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A architectura religiosa na Edade Média

Chapter 48: CAPITULO QUINTO
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About This Book

Conjunto de ensaios que examina a formação e as funções da arquitectura religiosa na Idade Média, partindo de reflexões filosóficas sobre as noções de belo, bom e justo. Define três categorias de influências — a ambiental e climática, a histórica e social, e a pessoal do autor — e avalia como geografia e clima moldaram crenças e tipologias construtivas. Analisa a passagem do paganismo ao cristianismo e o impacto das invasões sobre práticas litúrgicas e formas edificadas, oferecendo leituras estéticas, simbólicas e sociais dos espaços sagrados e das suas transformações ao longo do período medieval.


MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal


No claustro principal póde dizer-se que toda a ornamentação se concentra tambem nos pontos onde era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos dos porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e no pequeno pavilhão do lavabo, que existe proximo do refeitorio.

Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por finos columnellos, são em geral magnificos. Apresentamos a gravura de dois arcos: um servindo de porta, outro de janela. Em ambos, principalmente, no segundo, ha vestigios e caracteres evidentes de renascença manuelina.

A porta e as janelas da casa do capitulo são excellentes. Na gravura do portico oriental do claustro podem distinguir-se com certa nitidez estes elementos. Do interior d'esta bella sala já falámos precedentemente.

O pequeno pavilhão da fonte, ou lavabo, é talvez o ponto do Mosteiro onde os architectos empregaram mais rica ornamentação, cujo caracter melhor se comprehende pela inspecção da respectiva gravura, o que não conseguiriamos em larga descripção.

Se da ornamentação das fachadas e do interior dos edificios passamos para a dos coroamentos, a lei da simplicidade e da harmonia não soffre excepção. Parecem guarnecidos de renda ingleza, disse-nos um dia alguem, expressando perfeitamente a impressão, que elles produzem, pela figura que melhor se adequava ás tendencias e aos habitos do proprio sexo.

De facto, os coroamentos dos edificios, formando grandes linhas horisontaes em diversos planos, são contornados por largas fachas rendilhadas, verdadeiras platibandas, em geral de espaço em espaço divididas por pilastras lisas, encimadas de pequenos pinaculos. Damos o desenho de um motivo assás frequente. O parapeito é guarnecido de um bello entrelaçado, onde predomina a flor de lyz; o corpo da platibanda, de evidentes quadrilobulos, assenta sobre uma cornija, sustentada por modilhões arqueados.

Este desenho póde considerar-se o leit-motiv da bella symphonia ornamental dos coroamentos dos edificios. Por toda a parte foi o fio conductor, que dirigiu e deu unidade á inspiração do architecto. As fórmas variam, de certo, um pouco; mas, quasi sem excepção, ha sempre em todas a acção e a reminiscencia do trecho inicial.

Além d'esta ornamentação nada mais têem hoje os edificios senão dois pinaculos mais elevados e a agulha, se tal nome merece o elegante e rendilhado corucheo da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a capella do fundador foi, tambem, coberta por outro corucheo mais consideravel, ignorando nós as rasões do seu desapparecimento. Julgamos que este importante elemento architectonico deve ser reconstruido, como o exige a linha geral da fachada do Mosteiro, que assim ficaria muito mais completa e majestosa[14].



MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal


As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos em planos não muito differentes, a ausencia quasi completa dos elementos verticaes de grande altura dão ao conjunto do Mosteiro uma fórma acastellada, muito caracteristica do ogival inglez, que manifesta fortemente, por exemplo, a Cathedral de York.

Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario fosse, da origem architectonica do monumento portuguez. A impressão é, sobretudo, bem definida vendo ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite clara de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito cresceria de intensidade, se o edificio ogival fosse construido em logar elevado, em vez de occupar um pequeno e fundo valle.

Não se supponha que esta impressão possa provir da elevação do monumento sobre as edificações proximas, ou do tom escuro da grande molle desenhando-se mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da noute. Bem maior e mais alta é a Cathedral de Sevilha, tambem desprovida de grandes e numerosos elementos verticaes, e o seu enorme contorno não produz egual impressão. Emquanto á Cathedral de Milão o effeito nocturno é surprehendente; mas de natureza bem diversa, diremos mais, perfeitamente caracteristica e propria d'aquelle admiravel colosso.

Sempre que nos foi possivel, não deixámos de ver os grandes monumentos nas semi-trevas da noite, ou á luz do luar. Não procuramos só o effeito poetico, ainda que esse é um dos fins das artes plasticas. A physionomia dos antigos monumentos toma na penumbra da noite uma grandeza especial; fala mais ao sentimento, que tambem é origem de idéas e excellente mnemonica.

