INDICE DOS CAPITULOS
| Pags. | |
| Prefacio | 9 |
| Algumas Figuras | 27 |
| Pó da Estrada | 93 |
| A Sociedade Elegante | 267 |
| O Mundo Politico | 289 |
INDICE DAS GRAVURAS
| Pags. | |
| Columbano, Auto—retrato | 33 |
| Fialho d'Almeida | 49 |
| D. João da Camara | 57 |
| Eça de Queiroz | 65 |
| Antonio Nobre no caixão | 81 |
| Correia d'Oliveira | 89 |
| Fernandes Thomaz, no seu gabinete | 97 |
| Guerra Junqueiro | 113 |
| José Luciano encerra o Parlamento | 129 |
| Celso Herminio | 145 |
| Gomes Leal | 161 |
| D. Carlos I de Portugal | 177 |
| Oliveira Martins | 193 |
| Papelinhos sobre o regicidio | 206 |
| Dantas Baracho | 225 |
| José Maria d'Alpoim | 241 |
| Teixeira de Sousa | 257 |
acabou de se imprimir
na tipografia da «renascença portuguesa»
rua dos mártires da liberdade, 178,
aos 21 de janeiro de 1919.
porto
na tipografia da «renascença portuguesa»
rua dos mártires da liberdade, 178,
aos 21 de janeiro de 1919.
porto
Notas:
[1] Estas Memorias devem formar quatro volumes:—2.º vol.—Os bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro por dentro; 3.º vol.—A Republica. O comercio e a finança. Jornaes e jornalistas; 4.º vol.—A Republica e os seus homens. Vida militar.
[2] Republica, 23 de Fevereiro de 1915.
[3] «Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe que se lembre da recepção de Afonso XII em Paris, e que ponha Sua Magestade a coberto de qualquer manifestação que possa porventura nascer, da atitude da Rainha. Limem-se as dificuldades, empreguem-se todos os esforços, nossos e alheios; lancemos mão da nossa situação privilegiada com a Inglaterra; ponhamos todos os elementos disponiveis em acção, para que o céo serene. Por exemplo: que está fazendo o sr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres».
[4] Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao Navarro, que é absolutamente falso que elle se oponha a que o nomeiem par do reino. Seriam os politicos capazes de armar a intriga?...
[5] Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, do qual extracto os seguintes periodos:
«No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se traduzia por uma profunda afabilidade na vida intima e por uma indulgencia estranha no julgamento dos homens. Jámais acreditou em malevolas intenções e nunca da sua bocca saiu uma insinuação maliciosa. Confiava sempre na bondade dos outros, não hesitando, nos momentos de agitação popular, em atravessar serenamente as ruas da capital revoltada, como sucedeu em 5 de outubro e 14 de maio. E quando a familia, naturalmente receiosa, lhe solicitava para não sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: «a mim ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem».
«As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava trabalhos de jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava as mais belas obras de literatura. Dotado de uma memoria privilegiada, sabia de cór longos trechos de versos, e até nos ultimos horriveis momentos da sua existencia, arquejando no leito de dôr, ora recomendava pontos importantes dos processos que trazia entre mãos, ora citava frases de grandes poetas e filosofos referentes á hora suprema que rapidamente se aproximava. E quando a noite cahia, tudo envolvendo no seu manto de tristeza, era com uma anciedade estranha que esperava, na longa vigilia dolorosa, a chegada do sol radiante. E foi com uma precisão rara que previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias e tudo estará acabado. E, de facto, assim sucedeu!
«Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos tempos antes de morrer, apesar da sua avançada idade de 75 anos, vergado sobre obras da especialidade e, nas horas silenciosas das serenas noites de verão, passeando na sua quinta dos Covas, ou encostado ás amplas janelas da sua biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as constelações e descobria entre os inumeros astros que recamavam o firmamento, aquelles que os seus auctores haviam indicado.»
[6] «Effectivamente, segundo nos informam... o homem das barbas e da carabina não sahiu debaixo da Arcada (sic) do Ministerio do Reino, visto, que com outro individuo se encontravam juntos da aludida arvore.»—Para quê?... por José Nunes.
