tinham sido confiados os trabalhos de observação. Porém um phenomeno imprevisto, aliás facil de prever, e contra o qual nada havia a fazer, veiu dentro em pouco submetter a dura prova a impaciencia publica.



O director estava no seu posto (pag. 245).


O tempo até ali tão bello, mudou do repente, o céu de subito toldado cobriu-se de nuvens. Nem podia deixar de assim succeder, depois da terrivel deslocação das camadas atmosphericas e da dispersão de tão enorme quantidade de vapores, producto da deflagração de quatrocentas mil libras de pyroxylo.

A ordem natural fôra completamente perturbada. Nem é cousa que cause admiração, visto como, nos combates navaes, por vezes se têem observado repentinas modificações do estado atmospherico, exclusivamente causadas pelas descargas de artilheria.

No dia seguinte surgiu o sol de um horisonte carregado de espessas nuvens, pesado e impenetravel véu estendido entre o céu e a terra, e que por desgraça alcançava até ás regiões das montanhas Penhascosas. Foi uma fatalidade. Ergueu-se de todos os cantos do globo um concerto de reclamações. A natureza porém pouco se commovia; decididamente já que os homens tinham perturbado a atmosphera com a detonação, justo era que lhe soffressem as consequencias.

No decurso do primeiro dia todos diligenceavam penetrar o opaco véu de nuvens; baldados esforços! Deve tambem notar-se que todos se enganavam levantando os olhos para o céu, porque em consequencia do movimento diurno do globo, o projectil corria n'aquelle momento pela linha dos antipodas. Fosse como fosse, quando a Lua volveu acima do horisonte, envolvida como estava a Terra em noite impenetravel e profunda, foi impossivel distinguir o astro das noites; era caso para dizer que a Lua de proposito se furtava ás vistas dos temerarios que lhe tinham atirado.

Consequentemente não havia possibilidade de observação, e os despachos de Long's-Peak não fizeram mais do que vir confirmar aquelle desagradavel contratempo.

Entretanto, se é que a experiencia lográra feliz exito, os viajantes que tinham partido no 1.º de dezembro ás dez horas quarenta e seis minutos e quarenta segundos da tarde, deviam chegar no dia 4 á meia noite, e portanto até áquella epocha, e visto como, por fim de contas, sempre havia de ser muito difficil observar em taes condições corpo tão pequeno como o obuz, todos se mostraram pacientes sem grande alarido.

A 4 de dezembro, das oito horas da tarde até á meia noite devia ser possivel seguir o rasto do projectil, que devia apparecer qual ponto negro no disco brilhante da Lua. Mas o céu conservou-se encoberto sem piedade, facto que levou a exasperação publica ao paroxysmo. Chegaram até a injuriar a Lua, só porque se não mostrava. Triste compensação das cousas d'este mundo!

J.-T. Maston, desesperado, partiu para Long's-Peak. Desejava observar por seus proprios olhos. Não lhe restava duvida de que os amigos deviam ter chegado ao termo da viagem. E tambem a ninguem constava que o projectil tivesse tornado a caír em qualquer ponto das ilhas ou dos continentes terrestres, e J.-T. Maston não queria admittir nem por instantes a possibilidade da quéda nos oceanos que cobrem as tres quartas partes da extensão do globo terraqueo.

No dia 5, tempo, o mesmo. Os grandes telescopios do velho mundo, o de Herschell, o de Rosse, o de Foucault estavam invariavelmente apontados para o astro das noites, porque o tempo na Europa estava exactamente n'aquella occasião magnifico; mas o pouco alcance relativo de taes instrumentos, impedia qualquer observação util.

No dia 6, tempo, o mesmo. Mordiam-se de impaciencia as tres quartas partes do globo. Chegaram a propor-se os meios mais insensatos para dissipar as nuvens accumuladas no ar.

No dia 7, pareceu que o estado do céu se modificava um tanto. Renasceu a esperança, mas não durou por muito tempo; á noite, já as nuvens de novo acastelladas defendiam a abobada estrellada contra todas as inspecções.

O caso então tornou-se serio. Effectivamente no dia 11, ás nove horas e onze minutos da manhã devia a Lua entrar no ultimo quarto. Passado esse momento havia de ir declinando, e aindaque o céu limpasse diminuiriam notavelmente as probabilidades de observação; com effeito a Lua havia de mostrar então uma parte sempre decrescente do disco, até tornar-se em Lua nova, isto é, até que nascesse e se pozesse simultaneamente com o Sol, cujos raios a tornariam absolutamente invisivel. Seria portanto necessario esperar até 3 de janeiro até ao meio dia e quarenta minutos para que voltasse a Lua cheia, e se podessem recomeçar as observações.