Assim, a impressão sentimental do Mosteiro da Batalha, principalmente do claustro, á luz de um luar claro, não se oblitera da memoria; como jámais esquece o effeito d'esse gigante ogival de Milão, visto de longe á claridade suave do incomparavel luar de Italia.

Milão estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil terreno de alluvião, de que é formada quasi toda a Lombardia. Do coração da cidade irrompe a grande molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si, elevando-se, montanha de marmore branco, com as fórmas phantasticas e caprichosas de um enorme iceberg dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite o monumento parece velar o somno da cidade, protege-a e fala-lhe quando o enorme sino do relogio, collocado no alto da grande torre, marca solemnemente as horas com graves sons, fortes, avelludados e severos, que parece encherem o espaço entre os Alpes e os Apenninos.


MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal


Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir dizendo que o pobre monumento portuguez não possue ricos vitraes, essa ornamentação tão bella e caracteristica dos tempos medievaes. É certo que Mousinho de Albuquerque, a quem já nos referimos, começou a restauração methodica dos antigos vitraes, que na maior parte encontrou partidos. Este trabalho tem sido continuado com algum exito; mas bem merecia o monumento obra mais completa e perfeita.

Da ornamentação subsidiaria dos grandes monumentos religiosos, nada existe; nem um simples orgão, que daria á bella egreja esse mystico encanto da musica religiosa.

Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha não com a intenção de lhe fazer completa monographia, porque esse trabalho exigiria proporções na descripção, nos planos e nas gravuras bem superiores á do presente livro, mas com o simples fim de darmos, quanto nos foi possivel, exemplos nacionaes dos estylos architectonicos.

Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva e completamente em Portugal; tel-o-emos conseguido?...


MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte




CAPITULO QUINTO

RELAÇÃO DOS ARCHITECTOS E MESTRES



Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos mestres e architectos, que em differentes epocas dirigiram as obras do Mosteiro da Batalha; nomes citados em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar perdidos. Esta simples e incompleta enumeração poderá talvez servir para guiar futuras investigações sobre o Mosteiro da Batalha.

Affonso Domingues. Apparecia em documento de 1402, que o dava já por fallecido. Como a construcção começou em 1387, é muito provavel que fosse um dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto. Segundo a nossa opinião, expendida n'um dos anteriores capitulos, Affonso Domingues foi o primeiro vedor real das construcções.

Mestre Ouguet, Huet ou Huguet. Apparecia como testemunha, no citado documento de 1402. Depois, documentos de 1450 e 1451 davam-n'o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz affirma que bem póde ser este mestre o Aquete, de que falla a tradição. Raczynski concorda com esta opinião. Emquanto a nós, parece-nos que esta hypothese é forçada, porque o nome inglez sonicamente correspondente é Hewett e não Hacket. D. Duarte em 1433 fez doação a este mestre de umas casas, que ficavam perto do Mosteiro; portanto elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a casa doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida por baixo preço a ultima e bella janela antiga.

Martin Vasques. Apparecia em documentos de 1450 e 1451, dando-o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz colloca-o entre os successivos mestres do Mosteiro, desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo, ignoramos com que fundamento, que este mestre e o seguinte foram os constructores do segundo claustro, denominado de D. Affonso V.

Fernão de Evora. Era sobrinho do precedente mestre. Vinha mencionado em documentos de 1448 a 1473.

Mestre Guilherme. Por morte de Fernão d'Evora, foi nomeado mestre do Mosteiro por D. Affonso V em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Matheus Fernandes. Era mestre do Mosteiro, quando em 1480 D. Affonso V lhe tirou o cargo para o dar a João Rodrigues, cuja competencia declara superior.

O Sr. Sousa Viterbo pergunta se será outro Matheus Fernandes, alem dos dois seguintes, ou se o architecto, caído em desgraça, se rehabilitou depois? Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.

João Rodrigues. Nomeado em 1480 mestre do Mosteiro por destituição do antecedente. Deve notar-se que já em 1490 era mestre do Mosteiro o seguinte Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo, Diccionario).

