Carta Regia pela qual El-Rei o Senhor Dom Pedro IV. Abdicou a Corôa Portugueza a favor da Sua Filha a Senhora Princeza Dona Maria da Gloria, dada no Rio de Janeiro a 2 de Maio de 1826[77].
Dom Pedro, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar, em Africa Senhor de Guiné, da Conquista, Navegação e Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India, etc. Faço saber a todos os Meus Subditos Portuguezes, que, sendo incompativel com os interesses do Imperio do Brazil, e os do Reino de Portugal, que Eu continue a ser Rei de Portugal, Algarves, e Seus Dominios, e Querendo facilitar aos ditos Reinos quanto em Mim couber: Hei por bem, de Meu motu proprio, e livre vontade, abdicar, e ceder de todos os indisputaveis, e inauferiveis Direitos que tenho á Corôa da Monarchia Portugueza, e á Soberania dos mesmos Reinos, na pessoa da Minha sobre todas muito amada, prezada, e querida Filha, a Princeza do Gram Pará Dona Maria da Gloria, para que Ella, como Sua Rainha Reinante, os governe independentes d'este Imperio, e pela Constituição que Eu Houve por bem decretar, dar e mandar jurar por Minha Carta de Lei de 29 de Abril do corrente anno; e outrosim Sou Servido declarar que a dita Minha Filha, Rainha Reinante de Portugal, não sahirá do Imperio do Brazil sem que Me conste officialmente que a Constituição foi jurada conforme Eu ordenei, e sem que os Esponsaes do Casamento, que Pretendo fazer-lhe com o Meu muito amado e prezado Irmão, o Infante Dom Miguel, estejão feitos, e o casamento concluido; e esta Minha Abdicação e Cessão não se verificará, se faltar qualquer d'estas duas condições. Pelo que Mando a todas as auctoridades, a que o conhecimento d'esta Minha Carta de Lei pertencer, a fação publicar para que conste a todos os Meus Subditos Portuguezes esta Minha deliberação. A Regencia desses Meus Reinos e Dominios, assim o tenha entendido e a faça imprimir, e publicar do modo mais authentico, para que se cumpra inteiramente o que n'ella se contém, e valerá por Carta passada pela Chancellaria, posto que por ella não ha de passar, sem embargo da Ordenação em contrario, que sómente para este effeito Hei por bem derogar, ficando aliás em seu vigor, não obstante a falta de referenda, e mais formalidades do estylo que igualmente Sou Servido dispensar.
Dada no Palacio do Rio de Janeiro, aos 2 dias do mez de Maio do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1826.—El-Rei, Com Guarda.
INDICE
I
| A Europa e o reconhecimento | 1 |
| Papel da esquadra na Independencia | 2 |
| Aberturas de reconciliação | 3 |
| Nomeação de Brant e Gameiro | 4 |
| Expedições armadas na Inglaterra | 5 |
| Encarregatura de negocios de Hyppolito | 6 |
| Instrucções a Gameiro | 7 |
| Posição diplomatica do Brazil | 9 |
| Justificação da Independencia | 10 |
| A mediação ingleza suggerida | 11 |
| A Austria igualmente medianeira | 12 |
| Canning resolve a questão da mediação ou bons officios | 13 |
| Canning como interventor a pedido | 14 |
| Benevolencia da Austria | 16 |
| Hostilidade da Santa Alliança. A Inglaterra e a Austria em pontos de vista diversos | 17 |
| Metternich e a Constituição Brazileir | 18 |
| A orientação franceza sob os Bourbons | 18 |
| Largos planos de Chateaubriand | 19 |
| A França no Novo Mundo | 20 |
| Inconvenientes para o partido da reacção de uma solução amigavel do conflicto luso-brazileiro | 22 |
| Embaraços creados pelo partido da reacção | 23 |
| Evolução liberal na Inglaterra e papel de Canning na politica européa | 24 |
| O conservantismo de Lord Castlereagh | 25 |
| Castlereagh e a emancipação do Novo Mundo | 26 |
| Metternich e o Foreign Office | 27 |
| Era Canning um democrata? | 28 |
| Canning e Jorge IV | 30 |
| Influencia de Canning no partido e sua independencia de opiniões | 32 |
| Perfil intellectual e politico de Canning | 33 |
| Pitt e Canning | 35 |
| A libertação da America Latina | 35 |
II
| O commercio britannico favoravel ao reconhecimento | 37 |
| Differente proceder de Canning para com Portugal e a Hespanha | 38 |
| Emancipação das colonias hespanholas da America | 39 |
| Emissarios inglezes na America Hespanhola | 43 |