Os jornaes publicavam estas reflexões com mil commentarios, e não occultavam ao publico, que era necessario armar-se de angelica paciencia.

No dia 8, nada. No dia 9 o sol appareceu por um instante como para zombar dos americanos. Cobriram-no de vaias, e offendido, certamente com tal acolhimento, mostrou-se avaro de seus raios.

No dia 10, nada de mudança. J.-T. Maston ia enlouquecendo, chegou a haver suas apprehensões em relação ao cerebro daquelle estimavel cavalheiro, tão bem conservado até então, pelo seu craneo de gutta-percha.

No dia 11 porém desencadeou-se na atmosphera uma d'aquellas horrorosas tempestades privativas das regiões inter-tropicaes. Varreram fortes ventaneiras de leste as nuvens ha tanto tempo encastelladas, e á noite o disco meio corroido do astro das noites ostentou-se magestoso por entre as limpidas constellações do céu.



CAPITULO XXVIII

UM ASTRO NOVO


N'aquella mesma noite, a palpitante nova com tanta impaciencia esperada rebentou como um raio nos Estados da União, e d'ali correndo através do oceano, percorreu todos os fios telegraphicos do globo. O projectil fôra visto, graças ao gigantesco reflector de Long's-Peak.

Eis a nota redigida pelo director do observatorio de Cambridge, que contém as conclusões scientificas da grande experiencia do Gun-Club.

«Long's-Peak, 12 de dezembro.--Aos ex.mos srs. membros do pessoal technico do observatorio de Cambridge.

«O projectil arremessado pela Columbiada de Stone's-Hill foi visto pelos srs. Belfast e J.-T. Maston, no dia 12 de dezembro, ás oito horas e quarenta e sete minutos da tarde, já a Lua entrára no ultimo quarto.

«O projectil não deu no alvo, passou-lhe ao lado, mas todavia bastantemente proximo para ficar retido pela attracção lunar.

«Chegado ali, transformou-se-lhe o movimento rectilineo em movimento circular de rapidez vertiginosa, e actualmente percorre uma orbita elliptica em volta da Lua, da qual se tornou verdadeiro satellite.

«Os elementos do novo astro não poderam ainda determinar-se. Nem é conhecida a sua velocidade de translação, nem a de rotação. A distancia a que está da superficie da Lua, póde avaliar-se em duas mil oitocentas e trinta e tres milhas approximadamente.

«N'estes termos, uma de duas hypotheses póde realisar-se, que ha de ter por consequencia modificação no actual estado de cousas.

«Ou vencerá a attracção da Lua, e n'este caso chegarão os viajantes ao termo da sua viagem;

«Ou o projectil mantido n'uma ordem immutavel, gravitará até final dos seculos em volta do disco lunar.

«É o que nos hão de dizer um dia as observações; até agora porém, a tentativa do Gun-Club não colheu outro resultado senão enriquecer com um astro novo o nosso systema solar.--J. T. Belfast

Quantos problemas surgiram d'esta inesperada solução! Que situação cheia de mysterios reservava o futuro ás investigações da sciencia! Graças á coragem e á dedicação de tres homens, aquella empreza apparentemente assás futil, de arremessar uma bala á Lua, acabava de ter um resultado immenso, e cujas consequencias eram incalculaveis. Os viajantes encerrados no novo satellite, se não tinham realisado o seu fim, faziam pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em torno do astro das noites, cujos mysterios o olho do homem ía pela vez primeira penetrar. Os nomes de Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan devem portanto para todo o sempre ser celebrados nos fastos da astronomia, porque estes ousados exploradores, avidos de alargar o circulo dos conhecimentos humanos, lançaram-se audaciosamente através do espaço, e jogaram a vida na mais notavel tentativa dos tempos modernos.

Como quer que fosse, logoque foi do dominio publico a nota de Long's-Peak, apossou-se do universo inteiro um sentimento de surpreza e de espanto. Acaso seria possivel prestar auxilio áquelles ousados habitantes da Terra? Não, por certo, que se tinham collocado fóra da humanidade, logo que transpozeram os limites impostos por Deus ás creaturas terrestres. Ar podiam elles obte-lo pelo espaço de dois mezes. Viveres, levavam-n'os para um anno. Mas depois?... Ao formular-se tal pergunta palpitavam até os corações mais insensiveis.

Só havia um homem, um só, que não podia admittir que a situação fosse para desesperar. Um só tinha confiança, e era esse o amigo dedicado dos tristes, e tanto como elles audaz e resoluto, era o estimavel J.-T. Maston.