João da Arruda. Em 1485, sendo mestre do Mosteiro, foi mandado a Beja por D. João II para avaliar certas propriedades. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Matheus Fernandes. Um documento de 1503 falava d'este mestre, dizendo: «o muito honrado Matheus Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na villa do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de obras do dito Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor.» Em documento de 1497 falava-se em Margarida Fernandes, sua filha, o que leva a crer que o pae já era mestre de obras do Mosteiro n'esse anno. Á entrada da egreja da Batalha, descendo os degraus da porta principal pode lêr-se ainda o seguinte epitaphio: «Aqui jaz Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor aos 10 dias de abril de 1515, ella levou-a...» A ultima data não foi gravada.

D'aqui se póde concluir que Matheus Fernandes foi mestre de obras do Mosteiro, desde o principio do reinado de D. Manuel até 1515; ora, como n'esse periodo a construcção das capellas imperfeitas foi muito activa, póde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe o respectivo plano. Sua mulher Isabel Guilhelme é provavelmente irmã ou filha de Guilhelme Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473, ou do precedente mestre Guilhelme, architecto.

Matheus Fernandes (filho). Succedeu ao pae em 1516. Em documento de 1525, apparecia o nome d'este mestre, dando-o vivo; logo não podia ser o precedente, devendo ser naturalmente seu filho. O nome d'este mestre não se encontrava em mais documento algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz conclue que foi afastado para outra obra.

Boutaca ou Boytaca. Apparecia em documento de 1509, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei; era tambem citado em documentos de 1512, 1514 e 1519. D. Francisco de S. Luiz dá-o como fallecido em 1528. Raczynski, sem citar auctoridades, affirma que este mestre italiano foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos em Belem. Varnhagen, em artigo publicado no «Panorama», de 9 de dezembro de 1843, diz que em documentos existentes na Torre do Tombo, descobriu que este mestre italiano Potassi foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o da Egreja da Conceição Velha de Lisboa.

Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal, cuja construcção começou n'esse anno. A este mesmo architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tença de 8$000 réis annuaes, a vencer depois do seu casamento.

Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente, ou pelo menos tendo propriedades, proximo do Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel Amriques. Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram um só individuo. Aconteceu, porém, que ha poucos annos se procedeu a obras de restauração na pequena Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante algum tempo serviu de freguezia á villa nascente; ora, subterradas no solo d'esta egreja, foram encontradas duas lapides tumulares, que veem lançar grande confusão nos trabalhos dos archeologos.

A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:

Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza d'El-Rei nosso Senhor e mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157...

O ultimo algarismo da data é illegivel.

Na outra lapide, encontrada junto á primeira, lê-se:

Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre Boutac. Falleceu em 23 d'Abril de 1522.

Assim, á primeira vista parece que este Boutac e sua mulher são os individuos, anteriormente citados. Mas para que isto seja possivel é necessario admittir que Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De facto, se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal em 1490 e morreu em 1570, hypothese mais favoravel, entre estas datas medeiam 80 annos. Ora, qual seria a edade do architecto, aliás estrangeiro, quando projectou tão grande obra?

Concedamos 20 annos a Boutac, se é o mesmo; viveu, pois, pelo menos, 100 annos. Como isto não é nada provavel, resta a hypothese de Boutac pae e filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres do mesmo nome Isabel Amriques, morrendo a a segunda 48 annos antes do marido!

O que nos parece singular, tambem, é a orthographia tumular do nome, duas vezes escripto. Se o c final foi cedilhado, o som é bem proximo de Potassi.

D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os mestres de artes ou officios desconhecidos; ora, é indiscutivel que foi architecto e tão importante que chegou—elle ou o filho?—a ser mestre de obras do reino.

João de Castilho. Varnhagen, no seu opusculo sobre o Mosteiro dos Jeronymos, em Belem, diz que João de Castilho foi nomeado para as obras do Mosteiro da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus Fernandes, filho, o que não nos parece exacto.

Miguel da Arruda. Em 25 de junho de 1533 foi nomeado por D. João III mestre do Mosteiro, pela renuncia d'este cargo dada por João de Castilho. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Dyonisio da Arruda. Sobrinho do precedente, a quem substituiu por sua morte. Foi nomeado por D. João III em 25 de outubro de 1563. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Antonio Gomes. Apparecia como mestre n'um documento de 1548; n'outro documento de 1551 era, apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as obras do Mosteiro eram muito pouco importantes n'esse tempo.

Antonio Mendes. Figurava em documento de 1578, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei, Nosso Senhor; na certidão da ciza, junta a este documento, lia-se: «Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei Nosso Senhor». D. Francisco de S. Luiz crê que era um simples titulo honorifico, dando apenas direito ao vencimento de mestre de obras.