[7] Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro poder arrancar, bater nos cavalos, por ordem da condessa de Figueiró, e aquilo seguir, com os mortos e a rainha louca de dôr:—Mortos! mortos! e ninguem para os salvar!—N'um gesto maternal debruçara-se cobrindo o filho com o proprio corpo.
—Quem matou o rei... «O grupo foi em parte organisado durante o dia 31 e ás 3 horas da madrugada do dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos arredores de Lisboa decidiu-se que só fossem cinco os individuos a executar o plano do Boulevard Poissonière.»—Para Quê? por José Nunes.
...«Se na tarde do 1.º de fevereiro de 1908 não se désse mais que o primeiro tiro que se deu, e esse foi de carabina, ficariam vivas todas as pessoas reaes, excepto o rei. Não obstante o tiroteio ter-se desenvolvido momentaneamente, assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem, foi então que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, alguns d'elles mortaes».—Para Quê? por José Nunes.
...—Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buiça e o Costa teriam cumplices?
E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma:
—Tinham varios amigos...?—E hesita.—O que lhe posso garantir, é que o Buiça não foi o heroe principal; quem preparou tudo foi o Alfredo Costa na «Loja Obreiros do Trabalho». O Costa tinha uma grande influencia sobre varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio de ser desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz da Costa foi assassinado por mão occulta, quando vinha, preso e vivo, para o posto da Camara Municipal. Note que as suas ultimas palavras foram estas.—Ai minha mãe, que me trahiram!—E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia, não pôde vêr quem lhe descarregára a arma, matando-o... No meu modo de vêr, os novelleiros encartados, dizem coisas sobre coisas, sem conhecerem o fio á meada, e é exactamente o que tem prejudicado tudo e todos.»
Revelações sobre o regicidio—Entrevista com o sr. Rodrigues Larangeira publicada no Imparcial de 1 de julho de 1910.
[8] Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho de 1892 a 12 de Novembro de 1910, recebera o seguinte:
| 1892-1893 | 10.833$890 | |
| 1893-1894 | 12.841$593 | |
| 1894-1895 | 16.699$006 | |
| 1895-1896 (10 de Junho a 30 de Setembro) | 2.163$750 | |
| 1896-1898 | 17.264$456 | |
| 1896-1897 (26 de Abril a 26 de Julho) | 2.441$625 | |
| 1898-1899 | 15.618$168 | |
| 1899-1900 | 15.835$443 | |
| 1900-1901 | 12.976$500 | |
| 1901-1902 | 14.211$412 | |
| 1902-1903 | 21.807$881 | |
| 1903-1904 | 15.963$505 | |
| 1904-1905 | 35.481$112 | |
|
|
||
| A transportar | 194.138$341 | |
| Transporte | 194.138$341 | |
| 1905-1906 | 21.437$118 | |
| 1906-1907 | 25.749$787 | |
| 1907-1908 | 20.447$868 | |
| 1908-1909 | 11.802$562 | |
| 1909-1910 | 12.487$687 | |
| 1910-1911 (de 16 de Julho a 12 de Novembro) | 3.515$680 | |
|
|
||
| 289.679$044 |
Recebeu mais:
| Pela rubrica de adeantamentos | 5.743$815 | |
| Pela rubrica de suprimentos | 226$035 | |
| Pela rubrica de adeantamentos | 450$000 | |
| Pela rubrica da visita aos Reis d'Inglaterra, 1904-1905. | 21.042$935 | |
|
|
||
| Total—Reis | 317.041$828 |
—As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 réis por anno. Vê-se como eram excedidas!
—Segundo o oficio do ex-ministro Vilaça para o ministro da fazenda, pedindo mais dinheiro para Soveral, este, no almoço e ornamentação da legação, na visita do rei Carlos, consumira mais o seguinte:
| Almoço, libras | 325 — | 12 | — 0 |
| Vinho, libras. | 49 — | 6 | — 6 |
| Decorações, libras | 1.760 — | 1 | — 0 |
|
|
|||
| Total, libras. | 2.134 — | 19 | — 6 |
—Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da thesouraria, Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita do rei Carlos, Soveral recebera mais:
| Em 30 de Novembro de 1904, libras | 1.500 | |
| Em 10 de Dezembro do mesmo anno, libras | 1.000 | |
|
|
||
| Total, libras. | 2.500 |
Todas estas quantias, em libras, ou em réis, foram calculadas ao cambio par. Como n'aquellas épocas houve subido agio sobre o ouro, e calculando esse agio n'uma media de 15%, vê-se que notavel aumento ha nas despezas descritas!
Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas extraordinarias no anno economico de 1909-1910, sem qualquer justificação, réis 1.934$855; e pela verba destinada á viagem a Londres do rei D. Manuel, réis 4.468$900.
Na liquidação e pagamento dos direitos de mercê, emolumentos e sellos, houve enorme trapalhada durante muitos annos, d'onde resultou Soveral esquivar-se ao cumprimento das leis fiscaes.
Deve os direitos de mercê e emolumentos e sello pelo titulo de Conselho, pelo titulo de Marquez, pelo cargo de secretario da legação em Londres, pelo cargo de ministro em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada, etc.
Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a habilidade de em 17 mezes, só á sua parte, consumir em despezas reservadas, réis 37.757$515, sem deixar no ministerio qualquer documento, explicando ou justificando o emprego de qualquer verba!—Intransigente, de 31 de Março de 1911.
[9] «Escrevem-nos de Braga:
Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel Coelho dos Santos, penhorista, são pessoas de bem e residem em Espinho.
Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa curar uma molestia hospedando-se em casa de seu irmão Frederico, negociante, chefe graduado do alpoinismo. D'ali escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha negocios, quando na capital começou a agitação para derrubar o Franco, dando em cada carta uma noticia politica, que o Coelho lia em toda a parte onde se lia politica. Na quarta-feira ou quinta da semana do regicidio, essa noticia era d'este theor: Disseram hoje a Frederico, no escriptorio forense... que João Franco seria assassinado em 24 horas. Quando chegou a Espinho a carta que continha esta noticia, tinham passado as taes 24 horas, por isso o valor da noticia estava prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e na quarta-feira seguinte a carta habitual dava esta noticia:
Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela prisão dos chefes, reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes d'acção, e resolveram a morte da familia real. Propoz-se que os executores fossem tirados á sorte, mas o professor Buiça protestou, oferecendo-se voluntariamente, sendo o seu alvitre secundado por muitos que se promptificaram a auxilial-o.
Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos Henriques logo depois da formação do gabinete Amaral. Foram em carta anonyma, mas acompanhados d'um grande numero de testemunhas que viram e leram as taes noticias, figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, d'Elvas, que na ocasião residia em Espinho e dava a semelhantes noticias um grande valor para a investigação.
Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira e chamou o outro da Meda, fez de conta que nada era com elle. N'esta pista ninguem mexeu.»
*
«A reunião, afirma-se, teve logar na Costa do Castello. Tomaram parte n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana e de todas as quadrilhas monarchicas»...[9a]
[9a]
Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de
lêr e
consultar a colecção d'O Povo
d'Aveiro. É indispensavel. Essa voz
tremenda
e colérica préga, ha annos, sem um
desfalecimento, meia duzia de
verdades essenciaes ao paiz. Além d'isso Homem Christo
é o maior jornalista
portuguez e um pamphletario que só tem outro na nossa
literatura
que se lhe compare—José Agostinho de Macedo.
[10] Essa extraordinaria sessão, em que o parlamento parecia estar no banco dos réus e o Afonso Costa, theatral, surgia como um acusador triumphante!... O ministerio tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia do que se ia tratar: esperava-se peor, muito peor... A impressão real, patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas á vista, acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? Quando leu os documentos houve uma impressão de alivio, quasi a exclamação:—Era só aquillo?...—E quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa que acusava—ninguem soube aproveitar o momento, o erro, a oportunidade... Ninguem se quiz comprometer... A defeza feita pelo Paçô foi fragil, risonha, quasi «pedindo desculpa»...
[11] Folheto de 10 paginas, com este titulo: Os Barbadões, resumo historico por D. Sebastião de Vasconcellos, Bispo de Beja, Par do Reino e Comendador da Nobilissima Ordem de N. S. da Conceição de Villa Viçosa. Propriedade da Empreza Editora do Jornal «Portugal» Limitada.
[12] Carta publicada n'O Norte de 1 de Setembro de 1918 pelo snr. Bourbon e Menezes:
Meu Senhor:
Tenho a honra de communicar a V.