| Offerecimento pela Grã Bretanha á Hespanha da sua mediação | 44 |
| A doutrina de Monroe e a parte que n'ella cabe a Canning | 45 |
| Opportunidade do reconhecimento da America Hespanhola | 46 |
| Influxo dos Estados Unidos | 47 |
| Canning e as monarchias absolutas | 48 |
| Condições de neutralidade no reconhecimento da America Hespanhola | 49 |
| Canning entre Portugal e Brazil | 50 |
| Interesse de Canning no reconhecimento do Imperio | 51 |
| Delongas de Portugal | 52 |
| Instabilidade politica no Brazil. Os Andradas e o sentimento liberal | 53 |
| Portugal invoca em Londres os antigos tratados de alliança | 54 |
| A Chancellaria Brazileira discute o appello portuguez | |
| Concessões do Imperio | 59 |
| A opinião publica e a suspensão das hostilidades | 61 |
| Solidez da Independencia | 62 |
| Conveniencia de transferir para Londres a séde das negociações | 63 |
| A personalidade do Imperador | 65 |
| A fibra militar | 67 |
| Os plenipotenciarios brazileiros | 67 |
| A questão do reconhecimento | 69 |
| A successão da corôa portugueza | 70 |
III
| Primeiros passos de Brant e Gameiro | 73 |
| Carta ao marquez de Palmella | 74 |
| Resposta do Governo Portuguez | 75 |
| Palmella no ministerio | 75 |
| Inclinações francezas de Subserra | 76 |
| Desafio de honrarias: o Santo Espirito e a Jarreteira | 77 |
| Tergiversação da Côrte de Lisboa | 78 |
| Attitude do ministro Villa Real na troca dos plenos poderes | 79 |
| A Abrilada | 80 |
| Pressa da Inglaterra com relação ao reconhecimento | 80 |
| A questão do trafico de escravos desde 1810 | 81 |
| O Brazil e a escravidão | 84 |
| A missão Amherst ao Rio de Janeiro. O trafico e José Bonifacio | 85 |
| Instrucções secretas de Brant e Gameiro sobre o trafico | 87 |
| A França e a Grã Bretanha na Peninsula Iberica | 90 |
| Partido tirado pelos politicos brazileiros das rivalidades internacionaes | 91 |
| Acção dos enviados brazileiros junto a Canning | 93 |
| Esboço de tratado formulado por Brant e Gameiro | 94 |
| Canning e a successão | 94 |
| Exigencias previas de Villa Real na primeira conferencia do Foreign Office | 94 |
| A suspensão das hostilidades | 95 |
| Expedição portugueza ao Rio de Janeiro | 95 |
| Segunda conferencia no Foreign Office. Canning assume a tarefa de redigir um projecto de tratado | 96 |
IV
| Fraqueza dos recursos militares do Reino. Papel glorioso da marinha nacional | 98 |
| As prezas de Lord Cochrane | 100 |
| Entrevista confidencial de Villa Real com os enviados brazileiros | 100 |
| Novas conferencias no Foreign Office. Má vontade da Austria. Juizo de Metternich sobre Canning | 102 |
| Projecto de tratado apresentado por George Canning | 103 |
| Insistencias de Villa Real e evasivas de Brant e Gameiro | 104 |
| Espirito de rebellião no Brazil | 105 |
| Aspecto moral da capital brazileira | 107 |
| Recusa para a transmissão do projecto Canning | 109 |
| Canning transmitte seu proprio projecto de tratado para Lisboa | 110 |
| Solicitude de Canning pelas negociações | 111 |
| Affazeres da Legação | 112 |
| Emprestimo brazileiro prejudicado pela revolução pernambucana de 1824. Esperanças portuguezas. Fuga de Manoel de Carvalho | 113 |
| Brant e Gameiro recebem novas instrucções. O armisticio e a successão ao throno portuguez | 116 |
| Pretenções portuguezas a suzerania. Vantagens commerciaes offerecidas pelo Brazil | 120 |
| Opposição portugueza. Idéas de Palmella. Sympathia de Canning | 122 |
| Contra-projecto portuguez | 123 |
| Esforços dos enviados brazileiros em favor da paz. Correspondencia entre Brant e Palmella | 125 |
| Observações da Chancellaria Brazileira ao projecto de Canning | 127 |
V
| Communicação official do contra-projecto. Preparativos de guerra | 130 |
| Relações commerciaes do Brazil com a Inglaterra. Opposição de Wellington e Eldon ao reconhecimento | 131 |
| A questão do pau brazil | 133 |
| Opposição da maioria do gabinete e do Rei ás idéas de Canning | 134 |
| Reconciliação do Rei com o seu Secretario de Estado | 136 |
| Influencía da Santa Alliança em Lisboa. Mudança benevola para com o Brazil na attitude da Austria. Intriga de Metternich | 138 |