Guilhelme Bellés ou Bellen. Apparecia em documentos de 1448, 1463 e 1473, como mestre vidraceiro. Este nome é estrangeiro, parecendo-nos de origem franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges foi sempre celebre pelos seus vitraes.

Mestre João. Apparecia como vidraceiro em documentos de 1489 e de 1528, tendo fallecido n'este anno ou no precedente.

Antonio Faca. Apparecia em varios documentos, como mestre vidraceiro, sendo o primeiro de 1532. Era já fallecido em 1543.

Antonio Faca (filho). Documentos de 1535 e 1538, demonstravam que o mestre precedente tinha um filho do mesmo nome, designado pelo moço. Como este nome apparecia em documentos de 1543, quando o anterior era já fallecido, devemos concluir que o filho succedeu ao pae como mestre vidraceiro. Era já fallecido em 1596.

Antonio Faca (neto). Apparecia em documentos de 1608, o que deixa presumir o parentesco apontado, Este appellido parece-nos ser estrangeiro, talvez italiano ou hespanhol.

Mestres de artes ou officios desconhecidos


Conjati. Documentos de 1428, 1431 e 1443.

Miguel. Documento de 1440.

Estaço, 1463. Contemporaneo de Fernão d'Evora.

Conrate, 1428.

Officiaes de algumas artes e officios


Estevam Gomes, pedreiro, mestre d'obras do Infante D. Pedro, 1428.

João Affonso, apparelhador, 1450.

Gil Eannes, imaginador, documentos de 1465.

Affonso Lopes, imaginador, documentos de 1534, 1544 e 1555.

Duarte Mendes, entalhador, documento de 1535.

Henrique Francez, entalhador, documento de 1535.

Pero Faca, entalhador, documentos de 1549 e 1561.

Francisco Faca, pintor, documentos de 1566.

Alvaro Morato, pintor, documentos de 1592.


Muitos d'estes dados são extrahidos da Memoria de D. Francisco de S. Luiz sobre o Mosteiro da Batalha. Os documentos foram, pois, compulsados por este escriptor, cuja auctoridade é incontestavel. Alguns provéem do Diccionario dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes, do Sr. Sousa Viterbo.



COLLOCAÇÃO DAS PHOTO-GRAVURAS


Entre pag.
1.ª Schema do uma basilica romana 48-49
2.ª Roma. Basilica de S. Paulo, fachada principal 54-55
3.ª Roma. Basilica de S. Paulo, fachada lateral 56-57
4.ª Roma. Basilica de S. Paulo, interior 58-59
5.ª Roma. Basilica de S. Lourenço, fachada 60-61
6.ª Roma. Basilica de S. Lourenço, interior 62-63
7.ª Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, exterior 68-69
8.ª Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, interior 72-73
9.ª Sé de Lisboa. Planta geral 148-149
10.ª Sé de Lisboa. Ruinas do terramoto de 1755 150-151
11.ª Sé de Lisboa. Fachada principal restaurada 152-153
12.ª Sé de Lisboa. Fachada lateral restaurada 164-165
13.ª Convento de Thomar. Fachada da egreja 202-203
14.ª Convento de Alcobaça. Fachada da egreja 212-213
15.ª Convento da Batalha. Vista geral 222-223
16.ª Convento da Batalha. Planta geral 248-249
17.ª Convento da Batalha. Córte longitudinal da egreja 258-259
18.ª Convento da Batalha. Córte transversal da egreja 260-261
19.ª Convento da Batalha. Córte do claustro principal 262-263
20.ª Convento da Batalha. Portico sul do claustro 264-265
21.ª Convento da Batalha. Fachada principal da egreja 266-267
22.ª Convento da Batalha. Portal do sul da egreja 268-269
23.ª Convento da Batalha. Janela do claustro principal 274-275
24.ª Convento da Batalha. Porta do claustro principal 276-277
25.ª Convento da Batalha. Portico oriental do claustro 278-279
26.ª Convento da Batalha. Fonte no claustro principal 280-281





Estas gravuras, excepto a do n.º 12—Fachada lateral da Sé de Lisboa, restaurada—são das officinas do Sr. Thomaz Bordallo. A do n.º 12, aliás uma das mais difficeis, é das officinas do Sr. Marinho. São, pois, todas nacionaes.