Magestade que,
nos termos assentados, escrevi ao seu encarregado de negocios
em Berlim para fazer-lhe saber a conveniencia q.
haveria em retro-trahir
(sic) a data da visita de
V. Magestade
para 20 de novembro e nesta orientação lhe expuz,
para levar ao conhecimento do Ministerio dos Negocios
Estrangeiros allemão, os argumentos e razões que
me pareceram
apropriados ao fim que se pretende. Julgo q. isto
merecerá a aprovação de V. Magestade.
Quanto ao assunto da nossa conversação no Paço das Necessidades, entendi hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns informes que é natural que V. Magestade já conheça pelo conde de Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relações politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum—a invasão da onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho. Fiz-lhe notar que esta idea era apenas pessoal e minha, que sobre ella não tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as duas nações por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo auxilio, no caso de irrompessem(sic) movimentos revolucionarios que puzessem lá e cá em risco a segurança das instituições.
Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a vantagem e lhe parecia que seria grato ao coração de S. Magestade o Rei D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente das estipulações da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr n'este pé a questão porq. tinha opurtunidade (sic) e corresponde a uma necessidade que não é só nossa mas tambem d'elles. O ministro comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha, a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe sentir que seria bom pôr só a questão em principio e quanto á extensão e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o governo conhecessem o assumpto. Não quiz ir mais longe para me não envolver em dissertações sobre acordos economicos que me parecem pouco convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece que diviria (sic) fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto ás outras nações, carece de opurtunidade (sic) e entrados na via de explicações correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista.
O que se me affigura necessario e conveniente é ligar os dois paizes n'uma deffeza (sic) commum, visto que as vantagens e riscos são communs e não julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais quanto as suas informações se referem a um movimento revolucionario nos dois paizes, com dinheiro vindo de França.
Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovação de V. Magestade, pois que outro não é o meu desejo se não de corresponder á sua confiança com a pratica de actos meus que sejam acertados.
Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era à l'insu do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada, lhe não faltaria com essa confidencia.
Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia ás sucessivas perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano.
Forse che si: forse che nó.
Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o devido respeito, as ordens que se dignar dar ao
Quanto ao assunto da nossa conversação no Paço das Necessidades, entendi hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns informes que é natural que V. Magestade já conheça pelo conde de Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relações politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum—a invasão da onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho. Fiz-lhe notar que esta idea era apenas pessoal e minha, que sobre ella não tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as duas nações por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo auxilio, no caso de irrompessem(sic) movimentos revolucionarios que puzessem lá e cá em risco a segurança das instituições.
Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a vantagem e lhe parecia que seria grato ao coração de S. Magestade o Rei D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente das estipulações da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr n'este pé a questão porq. tinha opurtunidade (sic) e corresponde a uma necessidade que não é só nossa mas tambem d'elles. O ministro comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha, a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe sentir que seria bom pôr só a questão em principio e quanto á extensão e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o governo conhecessem o assumpto. Não quiz ir mais longe para me não envolver em dissertações sobre acordos economicos que me parecem pouco convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece que diviria (sic) fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto ás outras nações, carece de opurtunidade (sic) e entrados na via de explicações correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista.
O que se me affigura necessario e conveniente é ligar os dois paizes n'uma deffeza (sic) commum, visto que as vantagens e riscos são communs e não julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais quanto as suas informações se referem a um movimento revolucionario nos dois paizes, com dinheiro vindo de França.
Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovação de V. Magestade, pois que outro não é o meu desejo se não de corresponder á sua confiança com a pratica de actos meus que sejam acertados.
Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era à l'insu do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada, lhe não faltaria com essa confidencia.
Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia ás sucessivas perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano.
Forse che si: forse che nó.
Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o devido respeito, as ordens que se dignar dar ao
seu ministro
e subdito obediente
Lisboa, 19-7-910.
(a) José
d'Azevedo Castello
Branco.