| Cordialidade de relações entre Esterhazy e Canning. A Santa Alliança e o reconhecimento das republicas hespanholas | 139 |
| A Austria abandona Portugal. Palmella e Subserra mandam ao Rio um emissario secreto. O Imperador e as negociações clandestinas | 141 |
| Brant e Gameiro exploram o despacho do emissario. Brant preconiza uma guerra economica | 143 |
| O Brazil recusa declarar a cessação das hostilidades | 144 |
| Desavença entre Villa Real e os enviados brazileiros. Subsequente reconciliação | 145 |
| Desunião moral entre Portugal e Brazil. Razões d'este estado de espirito | 147 |
| O papel de D. Miguel. Palmella e Subserra | 150 |
| Resolução de Canning | 152 |
| Bons conselhos de Canning | 154 |
| O reconhecimento em França | 156 |
| Interesses britannicos na America Latina | 159 |
| Palmella e a Santa Alliança. Replica de Canning ao contra-projecto | 160 |
| Intrigas francezas em Lisboa. Hyde de Neuville | 162 |
| Linguagem de Canning para o Brazil | 163 |
| Circular do Governo Portuguez | 164 |
| Deliberação de Canning com relação ao reconhecimento das republicas hespanholas. Despeito de Brant e Gameiro | 166 |
| Jubilo dos nossos enviados. Missão de Sir Charles Stuart | 169 |
| Canning concilia a Austria. Brant e Gameiro rejeitam o contra-projecto | 173 |
| Natureza da missão de Sir Charles Stuart | 174 |
| Portugal perde a opportunidade de fazer o reconhecimento. Carta de Brant a D. Miguel de Mello | 176 |
| Politica pratica da Inglaterra. Dissimulações de Metternich | 177 |
| Urgencia do reconhecimento | 178 |
| Resposta de D. Miguel de Mello | 179 |
| Mudança radical em Metternich | 180 |
| Os adversarios de Canning na sua politica latino-americana. A Austria, a França e a Russia | 182 |
VI
| Sir William A' Court, embaixador em Lisboa | 187 |
| Chegada de Sir Charles Stuart a Lisboa. Inicio das negociações | 189 |
| Instrucções de Canning | 191 |
| As negociações e as potencias continentaes | 194 |
| O reconhecimento na Europa e na America Latina | 197 |
| A entrevista de Combe Wood | 198 |
| A Carta Regia. Partida de Sir Charles para o Rio de Janeiro | 199 |
| A Carta Regia julgada em Londres | 201 |
| A Inglaterra no caso de mallogro das negociações do Rio | 204 |
| Opiniões de Neumann | 205 |
| A missão Stuart e a nossa Secretaria de Estrangeiros | 207 |
| Partida de Brant para o Brazil. Gameiro e Palmella em Londres | 210 |
| Perfil de Palmella. Razões da sua popularidade em Londres | 212 |
| Palmella e a Independencia do Brazil | 215 |
| Palmella, a demissão de Subserra e a agitação de Hyde de Neuville | 218 |
VII
| Chegada de Sir Charles Stuart ao Brazil. Acolhimento imperial. Nomeação dos plenipotenciarios brazileiros | 223 |
| A situação do Imperio com relação a Buenos Ayres | 224 |
| A Inglaterra e a politica platina do Brazil | 226 |
| Idéas de Gameiro sobre a questão de Montevidéo | 228 |
| Buenos Ayres igualmente solicita a intervenção ingleza | 231 |
| As negociações no Rio de Janeiro | 232 |
| O tratado e convenção de 29 de Agosto de 1825 | 240 |
| Ratificação do Tratado e Convenção | 245 |
| Palmella e os tratados entre Portugal e Inglaterra | 245 |
| Sir Charles Stuart e o tratado de commercio com a Grã Bretanha | 247 |
VIII
| O tratado luso-brazileiro julgado em Londres | 249 |
| O tratado em Portugal | 251 |
| O titulo imperial | 252 |
| Critica do tratado | 253 |
| O tratado no Brazil | 254 |
| Defeza do tratado por Sir Charles Stuart | 256 |
| Satisfacção de Canning com o tratado | 258 |
| Os tratados com a Grã-Bretanha. Sua não ratificação | 260 |
| Motivos da não ratificação. Os favores commerciaes | 262 |
| O direito de busco | 263 |
| A conservatoria Ingleza | 266 |
| Os reus de alta traição | 267 |
| A publicação dos tratados | 268 |
| Canning e Sir Charles Stuart | 271 |
| O texto dos tratados | 273 |
| Desvantagens dos tratados | 277 |
| D. João VI, Imperador do Brazil | 279 |
| Recebimento de Itabayana | 281 |
IX
| O reconhecimento nas outras côrtes da Europa | 283 |
| A Austria | 283 |
| A França | 288 |
| A Santa Sé | 293 |
| O reconhecimento nas outras côrtes européas | 299 |
X
| Fallecimento de Canning. Sua individualidade | 306 |
| Appendice | 311 |