INDICE



Introducção VII


PARTE PRIMEIRA

Origens da architectura christã


Capitulo 1.º A lucta entre o paganismo e o christianismo 3
Capitulo 2.º Os tres primeiros seculos do christianismo 17
Capitulo 3.º As invasões dos barbaros 33


PARTE SEGUNDA

Os estylos christãos primitivos

V seculo ao X seculo


Capitulo 1.º Espirito e caracteres do Estylo-Latino 45
Capitulo 2.º Espirito e caracteres do Estylo-Byzantino 63
Capitulo 3.º Acção reciproca dos dois estylos christãos primitivos 81



PARTE TERCEIRA

Os estylos christãos definitivos

X seculo ao XV seculo


Capitulo 1.º Synthese social dos seculos XI e XII 101
Capitulo 2.º Espirito e caracteres do Estylo-Romanico 119
Capitulo 3.º A Sé Patriarchal de Lisboa e a sua restauração 141
Capitulo 4.º Synthese social do seculo XIII 167
Capitulo 5.º Espirito e caracteres do Estylo Ogival 181
Capitulo 6.º O Estylo Ogival entre nós 201



PARTE QUARTA

O Mosteiro de Santa Maria da Victoria


Capitulo 1.º Origens e construcção do mosteiro 223
Capitulo 2.º O estylo architectonico do mosteiro 233
Capitulo 3.º As epochas da construcção do mosteiro 249
Capitulo 4.º Descripção do mosteiro 259
Capitulo 5.º Relação dos architectos e dos mestres 281





Collocação das photo-gravuras 289


Notas:


[1] O seguinte curioso facto demonstra a lenta formação dos estylos architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyão esteve ameaçada pelos exercitos allemães, o Arcebispo Genouilhae fez a promessa de reedificar a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvière, existente n'uma montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada pela guerra. O milagre deu-se e o voto cumpriu-se; sendo elevada uma sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais bellos e extensos panoramas do mundo.

Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor, sonharam a formação de um novo estylo, em que o genio da arte classica se alliasse ao mysticismo dos estylos christãos n'uma unidade comprehensivel pelo espirito moderno. Aos constructores não faltava talento e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos, porque na egreja, aliás não muito grande, se dispenderam, segundo informações recebidas que não julgamos exageradas, mais de 9:000 contos. Pois a tentativa falhou por completo!

É extraordinario o effeito singular, até desagradavel, que produziu no nosso espirito aquella formidavel mistura de elementos heterogeneos, constituindo, sem a menor duvida, um montão de fabulosas riquezas e de preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!

Se nos fosse permittida a expressão, diriamos que julgámos assistir a uma mascarada de estylos, porque, havendo quasi todos, uns tomam as feições dos outros, conservando algumas das respectivas linhas e qualidades fundamentaes. Ha de tudo, até o boi Apis ornamentando uma porta interior em Estylo Egypcio!

Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos são admiraveis de concepção e de execução. O caso é analysal-os separados uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos arcos de fórma ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas as proporções e modulos foram desprezados. Por cima d'esta arcada rasga-se uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas são oito anjos em posições mysticas, perfeitamente eguaes e com solemnidade byzantina. O edificio é coroado por frontão tambem de contorno classico, cujo tympano é preenchido por altos relevos de caracter byzantino. Esta fachada é ladeada por duas torres, que têem ares de romanicas, não sendo afinal cousa alguma!

No interior reina egual confusão de estylos, e, para de tudo haver, grandes superficies das paredes são revestidas por pannos tecidos ornamentaes.

Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!

Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral de S. João, um primor ogival como é regra em quasi todas as magnificas egrejas de Lyão. E todavia o Estylo Ogival fez-se com elementos de variados e successivos estylos!

A differença está em que a acção dos seculos em lenta evolução combinou os elementos d'esses estylos, adoçou-lhes as antinomias e esbateu-lhe as linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente n'um producto harmonico, como a fusão liga metaes differentes n'uma constituição physica, onde todos contribuem para um composto homogeneo. Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se parece com os antecessores, mantendo a propria originalidade.

Os novos estylos precisam de incubação no seio dos seculos.

Este exemplo da Egreja de Fourvière deve ser citado e apreciado na Philosophia e na Historia da Arte.

[2] Durante os trabalhos de restauração da porta lateral foram descobertas umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores á construcção do edificio, porque estão cortadas pelos alicerces d'elle. Estas galerias têem cêrca de 1m,5 de altura por 0m,80 de largura, sendo revestidas de silharia e abobadadas em arco circular com pedras regulares. As que percorremos parece virem do lado do Castello de S. Jorge, atravessam a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios annexos á fachada lateral-norte, até ao liminar da porta lateral da egreja. Ahi a galeria bifurca-se, lançando em curva um ramo para dentro da egreja e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se encosta a Capella de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo está cortado pelo carneiro, onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D. Rodrigo da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas ambos continuam manifestamente para alem d'estes pontos.