[13]
PREÇO DA VIDA
| Pão—kilo | 90 |
| Carne de segunda qualidade | 300 |
| Carne limpa | 600 |
| Vitella | 800 |
| Carne de porco | 480 |
| Toucinho | 320 |
| Banha | 320 |
| Assucar pilé | 240 |
| Bacalhau | 200 |
| Massas | 150 |
| Manteiga | 800 |
| Ovos—duzia | 250 |
| Feijão branco—litro | 70 |
| Petroleo | 90 |
| Leite | 100 |
| Feijão frade | 50 |
| Feijão da ilha (manteiga) | 100 |
| Azeite | 400 |
| Carvão—arroba | 300 |
| Uma pescada | 500 |
| Um vestido de senhora | 30$000 |
| Um fato de homem | 20$000 |
| Um par de botas | 4$000 |
| Média do aluguer d'um andar, por semestre (casa para uma familia da mediania) | 120$000 |
[14] Foi oficial na marinha ingleza, condecorado na campanha do Baltico com a medalha militar, e um excelente administrador. Diz-se que graças a elle é que a casa da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que chegára á data do casamento. Por isso talvez é que passou por um apagado guarda livros...
[15] Do Correio Nacional, na sua secção Ecos:
O sr. Hintze Ribeiro é d'uma
grande generosidade
para com a sua familia.
Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada sob informes do Diario do Governo:
Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de 24 annos de edade, casado com uma cunhada do sr. Hintze.
Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr. Hintze.
O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi graduado em inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de 1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral.
O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze, foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi.
O sr. Manuel Rebello Borges, 2.º oficial da alfandega de S. Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto seiscentos e vinte mil reis.
É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze não seja mais numerosa.
Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar tantos encargos...
Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada sob informes do Diario do Governo:
Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de 24 annos de edade, casado com uma cunhada do sr. Hintze.
Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr. Hintze.
O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi graduado em inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de 1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral.
O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze, foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi.
O sr. Manuel Rebello Borges, 2.º oficial da alfandega de S. Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto seiscentos e vinte mil reis.
É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze não seja mais numerosa.
Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar tantos encargos...
[16] De passagem apontemos a figura de Norton de Matos, o maior ministro da guerra contemporaneo, organizador capaz d'um trabalho de ferro, que só os technicos serão capazes de avaliar em toda a sua extensão.
[17] Todas as palavras entre comas são dos Documentos politicos.
[18] Introduziu a ordem no Paço.—Até o preço do peixe quer saber!—dizia-se cá fóra com indignação. Quando do 5 d'outubro todos os creados diziam bem do rei—todos diziam mal da rainha. O pequeno quadro que segue explica talvez muita coisa:
«Havia familias das proximidades do Paço que se alumiavam só com as vellas do palacio real, compradas por vil preço. As contrabandistas andavam pelas casas dos seus freguezes oferecendo roupas, desde os vestidos da rainha e dos fatos do rei até ás roupas brancas, meias de seda e sapatos de setim com a corôa real, para não oferecer duvidas acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento de sciencia certa, por vivermos n'esse tempo perto do Paço e nos terem vindo oferecer por mais de uma vez os espojos do saque, que não aceitamos por varias razões, sendo uma d'ellas a falta de vocação para receptadores de roubos. A vocação nasce com a pessoa. Da ucharia do Paço banqueteavam-se os parentes dos empregados e cremos que até os amigos.
A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei D. Luiz caçar á Tapada e tendo morto tres coelhos, ao chegar ao Paço lembrou-se de os mostrar á rainha.
Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, porque os dois restantes tinham desaparecido durante o breve precurso da Tapada até á Ajuda.
Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um ataque epileptico que os obrigava a saltar das caixas sem que se soubesse para onde tinham desertado. Chegou o descaramento a ponto de não deixarem um charuto para o rei fumar».
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| #pág. 91 | iuutil | ... | inutil |
| #pág. 263 | esqueeeu | ... | esqueceu |
| #pág. 291 | eomer | ... | comer |
Identificou-se
a não existência nos dois originais de uma figura
que se encontraria entre as páginas 206
e 207. Presume-se que por
não se encontrar em ambas as obras da mesma
edição, que se trata de um erro de
impressão que afectou esta edição em
particular.
Foram efectuadas correcções na numeração das páginas no indíce de forma a coincidir com a localização correcta no livro.
As figuras no original encontram-se entre páginas.
Foram efectuadas correcções na numeração das páginas no indíce de forma a coincidir com a localização correcta no livro.
As figuras no original encontram-se entre páginas.