E tambem não os largava de olho. Assentára definitivamente os penates no posto de Long's-Peak, onde tinha por unico horisonte o espelho do immenso reflector. Logoque a Lua surgia acima do horisonte, fixava-a no campo do telescopio e não a perdia de vista nem um momento, seguindo-a com assiduidade na sua marcha através dos espaços estellares; observava com eterna paciencia a passagem do projectil pelo disco de prata; na realidade podia dizer-se que o estimavel secretario estava em perpetua communicação com os tres amigos, que ainda, um dia esperava tornar a ver.

«Havemos de nos corresponder com elles, dizia a quem queria ouvi-lo, logoque as circumstancias o permittam. Havemos de ter novidades de lá, e elles tambem as hão de ter de cá! E demais, eu conheço-os, são homens engenhosos. Juntos os tres, levaram comsigo para o espaço todos os recursos da arte, da sciencia e da industria. Com taes elementos faz-se tudo quanto se quer. Hão de saír-se da difficuldade, e senão veremos!»


FIM DE «DA TERRA Á LUA».



INDICE DOS CAPITULOS


Capitulos Pag.
I O Gun-Club 5
II Communicação do presidente Barbicane 16
III Effeitos da communicação Barbicane 27
IV Resposta do observatorio de Cambridge 34
V Romance da Lua 40
VI O que não é possivel ignorar, e o que já não é permittido acreditar nos Estados Unidos 49
VII Hymno da bala 55
VIII Historia do canhão 68
IX A questão da polvora 76
X Um inimigo por vinte e cinco milhões de amigos 86
XI A Florida e o Texas 95
XII Urbi et Orbi 103
XIII Stone's-Hill 112
XIV O alvião e a trolha 122
XV Festa da fundição 132
XVI A Columbiada 137
XVII Um despacho telegraphico 147
XVIII O passageiro do Atlanta 148
XIX Um meeting 161
XX Ataque e replica 174
XXI Como um francez arranja uma pendencia de honra 186
XXII O novo cidadão dos Estados Unidos 198
XXIII O wagon-projectil 207
XXIV O telescopio das montanhas penhascosas 217
XXV Ultimos pormenores 226
XXVI Fogo! 235
XXVII Céu encoberto 242
XXVIII Um astro novo 249


Notas:


[1] Escola militar dos Estados Unidos.

[2] Papalvo.

[3] Litteralmente, «club-canhão». Pelo sentido, club dos artilheiros.

[4] Quinhentos kilogrammas.

[5] Cada milha vale 1:609 metros e 31 centimetros. Sete milhas valem approximadamente tres leguas kilometricas.

[6] O jornal abolicionista mais enthusiasta dos Estados Unidos.

[7] Navalha de folha larga.

[8] Governo de si proprio.

[9] Administradores da cidade eleitos pelo povo, vereadores.

[10] Cadeiras de balouço, muito usadas nos Estados Unidos.

[11] De σελήνη (seléne), palavra grega, que significa Lua.

[12] A jarda vale approximadamente 91 centimetros.

[13] Este folheto foi publicado em França pelo republicano Laviron, morto no assedio de Roma em 1849.

[14] Habitantes da Lua.

[15] Approximadamente 11:000 metros.

[16] Mistura de rhum, sumo de laranja, assucar, canella e noz moscada. É uma bebida de côr amarellada.

[17] Bebida horrorosa do povo mais baixo; em inglez litteralmente: thoroug knoch me down.

[18] Cognome da Nova Orleans.

[19] Cem mil leguas. É a velocidade da electricidade.

[20] Guarda-vida (life-preserver). Arma de algibeira, formada de um feixe de barbas de baleia, ligadas n'uma das extremidades por uma bola de metal.

[21] Muita bulha para nada, comedia de Shakspeare.

[22] Como vos aprouver, outra comedia de Shakspeare.

[23] Está no texto a palavra expedient, que é absolutamente intraduzivel em portuguez.

[24] O zenith é o ponto da abobada celeste, situado na vertical que passa pelo observador.

[25] A nebulosa é, como se deprehende do texto, um aggregado de alguns milhões de soes ou estrellas que estão entre si a grandissimas distancias. Estes aggregados, por virtude da enorme distancia de cada uma das suas partes á terra, apparecem-nos á vista simples, como se fossem corpos continuos, nuvens, d'ahi lhes vem a denominação. Exemplo notavel de nebulosa é a via lactea ou estrada de S. Thiago, da qual o nosso sol é estrella componente.