Será facil encontrar esta galeria fazendo no solo do edificio annexo, que fica á esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte parallelo á face interna da parede occidental; a pequena altura encontrar-se-á a galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.

Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou aqueducto, é de construcção romana e póde ser um caminho secreto, que ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade, junto ás margens do Tejo.

Parece-nos muito provavel que os tão falados subterraneos da Sé de Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.


[3] As principaes dimensões da egreja são as seguintes:


metros
Comprimento da porta ao fim da capella-mór 59,20
Comprimento do transepto 35,00
Largura total das tres naves 21,90
{ Altura 18,70
Nave central {
{ Largura 9,60
{ Altura 9,20
Nave lateral (duas eguaes) {
{ Largura 6,25
{ Altura 18,70
Transepto {
{ Largura 7,80
{ Comprimento 17,80
Capella-mór { Altura 15,65
{ Largura 11,40

Os comprimentos e as larguras referem-se ás superficies interiores das paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das abobadas.

[4] Este famoso arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras Publicas, produz 10$000 réis annuaes ao Thesouro!

[5] O convento tem servido de moradia a algumas familias, cujos fogões de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos e naturalmente pelas portas inuteis. É provavel que o uso continue com os effeitos previstos.

[6] É versão geral por 40$000 réis.

[7] A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem de objectos nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje não só a administração publica os defende, como os repatria, comprando-os quando é possivel. As gerações actuaes emendam a ignorancia e os erros das gerações passadas.

[8] Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o esquecimento de alguns monumentos dignos de menção. Não os conhecemos todos, e dos que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim, haja desculpa para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos maia larga informação.

Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo e seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem o poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer todo o paiz, estudando a distribuição dos seus monumentos e o valor architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa, não nos permittiu em tempo proprio a realisação d'este desejo, se além d'isso não existissem outras difficuldades obvias.

[9] Varnhagen attribue esta janela a João de Castilho e affirma ter visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que não tem rasão alguma. Esta loggia, como muito bem lhe chama Murphy, é um bello trecho da renascença italiana, ornamentada com espheras armillares e a cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em excesso o talentoso e mallogrado redactor do antigo Panorama.

[10] Todos estes cortes são reproducções reduzidas dos do livro de Murphy sobre a Batalha, publicado em Londres em 1795. Estão sensivelmente exactos e apesar da sua antiguidade são os unicos que até hoje se fizeram do nosso primeiro monumento ogival!

[11] Principaes dimensões da Egreja da Batalha:

Metros
{ Comprimento total com a capella-mór 81,18
Corpo da egreja { Largura das tres naves 21,97
{ Altura 27,73
{ Comprimento 36,12
Transepto { Largura 9,48
{ Altura 27,73
{ Comprimento 15,11
Capella-mór { Largura 8,10
{ Altura 26,90
{ Comprimento 56,59
Nave Central { Largura 9,48
{ Altura 27,73
{ Comprimento 56,59
Naves Lateraes { Largura 6,24
Duas eguaes { Altura 19,40
{ Comprimento 11,95
Absides lateraes { Largura 5,63
Quatro eguaes { Altura 12,80

Todas as medições se referem á face interior das paredes e aos eixos das arcadas.

[12] A gravura d'esta fachada é reproducção da que apresenta Murphy no citado livro, mas devidamente emendada, porque o original inglez tem erros importantes. A da porta lateral é egualmente de Murphy. Adoptamol-as, porque para a descripção offerecem mais nitidez de que as photographias, visto que as fachadas do monumento não foram tambem ainda rigorosamente desenhadas. As restantes gravuras são reducções de algumas da obra sobre a Batalha, do Sr. Visconde de Condeixa.

[13] Citaremos um facto curioso. Os artistas da Exposição Universal de 1900, pretendendo fugir a estas leis fundamentaes, representaram a cidade de París por uma estatua vestida no estylo moderno. O bom senso popular deu-lhe o nome: fizeram uma cocotte.

[14] Este corucheo, que indubitavelmente faria parte do projecto primitivo, para nós, pelos vestigios que encontramos nos traços da capella, não padece duvida haver existido.

Além d'isso, Murphy desenhou-o e com tal minuciosidade, que o restaurador actual terá apenas o trabalho do córte e assentamento das pedras, não sendo importante a despeza.